



A VENTURA DE AMAR
DANIELLE STEEL




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Traduo de DENISE ROLLEMBERG

2 EDIO

EDITORA RECORD
Titulo original norte-americano LOVING

Copyright (c) 1988, 1980 by Danielle Steel Todos os direitos reservados inclusive os direitos de reproduo total ou parcial sob qualquer forma

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que se reserva a propriedade literria desta traduo
Impresso no Brasil

ISBN 85-1-029355-4

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PARA BEATRIX

       Que voc seja sempre orgulhosa de ser voc mesma,
       porque acontece que voc
        a menina mais maravilhosa que eu conheo.

       Com todo o meu amor, mame.

Sempre esperanoso,
       cheio de sonhos brilhantes,
       novssimos, auspiciosos, em tons pastis
       e azuis de anil,
       primeira luz do amor
       em seus olhos logo a obscurecer
       e ento voc foge, me deixando sozinha comigo,
       as coisas que temo
       as coisas que voc disse
       rios incandescentes em minha cabea,
       privado de tudo que dividimos,
       minha alma to velha,
       to jovem, to nua,
       com medo de voc, de mim,
       da vida, dos homens...
       at que os novos sonhos comecem novamente.
       A paisagem, nunca mais a mesma,
       eventualmente um jogo diferente,
       ltima sabedora do que conheo e penso
       e sou
       e sinto,
       o prmio do amor que,
       finalmente,  real.
       
       DANIELLE STEEL
       
- Real no  como  feito - disse o Cavalo de Pano. -  uma coisa que acontece com voc. Quando uma criana te ama por muito, muito tempo, no s para brincar, mas 
realmente te ama, a voc se torna real.
       - E isso di? - perguntou o coelho.
       - s vezes - disse o Cavalo de Pano, porque ele era sempre sincero. - Quando voc  real, no se importa em ser magoado.
       - E acontece de uma s vez como se fosse pego num redemoinho, ou acontece aos poucos?
       - No  de uma s vez - disse o Cavalo de Pano. - Voc se torna. Demora muito tempo.  por isso que no acontece com freqncia para aqueles que se quebram 
com facilidade ou tm extremidades pontiagudas, ou tm que ser guardados com muito cuidado. Geralmente, quando se torna real, a maioria de seu cabelo se solta, e 
seus olhos caem e suas juntas ficam fracas e voc est muito surrado. Mas estas coisas no tm importncia nenhuma porque, uma vez que voc  real, no pode ser 
feio, a no ser para as pessoas que no entendem... mas, uma vez que voc  real, no pode mais ser irreal. Dura para sempre.
       
       De "O Coelho de Pelcia" por Margery Williams
       
1
       
       Bettina Daniels entrou em seu banheiro de mrmore rosa, deu um sorriso e suspirou. Tinha exatamente meia hora. At que era bastante tempo. Geralmente dispunha 
de menos tempo para a transformao de garota, estudante e uma mortal comum para a ave-do-paraso, a anfitri perfeita. Esta era uma metamorfose que ela estava bastante 
acostumada a fazer. H quinze anos era o brao direito de seu pai. Ia com ele para todos os lugares, respondia s perguntas dos reprteres, anotava recados de suas 
namoradas e lhe dava apoio, ficando nos bastidores dos programas de entrevista onde ele promovia seu livro. Ele nem precisava se esforar para fazer a promoo. 
       Seus sete ltimos livros dispararam, assim que lanados, na lista dos mais vendidos do The New York Times, mas mesmo assim, a promoo devia ser feita. E 
ele adorava os aplausos, que alimentavam seu ego, e as mulheres que o achavam irresistvel, confundindo-o com heris de seus livros.
       Era fcil confundir Justin Daniels com os heris de seus livros. De certa forma, a prpria Bettina vinha fazendo isso h anos. Era to vibrante e inegavelmente 
charmoso, to esperto e engraado, alm de excelente companhia. s vezes era difcil lembrar quo rude, egosta e desumano ele podia ser. Bettina conhecia os dois 
lados deste homem, e o amava assim mesmo.
       Justin era seu heri, seu companheiro e seu melhor amigo. Bettina conhecia todas as suas falhas e fraquezas, seus pecados e seus medos, mas tambm conhecia 
a beleza deste homem, seu brilhantismo, sua alma gentil e o amava com todas as suas foras, sabendo que sempre o amaria. Ele falhara com ela e a machucara, esquecera 
de ir  escola em quase todos os momentos importantes, nunca aparecera para um campeonato ou uma pea de teatro. Ele lhe garantira que as pessoas jovens eram chatas 
e a arrastara para junto de seus amigos. Ele a magoara por muitos anos, principalmente por perseguir seus prprios sonhos excitantes. Nunca lhe ocorrera que ela 
tinha direito a uma infncia, a piqueniques e praias, festas de aniversrio e tardes no parque. Seus piqueniques eram no Ritz ou no Plaza-Athene, em Paris. Suas 
praias eram South Hampton e Deauville, seu aniversrio era comemorado com os amigos do pai no Clube 21, em Nova York, ou no Bistro, em Beverly Hills. Em lugar de 
tardes no parque, ele insistia em lev-la aos constantes cruzeiros de navio para os quais era convidado. A vida de Bettina no merecia pena, mas os amigos mais chegados 
de Justin sempre o repreendiam pela maneira como ele a educava e pelas coisas de que ele a privava, lembrando como devia ser solitrio andar grudada a um pai solteiro, 
eternamente  espreita de alguma coisa. Era impressionante como ela ainda conseguia manter um ar jovial aos dezenove anos, ainda inocente, com seus enormes olhos 
verde-esmeralda, que tambm refletiam a sabedoria da idade. No pelo que a menina tivesse feito, mas pelo que vira. Naquela idade, ainda era uma criana, mas vira 
a opulncia e a queda numa vida que poucos homens e mulheres com o dobro de sua idade teriam visto.
       Sua me morrera de leucemia logo depois de seu quarto aniversrio. Ela no era mais do que um rosto no porta-retrato da sala, com um grande sorriso, belos 
olhos azuis e cabelos louros. Havia pouco de Tatianna Daniels em sua filha. Bettina no se parecia com Justin nem com Tatianna. Justin passou para a filha a vasta 
cabeleira escura e alguma semelhana nos olhos verdes. Os cabelos de Bettina eram castanho-avermelhados como um bom conhaque. O grande corpo de Justin contrastava 
com a figura delicada da filha, pequena, quase infantil em suas suaves propores, que ajudavam a lhe dar um ar de fragilidade, principalmente quando prendia os 
cachos cor de conhaque no alto da cabea, como fazia agora, olhando mais uma vez o relgio.
       Bettina fez um rpido clculo. Vinte minutos. Daria tempo. Rapidamente afundou na gua quente da banheira, tentando relaxar um pouco enquanto olhava a neve 
caindo l fora. Era novembro, e a primeira vez que nevava naquele inverno.
       Era tambm a primeira festa que ofereciam naquela temporada, por isso tinha que ser um sucesso. E cuidaria para que fosse. Deu uma passada na lista de convidados, 
que sabia de cor, pensando se a neve atrapalharia a chegada de algum. Mas no acreditava nisso. As festas de seu pai eram muito concorridas, e seu convite ansiosamente 
aguardado; ningum se arriscaria a no ser convidado para a prxima. Festas eram uma parte essencial na vida de Justin Daniels. Enquanto no estava trabalhando em 
nenhum livro, aconteciam toda semana e eram sempre um grande evento, fosse pelas pessoas que compareciam, as roupas que vestiam ou pelos incidentes e negcios realizados. 
Acima de tudo, eram mpares. Uma noite com os Daniels, era como uma visita a uma cerra de sonhos.
       O ambiente luxuoso refletia o esplendor do sculo XVII. Enquanto mordomos serviam e os msicos tocavam, Bettina, como anfitri, circulava magicamente entre 
os grupos, sempre parecendo estar onde era necessria. Era uma criatura indefinvel. Bonita, persistente e rara. Justin era o nico que no compreendia o quo notvel 
ela era, imaginando que as jovens deveriam ser naturalmente graciosas como Bettina. Sua maneira descuidada de ver a filha h muito tempo irritava seu amigo mais 
chegado.
       No Stewart adorava Justin Daniels, mas brigava com ele por no perceber o que acontecia com a moa, como ela o idolatrava, e o quanto significava para ela 
a ateno e os elogios do pai. Ante os comentrios freqentes de Ivo, Justin ria, balanava a cabea e gesticulava a mo, cuidadosamente tratada, para o amigo.
       - No seja ridculo.Ela adora o que faz por mim. Dando festas, me acompanhando a shows, encontrando pessoas interessantes. Ela ficaria sem jeito se eu cismasse 
em lhe dizer o quanto aprecio o que faz. Ela sabe. E quem no saberia? Ela faz um trabalho maravilhoso.
       - Ento diga a ela. Puxa vida, homem, ela  sua secretria, governanta, garota-propaganda! Faz tudo o que uma esposa faria, at mais.
       - E melhor! - acrescentou Justin sorrindo.
       - Falo srio. - No parecia irritado.
       - Eu sei que voc fala srio. Voc se preocupa demais com ela. O que No no ousava dizer era que se ele no se preocupasse com Bettina, ningum mais o faria.
       Justin possua um ar brincalho, contrastando com o jeito srio com que No encarava o mundo. Editor de um dos maiores jornais do mundo, o New York Mail, mais 
velho que Justin, no era mais um jovem. Perdera uma mulher, divorciara-se de outra e intencionalmente nunca teve filhos. Achava injusto trazer crianas a este mundo 
to complicado. Aos 62 anos, no se arrependia desta deciso... a no ser quando via Bettina. Nestes momentos, alguma coisa parecia mexer com seu corao. Pensava 
se afinal no cometera um erro. Mas isso no importava mais. Era muito tarde para se pensar em crianas, e ele estava feliz. E, de seu prprio jeito, to livre quanto 
Justin.
       Juntos, os dois amigos iam a festas, concertos e peras. Passavam alguns fins de semana em Londres, encontravam-se no sul da Frana por algumas semanas em 
julho e possuam diversos amigos ilustres. Era uma amizade slida que perdoava todas as falhas e permitia crticas assim como elogios, e por isso No falava to abertamente 
sobre o comportamento de Justin com a filha. Haviam discutido o assunto recentemente no restaurante La Cte Basque.
       - Se eu estivesse no lugar dela, eu o abandonaria - No censurava Justin. - O que voc lhe oferece?
       - Empregados, conforto, viagens, pessoas fascinantes, um guarda-roupa de vinte mil dlares...
       Ele ia continuar, quando No o interrompeu:
       - E da? Voc acha que ela liga para isso? Pelo amor de Deus, olhe sua filha. Ela  linda, mas a maior parte do tempo vive num outro mundo sonhando, pensando, 
escrevendo. Voc acha mesmo que ela liga para este exibicionismo idiota que  to importante para voc?
       - Claro que sim. Foi isto que teve a vida toda.
       A infncia de Bettina fora completamente diferente da que Justin tivera, crescendo pobre e enriquecendo rapidamente com seus livros e filmes. Tiveram bons, 
maus momentos e alguns muito difceis, mas ao longo dos anos as despesas de Justin s seguiam em uma direo: para cima. Era vital para ele a opulncia. Reafirmava 
a si mesmo quem era. Ainda discutiam o assunto enquanto Justin terminava o cafezinho aps o almoo.
       - Sem tudo que lhe dou, ela no sobreviveria nem uma semana. - No tenho tanta certeza. - No tinha mais confiana nela do que o pai. Um dia ela seria realmente 
uma grande mulher, e sorria sempre que pensava nisso.
       
2
       
       Secando rapidamente o corpo com uma grande toalha rosa contendo seu monograma, Bettina se apressava. J tinha separado a roupa: um vestido justo de seda em 
um suave tom lils que caa dos ombros at o tornozelo acompanhando suas formas. Vestiu com presteza as rendas e sedas adequadas, colocou o vestido e calou cuidadosamente 
as sandlias lilases de salto baixo dourado. Por ele mesmo, o vestido j era lindo. Ela o admirava mais uma vez enquanto ajeitava os cabelos pela ltima vez, observando 
bem se o tom de seus olhos era o mesmo do vestido. Colocou um cordo de ametistas no pescoo e outro no pulso esquerdo, enquanto pequenos diamantes brilhavam em 
suas orelhas. Depois, cuidadosamente, retirou do cabide a tnica de veludo verde-escuro e colocou por cima da seda lils. A tnica era debruada com a mesma cor estonteante 
do vestido. Estava to harmoniosa como uma sinfonia em seu conjunto lils e verde-renascena. Era uma roupa divina, que o pai trouxera de Paris no inverno anterior. 
       Ela vestia com a mesma natural simplicidade com que usaria um par de jeans desbotados. Aps prestar ao vestido as devidas homenagens, podia esquecer-se dele, 
pois tinha outras coisas em mente. Deu uma rpida olhada no quarto estilo provenal francs, conferiu se a tela estava em frente  lareira acesa e deu mais uma olhada 
pela janela. Ainda nevava. A primeira neve era sempre a mais bonita. Sorriu e desceu rapidamente.
       Precisava checar a cozinha e ter certeza de que tudo estava no lugar certo para o buffet. A sala de jantar estava uma obra de arte, e ela sorriu com a perfeio 
com que os canaps estavam arrumados em bandejas de prata, como se fossem confetes espalhados para uma festa de fim de ano. Tudo estava em ordem na sala. A moblia 
do estdio fora retirada de acordo com sua ordem e os msicos afinavam seus instrumentos. Os empregados estavam impecavelmente vestidos, o apartamento divino com 
seus ambientes decorados com antiguidades Lus XV, consoles de mrmore, peas de bronze e, distribudas pela casa, maravilhosas peas diante das quais as pessoas 
pasmavam. Os vrios tecidos adamascados tendiam para os tons creme e os veludos caam mais para o caf-com-leite, abric ou pssego. O apartamento inteiro resplandecia 
calor e carinho, mostrando o bom gosto de Bettina em todos os detalhes. Era o seu cuidado que estava sendo to esplendorosamente exibido.
       - Por Deus, querida, voc est linda! Ela virou-se em direo  voz e sorriu. - No  aquele vestidinho que eu trouxe de Paris no ano passado? Justin Daniels 
sorriu para a filha, ela tambm riu. Somente ele chamaria de `vestidinho' este Balenciaga luxuoso que lhe custara uma fortuna.
       - O prprio. Que bom que voc gosta. - E, quase timidamente, acrescentou: 
       - Eu tambm gosto.
       - timo. Os msicos j chegaram? - disse, observando os cmodos da casa.
       - Esto afinando os instrumentos. Acho que vo comear a qualquer momento. Quer tomar um drinque?
       Ele nunca pensava no que ela precisava. Era sempre ela que perguntava.
       - Vou esperar um pouco. Nossa, como estou cansado hoje! Ele se espalhou numa confortvel bergre enquanto Bettina o observava. Podia dizer que tambm estava 
cansada. 
       Levantara s seis horas da manh para cuidar dos detalhes da festa, foi  faculdade s oito e meia e depois correu para casa para tomar banho, vestir-se e 
ver se tudo estava no lugar.
       - Voc est trabalhando no novo livro?
       Ela o olhava com devoo e interesse. Justin fez que sim com a cabea, sorrindo.
       - Voc sempre se preocupa com os livros, no ?
       - Claro que sim. - Ela sorriu afetuosamente.
       - Por qu?
       - Porque me importo com voc.
       - E esta  a nica razo?
       - Claro que no. Os livros so timos e eu os adoro. - Ela levantou-se e sorriu enquanto se abaixava para beijar-lhe a testa. - Mas tambm porque o amo.
       Ele respondeu com um sorriso e um carinho no brao, enquanto ela se afastava ao ouvir o som da campainha.
       - Parece que algum est chegando.
       Estava preocupada. O pai realmente parecia mais cansado do que o normal.
       Em meia hora a casa se encheu de gente rindo, falando, bebendo e se divertindo, tudo junto. Havia muitos metros de vestidos de gala em todos os matizes, rios 
de jias e um verdadeiro exrcito de homens de black-tie com suas camisas brancas fechadas por alfinetes de prolas, nix, pequenas safiras ou diamantes. Havia quase 
cem rostos famosos na multido. Ao lado das celebridades, mais duzentos desconhecidos bebendo champanhe, comendo caviar, danando, admirando Justin Daniels e outros 
nomes que esperavam ver ou talvez at conhecer.
       Bettina passava despercebida, movimentando-se e controlando tudo para que no houvesse problemas, para que todos se conhecessem, tomassem champanhe e fossem 
bem servidos. Ela cuidava para que o copo de scotch de seu pai estivesse sempre cheio e para que, mais tarde, o brandy e os charutos estivessem  mo. Procurava 
se afastar quando ele flertava com alguma mulher, e era rpida em apresentar-lhe um convidado importante que tivesse chegado. Era brilhante no que fazia, e No a 
achava a mulher mais bonita da festa. No era a primeira vez que ele desejava que Bettina fosse sua filha.
       - Vejo que est representando seu papel de sempre, Bettina. Exausta ou apenas pronta para desmaiar?
       - No seja bobo. Eu adoro isto.
       Mas ele podia ver que, no fundo, seus olhos mostravam um pouco de fadiga.
       - Gostaria de mais um drinque?
       - Pare de me tratar como um convidado, Bettina. Posso lhe convidar para sentar um pouco?
       - Talvez mais tarde.
       - No. Agora.
       - Est bem, Ivo, est bem.
       Ela olhou nos profundos olhos azuis daquele rosto gentil que aprendera a amar ao longo dos anos e deixou-se levar para um lugar perto da janela onde olharam 
silenciosos a neve por uns momentos antes que ela o encarasse novamente. A vasta cabeleira branca de No Stewart parecia mais bem penteada do que nunca. Sempre estava 
perfeito. Alto, magro, elegante, aparncia jovial, com seus olhos azuis que sempre pareciam sorrir e as pernas mais compridas que ela jamais vira. Quando pequena, 
ela o chamava de No Comprido. Aos poucos ela revelou uma pequena ruga de preocupao.
       - Voc notou como papai parece cansado hoje?
       - No, mas percebi que voc parece cansada. Algo errado?
       Ela sorriu:
       - Apenas as provas. Por que  que voc repara em tudo?
       - Porque amo vocs dois e s vezes seu pai  um idiota completo, que no repara em nada. Escritores! Voc pode cair morto na frente deles, que eles passam 
por cima murmurando alguma coisa sobre a segunda parte do captulo 15. Seu pai no  diferente disso.
       - No, apenas escreve melhor.
       - Suponho que o esteja desculpando.
       - Ele no precisa de desculpas. - Bettina olhou-o nos olhos e falou-lhe de forma gentil: - Ele  maravilhoso no que faz. "Mesmo que no seja um pai to maravilhoso", 
pensou ela, "ele  um escritor brilhante." Mas estas eram palavras que no ousaria falar em voz alta.
       - Voc  que  maravilhosa.
       - Obrigada, Ivo. Voc sempre diz coisas to gentis. E agora - levantou relutante e ajeitou o vestido - tenho que voltar a ser a anfitri.
       A festa continuou at as quatro da manh. Seu corpo todo doa quando subiu as escadas para o quarto. Seu pai ainda estava no estdio com alguns amigos ntimos, 
mas ela terminara seu trabalho. Os empregados j haviam arrumado a maior parte da baguna, os msicos foram pagos e dispensados, j havia acompanhado os ltimos 
convidados  porta e se despedido enquanto as mulheres se enrolavam em seus visons, esperando que os maridos buscassem as limusines que aguardavam na neve. Ao andar 
calmamente em direo ao quarto, parou por um momento para olhar pela janela. Estava bonito. A cidade parecia pacfica, silenciosa e branca. Entrou no quarto e fechou 
a porta.
       Pendurou o Balenciaga cuidadosamente e vestiu a camisola de cetim rosa antes de escorregar por entre os lenis floridos que uma das empregadas tinha arrumado 
mais cedo. Deitada na cama, pensava em como fora a noite. Tudo correra bem. Sempre fora assim. Suspirou sonolenta pensando em quando seria a prxima festa. Seu pai 
falara na prxima semana ou na outra? Ser que gostou dos msicos desta noite? Esquecera de perguntar. E o caviar... ser que estava de seu agrado... era to bom 
quanto...? 
       Suspirou mais uma vez e caiu no sono com seu jeito frgil e pequenino.
       "Quer se juntar a ns para o almoo hoje? Clube 21, ao meio-dia." Bettina leu o bilhete enquanto terminava o caf e pegava seu grosso casaco vermelho que 
usava para ir  faculdade. Vestia calas de gabardine azul-marinho combinando com o suter de cashmere tambm azul e botas que esperava resistirem  neve. Pegou 
uma caneta e rapidamente rabiscou um bilhete do outro lado do papel.
       "Gostaria de ir mas no d... provas. Divirta-se. Vejo voc  noite. Beijos, B."
       H uma semana que ela lhe falava sobre suas provas, mas no esperava que o pai lembrasse de detalhes sobre sua vida. Ele j estava pensando no seu prximo 
livro e isso era o bastante. E, at hoje, nada sobre sua vida escolar fora importante a ponto de justificar sua ateno. Isto no era difcil de entender. A escola 
no era fascinante para ela tambm. Comparado com a vida que levava com ele, tudo o mais parecia chato.
       Secretamente, ela se sentia aliviada pela vida normal da faculdade, mas de certa forma lhe parecia distante. Sempre se sentia como uma observadora. Nunca 
se misturava aos colegas. Muitos tentavam entender quem era ela. Tornou-se motivo de curiosidade, alvo de olhares e fascinao. Mas Bettina no se sentia digna de 
interesse. 
       No era a escritora. Era apenas a filha.
       Saiu para a aula mentalizando as anotaes que fizera sobre a matria da prova. Fora difcil se sentir desperta com apenas duas horas e meia de sono, mas 
se sairia bem, como sempre. Estava com notas bastante altas, outro motivo para ser discriminada. Nem sabia por que se havia deixado convencer pelo pai de entrar 
na faculdade. 
       Gostaria apenas de achar um cantinho em algum lugar para escrever uma pea de teatro. S isso... Quando o elevador chegou ao trreo, forou um sorriso para 
si mesma. Na verdade, possua um sonho bem maior. Queria escrever uma pea de sucesso, mas isso levaria mais tempo... uns vinte ou trinta anos.
       - Bom dia, dona Bettina.
       Cumprimentou o porteiro, e por um momento ela quase voltou correndo para o edifcio. Era um daqueles dias gelados, quando a primeira aspirada de ar frio parecia 
cortar os pulmes. Rapidamente acenou para um txi e entrou. No era um dia para bancar a herona tomando nibus. Que se dane! Ela preferia ficar aquecida. Afundou 
no assento e releu com ateno as anotaes.
       - Bettina no pde vir?
       No olhou surpreso para Justin enquanto este se acomodava ao seu lado no enorme bar do Clube 21, onde sempre se encontravam.
       - Aparentemente, no. Esqueci de lhe perguntar ontem  noite, e ela deixou um bilhete pela manh. Alguma coisa sobre provas. Espero que seja s isso.
       - O que quer dizer?
       - Quero dizer que espero que ela no esteja envolvida com algum idiota na faculdade.
       Ambos sabiam que at agora no houvera outro homem na vida de Bettina. Justin no lhe dava tempo para isto.
       - E voc espera que ela no se envolva com ningum para o resto da vida? - No olhou-o de forma maliciosa por cima de seu martini.
       - Seria impossvel. Mas espero que ela faa uma escolha inteligente.
       - O que o faz pensar o contrrio? - No observava o amigo com interesse, e podia perceber o olhar cansado que Bettina mencionara na noite anterior.
       - Geralmente as mulheres no fazem escolhas sensatas, Ivo.
       - E ns fazemos? - falou com um jeito divertido. - Voc tem motivos para imaginar que ela encontrou algum?
       Justin Daniels balanou a cabea.
       - No, mas nunca se sabe. Eu odeio estes pequenos bastardos que vo para a faculdade s para comer menininhas.
       - Igual a voc, no ?
       No ria abertamente, enquanto Justin lhe lanava um olhar enfurecido e pedia outro usque.
       - Chega desse assunto. Eu me sinto pssimo hoje.
       - Ressaca? - No no parecia surpreso.
       - Eu no sei. Talvez. Estou com indigesto desde ontem  noite.
       - O motivo  obviamente velhice.
       - Como ele est engraadinho hoje!
       O olhar de Justin deixou claro para No que bastava de brincadeiras, e os dois riram. Apesar das divergncias sobre Bettina, os dois amigos sempre se deram 
bem. Ela era o nico pomo de discrdia entre eles.
       - Mudando de assunto, ser que consigo atra-lo para uma viagem a Londres no prximo fim de semana?
       - Para qu?
       - Como  que eu vou saber? Paquerar, gastar dinheiro, ir ao teatro. O de sempre.
       - Pensei que j estivesse trabalhando no novo livro.
       - Estou, mas estou sem inspirao, e quero me divertir um pouco. 
       - Verei se posso ir. Talvez no tenha notado, mas esto acontecendo diversas pequenas guerras pelo mundo, sem falar nos escndalos polticos. O jornal pode 
precisar de mim por aqui.
       - No vai fazer diferena nenhuma se voc for passar um fim de semana fora. Alm disso, voc  o chefe e pode correr seus prprios riscos.
       - Obrigado..Vou procurar me lembrar disto. Quem vai almoar conosco hoje?
       - Judith Abbott, a teatrloga. Bettina vai ter um ataque quando souber o que perdeu.
       Olhou melancolicamente para No e pediu mais um usque. No no pde deixar de notar um olhar apreensivo em seu rosto.
       Pensou por um momento e depois tocou gentilmente no brao do amigo e sussurrou:
       - Justin... voc est sentindo alguma coisa? Houve um momento de silncio.
       - Eu no sei. Estou sentindo algo estranho de repente... 
       - Quer se sentar?
       Mas j era tarde. Em segundos, ele caia no cho. Duas mulheres gritaram. Seu rosto estava todo contrado como se lutasse contra uma dor insuportvel. No gritava 
ordens freneticamente. Pouco antes da equipe mdica chegar, segurou a mo do amigo e rezou para que no fosse muito tarde. Mas era. A mo de Justin Daniels caiu 
no cho, sem vida, no momento em que No a soltou. A polcia procurava afastar os curiosos enquanto os mdicos tentavam, durante meia hora, salvar a vida de Justin. 
       Foi intil. Justin Daniels estava morto.
       No observava impotente, enquanto bombeavam o corao, davam oxignio, respirao artificial, tudo que podiam. No fazia nenhuma diferena. Finalmente, cobriram-lhe 
o rosto, enquanto lgrimas escorriam pela face de Ivo. Perguntaram se ele queria acompanhar o corpo para o necrotrio do hospital. "Necrotrio? Justin?" Era inacreditvel, 
mas era verdade. E eles foram.
       No sentia-se trmulo e deprimido ao sair do hospital, uma hora depois. Nada mais devia ser feito, a no ser contar para Bettina. Sentia-se enjoado ao pensar 
nisso. 
       "Deus... como falaria para ela? O que aconteceria a ela? Bettina no tinha mais ningum no mundo. Ningum." Bettina possua a lista de convidados mais importante 
de Nova York e conhecia mais celebridades que a colunista social do Times, mas isto era tudo que lhe restava. Fora isso, no sobrava mais nada. Exceto Justin. E 
agora ele se foi.
       
       
3
       
       O relgio sobre a lareira batia ininterruptamente enquanto Ivo, que esperava no estdio, olhava fixo para o parque. J estava anoitecendo e a claridade diminua 
aos poucos. L embaixo, na rua, o trfego furioso se arrastava pela Quinta Avenida. Era hora do rush e a rua estava coberta de neve, bom motivo para um maior atraso 
no horrio de Bettina voltar para casa. Os carros quase no andavam enquanto seus motoristas buzinavam ferozmente. No apartamento dos Daniels, estes barulhos eram 
como um som surdo. No no escutava nada enquanto aguardava pelos passos de Bettina, sua voz, a sua risada, ao chegar da faculdade. No olhava em volta, pela sala, 
observando os trofus e os artefatos arrumados cuidadosamente nas prateleiras da estante, junto com os livros encadernados em couro que Justin tanto amava. Haviam 
comprado muitos deles nos leiles de Londres quando estavam juntos nas viagens ocasionais durante o ano. Igual s que faziam a Paris, Munique e Viena. Foram tantos 
anos, tantos bons momentos que passaram juntos. Fora com Justin que ele havia celebrado, chorado e farreado, por trinta e dois anos de amizade, todos os casos amorosos, 
os divrcios e as vitrias de todas as espcies... Fora a ele que Justin pedira que lhe fizesse companhia na noite em que Bettina nasceu, quando tomaram um porre 
de champanhe, celebrando pela cidade... Justin, que de repente no existia mais. Tudo parecia to irreal. Foi quando No percebeu que era por Justin que ele esperava, 
e no por Bettina... a voz de Justin no longo e vazio hall... sua figura elegante  porta com um sorriso no olhar, pronto para se divertir. Era Justin, e no Bettina, 
a quem No desejava ver enquanto esperava sentado, quieto, na sala revestida de madeira, olhando fixamente para uma xcara de caf que o mordomo lhe trouxera uma 
hora antes. Eles sabiam. Todos j sabiam. No lhes contara ao chegar. Tambm avisara aos advogados e ao agente literrio de Justin. 
       Ningum alm deles. No queria que aparecesse na televiso ou no rdio antes que Bettina soubesse. Os empregados sabiam que no deviam falar nada a ela. Apenas 
deviam lhe mostrar onde No esperava... no silncio, que um dos dois chegasse em casa... se ao menos Justin chegasse, seria tudo mentira ento, e ele no teria que 
contar a ela... no seria necessrio... no seria verdade que... Sentiu as lgrimas escorrerem mais uma vez enquanto passava os dedos pela xcara de Limoges azul 
e dourada.
       Distrado, mexia no guardanapo de renda quando ouviu a porta da frente se abrir.
       Ouviu a voz grossa do mordomo e depois, uma suave. No quase podia v-la sorrindo, tirando o casaco grosso, dizendo alguma coisa ao mordomo que no sorria 
para mais ningum a no ser para a 'senhorita'. Todos sorriam para a 'senhorita'. A no ser Ivo. Ele no podia sorrir esta tarde. Levantou-se e caminhou devagar 
para a porta sentindo o corao disparado enquanto esperava por ela. " Deus! O que vou lhe dizer?"
       - Ivo? - Bettina parecia surpresa ao se aproximar dele. Disseram a ela que No a esperava no estdio. - Aconteceu alguma coisa?
       Seu olhar demonstrou instantnea compaixo e ela estendeu as mos para Ivo. Era muito cedo para ele estar fora do escritrio. Raramente deixava sua mesa antes 
das sete ou oito horas. Isso era um problema algumas vezes, quando o convidavam para jantar. Mas era uma falha facilmente perdovel. O editor do New York Mail tinha 
o direito de deixar pessoas esperando, e mesmo assim era perseguido por todas as anfitris da cidade.
       - Voc parece cansado! - Olhou para No com jeito repreensivo e segurou-lhe a mo para sentarem-se. - Papai no est em casa? Ele balanou a cabea e seus 
olhos se encheram de lgrimas quando Bettina beijou-lhe o rosto.
       - No, Bettina... - E acrescentou, odiando a si mesmo. - Ainda no.
       - Voc gostaria de beber alguma coisa alm desse caf horrvel? Seu sorriso era to gentil e suave que lhe cortou o corao ver que seus olhos captavam cada 
detalhe. 
       Se preocupava com ele e isso o fez sorrir. Parecia to jovem, graciosa e inocente, que ele desejava qualquer coisa menos contar a verdade. Seus cabelos estavam 
arrumados numa aurola de cachos por cima da cabea. Seus olhos eram brilhantes, o rosto rosado pelo frio e ela parecia menor do que nunca, mas o sorriso se apagou 
ao olhar para Ivo. De repente, sabia que algo de grave acontecera. - Ivo, o que est acontecendo? Voc quase no disse nada desde que eu cheguei.
       Os olhos de Bettina no paravam, e Ivo, calmamente, segurou-lhe a mo.
       - Ivo!
       Bettina empalidecera ao observar que o amigo, apesar de no querer, chorava enquanto a puxava para seus braos. Ela no ofereceu resistncia. Era como se 
soubesse que precisaria dele e ele, dela. Abraava No com firmeza enquanto esperava pela notcia.
       - Bettina...  Justin...
       Sentiu um n na garganta e tentou lutar contra isso. Tinha que ser forte. Por Justin. Por ela. Bettina ficou nervosa com o abrao e soltou-se bruscamente.
       - O que voc est tentando dizer?... Ivo... - Olhou-o com um jeito angustiado, suas mos nervosas mexiam-se sem parar. - Um acidente?
       No fez que no com a cabea. Vagarosamente, olhou para ela e em seus olhos Bettina viu toda a fora de seu medo.
       - No querida, ele se foi.
       Por um instante nada se mexeu na sala, enquanto o choque tomava conta dela e seus olhos encaravam os de No sem entender corretamente e tambm no querendo 
entender.
       - Eu... eu no entendo... - Suas mos estavam agitadas e seu olhar movia-se de No para as mos. - O que voc quer dizer, Ivo?... Eu...
       E ento, com angstia e horror, ela levantou-se e cruzou a sala, como se quisesse afastar-se de No e da verdade.
       - Que diabos voc quer dizer com isso?
       Ela gritava, sua voz trmula e raivosa, seus olhos cobertos de lgrimas. Mas Bettina parecia to frgil, to delicada que No desejava torn-la em seus braos 
outra vez.
       - Bettina... querida...
       Dirigiu-se para ela, que o afastou inconscientemente. Mas de repente, procurou seu abrao, agarrando-se a ele enquanto todo o seu corpo era sacudido pelos 
soluos.
       - Oh, Deus, no... oh, no... papai...
       Por muito tempo ela chorou como uma criana. Ivo a segurava com fora em seus braos. Ele era tudo que tinha.
       - O que aconteceu? Oh, Ivo... o que aconteceu?
       Mas no queria saber. S queria ouvir que no era verdade. Mas era. O rosto de No mostrava mais uma vez isso.
       - Foi um ataque do corao. No almoo. Eles mandaram uma ambulncia imediatamente, mas j era tarde. - No demonstrava sua angstia ao falar.
       - E eles no fizeram nada? Pelo amor de Deus...
       Bettina soluava e sua pequena figura tremia enquanto No mantinha o brao sobre seus ombros. Era impossvel de acreditar. Justamente na noite anterior eles 
haviam danado naquela sala.
       - Bettina, eles fizeram tudo, realmente tudo que podiam. Foi apenas... - Por Deus, que agonia era contar-lhe tudo. Era quase insuportvel para ele. - Aconteceu 
muito rpido. Tudo acabou em alguns minutos. Eu juro a voc que eles fizeram tudo o que foi possvel, mas no lhes restava muito a fazer.
       Ela fechou os olhos e balanou a cabea e, aos poucos, deixou o conforto de seus braos, indo para o outro lado da sala. Ficou de p, suas costas viradas 
para Ivo, olhando para a neve e as rvores secas do Central Park, do outro lado da rua. Como lhe pareciam feias, agora, solitrias e nuas enquanto na noite anterior 
pareciam lindas, como num conto de fadas, enquanto ela se aprontava para a festa, esperando os primeiros convidados. Como os odiava agora. Todos eles, por lhe terem 
roubado a ltima noite que passaria s com seu pai... Sua ltima noite... e agora ele se fora. Fechou os olhos bem apertados e tomou coragem para perguntar o que 
precisava saber:
       - Ele... ele disse alguma coisa, Ivo... quer dizer... para mim? - Sua voz quase no era perceptvel quando falou, olhando ainda pela janela, sem poder ver 
a negativa na expresso de Ivo.
       - No deu tempo.
       Bettina assentiu em silncio, e no momento seguinte respirou fundo. No no sabia se se aproximava ou se a deixava sozinha. Sentia como se fosse quebr-la 
ao meio ante o menor toque, to tensa e frgil ela parecia, sofrendo e s. Estava sozinha agora e sabia disso. Pela primeira vez em sua vida.
       - Onde est ele agora?
       - No hospital. - Ivo odiava ter que dizer. - Eu queria falar com voc antes de tomar alguma providncia. Voc tem alguma idia do que gostaria que fosse feito?
       Aproximou-se dela devagar e virou seu rosto para que o olhasse. Seus olhos pareciam ter envelhecido cem anos e era o rosto de uma mulher, no mais de uma 
menina.
       - Bettina. Eu... eu sinto muito ter que lhe perguntar estas coisas, mas voc tem alguma idia do que seu pai gostaria que fosse feito?
       Ela sentou-se, balanando suavemente os cachos cor de conhaque.
       - Ele nunca falava sobre estas coisas, nem era religioso. - Fechou os olhos e duas grandes lgrimas escorreram pesarosas. - Suponho que devemos fazer algo 
ntimo. Eu no quero... - Ela mal conseguia falar - um monte de estranhos olhando para ele e...
       Mas tudo que pde fazer foi baixar a cabea enquanto seus ombros tremiam desesperadamente, e No a tomou nos braos mais uma vez. Foram mais cinco minutos 
antes que ela se recompusesse. Depois, olhou para No com um olhar desamparado:
       - Quero v-lo agora, Ivo.
       Ele concordou e se levantaram, caminhando em silncio para a porta.
       Estava assustadoramente calada no caminho para o hospital, sentada ereta, com os olhos secos, no banco da limusine de Ivo. Parecia uma menininha, com seu 
casaco de raposa prateado, os olhos bem abertos e infantis embaixo de um chapu combinando com o casaco.
       Saltou do carro na frente de No e rapidamente cruzou a porta, esperando impaciente por ele para ser levada para perto de seu pai. No fundo do corao, ela 
ainda no tinha entendido a realidade e esperava encontr-lo ansioso por v-la e muito vivo. Foi apenas quando chegaram  ltima porta que ela pareceu diminuir o 
ritmo e os saltos de suas botas pretas silenciaram. As luzes alm da porta eram poucas e seus olhos se arregalaram ao entrarem no necrotrio, devagar. Justin estava 
l, coberto por um lenol, e Bettina aproximou-se p ante p, tentando tomar coragem para puxar o lenol e ver seu rosto. Ivo observou-a por um momento e aproximou-se.
       Sussurrou em seu ouvido, pegando gentilmente em seu brao: 
       - Voc gostaria de ir embora agora?
       Mas ela balanou a cabea. Precisava v-lo. Tinha que dizer adeus. Gostaria de dizer a No que preferia ficar sozinha com seu pai, mas no sabia como faz-lo 
e no fim, foi melhor assim.
       Com as mos trmulas, pegou a ponta do lenol. Devagar, bem devagar, foi puxando at que pudesse ver a ponta da cabea. Por um segundo pareceu que ele estava 
brincando com ela, como se ela fosse uma criana e estivesse brincando de esconde-esconde. Rapidamente, puxou o lenol e deixou-o cair sobre o peito do pai. Os olhos 
estavam fechados e o rosto ligeiramente plido, parecia em paz quando ela o olhou com o olhar cheio de tristeza de quem agora entendia. Era como No dissera. Seu 
pai partira. 
       Lgrimas rolavam em seu rosto quando se abaixou para beij-lo e depois deu um passo para trs,.sendo amparada por No e levada para fora da sala.
       
       
4
       
       Mas a realidade dos fatos no atingiu Bettina at depois do funeral. Entre o dia da morte do pai e o do funeral, dois dias de surrealismo frentico se passaram, 
pegando uma roupa para vesti-lo, checando sempre com a secretria que contratou para ajudar, falando com No sobre quem foi avisado e quem deveria ser, organizando 
os empregados e tranqilizando os amigos. Havia algo muito reconfortante em tomar providncias. Era uma forma de fugir de suas emoes e da verdade. Corria do apartamento 
para a funerria e finalmente estava no cemitrio, uma figura frgil em preto, carregando uma rosa branca que, silenciosamente, colocou sobre o caixo enquanto o 
resto do grupo observava, afastado. Apenas No estava por perto. Podia ver sua sombra na neve. Apenas No preenchia o vazio dos dolorosos dias que ela viveu aps a 
morte do pai. Apenas No fora capaz de chegar-se a ela. Apenas No estava l para mostrar que algum ainda se preocupava, que ela no estava totalmente sem proteo 
no mundo, sozinha e assustada.
       Em silncio, pegou-a pela mo e levou-a de volta para seu carro. Meia hora depois, Bettina estava segura em seu apartamento, trancada neste pequeno e seguro 
mundo que sempre conhecera. Ela e No bebiam caf e do lado de fora brilhava o sol claro de novembro sobre a neve fresca. A neve do inverno chegou cedo e o nico 
lugar que parecia bonito era o parque. O resto da cidade estava soterrado por uma camada de lama h trs dias. Bettina suspirou, tomou um gole de caf e observava, 
com um ar ausente, o fogo arder na lareira. Era uma estranha comparao, mas se sentia como o pai, quando ele terminava um livro. De repente, havia perdido seus 
companheiros e estava sem emprego. No havia mais ningum para cuidar, para se preocupar, para fazer os pedidos no restaurante, colocar os charutos por perto, fazer 
lista de convidados que lhe agradasse e reserva no vo para Madri da forma que ele gostava. No havia mais ningum de quem cuidar, a no ser ela mesma. E isso no 
sabia como fazer. Sempre estivera to ocupada tomando conta dele!
       - Bettina!
       Houve uma longa pausa enquanto No colocava sua xcara na mesa e passava a mo pelos seus cabelos brancos. S fazia isso quando estava sem jeito, e ela tentou 
imaginar o motivo agora.
       -  um pouco cedo para tocarmos neste assunto, querida, mas voc tem que se encontrar com os advogados esta semana.
       No se sentiu sem respirao quando ela virou seus enormes olhos verdes em sua direo.
       - Por qu?
       - Para falar sobre o testamento e... vrios outros assuntos de negcios.
       Justin o nomeara seu testamenteiro e os advogados estavam atrs dele h dois dias.
       - Mas j? No  muito cedo?
       Seu olhar era de estranheza ao se encaminhar para perto do fogo. Sentia-se cansada e agitada ao mesmo tempo. No sabia se devia correr em volta do quarteiro 
cento e cinqenta vezes ou ir para a cama e chorar. Mas o olhar de No refletia, com desnimo, os negcios.
       - No, no  muito cedo. Existem algumas coisas que voc vai ter que saber e algumas decises a serem tomadas. Algumas imediatamente.
       Ela suspirou, concordando e voltando para se sentar no sof.
       - Est bem. Vamos falar com eles, mas no entendo por que a pressa.
       Olhou para No com um sorriso e ele estendeu-lhe a mo. Nem mesmo No sabia a extenso do problema sobre que os advogados queriam conversar. Mas doze horas 
depois eles descobriram.
       No e Bettina olharam-se em estado de choque. Os advogados estavam srios. No havia aes, investimentos ou capital. Em resumo, no havia dinheiro. Segundo 
eles, Justin no se preocupava com isso porque sempre esperava que as coisas se resolvessem. Mas a soluo ainda no havia aparecido. Na verdade no apareceu por 
muito tempo, pois ele vivia h vrios anos em dbito. Tudo que ele possua estava penhorado ou fora cedido como garantia, e, alm disso, tinha enormes emprstimos 
a pagar. 
       Seus ltimos adiantamentos foram gastos em carros, como o novo Bentley, e pouco depois dele o Rolls-Royce 1934, antiguidades, cavalos de corrida, mulheres, 
viagens, casas, peles, com Bettina e com ele mesmo. No inverno anterior comprara de um amigo o mais caro puro-sangue do pas. Os papis indicavam que ele pagou dois 
milhes e setecentos mil dlares pelo cavalo, mas na verdade fora um pouco mais, e o amigo permitira que adiasse o pagamento por um ano. O ano no havia terminado 
ainda, e a dvida no estava paga. Justin sabia que poderia pagar, pois haveria mais adiantamentos e ele tinha os direitos autorais que recebia sempre em cheques 
de seis dgitos. Os recebimentos estavam comprometidos como pagamento de emprstimos feitos com seus amigos milionrios. 
       Estava endividado at o pescoo, com todo mundo. Banqueiros, amigos a quem empenhou propriedades, futuros recebimentos e sonhos. O que teria acontecido aos 
investimentos de seu pai, s conversas espordicas que ouvia quando falavam de 'lucros certos'? Enquanto as horas passavam com os advogados, percebiam que as nicas 
coisas certas eram os dbitos astronmicos. Justin manteve a maioria de seus emprstimos em segredo. Dispensara seus agentes financeiros h anos, por consider-los 
tolos. Tudo era cada vez mais confuso e Bettina estava desconcertada e chocada. Era impossvel compreender a extenso do que eles falavam, exceto que levaria meses 
para esclarecer tudo e que a grande fortuna do famoso, charmoso e to celebrado Justin Daniels no era a fortuna de um rei, mas uma montanha de dvidas.
       Bettina virou-se confusa para Ivo, que a olhava em desespero. Ele se sentia como se tivesse envelhecido mais de dez anos.
       - E as casas? - No olhou para o advogado, apreensivo.
       - Vou estudar o assunto, mas imagino que todas tero de ser vendidas. H quase dois anos que recomendamos ao Sr. Daniels que tomasse esta atitude. Na verdade 
 bem possvel que aps vendermos as casas e... - Houve um momento de embarao e ele deu um pigarro. - A maioria das antiguidades do apartamento de Nova York, consigamos 
normalizar os negcios.
       - Vai sobrar alguma coisa?
       -  difcil responder agora. - Mas seu olhar dizia outra coisa. - Ento o que est dizendo ... - A voz de No estava tensa e furiosa e ele no tinha certeza 
se estava furioso com Justin ou com os advogados. - Que depois de tudo esclarecido, nada mais restar alm do apartamento de Nova York? Nenhuma ao, letra ou investimentos? 
Nada?
       - Acredito que esta ser a verdade dos fatos.
       O homem mais velho tirava os culos com desconforto enquanto o outro pigarreava, tentando no olhar para a linda menina.
       - No foram feitas provises para a srta. Daniels?
       No no podia acreditar. Mas o advogado respondeu em uma palavra.
       - No.
       - Entendo.
       Mas havia - o advogado mais velho olhava alguns papis sobre a mesa - a soma de dezoito mil dlares na conta bancria do Sr. Daniels no dia em que ele morreu. 
Temos que liberar o dinheiro,  claro, mas teremos prazer em adiantar alguma coisa para que a senhorita possa pagar suas despesas neste meio tempo.
       No ficou mais furioso:
       - Isso no ser necessrio! - Fechou sua pasta com fora e pegou seu casaco. - Quanto tempo acha que ser preciso para nos dizer em que p esto as coisas?
       Os dois advogados trocaram olhares. 
       - Uns trs meses?
       - Que tal um ms?
       O olhar de No no permitia rodeios e, insatisfeito, o advogado mais velho concordou.
       - Tentaremos. Compreendemos que a situao  bastante difcil para a senhorita. Tentaremos fazer o melhor possvel.
       - Obrigado.
       Bettina apertou a mo dos advogados e rapidamente saiu do escritrio. No quase no disse nada no caminho at o carro, apenas olhava ocasionalmente, com ansiedade, 
para Bettina. Ela estava plida como marfim, mas estava quieta e parecia muito controlada. Quando estavam de volta ao carro, No suspendeu a janela entre eles e o 
motorista e virou-se para ela com um olhar de compaixo.
       - Bettina, voc entendeu o que acabou de acontecer? 
       - Acho que sim.
       Enquanto ele a observava, percebia que at seus lbios estavam assustadoramente plidos.
       - Parece que vou ter que aprender algumas coisas sobre a vida. Enquanto se aproximavam de seu sofisticado edifcio, Ivo perguntou:
       - Voc me deixa ajud-la?
       Ela fez que sim com a cabea, beijou-lhe o rosto e saiu do carro. No ficou olhando para ela at que desaparecesse dentro do edifcio, pensando no que seria 
dela agora...
       
5
       
       A campainha tocou justamente quando Bettina olhava no relgio. No era sempre pontual e ela sorriu enquanto corria para a porta. Saudou-o com um beijo e ele 
entrou, muito elegante, com seu casaco preto e chapu Homburg. Bettina, por sua vez, vestia uma blusa de flanela vermelha e calas jeans.
       - Voc est uma graa esta noite, srta. Daniels. Como foi seu dia? 
       - Interessante. Passei o dia todo com o homem de Parke-Bernet, o leiloeiro.
       Bettina sorriu com ar de cansada, e No pensou por um momento como sentia falta de v-la em suas roupas elegantes. Parecia que ela abandonara o outro guarda-roupa 
neste ms, desde a morte de Justin. E tambm no fora a lugar nenhum a no ser ao escritrio dos advogados para escutar mais ms notcias. Tudo que ela queria agora 
era se livrar de toda esta maldita confuso. Comearia a se encontrar com marchands, corretores de imveis, joalheiros, todos que pudessem tirar bens de suas mos 
e deixa-la com algo que pudesse reduzir seus dbitos.
       - Eles vo tirar todas estas coisas daqui. - Ela apontou vagamente para as antiguidades. - Assim como tudo da casa de South Hampton e da casa de Palm Beach. 
J mandaram algum olhar estas coisas. Estou me livrando da moblia do sul da Frana por l mesmo e - suspirou distrada enquanto pendurava o casaco - acho que a 
casa de Beverly Hills ser vendida com tudo dentro. Algum rabe est interessado nela e ele deixou tudo que tinha no Oriente Mdio... Ento deve resolver o problema 
para ns dois. 
       - Voc no vai ficar com nada?
       No olhou-a assustado, mas estava se acostumando com esta sensao e ela, com este olhar em seu rosto.
       Bettina balanou a cabea.
       - No posso, Ivo. Estou lidando com a dvida nacional. Quatro milhes e meio de dlares no  fcil de sanar. Mas vou conseguir. Ela sorriu novamente e isso 
mexeu com o corao de Ivo. Como Justin pde fazer isso? Como no imaginou que alguma coisa podia acontecer e que a filha ficaria com a obrigao de limpar esta 
baguna? 
       A injustia partia-lhe o corao.
       - No fique to preocupado, querido. - Ela sorriu para ele. - Um dia tudo estar resolvido.
       - , e enquanto isso eu fico parado sem fazer nada, vendo voc desmontar toda a sua vida.
       Agora era difcil lembrar que ela tinha apenas 19 anos. Parecia e falava como algum muito mais velha. Mas, ocasionalmente, ainda havia um olhar travesso 
no seu rosto.
       - E o que voc gostaria de fazer, Ivo? Me ajudar a fazer as malas?
       - No, eu no gostaria de fazer isso.
       Ele respondeu de maneira brusca e depois desculpou-se com o olhar. Mas foi ela quem falou primeiro.
       - Desculpe. Sei que voc quer ajudar. No sei! Acho que estou cansada. Parece que isso no vai acabar nunca.
       - E quando terminar, o que vai acontecer? No me agrada a idia de voc ter largado a faculdade.
       - Por que no? Estou sendo educada aqui mesmo e alm disso, a mensalidade  muito alta.
       - Bettina, pare com isso!
       Ela falava de modo to amargo e de repente seus olhos demonstraram uma profunda exausto.
       - Quero que me prometa uma coisa.
       - O que ?
       - Quero que me prometa que quando o pior tiver acabado e voc j tiver resolvido o problema do apartamento e das moblias e tudo mais que tiver que fazer, 
que voc vai sair um pouco daqui e descansar.
       - Voc fala como se eu tivesse cem anos.
       Mas ela no perguntou como ele imaginava que ela pagaria uma viagem. Quase no havia mais nada. Cozinhava para si mesma na enorme cozinha. No comprava nada, 
no ia a lugar nenhum. Na verdade, esta manh at pensara em vender suas roupas. Pelo menos as roupas de noite. Tinha dois armrios cheios delas, mas sabia que se 
contasse a No ele teria um ataque.
       - Falo srio. Quero que voc saia para algum lugar. Voc precisa. Tem sido uma fase de enorme tenso. Ns dois sabemos disso. Se eu pudesse, voc iria agora 
mesmo. Promete que vai pensar sobre isso?
       - Vamos ver.
       Ela sobrevivera ao Natal, esquecendo-o completamente, e passou a maior parte dos feriados empacotando os livros do pai. Por algum motivo, agora no podia 
pensar em mais nada. Os livros raros voltariam para Londres, de onde vieram, para serem leiloados e, com sorte, conseguiriam um bom preo. O avaliador disse que 
eles valiam algumas centenas de milhares de dlares. E ela torcia para que ele estivesse certo. 
       - O que disse Parke-Bernet?
       No tambm parecia cansado. Vinha v-la diariamente, mas odiava as novidades. Vendendo, empacotando, livrando-se de tudo, era como v-la desmontando a prpria 
vida.
       - O leilo ser em dois meses. Vo arrumar um espao para mim no programa. E eles gostaram muito das nossas coisas.
       Entregou a No seu copo de usque com soda, como sempre. 
       - Posso tent-lo com um jantar?
       - Sabe de uma coisa, estou muito impressionado com seus dotes culinrios. Nunca soube que voc cozinhava.
       - Nem eu. Estou descobrindo que posso fazer um monte de coisas. Falando nisso - ela sorriu, enquanto No tomava um grande gole de seu usque - estou querendo 
lhe perguntar uma coisa.
       Ele ajeitou-se no sof e sorriu. 
       - O que ?
       - Preciso de um emprego.
       A maneira segura como ela falou quase o fez estremecer. 
       - Agora?
       - No neste minuto, mas quando tudo tiver terminado. O que acha?
       - No Mail Bettina, no  o que voc quer. - Aps alguns segundos, ele concordou. Ao menos podia fazer isso por ela. - Como minha assistente?
       Ela riu e balanou a cabea.
       - Sem nepotismo, Ivo. Eu me refiro a um emprego de verdade, para o qual eu esteja qualificada. Que tal auxiliar de redao?
       - No seja ridcula. No a deixarei fazer isso. 
       - Ento no vou pedir a voc.
       Seu olhar era determinado. E a agonia da situao sempre o surpreendia. Mas a verdade era que ela precisaria de um emprego. Aceitava o fato, e ele teria de 
faz-lo tambm.
       - Vamos ver. Deixe-me pensar um pouco. Talvez eu tenha alguma idia melhor do que algo no jornal.
       - O qu? Casar com um velho rico? 
       Ela ironizou e ambos riram.
       - No sem pedir para mim primeiro.
       - Voc no  suficientemente velho. E agora, que tal jantarmos? 
       - Boa idia.
       Trocaram mais um sorriso e ela entrou na cozinha para preparar alguns bifes. Rapidamente, arrumou a longa mesa de refeitrio que seu pai trouxera da Espanha 
e colocou um vaso de flores amarelas sobre a toalha azul-escura. Quando alguns minutos mais tarde Ivo foi ver a cozinha, tudo estava em andamento.
       - Sabe de uma coisa, Bettina? Voc vai me mimar. Estou me acostumando a passar por aqui todas as noites antes de ir para casa.  muito melhor do que comida 
congelada ou sanduches de po dormido.
       Ela virou-se para rir dele enquanto falava ajeitando os cabelos com as costas da mo.
       - Ah! Quando  que voc comeu um jantar congelado, No Stewart? Aposto que voc no jantou em casa uma s vez nos ltimos anos. Falando nisso, o que aconteceu 
com a sua vida social desde que voc resolveu ser minha bab? Voc no sai mais?
       No olhava vagamente para as flores no centro da mesa.
       - No tenho tido tempo. Tenho andado muito ocupado no escritrio. - Aps alguns segundos, olhou novamente para ela. - E voc? Tambm no sai h muito tempo.
       Sua voz era gentil e ela virou-se, balanando ligeiramente a cabea. -  diferente. No poderia... no posso... - Os nicos convites vinham dos amigos de 
seu pai e ela no podia encar-los agora. - Eu no posso.
       - Por qu? Justin no esperaria que voc ficasse em casa de luto, Bettina.
       Mas ser que havia outro motivo? Ser que ela estava envergonhada de encarar as pessoas agora que a verdade fora revelada nos jornais? Ser que era isso? 
No conseguiram esconder a verdade sobre as finanas de Justin.
       - Apenas no quero, Ivo. Me sentiria muito estranha. 
       - Por qu?
       - No perteno mais a esse mundo.
       Ela falou de forma to desamparada que No encaminhou-se para o seu lado.
       - Que diabos voc quer dizer com isso?
       Seus olhos se encheram de lgrimas quando olhou para ele e de repente voltava a se parecer com a menina.
       - Eu me sentiria uma fraude, Ivo. Eu... oh, Deus, a vida de papai era uma enorme mentira. Agora todo mundo sabe. Eu sei. Eu no tenho nada. No tenho mais 
o direito de desfilar em festas sofisticadas ou sair com a elite e figuras ilustres. Eu quero apenas vender todas essas coisas, sair daqui e trabalhar.
       - Isso  ridculo, Bettina. Por qu? Porque Justin se endividou voc vai se privar do mundo onde viveu toda a sua vida? Isto  uma loucura, sabia?
       Mas ela fez que no com a cabea enquanto secava os olhos com a ponta da blusa.
       - No, no  loucura. Papai tambm no pertencia quele mundo se foi preciso se endividar em quatro milhes de dlares para ficar l. Ele deveria ter levado 
uma vida muito diferente.
       Toda a dor e desiluso das ltimas semanas apareceram de repente em sua voz, mas No a puxou gentilmente para si e amparou-a com um brao. Era como uma garotinha 
novamente. Por um momento ela quis se aninhar em seu colo.
       - Espera a, Justin Daniels era um grande escritor, Bettina. Ningum pode tirar esse mrito dele. Foi um dos grandes crebros de seu tempo. E ele tinha todo 
o direito de estar em todos os lugares que esteve com as pessoas com que esteve. O que ele no devia ter feito era perder desta forma o controle da situao, mas 
este  outro assunto. Ele era uma estrela, Bettina. Uma estrela rara e especial como voc . Nada poder mudar isso. Nem dvidas, pecados, fracassos ou erros. Nada 
vai mudar o que ele foi ou o que voc . Nada. Voc est entendendo?
       Ela no tinha certeza se entendia, mas o olhava agora com um misto de confuso e dor.
       - Por que voc diz que tambm sou especial? Porque sou filha dele?  por isso? Pois este  outro motivo que me faz sentir que no perteno mais a este mundo, 
Ivo. Meu pai se foi. Que direito tenho eu de voltar ao convvio com estas pessoas? Principalmente agora que no tenho nada. No posso mais lhes oferecer festas maravilhosas 
ou apresentaes a pessoas famosas. No posso fazer nada ou oferecer nada... no tenho nada... - E sua voz embargou. - No sou nada.
       A voz de Ivo foi dura em seu ouvido e seus braos mais apertados em seu corpo.
       - No, Bettina, voc est errada. Voc  alguma coisa. Sempre ser e nada, nunca, poder mudar isso. E no porque voc  filha de Justin, mas porque  voc. 
Ser que no percebe quantas pessoas vinham aqui por sua causa, para conhecer voc? No apenas por ele. Voc tem sido uma lenda, desde que era uma garotinha e nunca 
percebeu isso, o que era parte do charme. Mas  importante que entenda agora que voc  algum. Voc, Bettina Daniels. Por falar nisso, no vou mais aceitar esta 
sua recluso.
       Ele parecia decidido ao pegar uma garrafa de vinho. Procurou dois copos, abriu a garrafa e derramou o Bordeaux vermelho no copo, dando-o para Bettina.
       - Acabo de tomar uma deciso, srta. Daniels. Voc vai jantar comigo e depois vamos  pera, amanh  noite.
       - Vou? Oh, Ivo, no... - Ela parecia em pnico. - No posso... Talvez mais tarde... outra hora.
       - No. Amanh. - E sorriu gentilmente para ela. - Minha menina, voc no percebeu que dia  amanh?
       Ela balanou a cabea sem entender enquanto tirava os bifes do grill. -  dia de ano-novo. E no interessa o que est acontecendo, ns vamos comemorar. Voc 
e eu. 
       - No levantou o copo de vinho. - O ano de Bettina Daniels.  hora de percebermos que sua vida no acabou, querida, apenas comeou.
       Ela sorriu devagar e tomou o seu primeiro gole do vinho.
       
6
       
       Bettina permaneceu de p na sala escura olhando o trfego descendo impacientemente a Quinta Avenida. A rua estava apinhada de carros encostados uns nos outros 
desde que as festividades comearam. Buzinas berravam, sirenes zumbiam, pessoas gritavam e em algum lugar desta noite, pessoas riam. Mas Bettina permanecia completamente 
quieta enquanto esperava. Era uma sensao estranha e excitante, como se sua vida toda fosse comear novamente. No tinha razo. Ela no devia ter-se isolado tanto.
       Talvez esta estranha sensao fosse causada por todas estas mudanas em sua vida. No era mais uma criana, Estava sozinha agora. E ela se sentia estranhamente 
crescida de uma forma que nunca havia sentido antes. Seu comportamento adulto no era mais emprestado, era real. A campainha tocou um momento depois e de repente 
todos estes sentimentos adultos pareciam bobos. Era apenas Ivo, e o que havia de to incomum em ir  pera com ele? Correu para abrir a porta.
       L estava No sorrindo, esbelto, elegante, com sua vasta cabeleira branca salpicada de flocos de neve e com um cachecol de seda branco em volta do pescoo, 
em contraste com o casaco de cashmere preto que vestia sobre a casaca. Ela recuou um pouco sorrindo para ele e ento bateu as mos como uma criana enquanto ele 
entrava.
       - Ivo, voc est lindo!
       - Obrigado, querida. Voc tambm est.
       Ele sorriu gentilmente enquanto ela abaixava sua cabea graciosamente usando o capuz estilo frade do seu casaco de veludo azul-escuro. 
       - Voc est pronta?
       Ela balanou a cabea em resposta, e Ivo deu-lhe o brao. Com um sorrisinho, ela colocou a mo com luvas brancas no brao de No e o seguiu at a porta. A 
casa estava assustadoramente silenciosa. No havia mais empregados para segurarem a porta ou guardarem os casacos. No havia mais reverncias educadas, os servios 
rpidos, a proteo... da realidade... do mundo. Por um momento Bettina ficou quieta enquanto procurava a chave em sua pequena bolsa de seda azul. Sorriu para No 
quando a achou e trancou a porta.
       - Parece que as coisas mudaram, no?
       Ela estava melanclica apesar do sorriso. No apenas mexeu a cabea sentindo aquela dor.
       Mas Bettina parecia mais ela mesma enquanto conversavam no elevador e depois no carro. O motorista conduzia o carro pacientemente no violento trfego dos 
feriados. 
       No banco de trs, Bettina fazia No rir com histrias sobre pessoas que conhecera na faculdade.
       - E voc quer dizer que no sente falta disso? - No a olhava de alto a baixo e seu olhar ficou srio. - Como  possvel no sentir falta? 
       - Muito fcil. - Seus olhos tambm ficaram srios. - Na verdade no ter mais que ir  faculdade  um alvio.
       O olhar de No demonstrava que ele no a entendia, e ela afastou os olhos.
       - A verdade  que meu pai deu um jeito para que eu nunca estivesse com pessoas de minha idade. Eles so estranhos para mim agora. Eu no sei sobre o que falam 
e o que falar com eles. Falam coisas que eu no entendo. No me enquadro.
       Olhando para ela, No percebeu mais uma vez o alto preo que Bettina teve que pagar por ser filha de Justin Daniels.
       - E como  que voc fica agora?
       Parecia chateado, mas ela deu um grande sorriso.
       - Falo srio, Bettina. Se voc no se adapta a pessoas de sua idade, com quem vai conviver?
       Ela sorriu gentilmente e murmurou: 
       - Com voc!
       Virou-se para o outro lado e deu-lhe um tapinha na mo. Por um momento uma sensao estranha percorreu o corpo de Ivo. No tinha certeza se era excitao 
ou medo, mas no era pena ou arrependimento, e logo se repreendeu. Devia sentir uma dessas ou ambas. Devia ter pena dela, preocupar-se com ela, mas no deixar-se 
excitar assim como inegavelmente se sentia. 
       Isto era uma loucura. E pior do que isso, era muito errado. Ele lutou contra o que sentia, sorriu e deu um tapinha em suas mos suavemente. Havia um ar malicioso 
em seus olhos quando falou: 
       - Voc deveria estar brincando com crianas de sua idade.
       - Vou pensar nisso. - E aps uma pausa que os levou praticamente  porta do Metropolitan Opera House, ela virou-se para ele e disse:
       - Sabe de uma coisa, Ivo. Esta vai ser a primeira pera a que vou assistir sem interrupes.
       - Fala srio? - Estava surpreso.
       Ela balanou a cabea enquanto ajeitava as luvas.
       - Geralmente eu corria para a sala Belmont para ver se tudo estava pronto para papai e suas festas. E sempre tinham recados. Eu checava as reservas do jantar 
e via se tudo estava certo por l. Isto geralmente gastava toda a segunda metade do primeiro ato. No segundo ele se lembraria de trinta e sete outras coisas que 
no me dissera antes, o que significava mais ligaes, mais recados. E finalmente, eu nunca via o final do terceiro ato porque ele gostava de sair cedo para evitar 
a multido. Por um momento No a olhou com estranheza.
       - Por que fazia isso? - Ser que ela o amava tanto assim?
       - Fazia porque era a minha vida. Porque no era s organizaes, arranjos e servido, como voc deve estar pensando agora. Era especial, excitante e glamouroso 
e - ela parecia envergonhada - me fazia sentir importante, como se eu valesse alguma coisa e sem mim ele no pudesse continuar...
       Nesse momento ela gaguejou e olhou para outra direo. A voz de No era suave.
       - E provavelmente  verdade, sabia? Sem voc ele no poderia continuar. Certamente no to feliz, confortvel ou com tudo em ordem. Mas nenhum ser humano 
merece ser paparicado assim, Bettina. No  custa de outra pessoa.
       Os profundos olhos verde-esmeralda faiscaram:
       - No foi  minha custa. - E irritada, tentou abrir a porta e gritou para ele. - Voc no entende!
       Mas ele entendia. Entendia mais do que contara a ela; muito mais do que ela queria que ele soubesse. Compreendia a solido e a dor da vida com o pai. No 
era sempre glamour ou noites nas arbias. Para ela, era tristeza e tambm solido.
       - Posso ajudar?
       Ele estendeu a mo para ajud-la com a maaneta da porta e ela virou-se para ele com os olhos em fogo, pronta para dizer no, afastar sua mo e insistir em 
se arranjar sozinha. Era um gesto simblico e ele se esforou para no rir. Sem resistir, acabou rindo e estendeu a mo para mexer com um dos cachos do cabelo de 
Bettina que saa do capuz. 
       - Ajudaria se voc destrancasse a porta, senhorita independncia. Ou voc prefere quebrar a janela com o sapato e se arrastar para fora?
       De repente ela tambm estava rindo. Tentou olh-lo furiosa ao destravar a porta, mas o momento de raiva j havia passado. O motorista esperava do lado de 
fora para ajud-los e ela saiu do carro ajeitando seu casaco e colocando o capuz para se proteger do vento forte.
       No abriu a porta de seu camarote para Bettina. Por um momento ela se lembrou daquela noite que estivera ali com seu pai, mas forou-se para no pensar nisso 
e olhou para os olhos azuis de Ivo. Ele estava encantador, eltrico e vivo e era timo poder apenas olhar para estes olhos azuis.
       Ela o olhou candidamente, acariciou seu rosto e ele sentiu alguma coisa agradvel dentro dele.
       - Estou feliz de ter vindo com voc hoje, Ivo.
       Por um instante tudo parou enquanto ele a olhava e sorria. 
       - Tambm estou, pequenina, tambm estou.
       E ento, com decoro e cavalheirismo, No ajudou-a com seu casaco, e desta vez foi Bettina quem sorriu. Ainda se lembrava da primeira vez em que ele fez isso 
quando veio  pera com No e o pai h mais de dez anos. Vestia um casaco cor de vinho com gola de veludo, um chapu combinando, luvas brancas e sapatos Mary Jane. 
A pera era Der Rosenkavalier e ela ficou muito impressionada em ver mulheres se vestirem como homens. No lhe explicara tudo, mas ela ainda ficou envergonhada. Enquanto 
pensava nisso, descobriu-se rindo ao tirano casaco de veludo azul.
       - Posso saber o que h de to engraado? Ele j comeava a rir.
       - Estava pensando na primeira vez em que estive aqui com voc. Lembra-se da mulher fingindo que era um homem?
       No riu com ela da lembrana e de repente ela percebeu uma coisa diferente em seus olhos. Ele olhava para o vestido que ela usava e ao faze-lo, a noite de 
Der Rosenkavalier desapareceu de sua mente. O vestido que usava sob o casaco era do mesmo tom azul-marinho e parecia flutuar em volta dela como uma nuvem de chiffon. 
As mangas compridas davam-lhe um toque mgico e a pequena cintura explodia em camadas de tecido flutuante que caam at seus ps. Ela estava infinitamente delicada 
e impressionantemente bonita ao postar-se em frente a ele com seus olhos to brilhantes quanto as safiras e diamantes de seus brincos. 
       - Voc no gosta do vestido?
       Olhou-o inocentemente sem esconder o claro desapontamento e de repente o riso voltou a seus olhos ao estender-lhe as duas mos. Como ainda era infantil em 
alguns momentos. Isto sempre o surpreendia. Era difcil de entender como ela mantinha este jeito inocente sob a aparncia de conhecimento, apesar de estar constantemente 
exposta a homens que certamente no podiam deixar de ter os mesmos pensamentos que No tinha agora.
       - Eu adorei o vestido, querida.  lindo. Fiquei apenas um pouco... surpreso.
       - Ficou mesmo? - Ela piscou o olho para ele. - E voc nem viu tudo.
       Deu uma pirueta e virou-se de costas. Contrastando com as mangas longas, gola alta e saia comprida, no havia parte de trs no vestido e tudo que via em sua 
frente eram as mais lindas e devastadoras costas brancas.
       - Por Deus, Bettina, isso no  decente.
       - Claro que , no seja bobo. Vamos nos sentar. A msica est comeando.
       No suspirou ao sentar-se. No sabia para qual imagem de Bettina devia se dirigir ou qual devia ter em mente. A criana da qual se lembrava ou a mulher sentada 
ao seu lado. Podia oferecer muitas coisas  criana. Podia instal-la em sua casa. Mas com a mulher o problema era bem mais complicado... O que fazer, ento? Dar-lhe 
um emprego no jornal? Uma noite na pera como amigos? O problema era realmente insuportvel. Quando o primeiro ato terminou ele percebeu quo pouco tinha ouvido.
       - No  maravilhoso, Ivo? - Seus olhos ainda sonhavam quando baixaram a cortina.
       - Sim,  lindo. - Mas ele no pensava na pera, apenas nela. - Gostaria de alguma coisa do bar?
       Os outros j estavam formando filas nas sadas. A ida ao bar era uma obrigao para os habitus de pera, no pela bebida, mas pelas pessoas que viam. No 
percebeu que ela hesitava.
       - Voc prefere ficar aqui?
       Satisfeita ela concordou e ambos sentaram-se. 
       - Voc vai ficar muito chateado?
       Seu ar era de desculpas, mas No gesticulava indiferente.
       - Claro que no, no seja-boba. Voc gostaria que eu lhe trouxesse alguma coisa aqui?
       Mas Bettina apenas balanou a cabea e riu.
       - Voc vai me deixar to mimada quanto eu deixei meu pai, Ivo. Cuidado! Fica muito difcil viver com pessoas assim.
       Falaram um pouco sobre Justin quando No se lembrou das histrias que este lhe mostrara. As que Bettina tinha escrito.
       - Um dia, se voc quiser, poder ser melhor escritora do que Justin. 
       - Est falando srio?
       Ela olhou para ele como se estivesse muito assustada para respirar, esperando para ouvir sua resposta, mas tambm com muito medo. - Estou. As ltimas cinco 
ou seis histrias, voc sabe, aquelas que escreveu no ltimo vero, na Grcia... eram fantsticas. Voc poderia public-las se quisesse, na verdade ia mesmo lhe 
perguntar isso um dia, se  no que est pensando.
       - Claro que no. Eu apenas escrevi por... por escrever. Por nada. Papai mostrou para voc?
       - Mostrou.
       - E ele achava que eram boas?
       Sua voz tinha um ar de sonhadora e parecia que at esquecera que No estava l. Ele a olhou espantado.
       - Ele no lhe disse?
       Ela fez que no com a cabea.
       - Isso  um crime, Bettina. Ele adorou. Nunca lhe disse isso? 
       - No. - E olhou para ele com sinceridade. - E nem o faria. Esse tipo de elogio no era do seu feitio.
       No, mas de ouvir ele gostava. Ah, sim, e como gostava. No ficou novamente chateado ao pensar nisso.
       - Basta dizer ento que ele realmente adorou suas histrias. 
       Ela sorriu mais uma vez.
       - Fico feliz.
       Talvez essa fosse uma maneira pela qual pudesse ajud-la. 
       - Vai tentar public-las?
       - Eu no sei. - Deu de ombros com jeito infantil. - Eu lhe disse. Sonho em escrever uma pea. Mas isso no quer dizer que ainda escreva. 
       - Poderia, se quisesse. Um sonho bom e forte  suficiente, se voc se agarra a ele, cuida dele e o constri. Se nunca abandonar este sonho, no importa o 
que acontea.
       Por um longo momento Bettina no disse nada e desviou os olhos, Ele se aproximou e ela podia senti-lo perto, com as mos prximas s suas.
       - No abandone estes sonhos, Bettina... nunca, nunca faa isso.
       Quando ela finalmente o fitou era com olhos sbios e cansados. 
       - Meus sonhos j se acabaram, Ivo.
       Mas ele balanou a cabea com firmeza.
       - No, pequenina, eles apenas comearam.
       Dito isso, aproximou-se dela e beijou-lhe suavemente a boca.
       
7
       
       Foi uma estranha e maravilhosa noite com Ivo. Aps a pera, foram jantar no La Cte Basque e danar no Le Club. No e Justin eram scios desde que o clube 
abriu e anos mais tarde ainda era um bom clube e o lugar perfeito para a passagem do ano. Estavam de volta aos bons termos de amizade, apenas o beijo confundiu Bettina 
por uns instantes, mas ela afastou qualquer pensamento de sua cabea. Ele era um amigo muito querido. A maior parte da noite foi como nos bons tempos. Conversaram, 
riram e danaram. Tomaram champanhe e ficaram fora at trs da manh, quando finalmente No confessou sua exausto e anunciou que a estava levando para casa. Os dois 
estavam estranhamente quietos na limusine no caminho de volta para o apartamento. Bettina pensando no pai e como era estranho no estar com ele ou ao menos no ter 
lhe telefonado para desejar um feliz ano-novo. Dirigiram vagarosamente pelo lado leste at chegarem  porta do prdio.
       - Voc quer subir para tomar um conhaque?
       Ela perguntou quase por hbito, entre bocejos, mas j eram quase quatro horas e No sorriu.
       - Voc faz com que parea bastante tentador. Acha que pode ficar acordada at chegar l em cima?
       Ajudou-a a sair do carro e entrou com ela.
       - No tenho certeza... de repente... fiquei com tanto sono... - Mas ela estava sorrindo enquanto subiam pelo elevador. - Tem certeza de que no quer mais 
um drinque?
       - Absoluta.
       - Bom. Porque eu quero dormir.
       Ao dizer isso parecia ter doze anos de idade e ambos riram. A casa estava assustadoramente vazia quando ela abriu a porta e acendeu a luz. 
       - Voc no tem medo de ficar aqui sozinha, Bettina?
       - s vezes.
       O corao de No apertou-se mais uma vez.
       - Me promete uma coisa? Se voc tiver algum problema, qualquer problema, voc me liga? Eu quero dizer, imediatamente, e eu venho correndo.
       - Eu imaginei que viria. Mas  bom saber.
       Ela bocejou novamente e sentou na cadeira Lus XV do hall, chutando seus elegantes sapatos azuis de cetim. No sentou-se numa cadeira em frente  dela.
       - Voc est linda esta noite, Bettina. E terrivelmente adulta. Ela encolheu os ombros parecendo mais com a garotinha que era. - Suponho que eu seja adulta 
agora. - E com uma risadinha, jogou um dos sapatos de cetim no ar. Pegou-o antes que, por pouco, quebrasse um vaso carssimo que estava na mesa de mrmore. - Sabe 
o que  mais estranho de tudo, Ivo?
       - O que ?
       - Sem falar na solido,  ser responsvel por mim. No h ningum, ningum mesmo, para me dizer o que fazer, me passar sermo, me dar castigo, resolver os 
meus problemas... nada disso... Se eu tivesse quebrado esse vaso, seria apenas problema meu, de mais ningum.  uma sensao de solido tambm, como se ningum ligasse 
para mim. Olhou pensativamente para seu sapato e jogou-o no cho, mas No a observava.
       - Eu me importo.
       - Eu sei disso. E me importo com voc tambm.
       Por um momento no lhe deu nenhuma resposta, apenas olhou-a. 
       - Fico feliz. - Levantou-se e aproximou-se dela. - E agora, contrariando sua teoria, vou dizer-lhe para ir para a cama como uma boa menina. Quer que eu a 
acompanhe at seu quarto?
       Bettina hesitou por alguns minutos e depois sorriu. - Voc no se importaria?
       Ele pareceu estranhamente srio quando fez que no com a cabea. Ela se encaminhou para as escadas descala. Seus sapatos ficaram esquecidos no cho do foyer, 
e levava seu casaco de veludo azul nos braos enquanto No a acompanhava de frente para aquelas costas nuas. Mas estava controlado, agora. Durante a noite havia decidido 
o que faria. Ela virou-se para olh-lo por sobre os ombros ao chegarem no alto da escada.
       - Voc vai me colocar na cama?
       Parte dela estava ironizando e parte estava sria e No no sabia mais o que via em seus grandes olhos verdes. Mas no faria perguntas.
       Bettina passou a mo sobre os olhos com ar cansado e de repente parecia muito envelhecida.
       - Tenho tanta coisa para fazer, Ivo. s vezes no tenho certeza se vou conseguir.
       No lhe deu uns tapinhas no ombro.
       - Voc vai, querida. Voc vai. Mas precisa primeiro, mademoiselle, de uma boa noite de sono. Ento, boa noite, pequenina. No precisa me acompanhar at a 
porta.
       Ela o ouviu descer o hall acarpetado, depois de um momento de silncio, sabia que tinha chegado s escadas e finalmente ouviu o rudo de seus sapatos no mrmore 
de baixo, e ele gritou "Boa noite" pela ltima vez antes de fechar a porta.
       
8
       
       Bettina seguiu a mulher at o andar de cima, sorrindo gentilmente, abrindo portas de armrios e ficando perto enquanto a corretora exaltava as qualidades 
do apartamento e mencionava de passagem suas falhas. Bettina no precisava estar presente para essa apresentao, mas queria estar. Queria saber o que falavam de 
seu lar.
       Finalmente acabou, aps quase uma hora, e Naomi Liebson, que j estivera l trs vezes naquele ms, se preparava para sair. Houve outras visitas, com outros 
corretores, mas at agora esta cliente parecia a mais interessada.
       - Eeeuuu no sei, querida. Euuu no estou realmente, realmente segura.
       Bettina tentou sorrir, mas a graa de mostrar o apartamento j estava se esgotando. Era muito cansativo acompanhar pela casa este batalho de possveis compradores, 
diariamente. E no havia ningum para ajud-la a aliviar a tenso. No estava na Europa a negcios h trs semanas. Houve uma conferncia internacional na China e 
como era a primeira do gnero, ele teve que ir. E depois disso, tinha negcios marcados na Europa: Bruxelas, Amsterdam, Roma, Milo, Londres, Glasgow, Berlim e Paris. 
       Seria uma longa viagem. Parecia que ele partira h anos.
       - Srta. Daniels?
       A corretora teve que tir-la de seus pensamentos com um toque no brao.
       - Desculpe-me, eu estava longe... Tem mais alguma coisa? Naomi Liebson havia entrado na cozinha outra vez, tentando imaginar como ficaria se ela derrubasse 
duas paredes. Pelo jeito que falava, iria revirar o lugar todo, no andar de cima e de baixo. Isso fez Bettina pensar em por que aquela senhora no comprava alguma 
coisa mais do seu agrado, mas aparentemente fazia isso para se divertir. Realizara mutilaes semelhantes em cinco apartamentos de condomnio em alguns anos e os 
revendeu com um enorme lucro. Talvez no fosse to louca, afinal. Bettina olhou com curiosidade para a corretora e sorriu,
       - Acha que ela vai comprar? 
       A moa deu de ombros.
       - No sei. Estou trazendo mais duas pessoas ainda hoje. Mas no acho que sejam as pessoas para este tipo de apartamento.  muito grande para uns, o casal 
 mais velho e aqui tem muitas escadas.
       - Ento por que traz-los?
       Bettina olhou para ela cansada, parando de forar o sorriso. Mas no conseguiu resistir a perguntar. Por que eles vinham? Alguns queriam mais quartos, velhos 
que no queriam escadas, famlias grandes que precisavam de mais quartos de empregados. Havia pessoas para as quais o apartamento nunca seria adequado, mas os corretores 
continuavam a traz-los aos montes, mostrando o apartamento quando este parecia adequado somente para uns poucos. Era um monstruoso desperdcio de tempo, mas tudo 
fazia parte do jogo.
       Mas tambm,  claro, era o apartamento de Justin Daniels, o que j era emocionante... Por que estariam vendendo?... Diversas vezes Bettina ouviu sussurros. 
Depois a resposta. "Ele morreu e deixou a filha na misria." Na primeira vez que ouviu isso, encolheu-se de vergonha e lgrimas de indignao escorreram de seus 
olhos. 
       Como podiam dizer isso? Como ousavam? Mas podiam e ousavam. J no se importava mais. S queria vender o apartamento e sair fora. No tinha razo, era muito 
grande, muito solitrio e de vez em quando ela sentia medo. Mas o pior  que no podia mant-lo, e a cada ms, quando o condomnio vencia, tremia ao exaurir suas 
minguadas economias ainda mais. J era tempo de algum compr-lo. Naomi Liebson ou quem quer que fosse.
       Todas as outras casas foram vendidas antes de primeiro de janeiro. Teve uma sorte incrvel com a casa de Beverly Hills poucas semanas antes. Um rapaz do Oriente 
Mdio comprou-a com porteiras fechadas, com tapetes, cmodas, espelhos do sculo XVIII, pinturas modernas e tudo. Aquela casa sempre fora uma mistura estranha entre 
o muito exibicionista e o muito refinado e Bettina no gostava tanto de l quanto gostava do apartamento de Nova York. Quase nem doeu assinar os papis... Tudo que 
restava fora do pas era o apartamento de Londres, mas, segundo Ivo, j estava quase vazio. No ligou para Bettina de l. O procurador de Justin em Londres tinha 
algum em vista para comprar o lugar. Avisaria a ela at o final da semana. Sobrava apenas o da Quinta Avenida para ser vendido. E este no pareceria o mesmo em 
duas semanas.
       Suspirou outra vez ao lembrar do leilo. Conseguiram uma data mais prxima como favor a ela. E em dez dias, Parke-Bernet viria buscar tudo. Literalmente tudo! 
As trs semanas de ausncia de No ela passara inspecionando cada mesa, estante, cadeira. No final sabia que no poderia ficar com nada, apenas algumas lembranas, 
alguns pequenos objetos que no tinham valor algum, mas que significavam muito para ela.
       Alm disso, no haveria mais nada que fosse dela aps o leilo e esperava j ter vendido o apartamento. Acampar num apartamento vazio era mais do que podia 
suportar.
       A corretora olhou curiosamente para ela, enquanto ambas esperavam que a Sra. Liebson voltasse. No era comum o vendedor ajudar a mostrar o apartamento, mas 
Bettina no era mesmo uma menina comum.
       - Voc j achou alguma outra coisa?
       Ela olhou para Bettina com interesse. "Por Deus", pensou Naomi, "mesmo que Bettina estivesse quebrada, aps vender este palcio ela poderia comprar alguma 
coisa pequena e graciosa, talvez um estdio ou uma cobertura de quarto e sala de frente para o parque. No lhe custaria mais de cem mil dlares." Mas no sabia que 
cada centavo da venda do apartamento, alm de todo o lucro do leilo, seria necessrio para saldar as dvidas do pai.
       - Ainda estou procurando. No quero comear antes de vender este.
       - Mas est errada. Voc sabe como  quando se vende. Os compradores se arrastam para decidir por trs semanas e de repente compram e querem que voc saia 
da noite para o dia.
       Bettina tentou sorrir, mas no conseguiu. Ela pretendia mudar-se para o hotel Barbizon para moas, que ficava na esquina de Lexington Avenue com a Rua 63. 
Lia diariamente o New York Times e,  claro, o New York Mail e esperava encontrar um lugar para alugar em questo de dias ou talvez semanas. Ela pensava at mesmo 
em dividir com algum se fosse o caso. E depois disso procuraria um emprego. Decidira no discutir mais o assunto com Ivo. Ele iria certamente coloc-la num escritrio 
chique, pagando um salrio que ela no merecia e no queria. Ela queria ganhar o prprio sustento. Tinha de encontrar um emprego de verdade. Esta perspectiva j 
lhe era bastante extenuante. Nesse nterim, a Sra. Liebson voltou.
       - Eu nem sei o que vou fazer com esta cozinha, meu bem, est um horror.
       Olhou repreensivamente para Bettina enquanto tentava manter um sorriso. Olhou ento para a corretora e acenou com a cabea e, mal dizendo um adeus, elas se 
foram. 
       Por um momento Bettina ficou imvel, odiando-as, e fechou vagarosamente a porta. Nem queria saber se a mulher compraria ou no o apartamento. No queria mesmo 
que ela ficasse com ele. No queria que ela tocasse na cozinha ou qualquer outro cmodo. Era sua casa, e de seu pai. No pertencia a mais ningum. Calmamente, sentou-se 
na penumbra do inverno, olhando em volta e depois fixando-se nos tacos primorosamente decorados. 
       Como ele pde fazer isso com ela? Como pde deix-la no meio desta baguna? Ser que ele no sabia o que estava fazendo? No poderia prever? O ressentimento 
contra o pai aflorou em sua garganta como blis e ela deixou as lgrimas escorrerem. Eram lgrimas de raiva e exausto e seus ombros comearam a tremer enquanto 
ela escondia o rosto com as mos e comeava a soluar. Parecia que haviam se passado horas quando finalmente ouviu o telefone. Deixou que tocasse por algum tempo, 
mas era persistente e, afinal, levantou-se e foi at o pequeno mvel no vestbulo onde ficava o aparelho. J estava se acostumando a ter que atender o telefone diretamente, 
no importando o quanto se sentisse mal. Longe estavam os dias de glria, pensou ela, enquanto secava os olhos com um leno.
       - Al? - Bettina? 
       - Sim!
       Ela mal podia ouvir a abafada voz masculina.
       - Voc est bem, querida?  Ivo. Estou ligando numa hora boa? 
       Seu rosto iluminou-se ao ouvi-lo e rapidamente secou as lgrimas que recomeavam a cair.
       - Oh, claro que .
       - O qu? No posso ouvi-la, querida. Fale mais alto. Voc est bem?
       - Estou, sim.
       Mas tinha vontade de contar-lhe a verdade, tudo... No, estou sozinha, sentindo-me pssima... Em algumas semanas no terei mais um lar.
       - O que est acontecendo com o apartamento? Conseguiu vende-lo?
       - Ainda no.
       - Tudo bem. Mas vendemos o de Londres. Fechamos o contrato esta noite. - Ele disse os nmeros. Eram suficientes para baixar bem o montante da dvida.
       - Isto deve ajudar. Como est a sua viagem? 
       - Parece interminvel.
       Ela sorriu.
       - Parece mesmo. Quando voc volta para casa? No havia percebido quo ansiosa estava em rev-lo.
       - No sei. Eu deveria ter voltado alguns dias atrs, mas me prendi com novos assuntos por aqui. Talvez tenha que demorar mais um pouco.
       Sentiu que estava fazendo um bico, mas no ligava a mnima se parecesse com uma menininha. Podia agir assim com ele. Ele entendia. 
       - Quanto tempo?
       - Bem - ele pareceu gaguejar. - Acabei de me comprometer por mais duas semanas.
       - Oh, Ivo! - Ele havia partido dois dias depois da comemorao de ano-novo. - Isto  horrvel!
       - Eu sei, eu sei. Me desculpe. Prometo me redimir quando voltar.
       - Voc vai chegar a tempo para a grande venda? 
       - Que venda?
       - O leilo.
       - Quando vai ser? Pensei que no seria to cedo.
       - Eles anteciparam para me ajudar. Ser daqui a duas semanas. Sexta e sbado. Sero s das coisas do papai. Tudo.
       - E voc, pelo amor de Deus? Vai sair pelo mundo com uma mala e um nome?
       Finalmente ela sorriu.
       - De jeito nenhum. Voc no viu meus armrios. Vou levar mais do que uma mala.
       - No pode se desfazer de tudo. Que diabos vai fazer, dormir no cho?
       - J cuidei disso, e posso alugar uma cama. Ou fao tudo agora ou espero mais um ano para que Parke-Bernet tenha outra data para programar o leilo. E a? 
Se eu conseguir vender este apartamento, terei que pagar um depsito para guardar os mveis... No se preocupe, Ivo,  muito complicado. Tem que ser assim.
       - Por favor, Bettina, gostaria que voc esperasse eu voltar para casa antes de se meter em tudo isso.
       Sua voz parecia perturbada e ela olhava para o quarto com desnimo. No no podia fazer muito para impedi-la a uma distncia de cinco mil quilmetros e na 
verdade ela estava certa em fazer o que pretendia. Apenas odiava ter que passar por tudo sozinha. Toda a sua vida, na verdade, Bettina enfrentou os momentos de dificuldade 
sozinha.
       - De qualquer maneira, no se preocupe com isso, Ivo. Est tudo sob controle. Apenas sinto uma falta louca de sua presena.
       - Eu volto logo. - Ele checou em seu calendrio e lhe deu a data precisa.
       - A que hora?
       - Eu pego o vo que sai de Paris s sete da manh e que deve chegar em Nova York s nove, hora local. Estarei na cidade s dez horas. Ela queria fazer-lhe 
uma surpresa e esper-lo no aeroporto, mas lembrou-se de que no poderia de jeito nenhum.
       - Por qu?
       - Deixa pra l.  o dia do leilo. 
       - A que hora comea?
       - As dez da manh.
       Ele fez uma anotao em sua agenda.
       - Te encontro l.
       E, de repente, Bettina estava sorrindo. Diferente de seu pai, No nunca a deixava na mo.
       - Voc tem certeza de que d para fazer isso? No tem que ir trabalhar?
       E esta foi a vez dele sorrir.
       - Depois de cinco semanas, um dia no faz diferena. Vou chegar o mais cedo possvel. E te ligo antes disso, pequenina. Est mesmo tudo bem com voc?
       Mas como ela podia estar com corretores vasculhando todo o seu apartamento e com todos os seus pertences prontos para serem vendidos?
       - Estou bem, juro.
       - No gosto que esteja a sozinha. 
       - Eu lhe disse, estou bem.
       Falaram por mais alguns minutos e ele teve que desligar. 
       - Eu te ligo, Bettina.
       Houve uma estranha pausa em sua voz ao hesitar e o corao de Bettina tremeu.
       - Sim?
       - Deixa pra l, pequenina. Se cuide.
       Na manh seguinte, o telefone tocou antes que Bettina tivesse acordado. Era a corretora. Cinco minutos depois estava sentada na cama com um olhar de desnimo.
       - Puxa vida, estas so boas notcias.
       A corretora falou com ela claramente irritada, e Bettina concordou. Eram boas notcias. Mas ainda era um choque. Acabara de perder seu lar. Por um bom preo, 
mas ela o perdera. O momento havia chegado.
       - Eu acho que sim.  que... eu no... no esperei que acontecesse to rpido...
       No encontrava palavras para responder e subitamente sentiu dio da mulher do Texas. Estava comprando o apartamento e por um valor que deveria fazer Bettina 
pular de alegria, mas no sentia vontade de pular. A corretora continuava falando enquanto os olhos de Bettina encheram-se de lgrimas.
       - Devo dizer que podemos assinar o contrato daqui a duas semanas? Isto vai dar a ambas duas semanas inteiras para se prepararem. Depois de tudo combinado, 
Bettina desligou, sentando em silncio no seu quarto, olhando em volta como se fosse a ltima vez.
       Ela passou a semana seguinte arrumando as malas e parando para secar as lgrimas. Finalmente na quarta-feira vieram buscar as inmeras preciosidades para 
lev-las para os benditos sales de Parke-Bernet. Foi no mesmo dia em que ela esteve com seus advogados fechando o contrato da venda do apartamento. Nem se deu ao 
trabalho de alugar uma cama. Descobriu um saco de dormir e dormiu no cho de seu quarto. Seriam apenas trs noites. Ela podia ter ido para o hotel mais cedo, mas 
no quis. 
       Queria ficar l at o final.
       
9
       
       No dia do leilo, Bettina acordou cedo. Comeou a se mexer assim que a primeira luz do dia cruzou o quarto. J nem se preocupava em fechar as cortinas. Gostava 
de acordar cedo e sentar-se no grosso carpete, tomando seu caf.
       Mas nesta manh, estava nervosa demais para tomar caf e caminhou pela casa como um gato, descala e de camisola. Se fechasse os olhos ainda podia ver como 
esteve o apartamento at a semana anterior. Com os olhos abertos, o apartamento estava estranhamente rido e o cho de taco estava frio. Voltou para seu quarto pouco 
depois das sete e remexeu seu armrio por quase uma hora. Este no era um dia para blue jeans. Ela no ia vestir roupas de trabalho ou se esconder na ltima fila. 
Ia entrar no salo com orgulho e coma cabea em p. Por esta ltima vez ela seria vista como a filha de Justin Daniels e estaria fabulosa. Como se nada tivesse mudado.
       Finalmente descobriu um lindo conjunto Dior de veludo preto com ombreiras, cintura marcada e uma longa saia justa. Seu cabelo pareceria uma chama sobre uma 
vela negra. E ainda uma jaqueta abotoada at o pescoo fazendo uma gola chinesa. No precisaria de blusa. Vestiria seu mink por cima e calaria os sapatos Dior de 
salto alto. Tomou seu banho no banheiro de mrmore rosa pela ltima vez e saiu cheirando a gardnias e rosas. Escovou os cabelos at que brilhassem como mel escurecido, 
maquiou-se um pouco e vestiu-se com calma. Quando se colocou frente ao espelho, teve orgulho do que viu. Ningum adivinharia que ela era uma garota de apenas dezenove 
anos que acabara de perder tudo o que tinha.
       O salo do leilo j estava cheio de gente, com filas e filas de negociantes, colecionadores, curiosos, compradores e velhos amigos. Todas as conversas pararam 
quando ela entrou na sala. Dois homens pularam  sua frente e tiraram sua fotografia, mas Bettina nem vacilou. Andou majestosamente para uma das primeiras filas, 
quase em frente do leiloeiro e colocou o mink nas costas da cadeira. Seus olhos no sorriam e ela nem tomou conhecimento dos que tentavam chamar sua ateno. Estava 
uma linda viso em preto, com seu cabelo cor de cobre e a nica jia que usava era um longo colar de prolas perfeitas que fora de sua me. Usava brincos combinando 
e nas mos, apenas um anel de nix e prola. A nica coisa que no havia vendido nestes trs meses, desde a morte de seu pai, foram as jias. No havia lhe assegurado 
que ela poderia ficar com elas, e apesar disso saldar todas as dvidas do pai, e ele estava certo.
       O palco estava diretamente  sua frente, de onde ela sabia que poderia ver os objetos familiares aparecerem ao serem leiloados. Nos cantos e ao longo da sala 
j podia ver algumas peas, aquelas que eram muito grandes para serem carregadas para o palco e depois de volta para o cho.
       Cmodas altas, aparadores enormes, sua estante, e dois relgios carrilhes bem grandes. A maioria era Lus XV, alguns Lus XVI, alguns ingleses, mas todos 
raros e muitos assinados, e seria o que o catlogo definia como uma venda "importante", o que era bem adequado, pensou Bettina, porque Justin Daniels fora um homem 
importante. 
       Sentiu-se tambm importante ao sentar-se l, porque esta era a ltima vez que estaria em algum lugar como sua filha e no apenas como Bettina.
       O leilo comeou exatamente sete minutos depois das dez e No ainda no havia chegado. Bettina olhou para o relgio Cartier simples que usava no pulso esquerdo 
e depois deixou seus olhos vagarem de volta ao pdio, ao leiloeiro e para a grande arca Lus XV com mrmore por cima, que acabara de ser vendida por 22.500 dlares. 
       A plataforma circular, no palco, girou vagarosamente e revelou outro artigo familiar. Era o grande espelho ornamentado do sculo XVIII que ficava no hall 
de entrada.
       - As ofertas podem comear a dois mil e quinhentos... dois mil e quinhentos... trs mil! J tenho trs mil... quatro... cinco... seis... sete... sete e quinhentos 
ali  esquerda... oito!... nove, na frente da sala... nove e quinhentos... dez!, l no fundo... dez... dez... ser que tenho onze?... onze e quinhentos... e doze! 
doze aqui na frente!
       E, com isso, bateu o martelo. Tudo terminara em menos de um minuto, na velocidade de um raio, e tudo acontecia de forma quase invisvel. Dedos quase no se 
mexiam, as mos eram levantadas discretamente, valiam gestos de cabea, sinais de olhos e o mais leve gesto com uma caneta. Os auxiliares eram treinados para verem 
tudo isto e avisar rapidamente ao leiloeiro, mas era raro o espectador ver quem estava fazendo a oferta. Bettina no fazia idia de quem comprara o espelho antigo. 
Fez uma anotao em seu catlogo e recostou-se para ver qual era o prximo artigo.
       Eram as duas bergres estofadas com uma delicada seda caf-com-leite que ficavam no quarto de seu pai. Havia tambm uma chaise longue que combinava e que 
era o prximo artigo do catlogo. Bettina, com sua caneta pronta e esperando que as ofertas comeassem, sentiu algum sentar-se na cadeira vazia ao seu lado. Ento, 
ouviu uma foz familiar em seus ouvidos.
       - Voc as quer?
       Seus olhos pareciam cansados e sua voz, severa. Ao virar-se para ver Ivo, o ar de funeral que possua minutos antes desapareceu. Colocou os braos em volta 
de seu pescoo, e por um momento, o abraou intensamente. O rosto de No iluminou-se com um sorriso. Ela se afastou um pouco e sussurrou em seus ouvidos:
       - Bem-vindo ao lar, estranho. Estou to feliz que tenha vindo! Ele acenou com a cabea e com ar srio repetiu a primeira pergunta.
       A oferta j estava em nove mil e quinhentos. 
       - Voc as quer?
       Mas ela apenas negou com a cabea. E depois, inclinando-se para ela mais uma vez, No pegou sua mo, gentilmente.
       - Quero que voc me diga o que quer de tudo isso. Qualquer coisa que tiver algum significado para voc, me diga. Eu compro e guardo no meu apartamento. Voc 
pode me pagar depois, se quiser, e eu no ligo se isto significar vinte anos... - e sorriu, inclinando-se para ela - ... se eu ainda estiver por aqui para receber, 
o que eu duvido.
       Ele sabia como Bettina era orgulhosa, por isso teve que fazer a oferta como fez.
       Ela sussurrou novamente aps venderem as duas cadeiras por treze mil e quinhentos.
       -  bom que esteja, viu?
       - Aos oitenta e dois? Pelo amor de Deus, Bettina, isto no. 
       Olharam-se como se estivessem juntos todos os dias durante um ms. Era difcil de pensar que ele esteve fora por cinco semanas.
       - Voc est bem?
       Ela concordou com a cabea.
       - Estou bem. Voc est cansado da viagem?
       O casal sentado  frente reclamou do falatrio, mas No os olhou de forma malfica e voltou-se para Bettina com um jeito cansado. 
       - Foi um longo vo. Mas eu no queria que estivesse aqui sozinha. Por quanto tempo isto vai durar hoje? O dia todo? - Ele rezava para que no fosse, pois 
precisava de algumas horas de sono.
       - S at o almoo. E amanh de manh e de tarde.
       No gesticulou com a cabea e virou-se para ver o que estava no palco. Bettina calara-se de forma estranha e ele apertou-lhe a mo. Era a escrivaninha de Justin.
       Inclinou-se silenciosamente para ela e falou mais uma vez em seus ouvidos.
       - Bettina!
       Mas ela balanou a cabea, olhando para o outro lado.
       - Sete mil... sete... oito?... sete e quinhentos... oito!... nove! Foi vendida por nove mil dlares, e Bettina pensou que para um colecionador deveria ser 
um bom preo. Mas para ela valia mais. Era a mesa onde seu pai trabalhara, onde escrevera seus ltimos dois livros, onde ela o vira mergulhar em manuscritos... Sua 
mente vagou dolorosamente para o passado, mas No a estava observando e ainda segurando sua mo com firmeza.
       - Relaxe, pequenina... ainda  sua!
       Ele falou com uma bondade infinita e ela olhou-o confusa. 
       - Eu no entendo.
       - E no precisa. Conversamos depois.
       - Voc a comprou? - Ela o olhou estupefata e por um momento, querendo rir.
       Ele concordou:
       - No fique to surpresa. 
       - Por nove mil dlares?
       Ela estava horrorizada e algum atrs dela pediu que abaixasse a voz. Milhares de dlares de ofertas estavam em jogo, e este no era momento para distrao 
na platia. 
       Era um grupo srio. Como jogadores, prestavam ateno ao que estavam fazendo e nada mais. Mas Bettina ainda encarava No com surpresa.
       - Ivo, voc no fez isso!
       Desta vez ela sussurrou mais suavemente e ele sorriu. 
       - Fiz!
       Olhou novamente para o palco e levantou a sobrancelha, de forma questionadora. Era outra escrivaninha. Ele inclinou-se para ela.
       - Onde estava aquilo?
       - No quarto de hspedes. Mas no  uma boa pea. No compre. Olhou-o com seriedade, pensando quantas peas ele pretendia comprar, e No a observava divertindo-se.
       - Obrigado pelo conselho.
       Aparentemente os colecionadores e negociantes concordavam com ela sobre esta pea. Foi vendida por apenas mil e oitocentos dlares. Ao padro do dia, era 
barato.
       As formalidades pareceram continuar por horas, mas Bettina no o deixou comprar mais nada. Finalmente acabara. Pelo menos por aquele dia. Faltavam cinco para 
meio-dia. 
       Levantaram-se junto com a multido que se preparava para sair segurando seus catlogos e discutindo as ofertas com os amigos. Ela percebeu que No a observava 
e isto a fez sentir um calor dentro do peito, ligeiramente desconfortvel.
       - O que est olhando?
       - Voc, pequenina. Porque  muito bom rev-la.
       Sua voz soava como palavras de veludo. Ela queria dizer que sentira sua falta, mas em vez disto, com um leve corar no rosto, abaixou a cabea.
       Enquanto a observava, percebeu uma sombra em seus olhos. "Qual seria o problema agora? J havia algo diferente nela." Novamente algo mudara enquanto esteve 
fora. 
       Mas desta vez ele no sabia o que era e no tinha certeza se gostaria de saber.
       - Voc vem para casa comigo, Bettina, para almoar? Ela hesitou por um momento e depois concordou.
       - Seria muito bom.
       No chamou o motorista, e logo seguiam em direo ao seu apartamento, doze quadras ao sul do de Bettina, na Park Avenue. Era confortvel, bem menos grandioso, 
mas cheio de coisas bonitas e atraentes. Havia grandes cadeiras de couro e sofs macios, pinturas com cenas de caadas e estantes repletas de livros raros. Havia 
muitos objetos de cobre perto da lareira e as janelas eram grandes, inundadas pela luz do sol. Era obviamente o apartamento de um homem, mas simptico, aconchegante 
e grande o bastante para mais de uma pessoa. Na parte de baixo havia uma sala de estar, a de jantar e a biblioteca. Na parte de cima, dois quartos e o estdio. Havia 
tambm uma espaosa cozinha revestida de madeira, no estilo country. 
       Atrs da cozinha, quartos para duas empregadas, mas ele mantinha apenas uma. Seu motorista morava em algum outro lugar e era, na verdade, empregado do jornal. 
Bettina sempre gostou de ir quele apartamento. Era como visitar algum em sua casa de campo ou ver um tio favorito em sua 'toca'. Tudo cheirava a tabaco, colnia 
e bom couro. Ela gostava da decorao, das texturas e dos aromas.
       Olhava em volta com a sensao de estar voltando para casa enquanto encaminhavam-se para a sala ensolarada. No observava Bettina e percebeu que o olhar de 
medo parecia ter desaparecido de seu rosto.
       -  bom estar aqui outra vez, Ivo. Eu sempre esqueo como  bonito o seu apartamento.
       -  porque no vem aqui tantas vezes quanto deveria. 
       - Voc no me convida.
       Estava brincando e feliz ao desabar em um dos sofs.
       - Se  apenas por isso que no vem aqui, vou convid-la com freqncia. - Ele sorriu, mas no podia evitar a montanha de cartas. - Oh, Deus! Olhe s para 
isso, Bettina...
       - Estava tentando no olhar. Me faz lembrar do papai quando voltava de viagem.
       - E isto no  nada. Tenho certeza de que no escritrio deve estar pior.
       Passou a mo pelos olhos e encaminhou-se para a cozinha. Mathilde parecia ter sumido misteriosamente. No pensou que ela o estaria esperando.
       - Onde est Mattie?
       Bettina leu seu pensamento. Ela a chamava assim desde que era uma menininha.
       - Eu no sei. Posso oferecer-lhe um sanduche? Estou esfomeado. Ela o olhou com jeito frgil.
       - Eu tambm. Estava to nervosa no leilo e agora, de repente, estou faminta. - Ento lembrou-se: - Por falar nisso, Ivo... e a escrivaninha? - Ela o olhou 
de forma acusadora, mas havia algo bem mais suave em seu olhar.
       - Que escrivaninha? - Ele parecia desinteressado ao entrarem na cozinha. - Espero que pelo menos tenha algo para comermos.
       - Conhecendo Mattie, deve ter o suficiente para um exrcito. Mas voc no me respondeu, Ivo. E a escrivaninha?
       - O que tem ela?  sua.
       - No,  de papai e agora, sua. Por que no fica com ela? Ele gostaria, e voc sabe disso.
       Ela o olhou com carinho e abriu a geladeira dando-lhe as costas. - No se preocupe com isso, voc pode escrever nela a sua pea. No vamos discutir. - Ainda 
era muito cedo para falar sobre o que ele tinha em mente.
       Bettina suspirou. Deixaria para outro dia aquela discusso. 
       - Por que no deixa que eu faa o almoo?
       Ele no pde resistir a passar a mo pelos cabelos de Bettina. Sua voz, muito grave, estava gentil.
       - Voc est bonita hoje, pequenina... nesse conjunto preto. Ela nada respondeu e passou por ele preparando-se para fazer o almoo. No no parou de olh-la 
e, quando ela se virou de costas, ele perguntou:
       - O que est acontecendo que voc no quer me contar, Bettina? Acho que alguma coisa te perturba.
       Sentiu-se um bobo em dizer isto. Cada pea de moblia do pai de Bettina estava sendo vendida num leilo e era natural que ela se sentisse perturbada. Mesmo 
assim lhe parecia que havia algo mais. Percebera algo mais doloroso em seus olhos.
       - Algo que no me contou? 
       - Vendi o apartamento. 
       - O qu? J?
       Bettina balanou a cabea sem dizer uma palavra. 
       - E quando vai entreg-lo?
       Bettina evitou seu olhar, tentando recuperar a respirao.
       - Amanh. Eu disse que sairia amanh  tarde. Est no contrato. 
       - E quem foi o idiota que deixou voc fazer isso? - Olhou para ela ameaadoramente e depois estendeu-lhe os braos. - No importa quem foi, posso adivinhar. 
Foi aquele advogado. Oh, Deus!
       Tudo que ela queria saber era que ele a abraava agora e no parecia que o mundo acabara.
       - Oh, querida... pobre menina... toda a moblia... o apartamento. Oh, Deus, voc deve estar se sentindo pssima.
       Ele a embalava suavemente e em seus braos ela se sentia segura. 
       - E estou, Ivo... e estou... eu sinto... - As lgrimas desceram. - Sinto como se... estivessem levando... tudo... como se no sobrasse... mais nada. S eu, 
sozinha no apartamento... tudo acabou. No h mais passado... e eu no tenho nada, Ivo... nada mesmo! Ela soluava, e ele a envolveu mais.
       - Ser diferente um dia, Bettina. Um dia, voc vai olhar para o passado e tudo vai parecer um sonho. Um sonho que aconteceu com outra pessoa. Vai passar, 
querida... vai passar...
       Ele desejava eliminar rapidamente aquela dor. J tomara uma deciso antes de partir para Londres, mas no sabia se era o momento certo para falar. Esperou 
at que se acalmasse antes de fazer-lhe alguma pergunta. Levou-a para a sala de estar e a sentou no sof perto dele.
       - O que voc vai fazer amanh, Bettina, quando voc se mudar? 
       Ela respirou fundo e olhou para ele:
       - Vou para um hotel. 
       - E esta noite?
       - Quero dormir l. 
       - Por qu?
       Ela comeou a dizer 'porque  meu lar', mas seria ridculo. Era apenas um apartamento vazio e no mais o lar de ningum.
       - Eu no sei. Talvez porque seja a ltima vez. 
       Ele a olhou com carinho.
       - Isso no faz muito sentido, no acha? Voc morou l e guardou todas as boas recordaes que ele tinha para dar. Agora est vazio, tudo se foi, como um tubo 
de pasta de dente acabado. No faz sentido mant-lo por mais um momento, no acha? - Fez uma pausa e olhou-a no fundo dos olhos. - Acho que faria muito mais sentido 
se voc se mudasse hoje.
       - Agora? - Ela pareceu surpresa e assustada como uma criana. - Esta noite?
       - Sim, esta noite. 
       - Por qu?
       - Confie em mim.
       - Mas eu nem fiz reserva... - suas mos tremiam.
       - Bettina, eu estava esperando para lhe pedir uma coisa: gostaria que voc viesse morar aqui.
       - Com voc?
       Ela parecia em pnico e ele sorriu.
       - No exatamente. No sou um aproveitador, querida. No quarto de hspedes. Que tal?
       Mas ela no entendeu nada. Subitamente sentia-se muito confusa. 
       - Eu no sei... acho que poderia... apenas por uma noite.
       - No. Gostaria que ficasse at resolver sua vida, at encontrar um bom lugar. Alguma coisa decente, e o emprego certo. Mattie tomaria conta de voc. E eu 
me sentiria muito melhor em saber que est segura aqui. No acho que seu pai teria alguma objeo. Na verdade, acho que ele esperaria isso de mim. Ento, o que me 
diz? Mas seus olhos se encheram de lgrimas.
       - No posso, Ivo. - Balanou a cabea e olhou em outra direo. - Voc est sendo muito bom para mim e eu nunca poderia retribuir. S por hoje... a escrivaninha... 
eu nunca poderia...
       - Shh... deixa pra l. - Tomou-a novamente em seus braos e alisou seu cabelo. - Est tudo bem. - Afastou-se um pouco e tentou faz-la sorrir. - Alm disso, 
se voc ficar chorando o tempo todo, eles vo expuls-la do hotel por fazer muito barulho.
       - Eu no fico chorando o tempo todo. - Fungou e aceitou o leno para limpar o nariz.
       - Eu sei disso. Na verdade, voc tem sido inacreditavelmente corajosa. O que eu no quero  que seja boba. Ir para um hotel seria bobagem. - E acrescentou 
com mais firmeza: - Bettina. Quero que fique aqui.  to ruim assim? Voc odiaria realmente ficar comigo?
       Tudo o que ela pde fazer foi balanar a cabea. No odiaria. Na verdade esta era uma das coisas que mais a assustava. Queria ficar l com ele. Talvez at 
demais.
       Por um momento hesitou, suspirou, e finalmente deixou que seus olhos encontrassem os dele. Ele tinha razo. Sua proposta fazia mais sentido do que ir para 
um hotel. 
       Se ao menos ela no se sentisse assim... se ele no fosse to atraente apesar da idade. Precisava ficar lembrando a si mesma que ele no tinha 45 ou 52... 
tinha 62... 62... e era o amigo mais querido de seu pai... era quase incesto... no podia permitir que se sentisse assim.
       - Bem? - Ele virou-se para olhar de onde estava, perto do bar, enquanto se repreendia pelo mesmo motivo que ela.
       - Eu ficarei - falou quase sufocando.
       Seus olhos se encontraram e eles sorriram. Era um final e um comeo, uma promessa, e o nascer de uma esperana. Para ambos.
       No sbado tudo j havia acabado. Foram ao apartamento pegar o resto dos pertences. Ela passou a noite no quarto de hspedes de Ivo, paparicada pela alegre 
e carinhosa Mathilde, que preparou o jantar para eles e, pela manh, trouxe o caf numa bandeja para Bettina. No estava feliz em poder lhe devolver o conforto. Devia 
ser um alvio aps a solido do apartamento vazio.
       - Eu disse para a Sra. Liebson que sairia antes das seis.
       Bettina olhou nervosamente para o relgio e No tocou-lhe o brao. 
       - No se preocupe, temos tempo.
       Ela deixara muito pouca coisa l, na noite anterior. O corao de No doera ao ver o saco de dormir aberto no cho do quarto. Agora faltavam apenas uma dzia 
de malas e duas ou trs caixas. Havia espao no quarto que servia de depsito em seu apartamento, e Mathilde j esvaziara dois armrios. Seria suficiente.
       O motorista de No estava  espera e os levou para a Quinta Avenida, chegando ao prdio de Bettina em poucos minutos. Ela saiu do carro correndo, No sempre 
atrs dela. Olhou para ele e perguntou:
       - Voc quer realmente subir?
       Logo ele entendeu o que se passava em sua mente. 
       - Quer ficar sozinha?
       Ela hesitou.
       - No tenho certeza. 
       - Ento eu vou.
       Dois porteiros foram chamados para ajudar e num instante estavam de p no vazio hall de entrada. No havia luzes acesas e estava escuro do lado de fora. No 
a observava olhando desolada para as salas. Olhou rapidamente para Ivo, e depois para os dois homens.
       - Est tudo no quarto da frente, no segundo andar. Eu j volto. Quero checar os cmodos.
       Desta vez No no a seguiu. Sabia que ela queria ficar sozinha. Os dois homens apressaram-se para subir e pegar as coisas, e No ficou no hall, ouvindo os passos 
de Bettina de sala em sala fingindo estar checando se alguma coisa fora esquecida ou deixada fora de lugar.
       Mas eram lembranas que estava procurando. Momentos com seu pai que queria sentir pela ltima vez.
       - Bettina? - chamou No suavemente.
       No ouvia o rudo de seus sapatos havia alguns minutos. Finalmente a encontrou de p no quarto de Justin, encolhida, banhada em lgrimas. Ele foi em sua direo 
e ela o abraou, murmurando baixinho: 
       - Nunca mais eu volto aqui.
       Parecia difcil de acreditar. Estava acabado. No a abraava carinhosamente.
       - No, pequenina, no volta. Mas haver outros lugares, outras pessoas que um dia significaro tanto para voc quanto tudo isto. Ela balanou a cabea.
       - Nada vai significar tanto, nunca.
       - Espero que esteja errada. Espero que existam outros homens que voc ame ao menos tanto quanto amava seu pai. - Sorriu para ela, gentilmente. - Ao menos 
um.
       Bettina no respondeu.
       - Ele no a deixou, pequenina, espero que saiba disso. Ele apenas seguiu seu caminho.
       Isto pareceu atingi-la, pois virou-se e deixou o quarto solenemente. No colocou os braos em seu ombro e a levou para a porta da frente, que ela fechou pela 
ltima vez, jogando a chave por baixo da porta.
       
10
       
       O sol brilhava atravs das janelas da sala de jantar e Mathilde colocava mais caf na xcara de Bettina, que estudava o jornal atentamente e de repente levantou 
o rosto, sorrindo.
       - Obrigada, Mattie.
       Um ms na casa de No fora reconfortante. Ajudara a curar algumas feridas. No tornara tudo fcil. Tinha um lindo quarto, trs refeies dirias da maravilhosa 
comida de Mattie. Todos os livros que queria ler. E encontravam-se  noite para irem a peras, concertos ou peas. No era muito diferente da vida que tinha com 
o pai, mas muito mais pacfica. No era menos excntrico e todos seus pensamentos pareciam se concentrar nela. Passara quase todas as noites a seu lado, saindo ou 
apenas ficando em casa, em volta da lareira, conversando durante horas. Aos domingos, jogavam palavras cruzadas do Times e saam para passeios no parque. Era maro, 
e a cidade ainda estava fria e cinza, mas de vez em quando o ar exalava o perfume da primavera.
       No olhou-a por cima de seu jornal, com um sorriso.
       - Voc est extremamente alegre esta manh, Bettina. Alguma razo especial, ou ainda pensando sobre a noite de ontem?
       Haviam ido  estria de uma pea de que os dois gostaram muito. Bettina falara apaixonadamente sobre ela no caminho de volta para casa. No garantiu que algum 
dia ela escreveria algo melhor. Agora ela sorria para ele, com a cabea inclinada para o lado. Esteve lendo o Backstage, um semanrio sobre teatro que comprava do 
outro lado da cidade. 
       - Tem um anncio aqui, Ivo. - Seus olhos estavam cheios de idias e No lhe deu total ateno. 
       - Que tipo de anncio?
       - Tem um novo grupo de teatro se formando, longe da Broadway. - Como longe da Broadway?
       No ficou desconfiado. Quando ela falou o endereo, ficou ainda mais.
       - No  um pouco longe demais?
       Era numa vizinhana sombria perto da Bowery, na regio mais pobre da cidade, um lugar aonde Bettina nunca fora.
       - Que diferena faz? Esto procurando pessoas, atores, atrizes e pessoal tcnico, todos amadores. Talvez possam me dar uma chance. - E fazendo o qu?
       Ele sentiu um pavor percorrer sua espinha. Tinha medo de que algo assim acontecesse. Mais de uma vez oferecera um emprego no jornal, coisa boa, decente e 
com salrio ligeiramente mais alto. Ela sempre recusara. Na ltima vez, com tanta veemncia, que ele no ousaria oferecer novamente.
       - Talvez eu pudesse conseguir alguma coisa tcnica, ajudando a construir o cenrio, abrindo as cortinas. Qualquer coisa, sei l. Seria uma tima oportunidade 
de saber como funciona o lado de trs do palco... voc sabe, para quando eu escrever minha pea.
       Por um instante ele quase riu. Ela era to incrivelmente infantil, s vezes.
       - Voc no acha que aprenderia mais apenas indo assistir a peas de sucesso da Broadway, como ontem  noite?
       - Mas  diferente. No me mostra como as peas so montadas por trs das cortinas.
       - E voc acha que deve aprender isso?
       Ele estava blefando e ela sabia. Sorriu-lhe gentilmente.
       - Sim, Ivo, eu acho. - E ento, sem dizer mais nada, foi at o telefone do estdio, do outro lado do corredor, com o jornal em suas mos. Voltou cinco minutos 
depois, exultante. - Disseram para ir l hoje s trs horas.
       No recostou-se na cadeira com um suspiro desanimado.
       - Estarei em casa para o almoo. Voc pode levar o carro.
       - Para este teatro? Voc est louco? Nunca vo me contratar se eu aparecer numa limusine.
       - Eu no ficaria muito triste com isso, Bettina.
       - No seja bobo. - Ela abaixou-se para beijar-lhe a testa e fazer um carinho em seu cabelo. - Voc se preocupa muito; estarei bem. E quem sabe eu consigo 
um emprego?
       - E a? Vai trabalhar naquele lugar horrvel? Como pretende chegar l todo dia?
       - De metr, como todas as pessoas que trabalham na cidade. 
       - Bettina... - Ele parecia quase ameaador, s que por trs da ameaa havia medo. Medo do que ela estava fazendo, de onde estava indo e do que isto podia 
significar para ele.
       - Ivo... - Balanou o dedo para ele, jogou-lhe um beijo e desapareceu dentro da cozinha para dizer alguma coisa a Mathilde. Sentindo-se muito velho, No dobrou 
seu jornal, gritou um at logo e saiu para o trabalho.
       s duas e meia da tarde, Bettina encaminhou-se para o metr-e ficou esperando, no frio mido, o trem chegar. O trem cheirava mal, todo pichado e semi-vazio. 
Os nicos outros passageiros pareciam ser velhas com cabelos no queixo, meias elsticas grossas e bolsas de compras cheias de artigos misteriosos, que pareciam pesar 
como pedras em seus ombros frgeis. Havia alguns adolescentes passeando e, aqui e ali, um homem dormindo com o rosto escondido na gola do casaco. Bettina sorriu 
ao pensar no que No diria. Mas ele teria dito muito mais se visse onde ela parou. Era um prdio em runas que havia sido um teatro h uns vinte anos. Neste meio 
tempo, ficou quase sempre vazio; abrigou algumas aventuras pornogrficas sem sucesso e uma vez fora transformado em igreja. Agora estava arrumado para voltar a ser 
teatro, mas sem muito estilo. O grupo no gastaria nada para melhorar o exterior do prdio, porque precisava de todos os centavos para montar as peas.
       Ao entrar no prdio, com os sentimentos confusos entre respeito, excitamento  medo, olhou em volta. No parecia ter ningum, e ela ouvia seus passos ecoando 
no cho de madeira vazio. Tudo parecia muito empoeirado e sentia um cheiro de sto.
       - Quem ?
       Um homem de blue jeans e camiseta estava olhando para ela, com cnicos olhos azuis e uma grande boca sensual. O cabelo saa de sua cabea numa profuso de 
cachos louros dando ao seu rosto uma suavidade que no correspondia com a dureza do olhar.
       - O que quer?
       - Eu... Eu vim... na verdade liguei de manh... eu... tinha um anncio no jornal... - Estava to nervosa que mal podia falar, mas respirou fundo e prosseguiu. 
- Meu nome  Bettina Daniels. Estou procurando emprego.
       Estendeu a mo quase como uma oferta, mas ele no correspondeu, mantendo suas mos nos bolsos da cala.
       - No sei com quem voc falou. No foi comigo; eu teria lhe dito que nem se preocupasse em vir, pois a equipe est completa. Contratamos a ltima atriz esta 
manh.
       - No sou uma atriz - disse ela radiante, e por um minuto o homem de cachos louros quase soltou uma gargalhada.
       - Pelo menos voc  a nica sincera sobre isso. Talvez devssemos ter contratado voc. De qualquer jeito, gatinha, sinto muito.
       Ele deu de ombros e comeou a se afastar.
       - No, espera a... na verdade, eu queria um emprego fazendo outra coisa qualquer.
       - Como o qu?
       Ele a olhou de cima a baixo com tamanha sem-cerimnia, que se Bettina no estivesse to ansiosa, lhe daria um tapa na cara.
       - Qualquer coisa... iluminao, cortinas... o que voc tiver. 
       - Tem alguma experincia?
       - No, no tenho. Mas tenho vontade de aprender.
       - Ento por que no vai procurar trabalho como secretria? 
       - Eu no quero isso. Quero trabalhar no teatro.
       - Por que  chique?
       Os olhos cnicos riam dela, que comeava a ficar irritada. 
       - No. Porque eu quero escrever uma pea.
       - Oh, no! Voc  uma dessas! Suponho que estudou em Radcliffe e agora pensa que vai ganhar o prmio Tony em um ano.
       - No. Abandonei a faculdade e tudo que quero  uma chance para trabalhar no teatro de verdade, s isso.
       Mas ela se sentiu vencida. Sabia que j havia perdido e que o cara a odiara. Dava para perceber.
       Ele a observou bastante tempo, at que, calmamente, aproximou-se.
       - Conhece alguma coisa sobre iluminao?
       - Um pouco. - Era uma mentira, mas estava desesperada. Sabia que era sua ltima chance.
       - Quanto?
       O olhar penetrava seus olhos. 
       - Bem pouco.
       - Em outras palavras, voc no sabe merda nenhuma. - Ela suspirou e concordou sem esperanas. - Est certo. Vamos treinar voc. Se voc no se tornar um estorvo, 
eu mesmo fao isso. - E de repente, num gesto inesperado, estendeu sua mo. - Sou o diretor de cena. Meu nome  Steve.
       Ela balanou a cabea sem ter certeza do que ele falava. 
       - Por Deus, relaxe. Voc fica com o emprego.
       - Fico? Cuidando das luzes?
       - Trabalhando na mesa de luz. Voc vai adorar.
       Mais tarde ela aprendeu que l era quente, cansativo, chato, um claustro. Mas naquele momento foram as melhores notcias que recebera.
       Sorriu, radiante:
       - Muito obrigada, mesmo.
       - No se preocupe com isso. Apenas voc foi a primeira que apareceu. Se voc for relaxada, vai pra rua. Sem nenhuma dvida. 
       - No serei.
       - Bom, ento  menos uma dor de cabea. Esteja aqui amanh. Vou lhe mostrar o lugar. No tenho tempo hoje. - Ao dizer isso, olhou no seu relgio. - , amanh. 
E quando comearmos a ensaiar, no fim da semana, gatinha, so sete dias de trabalho por semana.
       - Sete? - Tentou no demonstrar o susto. 
       - Voc tem filhos?
       Ela rapidamente negou com a cabea.
       - Bom. Ento no tem com que se preocupar. Seu velho pode vir ver a pea pela metade do preo. E se voc no se adaptar, no vai ter que se preocupar em trabalhar 
sete dias por semana. Certo? - Nada parecia perturb-lo. - Ah, ns no pagamos nada. Tem sorte de ter o emprego. Ns dividimos o lucro da venda dos ingressos.
       Bettina ficou novamente chocada. Teria que ter cuidado com os seis mil dlares que restavam.
       - Ento voc estar aqui amanh, certo, gatinha? Ela balanou a cabea obedientemente.
       - Bom. Se no vier, darei o emprego a outro. 
       - Obrigada.
       - De nada. - Ele zombava, mas havia algo suave em seus olhos. - No devia contar isto, mas comecei como voc.  uma merda. S que no incio eu queria ser 
ator, o que  pior.
       - E agora?
       - Quero ser um diretor.
       A camaradagem do teatro j superava a situao inicial. Estavam se tornando amigos.
       Bettina sorriu para ele, sentindo retornar seu antigo senso de humor.
       - Se voc for bom para mim, talvez eu o deixe dirigir minha pea. 
       - No venha com basbaquice. Agora, suma. Te vejo amanh. E depois, quando os saltos de suas botas j faziam barulho no cho rido: - Ei? Como  mesmo seu 
nome? 
       - Bettina.
       - Certo. - Ele acenou, virou-se distraidamente, e caminhou rpido pelo teatro em direo ao palco.
       Por um minuto Bettina ficou olhando para ele e depois correu de volta  luz do sol, soltando um grito de alegria. Conseguira o emprego!
       
11
       
       - Sempre esqueo que no preciso mais olhar os classificados. Bettina falou para No por sobre o jornal de domingo, com um sorriso. Era a primeira vez que 
tinha tempo de sentar-se e relaxar em trs semanas. Era domingo de manh, e eles acabavam de sentar em seus lugares preferidos, ao calor da lareira. A pea havia 
comeado, e Bettina tinha a tarde toda antes de ir para o teatro.
       - Voc gosta mesmo desse trabalho?
       Ele ainda estava perturbado. Detestava aquele bairro, a idia e o horrio. E tambm no gostava de ver suas olheiras. Bettina sempre chegava em casa to agitada 
que nunca ia deitar antes das trs.
       Mas ela o olhava com sinceridade agora, e No podia ver que era verdade o que dizia.
       - Ivo, eu o adoro. Na noite passada eu quase me senti como... - ela hesitou um pouco -... como papai com seus livros. Se vou escrever para teatro e criar 
uma pea decente, tenho que saber tudo sobre teatro. E esta  a nica forma verdadeira.
       - Acho que sim. Mas voc no poderia escrever apenas histrias, como seu pai? - Ele suspirou com um sorriso frio. - Me preocupo com voc voltando para casa 
 noite, vindo daquelas redondezas fedorentas altas horas da madrugada.
       - H muito movimento e estou segura. Nunca leva mais de um minuto para conseguir um txi. - Ela no ousava pegar o metr a essa hora.
       - Eu sei, mas - ergueu os braos - o que posso dizer?
       - Nada. Apenas deixe eu me divertir, porque  o que estou fazendo.
       - No posso discutir com qualquer coisa que a faa feliz. Estava escrito em seu rosto. Ele tinha que admitir isso.
       - No pode, Ivo. - Olhou de volta para o jornal, dessa vez mais pensativa. - Agora tudo que tenho a fazer  encontrar meu prprio apartamento.
       - J? Por que a pressa?
       Ela olhou para ele. Mostrava um olhar tranqilo. No queria se mudar, mas sabia que j era tempo.
       - Voc no est cansado de me ver por aqui? 
       No balanou a cabea, num gesto triste.
       - Nunca, Bettina. Voc sabe disto.
       O menor pensamento sobre sua partida o deprimia, mas ele entendia que no tinha o direito de se opor.
       Bettina no falou dos dois apartamentos que ia ver. Arriscaria deixa-los esperar at segunda-feira. Era bvio que sua independncia o aborrecia. Talvez ele 
ainda sentisse que devia algo a seu pai. Mas no podia brincar de bab para sempre. Ela ficara muito acomodada morando l. Definitivamente, era hora de sair. Seria 
melhor. 
       Do jeito que estava era muito fcil. At aprendeu a controlar o que sentia por ele. Agora eram amigos, companheiros, e nada mais. Entendeu que aquelas suas 
estranhas sensaes tinham que ser reprimidas.
       Saram para sua caminhada de domingo no parque, deixando o assunto da mudana para depois.
       Pararam um pouco para apreciar os nova-iorquinos rodopiarem em torno deles, patinando, correndo e andando de bicicleta, no Central Park. Ela sentou-se no 
cho e mostrou na grama um lugar para ele ao seu lado.
       - Sente aqui, Ivo. - E, um minuto depois: - Voc est chateado. Posso saber o que ?
       Mas ele no podia contar. Esta era a merda toda. Evitou seu olhar: 
       - Negcios.
       - Est mentindo. Agora diga a verdade.
       - Oh, Bettina... - fechou os olhos e suspirou - ... estou apenas cansado. E de vez em quando - abriu os olhos e sorriu - eu me sinto muito, muito velho.
       E depois, sem entender por que, prosseguiu:
       - Algumas coisas so reservadas para certas idades. Ter filhos, casar-se, ficar com cabelos brancos, apaixonar-se. E no importa quo normal esteja nossa 
vida, s vezes nos encontramos no tempo errado, na idade errada...
       Ela estava intrigada. De repente, ironizou:
       - Pode contar, Ivo. Voc est grvido. Agora me diga a verdade. Ele teve que rir enquanto ela gentilmente acariciava sua mo.
       - Est bem.  a sua mudana. No posso mais imaginar minha vida sem voc. No parece estranho? Voc me acostumou mal. Esqueci at de como era antes.
       - Eu tambm. - Ela brincava com a grama e falou um pouco mais alto que um sussurro: - Detesto ter que sair, mas  preciso.
       - Por qu?
       - Porque tenho que ser independente, tenho que crescer. Porque tenho que me sustentar. No posso viver na sua casa para sempre. No seria direito. E tambm 
no  muito adequado, eu acho.
       - E o que tornaria isso adequado? - ele estava forando. Queria que ela dissesse, mas pela primeira vez em tanto tempo, tinha medo. - Voc poderia me adotar.
       Ambos riram e ele voltou a olhar srio para ela.
       - Voc vai pensar que estou louco e talvez eu no devesse falar, mas quando eu estava na Europa tive uma idia que me pareceu esplndida. A princpio, achei 
que estava fora de mim. - Sorriu, tenso, e desviou o olhar. - Voc sabe o que eu ia fazer, Bettina?
       Falou quase para si mesmo e deitou-se na grama apoiando-se nos cotovelos, olhando para o cu.
       - Eu ia te pedir em casamento. Ia at insistir. Mas voc vivia no apartamento de Justin e as coisas eram diferentes. De repente voc se mudou para o meu e 
me senti como se estivesse nas minhas mos. No queria me aproveitar de voc. Eu no...
       Ele parou ao ouvi-la chorar e virou-se. Ela o olhava assustada. Sorriu suavemente e acariciou seu rosto molhado.
       - No fique to assustada, Bettina. Eu no fiz nada, no , sua boba? Pare de chorar.
       - Por que no?
       - Por que no, o qu? - Ele lhe deu o leno. - Por que no me pediu?
       - Fala srio? Porque voc nem fez vinte anos e eu tenho sessenta e dois. Esta no  uma boa razo? Eu nem devia estar falando estas coisas, mas  estranho, 
agora que voc planeja se mudar. Suponho que  porque no quero me afastar de voc. Quero poder lhe dizer tudo o que sinto e penso, como tenho feito nestas ltimas 
semanas, e quero que voc faa o mesmo.
       - Por que diabos no me pediu?
       Ela ficou de p, num pulo, e encarou-o enquanto ele permanecia deitado na grama, um tanto surpreso.
       - Para casar com voc? - Estava abismado. - Est louca? J lhe disse, sou muito velho, merda! - Irritado, ergueu o corpo para sentar-se.
       Ela sentou-se novamente ao seu lado, olhando-o inquiridora:
       - Voc ao menos podia ter me dado uma chance. No poderia perguntar como eu me sinto? No, estava to ocupado em me tratar como uma criana que tinha de tomar 
todas as decises sozinho. Eu o amo desde... desde... que droga, sempre. E voc me perguntou? No, Ivo... Ele sorria e, com um longo e apaixonado beijo, f-la calar-se. 
       - Voc est louca, Bettina?
       Agora ela sorria tambm.
       - Sim, estou. Estou louca por voc. Deus, voc no sabia? No podia adivinhar? Na noite de ano-novo, quando me beijou, tudo ficou esclarecido; mas voc se 
retraiu.
       - Est querendo dizer, Bettina, que me ama? Quero dizer, amor mesmo, no apenas amizade pelo velho amigo de seu pai?
       -  exatamente o que quero dizer. Eu te amo. Eu te amo... - Ficou de p e gritou para as rvores: - EU TE AMO!
       - Voc est louca! - falou sorrindo, e a puxou para se deitarem no cho.
       Suavemente, seus olhos se encontraram, e depois as mos.
       - Eu te amo... oh, querida, eu te amo... - At que suas bocas se encontraram.
       
12
       
       Entraram no apartamento na ponta dos ps, como dois ladres, mas Bettina no parava de rir baixinho enquanto No a ajudava com o casaco. Sussurrou para ela 
ao subirem as escadas ainda nas pontas dos ps:
       - Mattie disse que ia visitar uma prima em Connecticut. No vai chegar antes de anoitecer.
       - E que diferena isso faz? - Ela o olhou provocante com seus enormes olhos verdes.
       Subitamente, ele entendeu que no se importava mais que algum soubesse. Nem se sentia culpado. Tudo que sabia era que a desejava em desespero, com todo o 
seu ser e seu corpo. Somente quando chegaram ao quarto foi que ele caiu na realidade, e seu olhar se tornou suave. Ela estava perto da porta, olhando-o, com um jeito 
de criana, descala, de cala jeans e suter vermelho. 
       Aproximou-se com cuidado e pegou-a pela mo. Dirigiram-se a uma poltrona vermelha, onde ele se sentou, puxando-a para o seu colo. Lembrou-se das muitas ocasies 
em que a teve no colo, quando criana. - Bettina... querida...
       A voz era terna, as mos acariciaram-lhe o pescoo, e os lbios tambm. Mas ele se afastou bruscamente, olhando-a nos olhos.
       - Quero que me diga uma coisa, e tem que ser sincera. Voc j teve outro homem?
       Ela fez que no com a cabea, esboando um leve sorriso. 
       - No, mas est tudo bem, Ivo.
       Queria lhe dizer que no tinha medo. Que ela o desejava h tanto tempo, que cada momento de dor valeria a pena, e que depois da primeira vez, ela lhe daria 
prazer pelo resto da vida. Era tudo em que podia pensar. No que faria por ele.
       - Est com medo?
       Ela negou com a cabea. Ele ento, sorriu: 
       - Pois eu estou, bobinha.
       - Por qu?
       - No quero te machucar.
       - E no vai. Voc nunca me machucou.
       Ele concordou e segurou sua mo. Ento ela perguntou:
       - Ser que vou engravidar? - Mas no estava com medo; apenas pensando. Ouvira falar de garotas que engravidaram na primeira vez. Ele negou com a cabea sorrindo, 
surpreendendo-a:
       - No, querida, nunca. No posso ter filhos. Dei um jeito nisso h muito tempo.
       Ela concordou compreensiva, sem perguntar por qu. No ficou de p. Tomou-a nos braos como se fosse uma boneca e colocou-a sobre a cama. Depois comeou a 
despi-la devagar. O quarto escureceu com a chegada da noite. Seus olhos, seus lbios e seus dedos acariciavam-na,  medida que ele despia cada centmetro, at que 
finalmente estava nua, pequena e perfeita. 
       Ele desejava apertar seu corpo contra o dela e sentir o cetim de sua pele. Mas cobriu-a gentilmente com o lenol e virou-se para se despir. O quarto j estava 
totalmente escuro.
       - Ivo? - a voz era muito jovem e infantil. 
       - Sim?
       Mesmo no escuro ela podia sentir que ele sorria. 
       - Eu te amo!
       Ficou ainda mais excitado ao ouvi-la, e entrou sob as cobertas logo atrs dela.
       - Eu tambm te amo.
       Com cuidado, acariciou-a, as mos cobrindo todo o seu corpo, devagar, desejosas, suavemente, enquanto sentia-se tremer por inteiro. Aos poucos, virou-a para 
si e beijou-a longamente, na boca. Ivo queria que ela o desejasse tanto quanto ele, ou mais. Finalmente apertou seu corpo contra o dela. Bettina movia-se gemendo, 
agarrando-o, quase implorando, enquanto ele a segurava com firmeza, at que a penetrou, num movimento rpido, sentindo-a contrair-se, tensa, enquanto arranhava suas 
costas, e ele mergulhou mais e mais.
       No sabia que seria doloroso, mas queria lhe dizer o quanto a amava e, enquanto a abraava, repetia isso infinitas vezes, at que ambos ficaram imveis. Ele 
podia sentir o sangue quente de Bettina nos lenis, mas no se importava. Apenas a abraou mais forte, sentindo como tremia, segurando-a bem perto de si.
       - Eu te amo, querida... oh, Bettina, como eu te amo... com todo o meu ser.
       Mesmo no escuro, ela virou-se e mais uma vez ele a beijou, curtindo o momento e desejando deter a dor que ela sentia. 
       - Voc est bem?
       Ela concordou com a cabea, at que finalmente recobrou as foras. 
       - Oh, Ivo... - Ao sorrir para ele, s lgrimas rolaram.
       - Por que est chorando, pequenina?
       Havia tanto tempo que ele no fazia aquilo, que de repente receou t-la machucado. Olhou-a nos olhos, apreensivo. Mas ela sorria atravs das lgrimas.
       - Estava pensando no que estivemos perdendo este ms todo. 
       - Sua boba, eu te amo. - Ele tambm riu.
       Ainda havia uma pergunta a fazer, mas era muito cedo. Mesmo assim ele queria falar com ela, perguntar-lhe "e agora?". Ajeitou-se sobre o brao. Ao fazer isso, 
Bettina pensou em como ele parecia jovem. 
       - Isto significa que a senhorita no vai mais se mudar?
       Ela olhou-o travessa, deu de ombros e sorriu: 
       -  o que voc quer? Que eu fique aqui?
       Fez que sim com a cabea, sentindo-se realmente rejuvenescido. 
       - E voc? Quer ficar?
       Bettina recostou-se nos travesseiros, mais feliz do que nunca: 
       - Sim, quero ficar.
       Espreguiou-se confortavelmente na cama. No estava nem envergonhada. Expor seu corpo para ele era como abrir a outra parte de sua alma.
       - Sabe de uma coisa, Ivo? Acho que voc mente sobre sua idade. Acho que voc deve ter uns trinta e cinco e tinge seu cabelo de branco... porque, depois de 
hoje, ningum me convence que voc seja um velho. No olhou-a com seriedade:
       - Mas eu sou. Isto lhe incomoda? 
       - No ligo a mnima.
       - No agora. Um dia vai ligar. E quando isso acontecer, quando eu estiver muito velho para voc e quando voc quiser um homem mais novo, eu me afastarei. 
Quero que se lembre disso, querida. Porque falo srio, de corao. Quando seu tempo comigo estiver terminado, quando eu no for mais o homem certo para voc, quando 
quiser algum mais novo, uma vida diferente, filhos, eu vou embora. E vou compreender, pois te amo, mas vou embora.
       Os olhos de Bettina estavam cheios de lgrimas ao ouvi-lo. 
       - No, voc no vai.
       Ele no disse nada e tomou-a novamente nos braos. Sussurrou em seu ouvido:
       - Est muito machucada, querida?
       Ela negou com um movimento de cabea. Gentilmente, No abraou-a, e desta vez ela gemeu calma, havia prazer nos seus olhos. Enfim, ao deitarem lado a lado, 
felizes e esgotados, ele lembrou-se de uma coisa:
       - Espero que voc esteja entendendo que quero me casar com voc, Bettina.
       Ela olhou-o, surpresa. Seus cabelos estavam totalmente desalinhados, mas ela parecia linda e sonolenta. Havia algo muito apaixonante nos seus olhos.
       - Que bom, pois eu tambm quero. 
       - Sra. Stewart?
       Com um suave sorriso, ela deu-lhe um beijo e murmurou: 
       - A Terceira.
       No olhou-a espantado, abraando-a mais uma vez.
       
       - Voc est pronta?
       Ele bateu na porta e esperou do outro lado, mas Bettina estava em pnico, ainda de angua, nervosa e agitada.
       - No, no, espere.
       Mathilde correu at o armrio para pegar o vestido e vestiu-o em Bettina pela cabea, ajudando-a a ajeit-lo nos ombros, fechando ganchos, botes e o fecho-ecler 
que ia at em cima de forma imperceptvel. Era um vestido que Bettina comprara em Paris junto com seu pai, mas nunca o usara, e era perfeito para a ocasio.
       Afastou-se para olhar-se no espelho, e por sobre seu ombro esquerdo Mathilde sorria benevolente. Bettina estava linda naquele simples vestido de cetim creme. 
Caa longo at metade das pernas, tinha o colarinho alto e mangas curtas em forma de sino e uma jaqueta seguindo a mesma linha. Vestiu as pequenas luvas brancas, 
viu se usava os brincos de prolas e olhou para as meias cor-de-marfim e os sapatos de cetim. Tudo estava perfeito, e olhou para Mathilde com um sorriso.
       - Voc est linda, mademoiselle. 
       - Obrigada, Mathilde.
       Rapidamente deu um beijo na velha senhora e caminhou compenetrada at a porta. Hesitou por um momento, imaginando se ele ainda estava esperando.
       - Ivo?
       Quase sussurrou, mas ele a ouviu atravs da porta ainda fechada. 
       - Sim. Voc est pronta?
       - Estou. Mas voc no tem que esperar chegarmos l para me ver? 
       - E o que voc sugere? Tapar meus olhos no carro?
       A insistncia na tradio, apesar das circunstncias, o divertia. Na verdade, tudo que ela fazia naqueles dias o divertia. Era outra vez uma criana encantadora. 
       Estava livre de preocupaes e o desastroso inverno de tragdias havia, finalmente, terminado. Estava com ele agora, e uma nova vida a esperava, como sua 
mimada esposa.
       - Vamos, querida. No devemos nos atrasar. Que tal se eu fechar os olhos?
       - O.K. Esto fechados?
       - Sim. - Ele sorriu, sentindo-se um tolo, e fechou os olhos. Ouviu a porta abrir e um minuto depois sentia o seu perfume.
       - Posso abrir agora?
       Ela o fitou longamente e concordou:
       - Sim.
       Ele soltou um suspiro, imaginando por que o inverno de sua vida estava sendo to abenoado. Com que mrito?
       - Meu Deus, voc est linda! 
       - Gosta?
       - Voc est divina!
       - Ser que me pareo com uma noiva? 
       Ele concordou e abraou-a com carinho.
       - J pensou que daqui a uma hora ser a senhora No Stewart? O que lhe parece?
       - Maravilhoso. - Beijou-o novamente e afastou-se de seu abrao. 
       - Ah, isso me lembra... - Ele pegou um envelope verde que estava na cadeira do hall. - Para voc!
       Ela pegou o envelope de suas mos e o abriu. O perfume das flores do campo rapidamente encheu o ambiente.
       - Oh, Ivo, onde as conseguiu?
       Era um lindo buqu feito de rosas brancas e uma florzinha branca e delicada vinda da Frana.
       - Foram enviadas para mim de Paris. Voc gosta?
       Ela balanou a cabea alegremente e deu-lhe outro beijo. Mas ele a interrompeu e apresentou-lhe, orgulhoso, um pacotinho. Ela o abriu. No havia palavras 
suficientemente grandes para expressar a beleza do anel de diamantes de nove quilates, brilhando num fundo de veludo azul-escuro. 
       - Oh, Ivo. No sei o que dizer!
       - No diga nada, querida. Apenas use este anel e seja feliz e segura o resto de sua vida.
       A cerimnia terminou em minutos. As palavras foram ditas e os anis trocados. Bettina era agora a esposa de Ivo. Nem quis uma festa. Apesar de tudo, ainda 
estava de luto por seu pai. Jantaram no Lutce, numa mesa tranqila no fundo do salo, e depois foram danar. Bettina precisou ficar nas pontas dos ps para sussurrar:
       - Eu te amo, Ivo.
       Parecia to pequenina, to frgil, uma garotinha. Mas no era. Era uma mulher, agora. Totalmente dele. Para sempre.
       
13
       
       Com um jeito nervoso, Bettina colocou os brincos de brilhante e rapidamente passou uma escova no cabelo. Enrolou-o com habilidade nas mos e arrumou-o num 
recatado coque. O tom avermelhado brilhou mais aps escov-lo e, quando colocou o ltimo grampo, levantou-se. Seu corpo parecia mais estreito e magro com o vestido 
de renda preta que caa at os tornozelos, combinando com os sapatos pretos de cetim. Podia ver seu reflexo atravs do quarto de vestir, na parede de espelhos. No 
decorou o quarto especialmente para ela no apartamento novo que compraram, no primeiro aniversrio de casamento, cinco meses atrs. Era perfeito para o estilo de 
vida deles, um dplex com uma bela vista para o Central Park. Tinham uma bela varanda no quarto de dormir, cada um tinha seu quarto de vestir e havia um pequeno 
estdio para No no andar de cima. No andar de baixo ficavam a sala de estar, um salo revestido de madeira como sala de jantar, e a cozinha. Atrs dela havia um 
quarto, para Mathilde, de bom tamanho. Era perfeito. No muito grandioso nem pequeno. Bettina o arrumou como queria, a no ser pelos leves toques sugeridos por No 
como os quartos de vestir, uma sacada engraadinha e um balano antigo que ele prendeu num pedao fino do telhado. Brincou com ela dizendo que se sentariam ali, 
nas noites de vero, para "namorar no quintal".
       Mas era raro passarem uma noite de vero na cidade. O grupo de teatro para o qual ela trabalhava, agora como diretora de cena, melhorara sua reputao e mudara-se 
para um local mais decente. No funcionava nos meses de julho e agosto, quando ela e No iam para South Hampton, para a casa que compraram l. Novamente sua vida 
era como fora com seu pai, com a exceo de que estava mais feliz do que nunca.
       Trabalhava apenas cinco noites por semana, davam jantares elegantes para doze ou catorze pessoas ou passavam filmes em casa. No tinha acesso a todos os filmes 
novos. 
       De vez em quando ela conseguia ir a um ballet, uma noite de estria ou apenas um jantar no Lutce ou no Cte Basque. E, apesar de tudo isso, conseguiam passar 
algum tempo sozinhos, aps o teatro ou durante o dia, quando No conseguia escapar. Ele nunca se cansava de sua companhia e s vezes no queria dividi-la com ningum. 
Era generoso com seu tempo, sua afeio e seus elogios. Bettina sentia-se segura com seu amor. Estavam no ponto culminante de um longo sonho feliz.
       Sorriu para si mesma em seu delicado vestido de rendas pretas. Parecia envolv-la numa suave nuvem, e ela arrumou os babados da saia antes de passar o zper 
no pouco tecido que havia em suas costas. Deixava seus ombros, braos e costas nus, reduzindo a cintura a quase nada, subindo at o pescoo, onde se fechava num 
gancho. 
       Parecia aquele tipo de vestido no qual um ou dois fios puxados poderiam fazer um enorme estrago, mas no havia perigo porque o vestido era extremamente bem-feito. 
       Olhando novamente para os brincos de brilhante e checando o penteado, parecia ansiosa.
       - At que no est mal para uma velha senhora - falou para si mesma, sorrindo.
       - Nem que voc quisesse, meu amor.
       Ela virou-se surpresa. No tinha visto No olhando da porta. 
       - Intrometido, no o vi entrar.
       - No queria que visse. S queria saber como voc est, e est... - ele sorriu com jeito aprovador e inclinou-se para beij-la -... devastadoramente linda.
       Afastou-se um pouco para v-la melhor. Estava ainda mais bonita do que h um ano e meio.
       - Ansiosa, Bettina?
       Ela j ia dizer no, mas concordou com a cabea, rindo alto. - Um pouquinho, talvez.
       - E deveria estar, querida.
       Seria possvel que ela s tivesse vinte e um anos? Hoje era o dia de seu aniversrio. E enquanto a observava, puxou de seu bolso uma caixa de veludo azul-escuro. 
       Houve tantas ocasies como esta desde que se casaram. Ele a inundou de presentes e a mimou desde o dia que chegaram da lua-de-mel maravilhosa que tiveram 
em South Hampton.
       - Oh, Ivo... - Olhou para ele ao receber a caixinha de veludo. - O que mais voc pode me dar? J me deu tanto.
       - Vamos, abra a caixa.
       E quando abriu, ele riu de sua surpresa. - Oh, Ivo! No!
       - Oh, sim!
       Era uma gargantilha de prola e diamantes maravilhosa que ela admirara na Van Cleef's. Dissera a ele logo depois que se casaram, com um jeito de brincadeira 
e confidncia, que se conhecia uma pessoa real mente adulta pela gargantilha de prolas que possusse. Ele achou engraado, e ela descreveu todas as mulheres elegantes 
nas festas de seu pai que usaram gargantilhas de safiras, diamantes, rubis, mas apenas as realmente adultas tinham o bom gosto de usar de prolas. Como tudo que 
ela contava, ele no esqueceu mais. Aguardou impaciente pelo seu vigsimo primeiro aniversrio para presente-la. Escolheu uma valorizada pelos diamantes formando 
um fecho oval que poderia ser usado na frente ou nas costas. Enquanto ela tentava coloca-la, ele podia ver lgrimas se formando em seus olhos e, com um movimento 
rpido, ela o envolveu num forte abrao.
       - Est tudo bem, querida... feliz aniversrio, amor... - Virou o rosto dela em direo ao seu, e beijou-lhe com suavidade os lbios. Mas havia algo mais que 
gratido na atitude de Bettina.
       - Nunca me deixe, Ivo... nunca... eu no suportaria...
       No era pelas prolas ou diamantes, mas porque ele a compreendia, sempre a entendia e sempre estava l. Podia contar com ele. Mas o que mais a assustava era 
a possibilidade de algum dia ele no estar mais l. No podia nem pensar nisso. E se ele deixasse de ama-la? Ou se a deixasse sozinha como seu pai fizera? Ao olhar 
para Ivo, transmitiu-lhe seu pavor.
       - No que depender de mim, querida, nunca vou te deixa-. Nunca! E eles se encaminharam para a sala. Seu brao firme em volta dos ombros de Bettina. Alguns 
minutos depois, a campainha tocou anunciando os primeiros convidados. Mathilde estava sendo assessorada por um barman e dois mordomos alm do servio de buffet contratado 
para servir a comida. Bettina no tinha que fazer absolutamente nada. Tudo fora organizado por Ivo. Ela s precisava relaxar e divertir-se, pois era um dos convidados.
       - Ser que eu no deveria nem dar uma olhada na cozinha? - ela sussurrou-lhe ao se afastarem de um grupo de convidados.
       No segurou-a com firmeza e com um sorriso carinhoso: 
       - No, voc no deveria. Hoje eu a quero aqui, comigo. 
       - Assim seja, senhor.
       Curvou-se numa reverncia, e recebeu uns tapinhas no traseiro.
       - Engraadinha.
       - Voc acha?
       A vida sexual dos dois tambm no decrescera nos ltimos anos. Ela ainda o achava excitante e atraente, e passavam boa parte do tempo na cama.
        l estava ela, esplendorosa, com No a seu lado, uma ds mos com a taa de champanhe e a outra em sua gargantilha, reinando em seus domnios. Vivia agora 
uma nova realidade. Tornara-se mulher, amante e esposa.
       
14
       
       - Pronta para despedir-se desta noite, pequenina?
       No olhou para ela com gentileza enquanto rodavam pelo salo de dana uma ltima vez. Bettina concordou. Pela primeira vez as esmeraldas em suas orelhas brilhavam 
mais do que seus olhos. Ela parecia cansada e perturbada, apesar de brilhantemente elegante com seu sari verde e dourado e seus novos brincos de esmeralda, que combinavam 
perfeitamente com o anel que fora de sua me. No comprou-lhe os brincos no ltimo Natal e ela adorou.
       Ao voltarem para a mesa, todos os convidados levantaram-se e aplaudiram. Ela estava to acostumada ao som dos aplausos, que se sentia confortada por eles. 
Mas esta noite o aplauso no era para o grupo de teatro, mas para Ivo, que estava se aposentando finalmente, aps trinta e seis anos no jornal, vinte e um como chefe. 
Ele decidira, aps muita relutncia, terminar sua carreira aos sessenta e oito, e no estende-la at a aposentadoria obrigatria. Bettina ainda no havia se adaptado 
ao que estava acontecendo, e ele sabia que isso a perturbava mais do que ela podia admitir. Juntos, haviam partilhado, sem perturbaes e infinitamente felizes, 
seis invernos na cidade, veres no campo e viagens  Europa. Aos vinte e cinco anos ela gostava disso, e ele sempre a satisfazia, embora mandasse seu motorista esper-la 
na esquina do teatro. No no mais se curvava a todas as suas idias sobre independncia, mas ela mostrara ao grupo de teatro que era competente, e se preocupava 
menos com pequenas coisas. Alm do mais, era confortvel depender de Ivo. Ele fazia a vida ser mais fcil e to feliz...
       - Vamos, querida.
       Pegou-a gentilmente pela mo e guiou-a pela multido de amigos
       Que lhe desejavam boa sorte em seus smokings e vestidos de gala. Na verdade, ao olhar para eles, sentia-se gratificado com o toque da mo de Bettina. Estava 
abandonando tanta coisa, que se perguntava se no agia errado. Mas era muito tarde para voltar atrs. O novo editor j fora anunciado. No tornou-se o conselheiro 
principal do presidente. Era um ttulo ilustre, mas que na verdade tinha muito pouco poder. Seria apenas um velho respeitado. No caminho para casa, na limusine, 
sentiu a aproximao das lgrimas.
       J haviam feito planos cuidadosos. Bettina tirou frias de trs meses e eles partiriam no dia seguinte para o sul da Frana. No comprara passagens de navio. 
De repente, tinham todo o tempo do mundo.
       Passearam de carro de Paris at St. Jean-Cap-Ferrat, aps uma estada de duas semanas no Ritz, onde Bettina dizia, brincando, que no haviam feito nada alm 
de comer. 
       Cap-Ferrat era divino em setembro, e em outubro foram para Roma. Finalmente, em novembro, voltaram relutantes para os Estados Unidos. No ligou para todos 
os amigos e marcou almoos em seus lugares favoritos. Bettina voltou para The Players. As coisas iam bem para o grupo. timas crticas, muita platia e Bettina estava 
feliz com o seu trabalho. Steve j era o diretor, e ela fazia o antigo trabalho dele na direo de cena, para o qual havia finalmente conseguido seu registro profissional. 
A pea em cartaz era estreante, escrita por um desconhecido, mas lhe pareceu especial desde o comeo. Havia tenso, excitao e uma certa magia no ar.
       - O.K., acredito em voc - disse-lhe Ivo, brincando, quando ela lhe contou sobre a pea com olhos animados e vibrantes.
       - Voc vai assisti-la? 
       - Claro.
       No voltou para o seu jornal e seu caf da manh com um sorriso. Era raro, mas na noite anterior ele no esperou por ela. Tivera um longo dia. De vez em quando 
sua idade o pegava, mas, na maioria das coisas, nada havia mudado.
       - Quando voc vai?
       Ele olhou para ela com um sorriso desanimado. 
       - Quer parar de me pressionar, senhora Stewart? 
       Mas ela sorriu e balanou a cabea com determinao.
       - No! Esta  a melhor pea em que trabalhei.  brilhante, Ivo. E  exatamente o tipo de pea que quero escrever.
       - Est bem, est bem, eu vou. 
       - Promete?
       - Prometo. Posso ler meu jornal agora? 
       - Pode.
       Ao meio-dia, j estava ansiosa em voltar ao teatro. Esperou No vestir-se para o almoo no Clube de Imprensa e depois tomou seu banho, vestiu sua jeans e deixou-lhe 
um bilhete dizendo que tinha sado mais cedo e que o veria tarde naquela noite. Imaginou que ele no se importaria. Desde que voltaram da Europa andava muito cansado, 
e provavelmente seria bom ter um dia calmo. Alm disso, j estava acostumado aos seus loucos horrios de trabalho.
       Saiu do txi apressadamente e andou o resto do caminho cantarolando e sentindo o vento frio do inverno bater em seu cabelo. Ainda usava o cabelo longo para 
agradar Ivo, e hoje ele voava alm de seus ombros como belos fios de cobre.
       - Qual  a pressa, amorzinho, no pode se atrasar para o trabalho?
       Ao atravessar a rua perto do teatro, virou-se surpresa. A voz tinha sotaque britnico e era conhecida, e quando o viu, estava vestindo um grosso casaco de 
tweed e um bon vermelho. Era o astro de sua nova pea.
       - Oi, Anthony! Pensei em chegar cedo para acertar algumas coisas.
       - Eu tambm. E temos um ensaio s quatro e meia. Vo mudar a abertura do segundo ato.
       - Por qu?
       Ela o olhou com interesse enquanto chegavam ao teatro, e ele segurava a porta para ela.
       - No me pergunte - deu de ombros com jeito de menino. - Eu apenas trabalho aqui. No entendo por que escritores fazem todas estas mudanas e adaptaes. 
Eu diria que  parania. Mas assim  o teatro, amor.
       Esperou um pouco em frente ao seu camarim e olhou-a com um longo e amigvel sorriso. Era bem mais alto do que ela e tinha grandes olhos azuis e bonitos cabelos 
castanhos. 
       Havia algo encantador e inocente nele, provavelmente devido ao seu sotaque britnico e  luz de seus olhos.
       - Vai fazer alguma coisa hoje  noite?
       Olhou-o pensativamente e depois negou com a cabea.
       - Provavelmente no. Vou comer um sanduche aqui mesmo. 
       - Eu tambm.
       Ele fez uma careta e ambos sorriram.
       - Gostaria de se juntara mim? -Ele acenou de dentro do camarim.
       Depois de hesitar por um momento, ela concordou: 
       - O. K.
       - E o que mais?
       Ele a olhava com fascinao por cima do sanduche. Estiveram conversando por mais de meia hora, sentados nas cadeiras de lona do camarim.
       - Depois trabalhei para Raposa no galinheiro, Cidade pequena e deixa ver... - hesitou pensativa. - Ah, e Clavello.
       - Trabalhou nessa tambm? - Parecia impressionado. - Por Deus, Bett, voc trabalhou mais do que eu, que estou no ramo h dez anos.
       Ela o examinou com surpresa, enquanto ele ria de sua narrativa. 
       - Voc no parece to velho a ponto de estar no teatro h tanto tempo. Quantos anos tem?
       Ela no se envergonhava ao lhe fazer perguntas. Na ltima meia hora tornaram-se mais amigos. Ele era fcil de se lidar e bom de conversar, diferente dos outros 
que encontrara no mundo do teatro. Apesar da camaradagem, cimes sempre estragavam tudo. Mas raramente a atingiam. Era apenas diretora de cena. Mas nunca se cansava 
da magia que via no teatro todas as noites.
       - Vinte e seis. - Ele a olhou de forma encantadora. Um menino em roupa de homem fingindo estar numa pea.
       - H quanto tempo est nos Estados Unidos?
       - Desde que comearam os ensaios, h quatro meses. 
       - Gosta?
       Ela terminara o sanduche de presunto com pickles e passou a perna por cima do brao da cadeira.
       - Eu adoro. Daria minhas orelhas para poder ficar. 
       - E no pode?
       - Claro, mas com visto temporrio. Puxa vida,  to bagunado. Suponho que voc no sabe nada sobre a interminvel busca do todo-poderoso carto verde.
       - O que ?
       - Carto de visto de permanncia, autorizao para trabalhar, et cetera, et cetera. Valeriam uma fortuna se fosse possvel compr-los no mercado negro. Mas 
no .
       - O que deve ser feito para conseguir o carto?
       - Um pequeno milagre, eu acho. Nem sei,  tudo muito complicado. Nem pergunte. E voc?
       Ele mexeu seu caf e a olhou com seriedade por um momento. Ela ficou assustada, pois sentiu-se quase acariciada pelos seus olhos azuis. 
       - E eu o qu?
       - Ah, voc sabe. Estatsticas vitais, idade, posto, tamanho dos ps, voc usa suti?
       Bettina sorriu, surpresa, mas concordou:
       - T bem, vamos ver. Tenho vinte e cinco anos, uso sapato trinta e cinco e o resto no  de sua conta.
       - Casada? - Ele parecia interessado. 
       - Sou.
       - Droga!
       Anthony gesticulou indicando pesar, e ambos riram. 
       - H muito tempo?
       - Seis anos e meio. 
       - Filhos?
       Ela negou com a cabea. 
       - Deciso inteligente.
       - Voc no gosta de crianas?
       Ela pareceu surpresa, mas ele no era do tipo ligado a compromissos.
       - Eles no so a coisa mais maravilhosa que pode acontecer a uma carreira. Pequenos monstrinhos que s servem para nos atrapalhar. Isto a fazia lembrar-se 
do egocentrismo da maioria dos atores e tambm de seu pai. 
       Ele sorriu novamente para ela.
       - Bem, Bettina, estou muito sentido em saber que voc  casada, mas - assumiu uma expresso marota - no se esquea de me avisar quando se divorciar.
       Ao ouvir aquilo, ela levantou-se forando um sorriso.
       - Anthony Pearce, meu amigo, pode esperar sentado. - E, com um aceno, saiu pela porta. - Te vejo mais tarde, garoto.
       Bettina o viu mais tarde, naquela noite, ao sair do teatro, e ambos puxaram a gola do casaco para se protegerem do frio.
       - Por Deus, que frio! S Ele deve saber por que voc quer ficar nos Estados Unidos.
       - s vezes me pergunto isso tambm.
       Ela sorriu para ele novamente enquanto se encaminhavam para a esquina, tentando evitar as pedras de gelo.
       - Foi uma boa apresentao.
       - Obrigado. - Virou-se para ela e perguntou: - Quer uma carona? - Estava pronto para chamar um txi.
       Ela negou com a cabea. 
       - No, obrigada.
       Ele deu de ombros e seguiu, enquanto a via virar a esquina. L estava o carro de Ivo, esperando com o motor ligado, e ela sabia que estaria quentinho l dentro. 
       Olhou em volta rapidamente para ver se algum a vira, abriu a porta e entrou. Mas ao cruzar a rua, Anthony havia se virado para acenar um boa-noite. Tudo 
que viu foi Bettina desaparecer dentro da enorme limusine preta. Colocou as mos nos bolsos, levantou uma sobrancelha e seguiu com um sorriso.
       
15
       
       - Ol, querida.
       A manh seguinte estava ensolarada. Novamente, No estava dormindo quando ela chegou,  noite. Aquilo no era comum entre eles e no faziam amor havia uma 
semana. 
       Ela sentia-se culpada em contar os dias, mas ele a acostumara mal tanto tempo, que agora era fcil perceber qualquer mudana.
       - Senti sua falta ontem  noite.
       - Pensando que eu j estou virando a curva, pequenina? - falou suavemente, com um olhar leve.
       Estava claro que no, e Bettina rapidamente negou com a cabea. - Nem pense nisso, e no tente me enrolar.
       No voltou a ler o jornal e ela subiu para vestir-se. Queria contar-lhe sobre seu jantar com Anthony, mas no lhe parecia muito certo. Ela sempre tinha cuidado 
em no lhe fazer cimes, mesmo que ambos soubessem que no havia razo para isso.
       Quarenta minutos depois, estava pronta, usando calas cinza, casaco de cashmere bege, botas de camura marrom e um cachecol de seda da mesma cor de seu cabelo. 
       No acabara de subir, ainda de robe.
       - O que vai fazer hoje, querido?
       Ela teve mpetos de enfiar a mo por debaixo do robe, mas ele estava olhando para o relgio e nada percebeu.
       - Oh, no! Tenho uma reunio de diretoria em meia hora. Vou chegar atrasado. Isto ocuparia toda a manh.
       - E depois? - Ela o olhava com esperanas.
       - Almoo com um colega da diretoria, outra reunio e depois volto para casa.
       - Droga. J terei sado para o teatro. - Seu olhar era um misto de tristonho e carinhoso.
       - Quer desistir da pea?
       - No. - Numa voz infantil, explicou: -  que sinto tanto a sua falta desde que voltamos para os Estados Unidos e eu comecei a trabalhar. Na Europa, estvamos 
juntos o tempo todo e de repente, parece que no nos vemos mais.
       Ele ficou emocionado com o tom de sua voz e abraou-a.
       - Eu sei. - Aps acariciar-lhe o cabelo por alguns minutos, levantou seu rosto e beijou-lhe os lbios. - Vou tentar no marcar tantos almoos. Gostaria de 
fazer outra viagem?
       - Oh, Ivo... no posso, a pea.
       - Oh, que... - Havia fogo em seus olhos por um momento, mas conteve-se com um aceno de mo. - Est bem, est bem. Voc no acha que aps todos estes anos 
j absorveu o bastante para escrever um texto seu mesmo? Srio, querida, s vezes vejo voc aos oitenta e sete anos ainda trabalhando, claudicante, levantando cortinas 
para alguma pea off-off Broadway.
       - No trabalho off-off Broadway. - Ela se sentiu insultada e ele riu.
       - T bom, mas voc no acha que j fez isso por bastante tempo? Pense nisso. Poderamos nos afastar por seis meses e voc poderia escrever sua pea.
       - No estou pronta. - Ela parecia assustadssima com aquele pensamento, e ele tentou imaginar por qu.
       - Sim, voc est. Est apenas com medo, querida. Mas no h razo para isso. Vai escrever algo maravilhoso, quando finalmente tentar.
       - Sim, mas ainda no estou pronta, Ivo.
       - Tudo bem, mas no reclame que nunca pode me ver. Voc est nesta droga de teatro o tempo todo.
       Era a primeira vez que ele reclamava assim, e Bettina surpreendeu-se pela raiva no tom de sua voz.
       - Querido, no fale assim.
       Ela o beijou e sua voz estava mais suave quando ele falou: 
       - Bobinha, eu te amo.
       - Tambm te amo.
       Ficaram abraados por um momento, mas ele teve que sair.
       No teatro, tudo j estava um alvoroo: pessoas corriam para todos os lados e os astros do show comearam a chegar. Bettina viu Anthony passeando por trs 
do palco usando jeans, um suter de gola rol preta e o bon vermelho.
       - Oi, Bett. - Ele era o nico membro da equipe que insistia em abreviar seu nome.
       - Oi, Anthony. Como vo as coisas?
       - Muito loucas. Querem fazer mais mudanas.
       Era uma pea estreante e alteraes de ltima hora deviam ser esperadas. Ele no parecia muito perturbado com isso.
       - Queria cham-la para jantarmos juntos novamente, mas no a encontrava.
       - Eu trouxe um sanduche de casa. 
       - Feito pela sua mame?
       Bettina riu, bem que podia dizer: "No, feito pela empregada." Mas apenas negou com a cabea.
       - Tenho alguma chance de convenc-la a tomarmos caf juntos, mais tarde?
       - Desculpe, mas no esta noite.
       Queria voltar logo para Ivo. No queria ficar na rua at muito tarde. Apenas uma ou duas vezes, em anos de teatro, ela saiu depois da hora com a equipe. A 
noite passada era o bastante.
       Anthony lanou-lhe um olhar de desapontamento e desapareceu. No o viu de novo at depois do show. Ele a encontrou ajeitando as luzes e checando a limpeza 
antes de voltar para casa.
       - O que achou das mudanas, Bettina?
       Ele sentou-se num banquinho. Ela parou por um momento antes de responder, apertando os olhos como se estivesse se lembrando das cenas.
       - No tenho certeza se gosto. No achei necessrias.
       - Foi o que pensei. Fracas. Eu lhe disse, autores so uns paranicos desgraados.
       Ela sorriu.
       - . Talvez sejam.
       - Posso atra-la para aquele caf, agora?
       - Talvez outro dia, Anthony. Sinto muito, no posso. 
       - Marido esperando?
       Seu tom era irreverente, e ela evitou encar-lo. 
       - Espero que sim.
       Ele pareceu irritado, mas enquanto Bettina vestia seu casaco, tambm estava irritada. No tinha o direito de ficar chateado por no sair com ele. Nenhum direito. 
       Incomodou-a o fato de ele se irritar, mas ela sentia um estranho receio de no convid-la novamente. Pegou sua bolsa, jogou o chapu na cabea e saiu. Foda-se, 
Anthony Pearce! Ele no era nada para ela.
       Andou rapidamente pela rua at a esquina, sentindo o vento esfriar-lhe as orelhas. Apressou o passo at a limusine, agarrou a maaneta e colocou um p dentro 
do carro antes de ouvir uma voz atrs dela. Virou-se surpresa. Era Anthony que estava l cem a gola levantada e o bon na cabea.
       - Pode me dar uma carona?
       Apesar do frio, sentiu-se corar de vergonha. Ele era a primeira pessoa, em seis anos, que a flagrava entrando no carro. Tudo o que ela pde dizer foi:
       - Oh!
       - Vamos, amor. Estou congelando aqui e no tem nenhum txi  vista.
       Havia uma fina nvoa de neve comeando a se formar no ar. E ele j a tinha visto, ento o que adiantava disfarar agora? Olhou para ele por um momento e depois 
respondeu irritada:
       - Est bem.
       Ela entrou no carro e Anthony entrou logo atrs. Bettina virou-se para ele, perturbada pela sua insistncia.
       - Onde vai ficar?
       Ele pareceu no se incomodar com a situao desagradvel em que a colocara. O endereo que lhe deu era no So-Ho.
       - Moro num sto reformado. Quer subir para conhec-lo? 
       Ficou novamente irritada.
       - No, obrigada, no quero.
       - Por que to nervosa? - e com um sorriso, olhou-a com admirao. - Tenho que dizer, boneca, voc fica linda zangada.
       Com um rpido gesto de irritao, levantou o vidro para isolar o motorista, e falou furiosa.
       - Devo lembr-lo de que sou uma mulher casada?
       - E que diferena faz? Eu no disse nada fora da linha. No rasguei suas roupas, no a beijei na frente do motorista. Tudo que fiz foi pedir uma carona. Por 
que se chateia? Seu marido deve ser super-ciumento.
       - No , e tambm no  da sua conta. Eu apenas... ah, deixa pra l.
       Ficou amuada, em silncio. Quando finalmente chegaram ao seu prdio ele estendeu a mo.
       - Sinto t-la perturbado, Bettina. - Era gentil e at infantil ao falar. - Eu no tive inteno. Gostaria de ser seu amigo.
       Ela sentiu algo lhe tocar profundamente a alma.
       - Desculpe, Anthony... eu no quis ser rude.  que ningum nunca... eu me sinto to estranha... lamento mesmo. No foi sua culpa. Ele deu-lhe um suave beijo 
de amigo no rosto.
       - Obrigado. Voc me daria um tapa se eu lhe oferecesse uma xcara de caf mais uma vez?
       Anthony pareceu to preocupado, to ansioso, que ela no ousou recusar. Queria tanto correr para Ivo, mas fora muito grosseira com o jovem ator ingls.
       - O.K., mas no posso demorar.
       Bettina o seguiu escada acima, atravs dos interminveis degraus estreitos, enquanto o motorista esperava l embaixo e, quando finalmente chegaram ao apartamento, 
sentia-se como se tivesse subido aos cus. Ele destrancou uma pesada porta de ferro e, do outro lado, surgiu um apartamento cheio de charme. O teto pintado com nuvens, 
os cantos cheios de grandes folhagens, havia cmodas de campanha e objetos orientais, tapetinhos de palha, tapetes peludos e grandes e confortveis cadeiras estofadas 
num suave tom de azul. Era mais do que uma moradia, era um abrigo, um pedao de campo, um jardim dentro de casa, uma nuvem escondida num cu azul-claro de vero.
       - Anthony,  maravilhoso!
       - Voc gosta? - perguntou com ar inocente, e ambos sorriram. - Eu adoro! Como juntou todas estas peas? Trouxe de Londres? - Alguma coisa. Outras encontrei 
por aqui e fui misturando tudo. - Era um lugar bonito. - O que quer no caf? Acar e creme?
       - Nenhum dos dois. Obrigada. Puro.
       - Por isso que voc  magra. - Olhou-a, apreciando seu corpo esbelto de bailarina sentando-se numa das cadeiras azuis.
       Voltou em poucos minutos com duas xcaras de caf quente, um prato de frutas e queijo.
        uma e meia da manh ela finalmente disparou escada abaixo, em pnico, at o carro. O que No iria dizer? Desta vez rezou para ele estar dormindo, e suas 
preces foram ouvidas. Ele havia esperado at meia noite e ento caiu no sono. Bettina sentiu uma forte sensao de culpa, e se perguntou por qu. Tudo que fez foi 
tomar caf com um colega do teatro. Que mal havia nisso?
       
       
16
       
       - Ele bateu em voc? - Anthony brincou com ela.
       - Claro que no. Ele  maravilhoso e compreensivo. No faz esse tipo de coisas.
       - Bom, ento vamos tomar caf juntos outra vez. Por falar nisso, que tal jantarmos hoje, antes do show?
       - Talvez.
       Ela fora propositadamente vaga. Queria ligar para Ivo. Jantariam em algum lugar ali por perto. No o tinha visto pela manh. Quando acordou, ele j havia 
sado. 
       Deixou-lhe um bilhete explicando que tinha um compromisso cedo, Bettina comeava a perceber que pouco se viam, e no gostava daquilo.
       Ao ligar para casa, No no estava. Mattie disse que ele ligara dizendo que no voltaria para jantar e Anthony pareceu estar esperando atrs dela para usar 
o telefone. 
       Ouvira toda a conversa, apesar do seu esforo para ser discreta. Quando ela desligou, ele sorriu.
       - Quer um substituto para o jantar?
       Pretendia dizer no, mas em face queles olhos azuis, concordou sem pensar. Acabaram indo a algum lugar para uma sopa e um sanduche, e conversaram mais sobre 
a pea. De uma forma quase imperceptvel, ele conduziu o assunto para falarem dela. Queria saber tudo: de onde veio, onde morava, at onde tinha ido  escola quando 
criana. Ela lhe falou sobre o pai, cujo trabalho ele conhecia. Anthony parecia fascinado. Finalmente andaram de volta ao teatro e se separaram. Mas ele a encontrou 
rapidamente depois do espetculo. Para impedir que ele pedisse carona, ela correu e entrou rpido no carro.
       Em casa, encontrou No esperando. Conversaram por meia hora sobre os ltimos dias e foram para o quarto. Bettina despiu-se devagar enquanto continuavam a conversa.
       - Quase no te vejo mais. - Olhava para ela com pesar, mas sem repreenso.
       - Eu sei.
       Parecia deprimida, e ele se aproximou, para ajud-la a despir-se. Depois levou-a para a cama. Fizeram amor devagar, pleno e suave, mas quando se aquietaram 
saciados, Bettina sentiu falta daquele fogo dos primeiros dias. Virou-se para Ivo, desejando ver a paixo em seu olhar. Mas ele apenas dormia, com um pequeno sorriso 
nos lbios. Ficou deitada, apoiou-se no cotovelo por algum tempo, at que, gentilmente, beijou-lhe as plpebras. Naquele instante, seu pensamento fugiu para Anthony 
e ela o arrastou de volta para Ivo.
       A amizade com Anthony continuou a florescer juntamente com o sucesso da pea. Comiam seus sanduches nos bastidores e, de vez em quando, ela tomava caf com 
ele em seu apartamento. Vrias vezes ele lhe trouxe pequenos buqus de flores, como se nada representassem alm da amizade. Ela tentou comentar sobre aquilo com 
Ivo, mas tinha a sensao de estar fazendo alguma coisa errada.
       No final do inverno, No foi assistir  pea. Precisava ver de perto, definir o que realmente perturbava sua mente. Controlou a hora de entrar no teatro para 
que j estivesse escuro, e sentou-se numa das ltimas filas. Quando as cortinas se abriram, No examinou o ator, e entendeu tudo... Anthony tinha a graa de um belo 
leopardo preto lustroso, movendo-se hipnoticamente, incorporando seu personagem. No mal ouvia as palavras. Apenas o olhava, com o peso terrvel da traio e da dor. 
A traio no era de Bettina, mas das mos do tempo, contra quem ele tanto lutava.
       S na primavera percebeu que Bettina se modificara. Ao chegar muito tarde em casa certa noite, parecia confusa, e ele a observou sem saber se deveria fazer 
perguntas ou deix-la sozinha. Algo a incomodava, mas pela primeira vez ela no queria falar. Encarava No com o olhar ausente, e s vezes subia para o quarto sozinha. 
Encontrou-a olhando para a cidade pelo terrao, com a testa franzida, imvel, segurando a escova de cabelos.
       - Alguma coisa errada, querida?
       - No. - Foi uma resposta vaga, distante. De repente, virou-se para ele com expresso de terror. - Sim.
       - Qual  o problema? 
       - Oh, Ivo...
       Sentou-se na cadeira do jardim, os olhos grandes e luminosos, mesmo no escuro. Atrs dele estava a luz suave do apartamento que captava o brilho avermelhado 
de seu cabelo. Pareceu a No que ela nunca esteve to graciosa, e temia o que estava para ouvir. Por todo o inverno teve este pressentimento, mas sentia-se to estranhamente 
cansado. Chegara a pensar se a aposentadoria fora um erro. Nunca se sentira assim enquanto trabalhava.
       - Querida, o que ? - Foi at ela, pegou sua mo e sentou-se. - Seja o que for, pode me dizer. Acima de tudo, Bettina, somos amigos. 
       - Eu sei. - Olhou-o agradecida, e os olhos verdes foram se enchendo de lgrimas. - Querem que eu faa uma turn.
       - O qu? - Olhou-a com alvio e achando graa de sua preocupao. 
       - E s isso?
       Ela concordou com a cabea. 
       - O que tem de to ruim?
       - Mas Ivo, teria que viajar por quatro meses. E voc? Eu no sei... no posso ir, mas...
       - Mas voc quer ir.
       - No estou certa. Eles me... Oh, Deus, que loucura... - olhou-o to infeliz, to obviamente dividida. - Eles me pediram para ser assistente do diretor. Eu, 
Ivo, aquela que no sabia nada, que empurrava os cenrios, a que no era nada, e depois de todos estes anos.
       - Eles so espertos. Sabem o quanto voc aprendeu. Tenho orgulho de voc, querida. - Olhava-a com muito carinho. - Voc quer ir?
       - Oh, Ivo. Eu no sei... como  que voc fica?
       - No se preocupe comigo. J estamos juntos h quase sete anos. Voc no acha que podamos nos afastar por quatro meses? Alm do mais, posso ir de avio ver 
voc de vez em quando. Um homem aposentado tem algumas vantagens.
       Ela forou um sorriso e pegou-lhe a mo. 
       - No quero te deixar.
       - Voc quer, sim, querida. E est tudo bem. J vivi minha vida, e foi repleta de coisas. No tenho o direito de esperar que voc passe toda a sua sentada 
aqui comigo.
       - Vai sentir minha falta? - Era novamente a menininha.
       - Com desespero. Mas  o que precisa fazer. - Houve uma longa pausa enquanto ele a olhava. - Eu entendo. Pense um pouco sobre isso. Quando querem uma resposta?
       Ela engoliu em seco, quase dando para ouvir o som. 
       - Amanh.
       - Esto ansiosos, no? - Tentou parecer despreocupado. - E quando seria a viagem?
       - Dentro de um ms.
       - Com a equipe original?
       - Em parte. Anthony Pearce vai, e tambm a atriz principal. Ela continuou falando mais um pouco, embora ele no a ouvisse, pois j ouvira o bastante. Olhou-a 
calmamente, e deu de ombros no agradvel ar da noite.
       - Por que no dorme e deixa para decidir pela manh? Steve vai ser o diretor?
       Ela balanou a cabea devagar.
       - No, ele conseguiu um emprego numa pea da Broadway. Ficou mais um minuto sentada ali sem nada dizer, e finalmente se levantou e entrou. Era como se ambos 
soubessem o que estava acontecendo, mas nenhum podia falar. Ele ficou no terrao, remoendo seus pensamentos. Algo mudara entre eles, sem nenhum aviso. Subitamente 
ela parecia to jovem e ele muito mais velho. At a maneira de fazer amor se modificara com o passar dos anos. Ele quis culpar o destino pelo que estava acontecendo, 
no era justo... mas depois compreendeu. Tivera sete anos com ela. Era mais do que tinha direito.
       Voltou para dentro de casa. No tentou fazer amor naquela noite. No queria confundi-la mais. Do seu lado da cama, Bettina pensava se devia ficar com No ou 
viajar. 
       Ouviu sua respirao e virou-se para olha-lo, to calmo, to carinhoso. Voltou-se para o outro lado e enxugou as lgrimas. Diria a ele pela manh. Tinha que 
faz-lo. 
       Precisava. No havia escolha.
       
       
17
       
       - Ivo... voc me liga... promete? - Olhou para ele no aeroporto com os olhos marejados. - E eu te ligo tambm, juro... todos os dias... e quando vier para 
o fim de semana... - de repente no podia continuar. Tudo o que podia fazer era agarrar-se a ele, a viso embaada sob o vu de lgrimas. - Oh, Ivo... eu sinto muito...
       Ela odiava ter de ir. Mas No estava l amparando-a, confortando-a, como sempre.
       - No, pare com isso, querida. Te vejo em poucas semanas. Tudo vai ficar bem. E voc vai escrever uma linda pea depois disto. Vou sentir tanto orgulho de 
voc. Voc vai ver. - Sua voz era gentil e suave enquanto a segurava nos braos.
       - Voc acha mesmo? - Olhou para ele tentando parar de chorar, enquanto brotavam novas lgrimas. - Mas, e voc?
       - J conversamos sobre isso. Estou bem. Lembra-se? Vivi muitos anos antes de ter a sorte de ter voc. Agora, seja uma boa menina e divirta-se. Droga,  sua 
grande chance, madame assistente-de-diretor. Ela finalmente sorriu. No puxou-a para seus braos e beijou-a. - Agora, meu amorzinho, voc deve ir ou vai perder o 
avio, e esta no  a forma de comear num novo emprego.
       Estreariam em St. Louis, e o resto da equipe j estava l. Partiram naquela manh, mas Bettina queria passar as ltimas horas com Ivo, em Nova York.
       Enquanto corria para o porto de sada, sentia-se como uma garota fugindo de casa. Apesar disso, No fora sempre amoroso e gentil. Acenou para ela at que 
no mais pudesse v-la e s saiu do aeroporto depois de o avio ter partido. Andava devagar, pensando naquela manh, naquele vero, ano passado e depois nos ltimos 
vinte e cinco. Um sbito tremor de pnico percorreu-o enquanto pensava se aquele fora apenas um at logo.
       Bettina pousou em St. Louis s quatro e meia daquela tarde. Era um pouco em cima da hora para a primeira apresentao, mas eles ensaiaram tanto que a equipe 
tinha tudo bem acertado e o diretor sara de Nova York com eles, por isso Bettina sentia-se segura, embora chegando tarde. Enquanto o avio tocava o solo, ela suspirou 
pensando em No e, aos poucos, forou sua mente a voltar para o trabalho. Deixou o avio com pressa para pegar logo sua bagagem, lev-la ao hotel e chegar ao teatro. 
       Queria fazer o reconhecimento e ter certeza de que tudo estava no lugar.
       - Por Deus, boneca, por que a pressa? Voc vai derrubar a velhinha se no diminuir o passo e tomar cuidado.
       Ela virou-se com raiva, mas logo sorriu, surpresa. Era Anthony. 
       - O que voc est fazendo aqui?
       - Oh, deixe ver. Vim at aqui para buscar uma amiga - disse ele, sorrindo - que  a A. D. de nossa pea. Algum que voc conhece, olhos verdes?
       - Tudo bem, engraadinho, obrigada. - Ela estava imensamente feliz em v-lo. Sentiu-se sozinha e perdida ao deixar o avio. - Como esto as coisas no teatro?
       - E quem  que sabe? Estive descansando no hotel a tarde toda. - Est tudo bem? - Ela estava realmente preocupada e ele riu. - Est sim, mamezinha, tudo 
bem.
       Ao pegar sua mala, a alegria de Anthony era contagiosa, e quando j estavam no txi, indo para a cidade, os dois riam como crianas. Ele implicava, brincava 
e divertia-se, permitindo-lhe agir como uma criana, e ela adorava. Era uma saudao a todos os momentos que ela no pde aproveitar em sua infncia.
       - Isto  o hotel?
       Bettina olhava para o hotel enquanto desciam do txi. Os promotores do show colocaram-nos no hotel mais velho da cidade e, certamente, o mais feio.
       - Eu no lhe disse, boneca? Trouxeram San Quentin at St. Louis s para ns. - Ele se divertia.
       - Deus,  horrvel.  ruim assim tambm por dentro?
       - No, pior. Baratas to grandes quanto cachorros. Mas no se preocupe, querida, comprei uma coleira.
       - Anthony, pra... no pode ser assim to ruim. 
       - Ah, pode.
       Reafirmou com prazer, e quando olhou para seu quarto ela entendeu que ele estava certo. As paredes estavam quebradas, a pintura descascando, a cama era dura 
e as cobertas estavam cinzas de sujeira. 
       - Eu no tinha razo?
       Ele olhava para ela com alegria, enquanto ela deixava as malas carem no cho.
       - No precisa ficar to alegre.
       Com pesar, Bettina sentou-se, mas Anthony no perdia a graa. Parecia um menininho em frias, e pulava na cama para cima e para baixo. 
       - Pra com isso, Anthony. Voc nunca se cansa, merda? - Ela estava com calor, exausta e cheia daquilo tudo. S podia pensar que deixara No em Nova York. Certamente 
no para viajar pelo pas com aquele louco e ficar naquele pulgueiro.
       - Claro que nunca me canso. Por que deveria? Sou jovem. Mas no sou to mimado quanto voc, Bettina.
       Sua voz era carinhosa e ela virou-se para ele. - O que quer dizer mimada?
       - Eu no tenho um motorista ou vivo numa cobertura. Passei a maior parte de minha vida em locais como este.
       Ela no tinha certeza se devia sentir pena ou raiva, e no sabia o que dizer.
       - Ento, voc tem algum ressentimento por eu ser casada com um homem um tanto - ela hesitou - estvel na vida?
       - No, mas tenho ressentimento por voc ser casada com um homem que tem quase trs vezes a sua idade.
       Desta vez, os olhos de Bettina faiscaram: 
       - No  da sua conta!
       - Talvez eu ache que seja!
       Seu corao disparou e ela virou-se de costas. 
       - Eu o amo muito.
       - Talvez ame apenas o seu dinheiro. 
       Bettina ficou furiosa.
       - Nunca mais repita isso. No salvou-me, e  o nico ser humano que j fez algo por mim.
       Ela contara a Anthony toda a histria das dvidas de seu pai. 
       - No seria razo para se casar com ele, droga.
       Anthony parecia realmente irritado.
       - Eu lhe disse que o amo. Voc est entendendo? - Bettina estava lvida. - Ele  meu marido e um homem maravilhoso.
       Mas de repente a voz de Anthony ficou mais suave, tornando-se quase uma carcia.
       - Quando penso em voc casada com um homem quarenta e trs anos mais velho, isso me parte o corao.
       Olhou-a com pesar e ela estava boquiaberta.
       - Por qu? - Apesar das batidas em suas tmporas, tentava desesperadamente acalmar-se.
       - No  natural. Devia casar-se com algum mais jovem. Devia ter filhos.
       Ela deu de ombros e depois, suspirando profundamente, estirou-se na desconfortvel cama.
       - Anthony, eu nunca fui uma jovem tola. Conheci No por toda a minha vida. Foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. - Mas por que estava fazendo 
aquilo? Por que se justificava?
       - Gostaria que algum dissesse isso de mim. - Ele estava triste. Ela sorriu pela primeira vez desde que comearam a discusso. Sua raiva desaparecia.
       - Talvez algum dia algum diga. Agora ser que podemos fazer um acordo?
       - O que ?
       - Sem mais comentrios sobre Ivo, sem implicncia por ele ser muito mais velho.
       - Est bem, est bem, de acordo, mas no pea que eu entenda. 
       - No pedirei. - Ela esperava que ele pudesse entender, como amigo.
       - O.K., agora vamos logo para aquela droga de teatro, antes que sejamos despedidos.
       Alguns minutos mais tarde a sensao ruim tinha desaparecido. Ficariam juntos muito tempo, e no deviam alimentar uma briga. Eles chegavam aos lugares juntos, 
saam juntos, comiam juntos, conversavam, viam televiso juntos em seus quartos de hotel, dormiam lado a lado nos sagues de aeroportos e de hotis horrveis esperando 
por seus quartos. Eram inseparveis. Um pequeno ncleo dentro de um maior. A equipe toda ficava muito junta como se fossem grudados, mas dentro do grupo sempre se 
formavam casais e panelinhas. Entre eles estavam Bettina e Anthony. Ningum entendia muito bem ou ousava fazer perguntas, mas aps as primeiras semanas, todos sabiam 
que se estivessem procurando por um, achariam o outro tambm.
       - Bettina?
       Ele estava batendo  sua porta de manh bem cedo. Normalmente ela deixava que ele ficasse com uma chave de seu quarto e ele lhe dava um tapinha na bunda para 
acord-la, onde quer que estivessem. Ela vi via to cansada que quase era necessrio fora bruta para faz-la levantar-se. Mas na noite anterior, em Portland, ela 
esquecera de lhe dar a chave.
       - Bettina! Merda. Bettina! - Entra logo.
       Um dos colegas sorriu ao passar, enquanto Anthony murmurava.
       - Que diabos, mulher, acorde!
       Finalmente ela cambaleou at a porta, bocejando.
       - Puxa! - Ele fez uma expresso de alvio e entrou. - Trouxe meu caf?
       - Voc acreditaria que eles no tm caf neste pulgueiro? Temos que andar duas quadras para o restaurante mais perto.
       Bettina olhou para ele com os olhos turvos. 
       - Meu corao pode parar antes disso. 
       - Foi o que pensei.
       Sorriu misteriosamente e saiu para o corredor. Voltou logo depois com uma pequena bandeja de plstico com duas xcaras de caf e um po bem grande.
       - Oh, cus! Voc  maravilhoso. Onde conseguiu? 
       - Eu roubei.
       - No quero nem saber... Estou esfomeada. A que horas partimos? No haviam decidido quando vim dormir.
       - Fiquei pensando onde voc tinha se escondido.
       - Est brincando? Se no tivesse dormido um pouco, teria cado morta.
       Ningum contou a eles que teriam apresentaes todas as noites. Era um dos pequenos detalhes no mencionados. Por isso, No no fora se encontrar com ela, 
apesar de j ter-se passado um ms. No havia razo, pois ela trabalhava todos os dias da semana. Telefonavam-se diariamente, mas ela se retraa muito, pois s lhe 
interessavam os assuntos da tourne. Era como se estivesse num acampamento militar. Ficava cada vez mais difcil se relacionar com algum que no partilhasse a mesma 
experincia.
       - Ento, a que horas partimos?
       - Em uma hora. Mas veja pelo lado bom, Bett, estaremos em San Francisco esta tarde.
       - E quem est interessado? Acha que vamos ver alguma coisa? No. Ficaremos presos em algum horrvel quarto de hotel e depois de trs dias pegaremos um avio 
para outro lugar.
       O charme da excurso estava, definitivamente, se acabando, mas era tambm uma experincia valiosa. Ela sempre repetia isso para Ivo. 
       - No sero s trs dias, boneca, mas uma semana. Uma semana inteira.
       Por um momento seu rosto iluminou-se, e ela pensou se no devia contar a No e pedir que ele viesse.
       - Vamos ter algum dia livre?
       - No que eu saiba, mas, quem sabe? Vamos l, apronte-se. Fico com voc enquanto faz as malas.
       Ela sorria ao sair da cama de camisola. Agiam quase como casados, e ela sempre esquecia de colocar um robe.
       - Conseguiu falar com seu agente hoje? - gritou do banheiro. - Consegui.
       - E o que ele disse?
       - Nada de bom. Me deram o ltimo visto de prorrogao de permanncia, e logo que a excurso acabar eu caio fora.
       - Do pas? 
       - Claro.
       - Que merda!
       - . Foi mais ou menos o que eu disse. Mas acrescentei coisas piores.
       Alguns minutos mais tarde ela fechou o chuveiro e voltou, enrolada numa toalha, e com outra nos cabelos.
       - O que vai fazer? - Estava preocupada. Sabia o quanto ele queria ficar.
       - No h nada que eu possa fazer, boneca. - Deu de ombros e olhou para seu caf com um ar pensativo.
       - Gostaria de poder fazer alguma coisa, Anthony. Ele apenas sorriu, cabisbaixo.
       - Receio que no pode, amorzinho. Voc j  casada.
       - Que diferena faria se eu no fosse? - Ela estava surpresa. 
       - Se eu me casasse com uma americana, no precisaria voltar para casa.
       - Ento case-se com algum. Depois voc se divorcia. Puxa,  uma tima idia!
       - Nem tanto. Divrcio, s depois de seis meses. 
       - Deve ter algum que concorde.
       - Receio que no.
       - Vamos conseguir algum!
       Os dois riram, e ela voltou para o banheiro. Saiu vestindo uma blusa de seda azul e uma saia branca de linho. Tinha uma jaqueta do conjunto nos braos e usava 
sandlias pretas de salto alto. Estava maravilhosa, e Anthony exclamou:
       - Voc est linda, Bettina.
       Pronunciou estas palavras com gentileza e numa mistura de afeio, surpresa e respeito.
       Mais tarde, quando se dirigiam para o aeroporto, ele perguntou: 
       - Ah, e como vai seu marido? Ele no vem?
       Bettina negou com a cabea, calmamente.
       - Disse que no adianta muito, se no temos um dia de folga. Acho que tem razo.
       Ela no parecia interessada no assunto, e depois a sada foi catica at que todos se arrumassem no avio. Ficaram lado a lado novamente.
       Ele lia uma revista e ela um livro. De vez em quando, falavam em voz baixa e riam, divertidos. Para quem no os conhecesse, pareciam casados h anos.
       O aeroporto de San Francisco parecia com todos os outros: grande, cheio de gente e catico. Finalmente colocaram todos no nibus para a cidade e depois em 
txis para o hotel. Bettina preparou-se para mais um horrvel pulgueiro, mas quando o txi chegou, teve uma surpresa. No era um pulgueiro. Era um pequeno hotel 
francs, localizado numa montanha com vista maravilhosa para a baa. Parecia mais com a casa de algum do que com um hotel onde o grupo de teatro se hospedaria.
       - Anthony? - Ela falou, perplexa. - Ser que eles se enganaram? - Saiu do carro devagar, olhando em volta com um misto de prazer e desalento.
       - Espere at que os outros vejam isto. - Estava muito contente, mas havia algo no olhar de Anthony que ela ainda no entendera. Ele pagou o txi, depois disse 
calmamente:
       - Os outros no vo ficar aqui, Bettina.
       - O que quer dizer? - Falou confusa, no conseguindo e no querendo entender. - Onde esto eles?
       - Nos pulgueiros de sempre, no centro da cidade. Achei que preferiria ficar aqui.
       - Mas por qu? - Ela estava assustada. - Por que deveramos ficar aqui?
       - Porque voc est acostumada a isto, e porque  bonito. Voc vai adorar, e estamos fartos de porcarias.
       Era verdade. Mas por que aqui? E por que ele sempre falava sobre o que ela estava acostumada? Por que deveriam ficar separados dos outros?
       - Quer confiar em mim? Ou quer ir embora? - Sua expresso era de desafio.
       Ela hesitou, suspirou e balanou a cabea.
       - No. Vou ficar. Mas no sei por que fez isso. Devia ter falado comigo. - Sentia-se cansada, e desconfiava do que via nos olhos de Anthony.
       - Queria te fazer uma surpresa. 
       - O que os outros vo dizer? 
       - E da?
       Estava recuando novamente. Ele largou as malas e segurou sua mo. - Bettina, somos ou no somos amigos?
       Ela concordou com a cabea.
       - Ento confie em mim. S desta vez.  tudo que lhe peo. Ela confiou. Ele reservara quartos com comunicao e, quando os viu, no pde resistir. Queria abraar-se 
a ele e rir muito.
       - Que se dane, Anthony, voc est certo!  maravilhoso! 
       - No ?
       Sentiam-se dois vitoriosos admirando a vista da varanda do quarto. De repente, ela estava encabulada:
       - Sinto muito ter desconfiado. Estou apenas muito cansada e eu ... eu no sei... j faz tanto tempo que no vejo Ivo... ainda me preocupo... Ele falou suavemente, 
passando um brao sobre seus ombros. - No se preocupe, boneca, tudo bem.
       Bettina sorriu e entrou no quarto para relaxar, com mordomia, numa chaise longue de veludo azul-claro. As paredes eram revestidas de tecido, a moblia francesa, 
havia uma lareira de mrmore e uma cama com cabeceira e ps altos. Quando ele voltou para o quarto, ela perguntou:
       - Como descobriu este lugar?
       - Palpite de sorte. Na primeira vez em que vim aos Estados Unidos, prometi a mim mesmo - olhou para suas mos enquanto falava - que voltaria aqui com algum 
de que eu realmente gostasse. - Levantou o olhar para ela. - E eu gosto muito de voc.
       Ele mal podia pronunciar as palavras. Bettina sentiu um calor por todo seu corpo. No sabia o que responder, mas sabia que gostava muito dele.
       - Anthony, eu no devia...
       Ela levantou-se, sentindo-se estranha, e ficou de costas.
       Depois sentiu-o perto, tocando-lhe gentilmente os ombros. Em seguida, ficaram frente a frente e, sem falar mais nada, ele a beijou na boca, exprimindo toda 
a fora, o fogo e o xtase de sua alma.
       
18
       
       Primeiro, Bettina no entendeu como aconteceu, e o que a levou a fazer aquilo. J se haviam passado cinco semanas sem ver Ivo, e em sua viagem com o espetculo 
sentia-se vivendo em um mundo diferente. Agora compreendia por quanto tempo estava atrada por Anthony, e o quanto odiava ter de admitir isso, mas era incrvel unir-se 
a um corpo jovem, com sangue jovem. Absorveram o prazer um do outro indefinidamente, at que fosse quase hora de ir para o teatro. Bettina deixou a cama ainda meio 
fora de rbita, no sabendo o que dizer a ele e o que pensar de si mesma. Anthony f-la sentar-se de volta na cama.
       - Bettina, olhe para mim... Ela no olhou.
       - Querida, por favor.
       - Eu no sei o que pensar. No entendo... - Sua expresso era de agonia. - Por que fizemos...
       - Porque queramos. Porque precisamos um do outro e nos entendemos. Eu te amo, Bettina. Foi por isso, tambm. No despreze isso. No diga que eram apenas 
nossos corpos. No. Era mais, muito mais. E, se negar, estar mentindo para si mesma. - Segurou-lhe o rosto com firmeza. - Olhe para mim, Bettina.
       Ela voltou para ele o olhar de desespero.
       - Voc me ama? Responda-me honestamente. Eu sei que te amo. Voc me ama? - Sua voz estava alterada.
       - Eu no sei...
       - Voc sabe, sim. Nunca teria feito amor comigo se no me amasse. Voc no  esse tipo de mulher. , Bett? - E mais suave: -Voc ?
       Ela negou com a cabea.
       - Voc me ama? Responda, diga para mim, por favor...
       Ela podia sentir as palavras acariciando seu corpo, e ao olhar para ele ouviu-se dizendo:
       - Eu te amo. E se abraaram.
       - Eu sabia. Agora vamos para o teatro. Depois voltamos. Apenas para lembr-la do que iria acontecer, ele a possuiu novamente e muito rpido.
       Bettina estava sem respirao quando ele a deixou, surpresa ante a sua prpria paixo e desejo. Parecia embriagada. No se cansava dele e de seu corpo... 
to bom...
       Mas, no caminho para o teatro, pensamentos sobre No comearam a pression-la: "E se ele telefonasse? E se soubesse? E se perguntasse onde estavam hospedados? 
E se viesse para a Califrnia surpreend-la? Que diabos estava fazendo?" E cada vez que tentava se convencer de que era loucura, pensava no prazer que sentira e 
sabia que no queria parar. Mal pde fazer seu trabalho no teatro naquela noite e, quando voltaram para o hotel, recomearam tudo. Aquilo a fez meditar sobre o tempo 
em que mantiveram uma amizade platnica. Fora um longo tempo.
       - Feliz?
       Ela estava aninhada nos seus braos.
       - Eu no sei. - Olhou para ele e sorriu. - Sim, claro que sim. Mas em seu corao havia uma grande dor. Sentia-se corroda pela sensao de culpa, e Anthony 
sabia.
       - Eu entendo, Bettina, est tudo bem.
       E ela pensava se entendia mesmo. Imaginava se ele tinha a capacidade de amar que No possua. No tinha sua experincia ou sua idade. Havia vantagens em amar 
um homem to mais velho, que j consumiu sua agressividade e aprendeu suas lies h muito tempo. Ela permaneceu alheada, e Anthony parecia ler seus pensamentos.
       - O que vai dizer a ele? 
       - Nada.
       Anthony ficou amuado.
       - No poderia! No  a mesma coisa. Se ele fosse mais jovem, seria diferente. Neste caso vai parecer apenas um problema de idade. 
       - E no  esse o problema? Pelo menos em parte? - "Droga!, ela era difcil de convencer." Subitamente compreendeu que tipo de batalha tinha pela frente.
       - Eu no sei.
       Ele no insistiu mais. Havia coisas melhores para fazer. Vrias vezes Bettina se descobriu pensando em Anthony, depois em No e depois em Anthony novamente. 
Era um ciclo vicioso de enlouquecer, e tinha como nica fuga os braos de Anthony. Durante a semana ela no telefonou para Ivo. A sensao de culpa lhe pesava muito. 
No queria mentir, e simplesmente fugiu. No ligava com freqncia, deixava recados e finalmente a encontrou em Los Angeles, tarde da noite. 
       No tinham se falado por nove dias. Agora no haveria mais tapeaes. Ela e Anthony j ocupavam um s quarto.
       - Querida, voc est bem?
       Havia um leve tom de desespero em sua voz, e quando Bettina o ouviu, seus olhos se encheram de lgrimas.
       - Ivo, estou bem... oh, querido. - E de repente, no conseguia falar. Mas tinha que falar... tinha... ou ele saberia. Ainda bem que Anthony estava dormindo 
ali ao seu lado.
       - Tudo tem sido uma loucura. Tanto trabalho... nem d para parar. E eu no queria ligar enquanto no pudesse dizer para voc vir at aqui.
       - Ainda est nessa confuso?
       Sua voz soava tensa, e Anthony se mexeu. Ela hesitou por um instante, depois concordou, enxugando as lgrimas com a mo.
       - Ainda.
       Mal sussurrou, mas No entendeu.
       - Ento vamos esperar, querida. A gente se v em casa. No se sinta pressionada. Temos o resto de nossas vidas.
       Ser que tinham? Ela no tinha mais certeza. Bettina sentia-se afastando-se dele por mos muito fortes.
       - Oh, Ivo. Eu sinto tanto a sua falta...
       Ela parecia uma criana desesperada, e No fechou os olhos. Mas precisava falar... Tinha que falar.
       - Bettina... pequenina... - respirou fundo. - Tudo isto  parte do seu crescimento. Voc tem que faz-lo. No importa o qu.
       - O que quer dizer com "no importa o qu"?
       Sentou-se na cama para ouvir melhor. Ser que ele sabia? Teria adivinhado? Ou falava sobre o teatro?
       - Quer dizer que no importa o quanto custe a voc. Se  o que voc quer, Bettina, est certo. Nunca tenha medo de pagar o preo. s vezes temos que pagar 
muito caro... mesmo que isto signifique no nos vermos para voc fazer o seu trabalho, mesmo que... - No podia prosseguir. Mas era necessrio. - Seja uma garota 
adulta, Bettina. J  tempo.
       Mas ela no queria ser adulta. De repente, s queria ser uma garotinha com ele.
       - V dormir agora, querida.  muito tarde.
       Na costa leste eram trs horas mais tarde. E em Los Angeles o relgio marcava duas e trinta da manh.
       - Nossa Senhora, o que est fazendo acordado a esta hora? - Queria ter certeza de que a encontraria.
       - Oh, querido, sinto muito. - Novamente sentia-se tomada pelo remorso.
       - No sinta. Seja jovem, divirta-se e... - quase falou "lembre-se de que  minha", mas no pde. Precisava deix-la voar livremente, se era o que ela queria. 
No importava o quanto lhe custasse.
       - Eu te amo, pequenina. 
       - Eu te amo, Ivo.
       - Boa noite.
       Quando ela desligou, as lgrimas rolavam em seu rosto, e Anthony roncava baixinho. Por um breve momento, ela o odiou.
       Trs dias depois, ela parecia odiar Ivo muito mais. Leu um artigo num jornal de Los Angeles sobre a famosa estrela de Hollywood, Margot Banks, que passava 
o fim de semana em Nova York, visitando um velho e querido amigo cujo nome ela se negara a revelar  imprensa. O artigo continuava mencionando, no entanto, que ela 
fora vista jantando no Clube 21 com o editor aposentado do New York Mail, No Stewart. Sabia muito bem que Margot fora uma das amantes de seu pai e, mais tarde, de 
Ivo. 
       Seria por isso que ele estava sendo to compreensivo? Seria por isso que no quis ir v-la? Por Deus, ela se penitenciava toda noite, quando fazia amor com 
Anthony, e ele comeava seu affair com Margot Banks. Seria isso? Ele estaria roendo a corda aps sete anos? Bettina sentiu uma onda de fria. Quando No telefonou 
novamente, ela mandou dizer que no estava. E de longe, tomando caf, Anthony Pearce parecia extremamente feliz.
       
19
       
       Por trs meses, at que a excurso acabasse, tudo continuou como estava. Anthony e Bettina fizeram seu caminho apaixonadamente, de cidade em cidade, de hotel 
em hotel, de cama em cama. Nunca viam nada das cidades por onde passavam. Gastavam seu tempo ensaiando, atuando e fazendo amor. E cada vez mais Bettina via o nome 
de No nos jornais junto com algumas das mulheres que no passado fizeram parte de sua vida. Principalmente com Margot, a velha cadela. Bettina quase rosnava cada 
vez que lia seu nome. Aquilo s provocava riso em Anthony. Ela nunca falava do que sabia para Ivo, mas havia grande tenso entre eles ao telefone. Os quatro meses 
de afastamento no lhes fizeram bem.
       - E ento? - Anthony olhou inquisidoramente para ela no ltimo dia da excurso. - O que acontece agora?
       - Que diabos isso significa? - Ela estava exausta e fervendo, num dia de vero em Nashville, no Tennessee.
       - No precisa ser rude, Bettina. No acha que tenho o direito de perguntar sobre o que me espera agora? Acabou tudo? Foi s isso? Voc volta para a sua cobertura 
e o seu velho? - Ele a olhou com amargura. Estava igualmente cansado e o calor tambm o perturbava.
       Bettina pareceu murchar e, vagarosamente, sentou-se na cama barulhenta. No final da excurso, as nicas acomodaes decentes que tiveram foram as que Anthony 
reservou em San Francisco. Se no por outra razo, seria bom chegar em casa, nem que fosse apenas para deitar na sua prpria cama. Mas na verdade, apesar das fofocas, 
estava louca para ver Ivo. Portaram-se como dois bobos. No havia motivo suficiente para romper com tudo. E ela aprendera uma lio. Nunca mais sairia em tourne. 
No importava o quanto tivesse aproveitado da ligao com Anthony. Era hora de voltar para casa.
       - Eu no sei, Anthony. No posso dizer nada.
       - Entendo. - Fez uma pausa. - Sei o que isso significa. Vai voltar pra ele.
       - J lhe disse - sua voz se alterou - que no sei! O que quer de mim? Um contrato?
       - Talvez, boneca, talvez. J lhe ocorreu que enquanto voc volta para o seu querido marido velhinho eu fico sem emprego, sem a namorada e possivelmente fora 
do pas? Tenho boas razoes para me preocupar.
       Subitamente ela sentiu-se triste. Era verdade. Ela ao menos tinha Ivo. E ele? Pelo que parecia, no tinha mais nada.
       - Sinto muito, Anthony. - Aproximou-se dele e acariciou-lhe o rosto com a mo. - Vou lhe dizer o que est acontecendo to logo eu ponha meus ps no cho.
       - timo. Parece at entrevista para um emprego. Deixe eu lhe dizer uma coisa, senhora-assistente-de-diretor. Seja o que for que pense ou o que eu signifique 
para voc, quero deixar algo muito claro antes de partirmos: Eu te amo. - Sua voz embargou. - E se voc fizer a gentileza de deixar seu marido, quero me casar com 
voc. Imediatamente. Entendeu?
       Ela o olhou assustada.
       - Fala srio? Mas por qu?
       Ele no pde deixar de rir e, carinhosamente, passou um dedo em seu rosto, descendo at o pescoo e os seios.
       - Porque voc  bonita, inteligente, maravilhosa e - olhou srio para ela por um momento - voc no  o tipo de garota para se brincar.  o tipo com quem 
queremos casar, Bett.
       Ela parecia em estado de choque.
       - Ento, querida, se eu pudesse arrancar voc do seu marido - ajoelhou-se perto dela e beijou-lhe a mo -, gostaria de torn-la a Sra. Anthony Pearce.
       - No sei o que dizer.
       - Ento me ligue no dia seguinte  nossa chegada em Nova York e diga sim.
       Ela no telefonaria. No podia fazer aquilo com Ivo. E tambm no esperava que Ivo fizesse com ela.
       
20
       
       - Ivo, voc no est falando srio. - Ela o fitava com a face lvida. - Por qu?
       - Porque est na hora. Para ns dois.
       "O que ele est dizendo? Oh, Deus, o que significa isto?" - J  hora de termos amantes da nossa idade.
       - Mas eu no quero! Voc quer? - Estava horrorizada.
       Ele no respondeu, porque se contorcia em seu interior. J sabia de tudo, pois mandara investigar. Ela se envolvera com o ator. E isto aconteceu h meses. 
Talvez mesmo antes de terem deixado Nova York. No no ficaria no caminho deles. Era um direito dela procurar algo melhor, por ser ainda to jovem.
       - Mas eu no quero me separar de voc! - Ela quase guinchou. 
       - Eu acho que quer. - Ele sentou-se, muito calmo.
       -  por causa das outras mulheres que eu li nos jornais, com quem voc saa?  por causa delas, Ivo? Diga! - Estava histrica e assustadoramente plida, mas 
ele agentou firme.
       - J lhe disse. Ser melhor para ns dois. E voc estar livre. 
       - Eu no quero ser livre!
       - Mas agora ! No deixarei isto chegar a um ponto insuportvel. Vou viajar para a Repblica Dominicana semana que vem, e tudo estar acabado. Fim. Legalmente 
livre.
       - Mas eu no quero ficar legalmente livre, Ivo!
       Ela gritava to alto, que No tinha certeza que Mathilde escutava atravs da porta. Calmamente, segurou Bettina e f-la aproximar-se bem. 
       - Sempre estarei aqui para voc, Bettina. Eu te amo. Mas voc precisa de algum mais jovem. No pode mais estar casada comigo.
       - Eu no quero me separar de voc! - a beira da histeria, ela agarrava-se nas mos dele. - No me mande embora... nunca mais farei aquilo... sinto muito... 
oh, Ivo, eu sinto tanto...
       Ele sabia. Tinha que saber. Por que mais procederia assim? Enquanto se agarrava, pensava em como ele podia ser to frio.
       A maior tragdia era que por dentro ele estava se destruindo, mas sentia que lhe devia aquilo, embora ela no quisesse. Tentou explicar em meio ao seu desespero 
que ela receberia uma quantia em dinheiro todo ms. Nunca a deixaria sem recursos. Tambm no a esquecera em seu testamento. Podia ficar no apartamento at que ele 
voltasse da Repblica Dominicana, aps o que ele sugeria que ela se mudasse para a casa de... um amigo. E enquanto ela no sasse, ele ficaria no clube de um amigo.
       Bettina ouvia incrdula. Aquilo no podia estar acontecendo com ela. Aquele homem que a salvara, a quem amava em desespero... Ela destrura tudo por ter deitado 
com Anthony. No sabia. Agora estava sendo punida.
       Os dias passaram como pesadelos, e ela no podia se lembrar de algum outro momento mais doloroso em sua vida. Nem mesmo a morte de seu pai a deixou to ferida, 
to abandonada, to desesperadamente incapaz de mudar a direo dos acontecimentos. Nem mesmo queria falar com Anthony, mas apesar disso, um dia antes de No voltar 
da Repblica Dominicana, ela estava sentada em seu quarto e no tinha mais ningum a quem recorrer, seno ele.
       - Quem? O qu? Oh, meu Deus, voc parece pssima... est tudo bem? - Pausa. - Quer vir at aqui?
       Ela hesitou, mas disse sim. - Quer que eu v te buscar?
       Era um gesto de cavalheirismo, e ela apreciara, mas no achava que fosse muito certo. Ento, vestiu seu jeans, sandlias e uma blusa e em alguns minutos tomou 
um txi.
       - Ele o qu?
       Anthony fazia caf enquanto ela se sentava na cadeira de couro de sua confortvel cozinha.
       - Ele me disse que queria o divrcio, e neste fim de semana est na Repblica Dominicana. - Falou mecanicamente, enquanto as lgrimas recomeavam.
       - Eu lhe disse, gatinha, ele  senil. Mas quem sou eu para reclamar? Quer dizer que ele est se divorciando de voc?
       Ela concordou com a cabea. 
       - Este fim de semana?
       Ela tornou a concordar, e ele soltou um grito de alegria.
       - Devo lhe dizer, Anthony - soluou alto -, que essa sua reao  de muito mau gosto.
       - Voc acha? - Ele sorriu. - Voc acha, boneca? Bem, eu no acho. Nunca estive to feliz em toda a minha vida. - E, com uma reverncia formal, virou-se para 
ela. 
       - Voc me concederia a honra de se casar comigo na segunda-feira?
       Ela se levantou, imitou-lhe o gesto e respondeu: 
       - Eu no concederei tal honra.
       - E por que diabos no? - Ele estava surpreso.
       Ela suspirou e andou at o sof, onde sentou-se, assoando o nariz. - Porque mal nos conhecemos. Porque somos muito jovens. Por que... Droga, Anthony... estive 
casada por sete anos com algum a quem quero muito, ele saiu para conseguir o divrcio e voc espera que eu me case no dia seguinte? S se eu estivesse muito louca. 
Ao menos me d tempo para respirar.
       Mas no era s de tempo que precisava. No queria se casar com ele. No tinha certeza de seus sentimentos. Como amante, sim, mas no como companheiro.
       - timo. Voc pode me escrever para a Inglaterra. - Ele estava amargurado.
       - O qu?
       - Exatamente. Tenho que sair do pas at sexta-feira. - No final da semana que vem?
       -  quando chega a sexta-feira, no ? - No seja engraadinho, falo srio.
       - Eu tambm. Estava comeando a fazer as malas quando voc ligou. - Sua expresso se iluminou. - Mas se ns nos casssemos, eu no teria que ir a lugar nenhum, 
certo?
       -  uma excelente razo para se casar. - Ela se zangou. Mas ele se aproximou, sentou-se e pegou sua mo.
       - Bett, pense nos meses com aquela droga de tourne. Se conseguimos ficar felizes e juntos por tudo que passamos, podemos sobreviver. Eu te amo. Quero me 
casar com voc. Ento, que diferena faz se for nesta semana ou no ano que vem?
       - Talvez faa muita diferena.
       Ela estava nervosa, e ele parou de falar. Aconchegaram-se na cama e retomaram o assunto na manh seguinte, quando ele a lembrou de que no estava prestes 
a perder apenas o marido, mas tambm o amante. Esta realidade frustrante ainda no lhe ocorrera, e ela caiu em lgrimas.
       - Oh, pelo amor de Deus, pare de chorar. Tem soluo para tudo, sabia?
       - Pra de pressionar para conseguir s o que te interessa.
       Ele ficou quieto. No final da tarde ela estava uma pilha de nervos. Olhando o relgio, percebeu que tinha que voltar para o apartamento de Ivo, para terminar 
de arrumar suas coisas e lev-las para um hotel.
       Mas Anthony insistiu que ficasse com ele. Ela no tinha certeza se devia, mas, por outro lado, seria muito menos brutal do que ficar sozinha nos primeiros 
dias. 
       E j que viveram juntos em quartos de hotel por todo o vero, por que no ficar com ele agora? Tambm lembrou, com um choque, que no era mais casada. No 
j teria obtido o divrcio.
       Ento, s cinco horas, pegou um txi em direo norte para buscar o resto de suas coisas, o que a fez lembrar-se do dia em que se mudou do vazio apartamento 
de seu pai para ficar com Ivo. J se passaram sete anos, e ela estava se mudando para o apartamento de outro homem. Por pouco tempo, ela prometera a si mesma. E 
ento se lembrou que se mudara para a casa de No por pouco tempo tambm.
       Na segunda-feira estava se sentindo melhor.  noite ele a levou para jantar. Na tera comeou a arrumar as malas. Na quarta, o apartamento estava uma baguna 
e ficou muito claro que em dois dias ela teria que encarar mais um deplorvel adeus. Naquela manh ela falou com Ivo, mas ele estava estranho e frio e muito seguro 
do que havia feito. Quando desligou, virou-se para Anthony banhada em lgrimas. Ele tambm estava de partida. Mas sabia no que ela pensava agora, e olhou dentro 
de seus olhos.
       - Voc faria isso, Bettina? Ela se confundiu.
       - Voc se casaria comigo, Bettina? Por favor. Ela acabou sorrindo. Ele parecia um menininho. 
       - No faz nenhum sentido.  muito cedo.
       - No. No  muito cedo. - Havia lgrimas nos seus olhos. - J  quase tarde demais. Se no conseguirmos a licena hoje, no conseguiremos at sexta-feira. 
E eu terei que deix-la. No importa o que eu sinta... no importa o que...
       Estas palavras tinham um som familiar para Bettina, e ela lembrou de No falando-lhe ao telefone quando estava na Califrnia com Anthony. Dizia que pagasse 
o preo pelo que ela acreditava, "no importa o qu".
       - E se no der certo? 
       - Ns nos divorciamos. 
       - J fiz isso, Anthony, e no quero fazer de novo. 
       Ele aproximou-se para abra-la:
       - No vamos precisar disso. Estaremos juntos para todo o sempre. - Aproximou-se mais. - Teremos um beb... Oh, Bettina, por favor...
       Enquanto ele a abraava, ela no podia resistir. Queria tanto agarrar-se a ele, no perder outra pessoa importante em sua vida. E queria to desesperadamente 
ser amada.
       - Faria isso?
       Segurou a respirao por um momento e concordou. Ele mal pde ouvir a resposta.
       - Sim.
       Chegaram ao cartrio antes que fechasse, naquela quarta-feira. Conseguiram a licena, o exame de sangue, e Anthony comprou o anel. Na sexta-feira pela manh, 
no mesmo cartrio, casaram-se. E Bettina Daniels Stewart tornou-se Sra. Anthony Pearce.
       
21
       
       Anthony e Bettina passaram os meses do outono hibernando calmamente aps o casamento em setembro. Ele no foi escalado para outra pea e ela no voltou para 
seu antigo emprego. J armazenara as informaes de que precisava. Certamente colhera a experincia e as dores-de-cotovelo, para comear a escrever. Anthony tambm 
no precisava viajar. Casado com Bettina, podia ficar nos Estados Unidos. E vivendo da penso que ela recebia de Ivo, decidiu esperar o papel certo. Algumas vezes 
Bettina se sentia estranha com aquilo. Afinal, No mandava o dinheiro para ela. Mas era bvio que Anthony j se sentia bastante envergonhado por no ter emprego, 
e ela no falava no assunto, pois tambm no estava trabalhando. Decidira que teria um descanso, queria conhecer Anthony melhor, cada gesto, cada segredo, cada pedacinho 
de sua mente. Sabia que havia coisas que ela no conhecia, coisas que ela sabia que ele no a deixava descobrir, no importando quo prximos j estivessem.
       Ento, se enfurnaram no apartamento, leram peas, cozinharam espaguete, saram para longos passeios e fizeram amor. Riam e conversavam, brincando pelas horas 
da manh... quando Anthony estava em casa. Em muitas noites ele saa para ver o trabalho de outros atores, e depois ia conversar com os amigos at altas horas da 
madrugada. 
       Sozinha no apartamento, Bettina compreendeu o que No deve ter sentido quando ela o deixava para trabalhar no teatro.
       Na verdade, pensava muito em Ivo. Pensava no que ele estaria fazendo, se ainda estava to cansado, se estava bem. Descobriu-se querendo estar com ele, ouvir 
sua gentileza, seu encorajamento, seus elogios. Em vez disto, o que encontrava era a indiferena de Anthony e seus humores, seu calor e sua paixo extinguindo-se 
rapidamente em seus braos.
       - Por que essa cara to mal-humorada, amorzinho?
       Ele a observava h alguns minutos. Ela roia o lpis enquanto rabiscava algumas idias para sua pea. Bettina olhou para ele com surpresa. Tinha sado h horas 
e ela no o vira voltar.
       - Nada. Como foi sua noite? 
       - Muito agradvel. E a sua?
       Perguntou casualmente, enquanto tirava o cachecol. Bettina o comprara para ele no primeiro sinal de inverno. Logo depois da insistncia de Anthony para que 
ela vendesse seu casaco de visou. Estavam vivendo do lucro h dois meses.
       - Razovel. - Mas ela parecia deprimida e no se sentiu bem o dia todo.
       Antonhy sorriu e sentou-se na beira da cama.
       - Vamos l, boneca. Venha me contar o que est errado.
       A princpio ela apenas balanou a cabea e depois riu, segurando seu rosto nas mos.
       - No h nada errado. Estava apenas pensando no Natal. Gostaria de te dar alguma coisa maravilhosa. Mas no vejo como.
       Bettina estava chateada, e ele a tomou nos braos.
       - No importa, sua boba. Temos um ao outro.  tudo o que quero. - E depois, sorriu misteriosamente. - Isso, e um Porsche. 
       - Muito engraado.
       Era estranho lembrar que No lhe dera um bracelete de diamantes no Natal anterior. E ela lhe dera um novo casaco de cashmere, uma pasta de executivo de 400 
dlares e um isqueiro de ouro. Mas estes dias se foram para sempre. Tudo que ela tinha eram as jias que estavam cuidadosamente guardadas no cofre do banco. Nem 
contara para Anthony. Disse-lhe apenas que havia devolvido tudo a Ivo. De fato, ela tentou devolver todas as jias, mas No insistiu em que ela devia guard-las, 
com a condio de no contar para ningum onde estavam. Queria que as guardasse como um ninho de ovos e Bettina seguiu seu conselho. Agora, por um segundo, ela contemplava 
a idia de vender alguma coisa s para o Natal. Mas sabia que se o fizesse levantaria as suspeitas de Anthony de que escondia alguma coisa. Ento, suspirou ao olhar 
para ele.
       - Voc percebeu que no podemos dar presentes um para o outro?
       Parecia uma criana que acabara de perder seu brinquedo favorito. Mas Anthony nem ligava.
       - Claro que podemos. Podemos nos dar um peru e um belo jantar de Natal. Podemos escrever poemas um para o outro. Podemos dar um grande passeio no parque.
       Ele fez com que a idia parecesse to bonita, que ela sorriu e secou as lgrimas.
       - Gostaria de lhe dar muito mais do que isso. 
       E ento, aproximando-se mais, ele sussurrou: 
       - Voc j deu.
       Nas semanas seguintes, seus pensamentos sobre o Natal foram esquecidos. Ficou muito doente com alguma espcie de gripe que a deixou enjoada e com nsia de 
vmito, passando o dia no banheiro. Ao entardecer, se sentia um pouco melhor. Mas tudo recomeava pela manh. No final da semana ela estava horrvel e abatida.
       -  melhor voc ir ao mdico, Bett - Anthony falou numa manh, enquanto ela corria para o banheiro.
       Mas Bettina no queria ir ao mdico de Ivo. No queria ter que explicar a ele. No queria que contasse para No ou que se intrometesse. Ento pegou o nome 
de um mdico com uma amiga de Anthony com quem haviam trabalhado no ltimo espetculo. A sala de espera era pequena e estava lotada, as revistas amassadas, a moblia 
velha e as pessoas mal-arrumadas e pobres. Quando conseguiu ser atendida, sentia-se nauseada e fraca e, poucos minutos depois, estava no banheiro vomitando violentamente. 
       Mas quando olhou para o mdico, seus olhos eram gentis, e com mos generosas ajudou-a a puxar o cabelo para trs.
       - Est mal assim, ?
       Ela assentiu, tentando recuperar a respirao. - Faz muito tempo?
       Os olhos do mdico a observavam com ateno e Bettina sentiu-se menos assustada ao deitar na cama de exames, soltando um leve suspiro.
       - Estou assim h quase duas semanas.
       - Alguma melhora ou piora? Ou esteve assim o tempo todo? Puxou um banco e sentou-se prximo a ela.
       - Tem sido assim o tempo todo. s vezes melhora  noite, mas no muito.
       Ele assentiu e fez uma anotao em sua ficha. 
       - Isso j aconteceu antes?
       Bettina balanou a cabea com segurana. 
       - Nunca.
       E ento o mdico a olhou com ateno, buscando seus olhos. 
       - Voc j esteve grvida antes?
       Ela balanou a cabea, at que entendeu o que ele queria dizer, sentando-se rapidamente.
       - Estou grvida?
       - Deve estar. Seria muito ruim?
       Pensativa, ela deu de ombros e, com um pequeno sorriso, respondeu:
       - Eu no sei.
       - Seu marido  um ator?
       A maioria de seus pacientes era de atores. Era um mundo onde tudo se espalhava como fogo; recomendaes, referncias, fofocas, doenas. E assim como tudo, 
seu nome havia se espalhado. Ela confirmou.
       - E ele est trabalhando agora? - Sabia como eram aquelas coisas tambm. s vezes tinha que esperar cinco ou seis meses para ser pago, quando conseguia.
       - No est no. Mas tenho certeza de que estar em breve. 
       - E voc?  atriz?
       Bettina negou achando graa. O que ela era? Assistente de direo? Aspirante a escritora? Quebra-galho? No era nada agora. No podia mais dizer "Sou filha 
de Justin Daniels", ou "Sou a esposa de No Stewart".
       - Sou apenas a esposa de Anthony Pearce.
       Disse aquilo como um reflexo, enquanto o mdico a observava, percebendo que havia muito mais coisa em sua histria. O suter que vestia era caro, assim como 
a saia de tweed. Os sapatos eram Gucci e apesar do casaco que vestia ser bem barato, em contraste, percebeu que usava um relgio de ouro muito caro.
       - Bem, vamos dar uma olhada em voc.
       Seu palpite estava correto. Para confirmar, fez um teste de gravidez ali mesmo no consultrio.
       - Diria que j est com dois meses, Bettina. - Observou sua reao e ficou sensibilizado com o largo sorriso da moa. - Voc no parece infeliz.
       - E no estou.
       Ela agradeceu e marcou outra consulta, apesar de ele ter dito que teria de indic-la para outro mdico. No podia lhe dar nenhum remdio para os vmitos ou 
as nuseas, mas de repente elas no pareciam mais to ruins. O mdico lhe assegurou que em mais um ms as dores desapareceriam, ou pelo menos diminuiriam bastante. 
Bettina nem se importava agora. Valia a pena. Ela teria um beb! Teria um filho de Anthony. De repente, nem mesmo trair No pareceu to terrvel. Valia a pena. Ela 
teria um beb! 
       Flutuou todo o caminho at o apartamento e disparou escada acima, at que se sentiu assustada. Talvez no devesse correr... talvez no fosse bom para o beb. 
Entrou na sala como um furaco, radiante com as notcias, mas Anthony no estava em casa.
       Tomou um caldo de carne com alguns biscoitos, enjoou e tentou comer novamente. O mdico lhe disse que devia sempre tentar. E ela prometeu. Pelo beb. E enquanto 
estava ali, teve uma idia. No contaria a Anthony. Ainda no. Esperaria at o Natal. Seria seu presente para ele. S faltavam cinco dias. Riu de alegria ao pensar 
no seu segredo, batendo palmas como uma criana... teriam um beb! Mal podia esperar para ouvir o que ele diria.
       
       
22
       
       Na vspera de Natal, Anthony a surpreendeu com uma pequena rvore. Arrumaram na mesa, e Bettina colocou alguns laos de fita. Fizeram pipocas, que Bettina 
no comeu, e depois, cada um deixou um pequeno pacote sob a rvore. A cena os fez lembrar de um velho filme, e eles riram e se beijaram. Bettina abriu seu presente 
primeiro. 
       Era uma velha caneta-tinteiro, linda, e ele sorriu ao v-la feliz.
       - Para escrever sua primeira pea.
       Ela o abraou agradecida e se beijaram longamente. - Agora, o seu.
       Bettina lhe deu um par de abotoaduras de prata que ele andou paquerando por semanas numa loja de antiguidades ali por perto.
       - Bettina, que loucura!
       Anthony estava maravilhado e correu para trocar a camisa e experiment-las. Ela o seguiu e sentou-se na cama.
       - Anthony?
       Sua voz estava estranhamente suave ao falar com ele e, sem saber por que, Anthony se virou.
       - O que , amorzinho? Seus olhares se encontraram. - Tenho um outro presentinho para voc.
       - Voc tem?
       Inclinou a cabea para o lado, mas nenhum deles se mexeu.
       - Tenho. Um muito especial. - Ela estendeu-lhe as mos. - Sente aqui.
       Um frio percorreu-lhe a espinha. Chegou at ela hesitante, parecendo preocupado.
       - Tem alguma coisa errada? 
       Bettina negou com a cabea e sorriu. 
       - No.
       Beijou-o suave e carinhosamente, e depois passou a ponta dos dedos em seus lbios. Num sussurro, que apenas ele podia ouvir, disse: 
       - Vamos ter um beb, querido.
       E ento esperou. Mas o que esperava jamais veio. Em vez disso, ele olhou para ela petrificado. Era to grave quanto pensara. A possibilidade lhe passou pela 
cabea por causa de seus vmitos, mas ele afastou o pensamento. Era mais do que ele podia agentar. Aquilo estragaria todos os seus planos.
       - Voc est brincando? - Ficou em p perto dela. - No, acho que no est.
       Jogou as abotoaduras na mesa e saiu do quarto, enquanto Bettina tentava lutar contra uma vontade de chorar e de vomitar ao mesmo tempo. Com calma, seguiu-o 
at a sala e o observou de p, olhando pela janela, de costas para ela, passando a mo nos cabelos.
       - Anthony? - Falou hesitante. 
       - Hum! - Ele se virou, devagar.
       Seu olhar era de raiva e, aps uma longa pausa, falou com uma expresso acusadora:
       - Voc fez isso de propsito, Bettina?
       Com os olhos marejados, ela negou com a cabea. Queria que ele ficasse feliz. Queria que aquilo significasse muito para ele tambm. 
       - Voc faria um aborto?
       Desta vez ela no pde segurar as lgrimas. Negou e saiu correndo do quarto. Quando voltou do banheiro, meia hora depois, ele no estava mais em casa.
       - Feliz Natal.
       Sussurrou para si mesma, segurando com uma mo sua barriga ainda inexistente, e secando os olhos com a outra. Caiu no sono s quatro da manh. Anthony no 
dormiu em casa.
       S voltou s cinco da tarde do dia seguinte. O Natal j estava quase no fim e, para Bettina, completamente destrudo. No perguntou onde ele esteve. No falou 
nada. 
       Estava fazendo as malas. Mas era o que Anthony temia, e foi o que o fez voltar para casa. Casado h trs meses, no podia perd-la. Ainda no.
       - Sinto muito. - Olhou para ela impassvel da entrada do quarto. - Fui apenas apanhado de surpresa.
       - Eu percebi. - Virou as costas para ele e continuou a fazer as malas.
       - Escute, Bettina... boneca, me desculpe. Tentou abra-la, mas ela se esquivou.
       - No faa isso!
       - Que merda! Eu te amo.
       Virou-a novamente para encar-lo, e ela chorava. 
       - Me deixa sozinha... por favor... Anthony, eu...
       Mas no podia continuar. Ela o desejava tanto. Queria dividir com ele a alegria daquela criana, e se descobriu caindo em seus braos, esperando que finalmente 
seus sonhos se tornassem realidade.        .
       - Est tudo bem, querida. Tudo bem.  que eu no podia imaginar...
       Quando suas lgrimas secaram, sentaram-se para conversar. 
       - Ser que estamos prontos, Bettina?
       - Claro que sim, por que no? - Sorriu com valentia. Durante todos os anos com Ivo, havia sufocado aquele sonho. Nem mesmo sabia o quanto queria um filho. 
At este momento. De repente, era tudo para ela.
       - Mas como vamos mant-lo?
       Anthony parecia indiferente, mas Bettina pensava nas suas jias. Venderia tudo, se fosse preciso, para cuidar do seu beb.
       - No se preocupe. Damos um jeito. Sempre demos, no foi? 
       - No  a mesma coisa. - E ento, suspirando profundamente como se fosse difcil tambm, olhou para ela com arrependimento. - Por mais que eu odeie a idia, 
no acha que faria mais sentido se fizssemos um aborto desta vez e tentssemos ter um filho mais tarde, depois de economizar algum dinheiro? Quando tivermos o controle 
da situao e eu estiver empregado?
       Mas Bettina estava determinada: 
       - No.
       - Bettina, seja razovel!
       - Que droga,  s o que voc quer? Um aborto?
       A discusso continuou por muito tempo, e finalmente Bettina venceu. Anthony ficou deprimido por duas semanas. Ela no o deixou, mas pensou nisso com freqncia. 
       Um dia ele chegou em casa radiante, dando um alto grito de felicidade.
       Veio encontr-lo na porta e sorriu ao ver sua expresso. 
       - O que aconteceu com voc? - Mas logo adivinhou. 
       - Consegui um emprego!
       - Que tipo de emprego? Conta!
       Estava feliz por ele e sentaram-se juntos no sof. A hostilidade das duas ltimas semanas desapareceu.
       - Vamos, Anthony... conta!
       - J vou, j vou. - Estava muito agitado para falar. Era um belo papel. - Consegui o papel principal em Sonny Boy.
       Olhou para ela em xtase. Era o maior sucesso da Broadway.
       - Na Broadway?
       Estava estupefata. Ouvira rumores recentes de que o ator principal da pea ia sair aps um sucesso de 15 meses.
       - Numa excurso, boneca, numa excurso. Mas no para cidades vagabundas, desta vez, benzinho. Por todas as melhores cidades do pas. Desta vez viajamos com 
classe. No mais pulgueiros, no mais baratas. Podemos ficar em hotis decentes, para variar.
       E lhe contou quanto estavam pagando. 
       - Anthony!  maravilhoso.
       Mas ela percebeu que tinha que lhe contar uma coisa. Ele dizia "ns". Lamentando, pegou suas mos e falou com carinho:
       - Corao, eu no posso... - Odiava ter de dizer aquilo. - No posso ir com voc.
       - Claro que pode. No seja ridcula. Por que no? - Olhou para ela, nervoso, e levantou-se.
       - No, querido. No posso. O beb. Esse tipo de viagem seria cansativo demais.
       - Seria porra nenhuma, Bettina. Eu disse que ficaramos em bons hotis. Iremos para cidades grandes. Ento que diabos  o seu problema? Droga, nem d para 
perceber ainda. - Ele estava gritando, e suas mos tremiam.
       - Apenas porque no aparece, no quer dizer que no est aqui. E no importa em que tipo de hotis fiquemos.  muito tempo de viagem. 
       - Bem,  melhor mudar de idia e concordar. - Andou nervoso at a outra ponta da sala e virou-se: - Porque se voc no for, eu no tenho o emprego.
       - No seja ridculo, Anthony. Quer dizer que no vai sem mim? Anthony fez uma pausa.
       - Significa que eles querem voc como assistente de direo, boneca. Querem ns dois. Se no for, no me contratam.
       - O qu? Isso  uma loucura!
       - O produtor nos viu trabalhar juntos na ltima excurso e achou que formamos uma bela dupla. Neste caso, o diretor do grupo  um testa-de-ferro, o que significa 
que ele leva as glrias e voc faz o trabalho. No  um bom acordo, mas o salrio  bom. Duzentos e cinqenta dlares por semana para voc.
       Bettina no pareceu se importar.
       - No  esse o problema, Anthony. Estou grvida. Voc contou a eles?
       - De jeito nenhum. - Agora estava agressivo.
       Ela tambm ficara nervosa. Tudo ia comear outra vez. 
       - Eu no vou, dane-se!
       - Nesse caso, madame - fez uma longa reverncia -, permita-me cumpriment-la por destruir minha carreira. Espero que entenda que se eu no aceitar este papel, 
posso ficar sem trabalhar por anos a fio. - Pronunciou a ltima frase com um olhar furioso.
       - Oh, Anthony, no  to...
       Subitamente, ela chorava. Mas sabia que era assim. Recusar uma boa oferta, as notcias se espalhavam.
       - Que companhia ?
       Ouviu o nome Voorhees e espantou-se. Era o grupo mais intransigente do ramo.
       - Querido, eu no posso.
       Ele no entendia e simplesmente saiu, batendo a porta. Dane-se! Era uma combinao ridcula. Por que tinham que insistir na sua presena no grupo? J obtivera 
toda a experincia de que precisava nos ltimos sete anos. Agora queria ler todas as peas que estivessem ao seu alcance, para depois escrever a sua. O treinamento 
in loco j havia terminado; mas com Anthony era diferente. Se ela estragasse a oportunidade dele, poderia ficar sem trabalho por muito, muito tempo. Aps pensar 
no assunto por duas horas, ligou para o mdico:
       - O que o senhor acha? 
       - Acho que est louca. 
       - Por qu? Seria ruim para o beb?
       - No, o beb no sentiria nada. Mas da maneira com que vem se sentindo, pode imaginar algo pior do que pular de hotel em hotel pelos prximos cinco ou seis 
meses?
       O silncio foi sua resposta. Ela estava triste. - Por quanto tempo ser a viagem?
       - No sei. Esqueci de perguntar.
       - Bem, deixe-me explicar: se voc conseguir suportar, eu no vejo nenhuma razo fsica pela qual no possa ir, desde que descanse o mais que puder, se alimente 
decentemente e evite ficar em p a maior parte do tempo. E volte para casa - olhou em sua ficha - antes de cinco meses. Quero voc aqui quando estiver com sete meses 
e meio, no mximo. Qualquer obstetra lhe diria isso. Tambm quero que procure clnicas de pr-natal em todas as cidades onde estiver, e faa um exame mensal. Acha 
que pode fazer tudo isso? - A voz do mdico era gentil.
       - Acho que ser necessrio.
       - Na verdade, depois que os enjos passarem, no deve mais se sentir mal. Os velhos atores mambembes costumavam fazer coisas assim. J ouviu a expresso "nascido 
num caminho"? No estavam brincando. Posso pensar em maneiras mais fceis de se ter filhos, mas se tomar cuidado, no far mal a voc ou  criana.
       Soltando um grande suspiro, Bettina desligou o telefone. Teve sua resposta e, quatro horas mais tarde, respondeu a Anthony.
       Mas aquela excurso era mais desgastante do que a outra, e ela trabalhava feito louca. A realidade dos fatos era que o diretor tinha um contrato de clusulas 
rgidas com o grupo, que obrigava a companhia a lev-lo junto, mas era um alcolatra que passava todo o dia bebendo em seu quarto, deixando o trabalho nos ombros 
de Bettina. 
       No segundo ms de excurso, ela pensou que teria um ataque. Os hotis no eram nada do que Anthony prometera, as horas eram interminveis e, sem um diretor 
para lhe dar apoio junto a uma equipe desqualificada, Bettina passava o tempo correndo, gritando, trabalhando todas as horas do dia. Perdia peso em vez de engordar 
e sentia constantes dores nas pernas. Quase nunca via Anthony, que, quando no estavam ensaiando, jogava com os amigos. Jogava especialmente com uma modelo loura 
de Cleveland que fazia sua estria no teatro. Seu nome era Jeannie, e desde que saram de Nova York Bettina a detestara, o que fazia com que fosse difcil trabalhar 
com ela. Mas como assistente de direo, Bettina se obrigava a ser profissional. Devia faz-lo pela garota, por ela mesma, pela companhia e por Anthony.
       Na segunda vez em que foi a uma clnica, o mdico lhe disse como as coisas estavam. Estava estafada e abaixo do peso desejado e, se no tomasse cuidado, perderia 
o beb. J estava quase no quarto ms. Ele sugeriu que pedisse ao seu marido que a ajudasse um pouco a reduzir a presso do trabalho. Naquela noite, aps a apresentao, 
Bettina falou com Anthony e pediu ajuda.
       - O qu? Por acaso est pensando em subir no palco e atuar no meu lugar?
       - Anthony... fale srio...
       - Estou srio. Que me importa se voc perder o beb? Eu nunca quis mesmo esse filho. Escute, boneca,  seu filho. Se no quer perde-lo, encontre algum que 
a ajude.
       Afastou-se dela, deu o brao a Jeannie e foi embora. Antes, informou a Bettina que iam sair para jantar e que no o esperasse acordada. Ela o olhava espantada. 
O que estava acontecendo? Por que ele fazia aquilo? Seria s por causa da criana? Voltou para o hotel perturbada e, pela primeira vez em dois meses, a necessidade 
de ligar para No estava gritante. Mas no podia fazer isso. No era mais uma garotinha. E no podia voltar-se para No s porque estava magoada. Esperou no seu quarto 
para discutir com Anthony. Mas ao meio-dia do dia seguinte, teve que ir para o teatro. Jeannie estava  sua espera.
       - Procurando Anthony? - perguntou com ironia.
       - No. Vim trabalhar. Posso fazer alguma coisa por voc? 
       - Pode. Seja uma dama.
       A garota sentou-se num banquinho, e Bettina usou todas as suas foras para no lhe dar um soco.
       - Como ? - Sua voz estava glida. 
       - Voc me ouviu, Betty.
       - O nome  Bettina. E o que exatamente voc quer dizer com isso? De repente ela compreendia que algo de grave estava acontecendo. O que aquela garota insinuava? 
       E qual o envolvimento de Anthony naquilo tudo? Bettina sentiu seu estmago doer, mas no hesitou enquanto olhava para aquele rosto bonito.
       - Est bem, Betty - ela tinha o que os franceses chamam de "um rosto para um tapa" -, por que no deixa Anthony resolver seu problema agora? Seus seis meses 
j esto quase no fim.
       - Que seis meses?
       Ela falara como se fosse uma sentena, e Bettina ficou assustada. - Ora, por que pensa que ele se casou com voc, queridinha? Por que estava muito apaixonado? 
Claro que no. Apenas queria o visto de residncia. Ele no te contou?
       Bettina estava horrorizada.
       - Voc era a candidata mais prxima. Sabia que seu ex-marido a sustentaria, e por isso ele no teria com que se preocupar. Foi em setembro, no foi?
       Bettina apenas concordou com a cabea.
       - Pois bem, ele precisa ficar com voc no mnimo seis meses, para conseguir o visto de residncia. Depois pode se livrar de voc. E se pensa que no, est 
louca. Anthony no est nem a para voc, e no quer esse filho que voc tolamente arranjou. E deixa eu te falar mais uma coisa. - Ela pulou do banquinho, rodopiando 
sobre o traseiro bem-feito. - Se pensa que vai continuar no p dele quando voltarem para Nova York, est mais louca ainda.
       Por todo o dia Bettina se refugiou no teatro, tentando se concentrar no trabalho. E quando finalmente Anthony chegou para a apresentao, ela entrou sorrateira 
em seu camarim e fechou a porta. Estava l quando ele chegou, felizmente sozinho. Anthony a olhou com estranheza e andou at o armrio para pendurar o casaco.
       - O que voc quer, Bettina?
       - Conversar. - Sua voz era firme.
       - No tenho tempo. Tenho que fazer minha maquiagem para o espetculo.
       - timo. Podemos conversar enquanto voc se prepara. - Ela puxou uma cadeira e sentou-se, e ele pareceu chateado. - Tive uma conversinha hoje com sua amiga 
Jeannie.
       - Sobre o qu? - De repente ele pareceu desconfortvel.
       - Oh, vamos ver. Ah, sim... ela disse que voc se casou comigo apenas para conseguir o visto de residncia, e quando os seis meses de convivncia mnima estiverem 
terminados, em trs semanas, voc vai me deixar. Tambm me disse que voc est louco por ela, mais ou menos isso. Ela  realmente uma gracinha, mas estar falando 
a verdade?  justamente isto que eu queria te perguntar.
       - No seja boba.
       Ele evitou seus olhos e comeou a procurar alguma coisa na caixa de maquiagem, mas Bettina estava logo atrs dele, olhando-o pelo espelho.
       - O que vai dizer, Anthony?
       - Que ela deve ter-se empolgado e exagerou! Bettina agarrou seu brao.
       -  apenas uma parte da verdade, no ?  isso que est me dizendo, Anthony? Vai me deixar depois desta tourne? Porque se  o que tem em mente, gostaria 
de ir me acostumando com a idia desde j. Afinal - comeou a perder o controle da voz e demonstrava pnico - vou ter um beb, e deve ser bom saber se estarei ou 
no sozinha. 
       Subitamente ele levantou-se e a encarou, gritando:
       - Eu disse que no tivesse essa merda de filho, droga! Tudo seria perfeito se tivesse feito o que eu disse. - Ento, pareceu se arrepender e sentou-se.
       - Ela estava falando a verdade? Foi apenas pelo visto de residncia?
       E, pela primeira vez, ele a olhou com sinceridade e respondeu: 
       - Foi.
       Ela fechou os olhos e.tambm sentou-se.
       - Meu Deus, e eu acreditei em voc. - Ria e chorava ao mesmo tempo. - Que ator maravilhoso voc .
       - No  assim. - Disse com um jeito manso. 
       - No ?
       - No. Eu gostava de voc, de verdade. Apenas no pensava que fosse para sempre. Eu no sei... ramos muito diferentes...
       - Seu desgraado!
       Fora enganada, ento. Enganada o tempo todo. Bateu com fora a porta do camarim e correu para o palco. A apresentao foi tranqila naquela noite, e ela deixou 
o teatro logo que acabou. Voltou para o hotel e pediu um quarto. No que aquilo tivesse importncia, pois provavelmente ele no voltaria. Mas no arriscaria. Queria 
ficar sozinha e pensar.
       Agora iria para casa e escreveria sua pea. E em mais cinco meses teria o filho... Apertou os olhos e tentou no chorar. Mas era inevitvel. Cada vez que 
pensava em ter o filho sozinha, sem pai, entrava em pnico e queria, desesperadamente, estar com ele... Ivo... algum... no podia encarar tudo sozinha... no conseguiria... 
mas no tinha escolha. Aps chorar por horas e matutar sobre o assunto, finalmente caiu no sono, at que s quatro da manh acordou com uma estranha sensao de 
clicas. Sentando-se na cama, olhou para os lenis e viu sangue.
       Seu primeiro impulso foi entrar em pnico, mas depois controlou-se. Afinal estava em Atlanta. Tinha bons hospitais. Dois dias antes esteve com um mdico e 
tudo que tinha a fazer era ligar para o hospital e mandar cham-lo.
       Quando ligou, a enfermeira da sala de emergncia ouviu os sintomas e disse-lhe que fosse ao hospital imediatamente. Garantiu que no deveria ser nada srio. 
s vezes um sangramento acontecia, e com alguns dias de descanso tudo voltava ao normal. Disse-lhe para pedir ao marido que a levasse. Suposio interessante, pensou 
Bettina, que nem se preocupou em ligar para o outro quarto. Vestiu-se depressa, tentando ficar de p apesar das estranhas dores, correu para a portaria do hotel, 
depois para a rua e pegou um txi. Mas s de andar at a portaria aumentou as dores intensamente, e contorcia-se no banco de trs do txi enquanto corriam para o 
hospital. O motorista olhou-a pelo retrovisor, e ela soltou um pequeno grito.
       - A senhora est bem?
       Tentou dizer-lhe que sim, mas foi apanhada por outra clica. - Oh... Deus, no... eu... oh, por favor... pode correr...
       O pequeno desconforto que sentira antes havia evoludo para uma dor insuportvel.
       - Deite-se.
       Tentou deitar-se, mas no adiantou. No podia ficar quieta no banco. Tinha que se virar e contorcer-se, e de repente queria gritar, berrar.
       - Oh, Deus... corre... no posso...
       Colheram as informaes de que precisavam, sobre sua identidade e seu registro na previdncia, na carteira em sua bolsa. Bettina estava transtornada pela 
dor para falar alguma coisa com sentido. Mal podia falar. Tudo que podia fazer era agarrar-se ao cinto da maca, e a cada minuto contorcia-se com um grito horrvel. 
As trs enfermeiras que estavam  sua volta entreolhavam-se, e quando o mdico chegou ela foi levada rapidamente para a sala de parto. A criana apareceu meia hora 
depois. 
       Um pequeno feto, retirado enquanto Bettina gritava desesperadamente. J estava morto.
       
23
       
       O avio pousou suavemente no aeroporto Kennedy, e Bettina olhava pela janela enquanto se aproximavam do porto. Acabara de passar uma semana no hospital, 
e s teve alta naquela manh. Um dia depois do aborto, ela ligou para o teatro e explicou que estava no hospital e os mdicos queriam que ela descansasse por trs 
meses. No era verdade, mas tirou-a do compromisso e um novo assistente de direo voou de Nova York para l. Um jovem que teve pena dela e mandou todas as suas 
coisas do hotel para o hospital. Anthony veio s uma vez, parecendo sem jeito. Disse que sentia muito, o que ambos sabiam ser uma mentira. Ela tratou do assunto 
como se fosse um negcio e disse que falaria com seu advogado assim que chegasse em Nova York na semana seguinte. Ainda lhe faria o favor de esperar mais trs semanas 
antes de registrar o pedido de divrcio, e ele poderia ter seu visto de residncia com a sua bno. E depois, olhando-o com uma grande dor no fundo de seu corao, 
pediu que fosse embora. Anthony parou na porta para dizer-lhe algo, mas no o fez. Apenas deu de ombros e foi embora, fechando a porta com cuidado. No ligou mais 
para ela. Nada mais foi dito. E dois dias depois, enquanto Bettina ainda estava no hospital, a tourne seguiu seu caminho.
       O resto de sua estada no hospital foi sem maiores acontecimentos. Sentiu-se triste e solitria, no por Anthony, mas pela criana que perdeu. Disseram a ela 
que era uma menina e, dia aps dia, ela ficava na cama e chorava. No ajudaria, as enfermeiras diziam, mas entendiam que tinha que desabafar. No final da semana 
Bettina chorava no s pelo beb, mas por tudo. Chorava pelo seu pai e pela maneira com que a deixou, por No e pelo que fez a ele, e depois pela maneira rude com 
que ele a mandara embora. Por Anthony e pelo que fez s por um visto de residncia e agora, por, ter perdido seu filho: Agora no tinha nada nem ningum. Sem o filho, 
o marido, o lar e um homem. Ningum a queria. No tinha ningum. E aos vinte e seis anos, sentia como se sua vida tivesse terminado.
       Ainda se sentia assim ao soltar o cinto de segurana e descer as escadas devagar. Para ela, tudo parecia estar se movendo estranhamente devagar. Sentia-se 
como se estivesse embaixo d'gua, mas no se Impor tava. Pegou a mala na esteira, pediu ajuda a um carregador e foi procurar um txi. Quarenta e cinco minutos mais 
tarde, abria a porta do apartamento de Anthony. Prometera a si mesma que arrumaria suas coisas rapidamente e iria para um hotel, mas ao olhar em volta, sentiu-se 
muito deprimida e comeou a chorar. Remexeu as gavetas, esvaziou os armrios e colocou nas malas tudo o que era seu. Fez este trabalho em menos de duas horas. No 
ficara l com Anthony por muito tempo. Nem chegou a completar seis meses. E sete anos com Ivo. Dois divrcios. Comeava a se sentir como mercadoria de segunda mo.
       Colocou as malas junto  porta e desceu as escadas para chamar um txi. Com sorte, conseguiria algum a quem pudesse dar uma gorjeta para ajud-la com a bagagem. 
       A sorte parecia estar do seu lado, e um jovem motorista atendeu ao seu apelo. Fizeram quatro viagens para descer tudo, e quando chegaram ao hotel Bettina 
deu-lhe uma nota de 20 dlares de gorjeta. Deixar o apartamento fora estranhamente sem emoes. Percebeu que no ligava mais. Tudo que importava agora era ela mesma. 
Que fracasso tinha sido, e como fora tola. Pensar em Anthony fazia com que se sentisse uma palhaa.
       J devia estar acostumada a hotis depois das tournes, mas ao entrar no seu quarto, descobriu que tudo a fazia chorar. Queria ligar para Ivo, mas sabia que 
no era correto. No havia ningum para quem ligar, nem mesmo Steve, que estava fora da cidade. Tentou se concentrar no jornal que encontrou no quarto, mas via tudo 
embaado pelo pranto. Finalmente, no podendo mais suportar, pegou o telefone e discou. Segurou a respirao, sentindo-se estpida. E se ele desligasse na cara dela? 
Se a repreendesse? E se... Mas sabia que No no faria aquilo. Esperou pela voz familiar de Mattie e foi surpreendida ao ouvir uma voz que no conhecia.
       - Mattie?
       - Quem est falando? - respondeu a voz.
       - Eu... sou... Quem est falando? Onde est Mattie? Pausa.
       - Ela morreu h dois meses. Sou Elizabeth. Quem  voc?
       - Eu... oh, sinto muito... - Novas lgrimas. - O Sr. Stewart est em casa?
       - Mas quem est falando? - Elizabeth se irritava.
       -  a Sra. Pearce, isto , Sra. Stewart, quero dizer... ah, deixa pra l. Ele est?
       - No, est nas Bermudas. 
       - E quando volta?
       - No antes de primeiro de abril. Alugou uma casa. Gostaria de deixar algum recado?
       Mas Bettina entendeu que no. No seria certo. Desligou e soltou um suspiro.
       Passou uma noite sem descanso e angustiada. Quando acordou, na manh seguinte, havia comeado a nevar. Parecia-lhe estranho, pois tinha visto o incio da 
primavera no resto do pas. E agora estava nova mente atirada a um inverno, com tempestades de neve e nenhum lugar para ir. Aquilo a fez meditar. E se deixasse Nova 
York? 
       Se fosse para algum outro lugar? Mas para onde? No tinha amigos em nenhum outro lugar, no tinha laos em nenhuma outra cidade, e ento, sentiu que sua mente 
se voltava para a Califrnia, para a semana encantada que passara em San Francisco com Anthony, e compreendeu que o que queria era voltar para l. Mesmo sem ele, 
era um lugar onde sabia que teria paz.
       Sentindo-se uma aventureira, ligou para a companhia area e meia hora mais tarde foi ao banco. Cuidadosamente, embalou todas as suas jias, que ficaram l 
guardadas, numa bolsa de couro e riu para si mesma. Talvez aquilo significasse que ela nunca mais voltaria. Desta vez era ela que estava indo embora. Ela que estava 
tomando a deciso. Levou todas as suas malas para o aeroporto. Tudo que possua. E antes de deixar o hotel de Nova York, ligou para o hotel onde ficara com Anthony 
e pediu um quarto com vista para a baa. Talvez fosse bobagem ficar no mesmo hotel, mas ela no pensava assim. Fora to bom, e no importa que lembranas tivesse 
de l. 
       No significavam mais nada. E ele tambm no.
       O vo para San Francisco foi tranqilo e agora j estava acostumada a mudar de cidades depois de alguns dias, pois nem estranhou ter deixado Nova York nevando 
e encontrar-se no mesmo dia na primavera que iniciava na Costa Oeste. San Francisco era to linda como ela se lembrava, e colocou suas coisas em seu quarto com um 
sorriso de contentamento. S  noite os fantasmas a atacaram novamente. Tomou duas aspirinas e um copo d'gua. E uma hora depois, em desespero, foi dar uma volta 
a p. Retornou ao hotel e tomou mais duas aspirinas e, finalmente, s trs da manh, tomou uma plula para dormir que lhe deram quando saiu do hospital. Eles imaginaram 
que ela teria problemas para dormir por alguns dias. Mas nem mesmo o remdio adiantou, e ela ficou olhando para o vidro durante um tempo que pareceram horas. At 
que subitamente sabia a resposta, e pensou por que no pensara naquilo antes. Foi loucura ter ido para San Francisco quando o que ela queria podia encontrar em sua 
Nova York. Mas ainda no tinha pensado em nada. E sorriu para si mesma. 
       Agora compreendia tudo. E era to simples... to simples... Caminhou at o banheiro, colocou mais gua n copo e ento tomou, uma a uma, todas as plulas para 
dormir, esvaziando vidro. Vinte e quatro plulas.
       
24
       
       Havia luzes fortes sobre ela que pareciam se aproximar e depois desaparecer. Ouvia o zumbido de mquinas, algum vomitando e havia uma estranha sensao de 
alguma coisa enfiada em sua garganta. No conseguia se lembrar... no lembrava... e finalmente Conseguiu. Estava num hospital... estava tendo um aborto... e, novamente, 
caiu no sono.
       Pareciam anos mais tarde quando acordou e viu o rosto de um homem desconhecido olhando para ela. Era alto, de cabelos escuros, olhos castanhos, atraente, 
vestia uma blusa amarelo-plido e um jaleco de algodo branco. Ento se lembrou de que estava num hospital. Mas no sabia bem por qu.
       - Sra. Stewart?
       Ele a olhou inquisidoramente e ela negou com a cabea. Lembrou-se ento que no mudou o nome de seu carto da previdncia depois que se casara com Anthony.
       - No, Pearce. - Respondeu com uma voz rouca que a surpreendeu, e ento negou com a cabea novamente. - Quero dizer... Daniels, Bettina Daniels.
       Mas este tambm soava estranho. H tanto tempo no usava este nome.
       - Que bela coleo de nomes voc tem, no ? - Seu olhar no era de repreenso, mas de surpresa. - Se incomoda se eu sentar um pouco pra conversarmos?
       Agora ela entendia por que ele queria conversar. 
       - Vamos falar sobre ontem  noite.
       Seus olhos afastaram-se do mdico e olhou pela janela. Tudo que podia ver na distncia era o fog vagando acima da ponte Golden Gate.
       - Onde estou?
       Bettina estava sendo evasiva e o mdico sabia. Mencionou o nome Credence Hospital e ela apenas sorriu. Depois, nervosamente, olhou para ele.
       - Temos mesmo que conversar? Ele confirmou com seriedade.
       - Temos sim. No sei por quanto tempo est aqui na Califrnia, e no sei como se trata deste assunto em Nova York, mas a menos que queira ficar por aqui para 
tratamento psiquitrico por uns tempos, acho que  bom falar. O que aconteceu na noite passada?
       - Tomei algumas plulas para dormir. - A voz ainda rouca. - Por que minha voz est to estranha?
       Sorriu para ela, e pela primeira vez ele pareceu realmente um jovem. Era bastante atraente tambm, mas terrivelmente srio e no parecia muito divertido.
       - Fizemos uma lavagem no seu estmago. O tubo far sua voz ficar assim por alguns dias. Agora, voltando s plulas para dormir, voc fez de propsito ou foi 
um acidente?
       Pensou alguns minutos, sem ter certeza do que devia responder. 
       - No... no tenho certeza.
       Ele a olhou com ar grave:
       - Sra. Stewart... Daniels, ou o nome que preferir, no quero brincar. Ou conversamos sobre isso ou no. Quero saber de voc o que aconteceu, ou simplesmente 
escrevo na sua ficha que voc vai ficar aqui uma semana em observao.
       Ela ficou irritada. Seus olhos chamejavam ao falar com ele, que teve que esconder um sorriso. Realmente ela era muito bonita.
       - No tenho certeza do que aconteceu, doutor. Vim de Nova York para c ontem, e um dia antes tive alta de um hospital por causa de um aborto natural. Me deram 
alguns remdios e ou tomei muitos ou eles eram muito fortes para mim... no tenho certeza.
       Sabia que estava mentindo, mas no se importava. Aquele homem no tinha nada com isso. E da que ela tenha tentado se matar? No conseguiu e ainda era sua 
vida. 
       No tinha que falar nada para ele. E tambm no tinha nada a ver com sua "coleo de nomes". E da?
       - Em que hospital esteve para o aborto?
       E ele ficou l com sua ficha na mo, caneta preparada e certo de que ela estava mentindo, mas ela deu a informao com rapidez, falando sobre o hospital em 
Atlanta, e o mdico pareceu surpreso.
       - Voc anda viajando muito, no ?
       -  sim. - Falou com sua voz engraada. - Eu era a assistente de direo de uma pea de teatro em tourne e tive o aborto enquanto viajava. Estive no hospital 
por uma semana, desisti do teatro e voltei para Nova York.
       - Est aqui a negcios?
       Agora ele parecia interessado, e ela negou com a cabea. Por um instante pensou em contar que estava numa visita, mas decidiu no faze-lo. Podia falar a verdade 
ao menos sobre aquilo.
       - No. Eu me mudei para c. 
       - Ontem?
       Ela assentiu com um gesto. 
       - Casada ou solteira?
       - Nenhum dos dois. - E sorriu calmamente. - Arrependida?
       Ele parecia ingnuo e Bettina imaginou se era capaz de sorrir. 
       - Estou pedindo o divrcio.
       - E ele... deixe-me adivinhar - desta vez ele sorriu -, est em Nova York.
       - No. Est acompanhando a tourne.
       - Agora compreendo. Casada h muito tempo?
       Por um instante pensou em choc-lo e perguntar "em qual casamento?", mas apenas negou com a cabea e deixou-o pensar o que quisesse.
       O mdico suspirou e largou a caneta.
       - E sobre o aborto? - Sua voz ficou mais gentil, pois sabia como aquilo podia ser difcil. - Teve complicaes? Foi difcil? Demorou muito?
       Ela desviou o olhar pra a ponte, e a luz de seus olhos se apagou. 
       - No acho que tive complicaes. Fiquei no hospital por uma semana. Eu... aconteceu... aconteceu  noite. Acordei de madrugada e fui para o hospital, e foi 
muito doloroso. No sei quanto tempo demorou. No muito, eu acho. - Ela encolheu-se e secou uma lgrima com a mo. - Doeu muito.
       Ele sentiu tristeza por aquela menina de cabelos vermelhos. No eram realmente vermelhos, eram mais cor de caramelo, pensou consigo, e enquanto ela olhava 
para ele percebeu que tinha profundos olhos verde-esmeralda.
       - Sinto muito, senhora... 
       Ele gaguejou e ela sorriu.
       - Bettina. Eu sinto tambm. Mas... meu marido no queria mesmo...
       Ela encolheu-se novamente e ele largou sua ficha. 
       - Foi por isso que o deixou?
       - No. Descobri outras coisas. Foi basicamente um detalhe no esclarecido... - Subitamente, sentiu vontade de contar a ele. Olhou no fundo de seus olhos escuros. 
       - Ele se casou comigo para conseguir o visto de residncia.  ingls. E parece que esta foi sua nica motivao. - Tentou sorrir, mas seu sorriso mostrava 
a amargura que tinha no peito. - Foi este o detalhe que ele no me contou. Oh, eu sabia que ele precisava do visto, mas no sabia que foi por isso que se casou comigo, 
pelo menos, no s por isso. Pensei que... bem, de qualquer jeito, s  necessrio ficar junto seis meses e... vai completar seis meses na semana que vem. Fim do 
casamento. E, como aconteceu, fim do beb ao mesmo tempo.
       Quis dizer a ela que talvez tenha sido melhor assim, mas no achou que devia. s vezes ele era muito rude, mas com ela no seria. Parecia to pequena e frgil 
naquela cama de hospital.
       - Voc tem famlia aqui? 
       - No.
       - Amigos?
       - Ningum. S eu.
       - Est pensando em ficar?
       - , acho que sim.
       - Sozinha?
       - No para sempre, eu espero. - Olhou para ele com um jeito divertido, e havia um leve brilho em seu olhar. - Pensei que seria um lugar interessante para 
comear de novo.
       Estava impressionado com sua coragem. Estava muito longe de casa.
       - Sua famlia est na costa leste, senhora... Bettina? 
       - No. Meus pais morreram e... no sobrou ningum. No no contava mais. Para ela, tambm ele partira.
       - Diga-me a verdade, quero dizer, s entre ns. Foi por isso que fez o que fez ontem?
       Olhou para ele e, por um minuto, apenas um minuto, sentiu que podia confiar nele.
       - Eu no sei... Comecei a pensar... sobre meu... marido, outros erros... a criana... fiquei nervosa. Tomei umas aspirinas e fui dar uma volta... de repente, 
era como se tudo se apagasse  minha frente. Tenho me sentido assim desde que perdi o beb, como se no pudesse colocar os motores em marcha novamente. Como se eu 
no ligasse mais para nada. Como se nada me motivasse... e... eu. - De repente estava olhando para ele e chorando. - Se eu no... se eu no tivesse ido naquela excurso 
com o teatro, no teria perdido o beb, no teria... me sinto to culpada... eu...
       Estava falando a ele coisas que nem ela sabia que sentia e, inconscientemente, lhe pedia carinho e ele correspondeu, acariciando-a.
       - Est tudo bem, Bettina... tudo bem.  normal voc se sentir assim. Mas tenho certeza de que lhe disseram que no importa o que tenha feito, provavelmente 
o beb no teria mesmo nascido. Algumas crianas no esto prontas para nascer.
       - Mas e se esta estivesse? Ento eu a matei.
       Ela o olhou com ar de sofrimento e ele negou com a cabea.
       - Quando um beb est se desenvolvendo bem, a me pode fazer qualquer coisa que no vai perd-lo. Acredite em mim, se ele se foi, era porque no estava bem.
       Bettina recostou-se na cama e o observou, tensa.
       - Obrigada. - E com um ar de preocupao: - Voc vai querer que eu fale com um monte de psiquiatras? Voc vai me trancar junto com os loucos porque eu falei 
sobre ontem  noite?
       - No, no vou. Mas gostaria que voc fosse examinada por um dos nossos ginecologistas, s para ter certeza de que tudo est bem, e depois vou te pedir para 
ficar aqui alguns dias. S para se recompor, descansar um pouco e tomar algumas destas plulas para dormir sob nossa superviso e no por sua conta, caso seja necessrio. 
Mas o que voc est sentindo  normal, apenas as outras mulheres tm marido ou famlia para pedir ajuda nestes casos.  muito difcil segurar a barra sozinha.
       Ela assentiu com a cabea. Ele a compreendia.
       - E gostaria que pudssemos conversar mais. Voc se incomodaria?
       - No. Mas qual  mesmo a sua especialidade?
       Talvez j estivesse falando com um psiquiatra. Talvez tudo fosse um truque para engan-la.
       - Sou um residente. E se vai ficar na cidade vai mesmo precisar de um de ns. E talvez agora, enquanto est retomando sua vida, precise de um amigo tambm. 
- Sorriu para ela, estendendo a mo. - Sou John Fields, Bettina.
       Ela apertou sua mo com firmeza.
       - Ah, e por falar nisso, como acabou tendo tantos nomes? Deu um sorriso amarelo. Se ele seria seu mdico e amigo, devia saber a verdade.
       - Pearce  o meu nome do casamento recente; Daniels  meu nome de solteira, o qual penso usar novamente; e Stewart era... o nome do meu primeiro marido. Fui 
casada uma vez antes desta.
       - Quantos anos voc disse que tinha? Ainda sorria ao se encaminhar para a porta. 
       - Vinte e seis.
       - Nada mal, Bettina. Nada mal. - Acenou pronto para sair, mas parou por um instante e olhou para ela. - Acho que voc vai ficar bem. - Despediu-se, e ao sair 
sorriu de uma forma que lhe deu certeza de que tudo ficaria bem mesmo.
       
25
       
       - Como se sente hoje, Bettina? , John Fields acabava de entrar no quarto do hospital, sorrindo.
       - Bem. - Ela tambm sorriu. - Melhor. Bem melhor. Dormira como um beb na noite anterior, sem os pesadelos, os fantasmas dos antigos conhecidos e at sem 
remdio. 
       Apenas colocou a cabea no travesseiro e caiu no sono. Havia vrias mames e papais vestidos de branco que estavam l s para cuidar das pessoas e afastar 
todos os pesadelos e gente ruim, para que se pudesse relaxar. No se sentia assim, to em paz, havia um ano. Pensava e olhava para aquele atraente e jovem doutor.
       - Eu no deveria falar isso, mas no gostaria de sair do hospital. 
       - E por que no?
       Por um breve momento um trao de preocupao interferiu em seu sorriso. Ele contornara muitos problemas para no levar um psiquiatra para ela. E realmente 
no a classificava como um caso grave.
       Ela o olhava, agora, com seu sorriso infantil e com aqueles devastadores olhos verdes. Certamente no parecia louca, mas pretendia continuar vigiando-a aps 
sua sada do hospital.
       Bettina recostou-se nos travesseiros com um suspiro:
       - Por que no quero sair daqui, doutor? Ah, porque  to fcil e to bom. No tenho que procurar apartamento, emprego, preocupar-me com dinheiro, ir ao mercado, 
cozinhar. No tenho que procurar um advogado, no tenho nem que me maquiar ou me vestir.
       Mas ela havia se lavado por meia hora e colocara uma fita de cetim branca nos cabelos. Parecia bonita, jovem, como se a vida fosse muito simples. Dava a impresso 
de ter retornado aos seus vinte anos.
       - Acho que voc acabou de me dizer a razo por que muitas pessoas ficam em instituies psiquitricas por anos ou por toda a vida, Bettina. - E, mais calmamente, 
acrescentou: -  isso que tem em mente?  assim to complicado se vestir ou ir ao mercado?
       Bettina ficou surpresa com o que ele acabara de lhe dizer e negou: 
       - No... claro que no. - E sentiu que tinha que explicar. No queria deix-lo com a idia de que fosse mesmo louca.
       -  que eu... eu estive... - Procurava as palavras certas ao olhar para ele. - Estive sob presso por muito tempo.
       Ento talvez ela tivesse algum problema mais grave. Ele ficou imaginando se realmente devia mand-la para casa.
       - Que tipo de presso? - perguntou, puxando uma cadeira. 
       - Bem. - Olhou para as mos por algum tempo. - Eu estive cuidando de casas, empregados e um esquema complexo por alguns anos. Dois maridos e um pai me mantiveram 
ocupada pelos ltimos quinze anos.
       - Quinze? E a sua me? - No podia parar de olhar para ela. 
       - Morreu de leucemia quando eu tinha quatro anos.
       - E seu pai nunca se casou outra vez?
       - Claro que no. No precisava. Eu estava l.
       Os olhos do mdico demonstraram espanto, mas ela rapidamente esclareceu:
       - No, no. Assim no. Pessoas como meu pai se casam por muitas razes: a convenincia, algum com quem conversar ou para dar conselhos, fazer companhia quando 
esto viajando ou para interromp-lo quando estava escrevendo um livro. Eu fazia tudo isso.
       John a observava, fascinado por algo em seu rosto. Parecia muito experiente e mais velha ao falar, alm de parecer mais linda do que qualquer outra mulher 
que conhecesse.
       - Acho que a maioria das pessoas se casa por convenincia e para lutar contra a solido.
       - Foi por isso que se casou?
       - Em parte. - E ento sorriu, recostando-se no travesseiro, com os olhos ligeiramente fechados. - Mas eu tambm estava muito apaixonada.
       - Por quem? - Sua voz era pouco mais que um sussurro num pequeno quarto.
       - Por um homem chamado No Stewart. - Continuou falando, olhando para o teto, at que voltou a olhar para ele. - No sei se isso lhe diz alguma coisa, mas 
ele foi o editor do New York Mail por vrios anos. Aposentou-se h pouco mais de um ano.
       - E voc se casou com ele? - O jovem mdico parecia mais surpreso do que impressionado. - Como o encontrou?
       Ainda no conseguia entend-la. Sabia que esteve ligada a um grupo de teatro. Mas havia algo mais nobre sobre seu nascimento e como a garotinha envolvida 
num teatro mambembe pde ser casada com o for do New York Mail? Estaria mentindo? Seria realmente louca? Talvez devesse ter checado melhor sua procedncia. Quem 
era aquela menina?
       - Vou contar do comeo. J ouviu falar de Justin Daniels? Era uma pergunta boba, e ela sabia.
       - O escritor?
       - Ele era meu pai.
       E lhe contou a histria de sua vida, sem poupar detalhes. Precisava realmente falar.
       Quando finalmente terminou com os detalhes, as esperanas, os sonhos, ele disse:
       - E agora, Bettina? - Olhou no fundo de seus olhos.
       - Quem sabe? Acho que tenho que comear tudo de novo. Mas ainda se sentia como se tivesse uma pesada carga sobre os ombros, devido a todos os anos passados. 
Pesada demais para quem precisava comear uma vida nova. E contar tudo a ele no aliviou-lhe presso.
       - Por que escolheu San Francisco?
       - Eu no sei. Foi um gesto repentino. Apenas lembrava que era uma cidade bonita e eu no conheo ningum aqui.
       - Isto no a assustou?
       - Um pouco. Mas como eu estava, era mais um alvio. s vezes  bom ser annima, ir para onde no se  conhecida. Posso comear tudo outra vez aqui. Posso 
ser apenas Bettina Daniels e descobrir quem ela .
       - Ao menos pode esquecer quem ela foi. Bettina viu logo que ele no entendia.
       - No  por a. Fui muitas pessoas, mas todas as minhas personalidades significaram alguma coisa. Todas tinham um motivo. De um, certa maneira, todas estavam 
corretas no seu tempo. Exceto esta ltima vez... foi realmente um erro. Mas a vida com meu pai. - Hesitou, procurando pelas palavras. - Foi uma experincia extraordinria 
e eu no desistiria dela por nada neste mundo.
       - Voc nunca teve um momento normal em sua vida. No teve pais para am-la, no teve um lar simples, no teve crianas para buscar na escola, no se casou 
com nenhum rapaz da faculdade, apenas um, sucesso de pesadelos estranhos, pessoas excntricas, teatro e velhos. 
       - Voc faz com que tudo parea horrvel.
       Entristeceu ao ouvi-lo falar assim. Ser que  assim que vai parecer s pessoas, agora? Ruim e extravagante? Era isso que ela era? Sentia as lgrimas chegando 
e lutou para escond-las.
       Mas ele se sentiu horrorizado consigo mesmo. O que estava fazendo? Ela era sua paciente e ele a estava afligindo. Olhou para Bettina sentindo-se culpado, 
e buscou a sua mo.
       - Sinto muito. No tenho o direito de fazer isso. Mas no sei como explicar a voc. Fiquei assustado ao escutar tudo. Me entristece ver pelo que voc teve 
que passar. Me preocupo com o que vai acontecer agora. 
       Bettina o olhou com estranheza, ainda sentindo-se magoada.
       - Obrigada. Mas no importa. Voc tem o direito de dizer o que pensa. Como voc disse a princpio, se vou me estabelecer aqui, vou precisar de mais do que 
um mdico, vou precisar de um amigo.
       J era tempo de descobrir como vivia o resto das pessoas daquele mundo, "as normais", como John falou.
       - Espero que sim. Eu sinto realmente. Voc teve uma vida muito, muito dura. E tem o direito de ter outra bem melhor agora.
       - Por falar nisso, de onde voc ?
       - Daqui. San Francisco. Vivi aqui toda a minha vida. Cresci aqui, freqentei a faculdade em Stanford e fiz a especializao em medicina l tambm. Tem sido 
tudo muito calmo, sem grandes aventuras e normal. E quando me pergunta sobre o que acho que voc tem direito, bem, quando digo que pode ter coisa melhor do que teve: 
um marido bom e ntegro, que no tenha quatro ou cinco vezes a sua idade, alguns filhos e um lar decente.
       Bettina o olhou aborrecida por um momento. Por que ele no podia entender que parte de sua vida fora bonita, e, o que quer que tenha sido, parte de um todo 
s seu?
       - Voc no est planejando conseguir emprego no teatro novamente, est?
       Ela negou com a cabea.
       - No. Estou planejando comear a escrever a minha pea.
       - Bettina, por que no arranja um emprego normal? Alguma coisa simples. Talvez secretria, ou algo interessante num museu ou talvez at corretagem de imveis, 
algo que a ponha em contato com pessoas ntegras e felizes. E quando menos esperar, ter sua vida de volta no lugar certo.
       Nunca pensou em ser uma secretria ou agente imobilirio. Nada daquilo lhe interessava. O mundo literrio e teatral era tudo que conhecia. Mas talvez ele 
tivesse razo. Talvez fosse tudo muito louco. Talvez devesse se afastar de tudo. E depois lembrou-se de outra coisa.
       - Antes disso, voc tem o nome de algum bom advogado?
       - Claro. - Sorriu, puxando uma caneta de seu bolso. - Um dos meus melhores amigos. Seth Waterston. Vai gostar muito dele. E a esposa dele  uma enfermeira. 
Fomos  faculdade juntos em Stanford.
       - To ntegro! - disse ela, implicando.
       - No ironize antes de conhecer. - Hesitou por um momento, sem ter certeza se deveria ir em frente. Mas algo o impulsionava, e tinha que faz-lo. Por ela.
       - Na verdade, Bettina, gostaria de lhe sugerir alguma coisa que talvez no seja totalmente tico, mas acredito que seria bom para voc. 
       - Parece fascinante. O que ?
       - Gostaria de lev-la para jantar com Seth e Mary Waterston. O que lhe parece?
       - Maravilhoso. E por que seria antitico? Voc disse que tambm era meu amigo.
       Ele sorriu.
       - Combinado, ento? Bettina concordou.
       - Ento vou ligar para eles.
       - Por falar nisso, quando vou sair daqui?
       Ambos esqueceram daquele detalhe enquanto ela contava a histria de sua vida.
       - Que tal hoje?
       Ela pensou no hotel para onde teria que voltar. No era um pensamento muito agradvel. Era o lugar onde esteve com Anthony, e subitamente no queria voltar 
mais para l.
       - Algo errado?
       - No. De jeito algum.
       Queria resolver aquele problema sozinha. O mdico estava certo. O que ela precisava era de uma vida normal, com um emprego comum. Podia esperar mais uns seis 
meses para comear a escrever sua pea. Tudo de que precisava agora era de um apartamento, trabalho e seu divrcio. Daria um jeito nos dois primeiros problemas e 
esperava que o amigo de John a ajudasse com o ltimo. Agora entendia que desta vez estava se divorciando de mais do que de uma pessoa. John a ajudara a ver isso. 
Estava se divorciando de toda a sua vida.
       
26
       
       Cinco dias depois j tinha seu apartamento, um estdio pequeno, mas muito charmoso, com vista para a baa. Fora a sala de visitas de uma velha casa estilo 
vitoriano, cujos trs donos reformaram os andares de cima para eles e dividiram o andar de baixo em dois estdios para alugar. Bettina ficou com o maior, que era 
uma beleza. 
       Tinha uma lareira, duas grandes janelas, uma pequena varanda, uma copa-cozinha, um banheiro e uma vista maravilhosa. Ficou apaixonada assim que o viu, e o 
melhor de tudo era que podia pagar o preo. O aluguel era to baixo que ela poderia pagar apenas com a mesada que recebia de Ivo.
       Dois dias depois de se instalar no apartamento, John Fields foi apanh-la para jantar com seus amigos.
       - Bettina, voc vai ador-los.
       - Tenho certeza que sim. Mas voc no me disse. O que achou do meu apartamento?
       Ela o observava enquanto saam, e ele comentava sobre a vista. Tinha um pequeno carro americano azul-marinho. No havia nada muito vistoso ou ostensivo em 
suas roupas, seu carro ou sua pessoa. Tudo era atraente, mas austero, como o casaco de tweed que vestia, a camisa abotoada at embaixo, as calas cinzas e os mocassins 
bem engraxados. 
       Era previsvel no seu gosto e estilo. Parecia-se com o que todo americano deveria ser, era o sonho de todas as mes para o filho perfeito. Inteligente, boas-maneiras, 
formado em Stanford, um mdico. Bettina sorriu para ele. Era um homem muito atraente. Sentiu-se estranha em sua presena. Como se tudo que estivesse usando fosse 
muito caro ou muito esnobe. Talvez ele estivesse certo. Teria realmente muito para aprender. 
       - Bem, e sobre o meu apartamento, doutor? No foi um achado?
       - Foi. Eu gostei. Mas se parece com a "manso da jovem senhora". Fiquei esperando que me dissesse que alugou a casa toda. Sorriu, para que suas palavras parecessem 
suaves ao abrir a porta do carro. Quando a porta se fechou, ela pensou se estava com o vestido adequado. Vestia um vestido de l branco que comprara com No em Paris. 
       No era muito sofisticado, mas dava para ver que era caro. Simples, com mangas compridas e uma golinha, e usava apenas com um colar de prolas e sapatos Dior. 
Mas quando chegou  casa dos Waterstons no condado de Marin, soube que realmente dera um passo em falso. Mary Waterston veio abrir a porta com um largo sorriso. 
Seu cabelo estava preso atrs da cabea, usava uma camisa de botes at embaixo, um suter verde de gola em v, jeans e estava descala. E Seth apareceu usando praticamente 
a mesma coisa. At John parecia muito arrumado, mas viera direto do consultrio. Bettina no tinha desculpa. Cumprimentou-os com um olhar de embarao, e eles rapidamente 
a puseram  vontade. Seth era alto, atraente, cabelos cor de areia com um topete, um olhar arisco e pernas compridas demais. Mary era pequena, de cabelos escuros 
e bonitinha apesar dos culos de armao de osso. Era quase to magra quanto Bettina, a no ser pela barriguinha saliente. Um pouco mais tarde, ela viu que Bettina 
a observava, e deu um sorriso forado.
       - Eu sei,  horrvel, no? Detesto esta fase quando as pessoas pensam que  apenas gordura. - Acariciou a barriga com carinho. - Nmero dois a caminho. A 
primeira est dormindo l em cima.
       - Est?
       Os homens ficaram conversando l fora um pouco e acabavam de voltar.
       - Gostaramos de v-la - disse John.
       Seu olhar transmitia bondade ao dizer aquilo e, por um estranho momento, Bettina sentiu uma pontada no corao. Por que ela nunca pde ter um homem que se 
sentisse assim com crianas? Fora uma porta fechada com Ivo, e Anthony detestara o filho desde o incio. Por um instante sentiu-se constrangida ao olhar para Mary. 
Apenas algumas semanas atrs estivera no mesmo estgio de gravidez.
       - Para quando  o beb? 
       - No antes de agosto.
       - Voc ainda est trabalhando? Mary riu.
       - No. Isso  coisa do passado, infelizmente. Costumava ser uma enfermeira de obstetrcia at engravidar pela primeira vez. Agora parece que sou mais uma 
paciente.
       Todos riram e Bettina sentiu-se excluda. John estava certo. Tudo parecia to normal. E ela desejou poder ser um deles.
       - Quantos anos tem a primeira?
       - Dezenove meses. Voc tem filhos?
       Bettina apenas negou com a cabea. Todos beberam vinho e comeram bifes que Seth fez na churrasqueira. Aps o caf, John se ofereceu para ajudar Mary na cozinha. 
       Combinara aquilo com Seth, que agora olhava para Bettina com um sorriso afetuoso.
       - Me disseram que voc quer uma dissoluo. Bettina o olhou, confusa, e ele riu.
       - Me desculpe, no entendi...
       -  gria da Califrnia. Sinto muito. John me falou que est procurando um advogado para se divorciar. Posso ajudar?
       - Sim, eu gostaria muito.
       - Pode ir ao meu escritrio amanh? Que tal s duas horas? 
       Ela concordou satisfeita. Minutos mais tarde John voltava. Mas ela se sentia diminuda pelo dilogo com Seth, pela barriguinha de Mary e por tudo. Tinha um 
longo caminho a percorrer para ser como eles. E se soubessem da verdade, nunca a aceitariam. Olhou para eles. Mary com trinta e cinco anos, os dois homens com trinta 
e seis, todos tinham carreiras respeitveis em medicina ou direito. Mary e Seth tinham uma casa num bom bairro, uma filha, outro filho a caminho. Como podia esperar 
que eles a aceitassem? Mais tarde, quando John a trouxe para casa, falou com ele sobre o que sentia.
       - Voc no precisa contar a eles. Ningum precisa saber. Esta  a graa de poder comear de novo.
       - Mas e se algum descobrir, John? Quero dizer, meu pai era muito conhecido.  provvel que um dia eu esbarre em algum que j me conheceu antes.
       - No necessariamente. E j se passou tanto tempo, quem a reconheceria? Alm disso, ningum precisa saber de seus casamentos, Bettina. Isso  passado. Deve 
comear do nada. Ainda  muito nova. Ningum diria que j foi casada antes.
       -  to ruim assim eu ter sido casada? Ele fez uma pausa.
       -  apenas uma coisa que ningum precisa saber. - Mas no disse que no era horrvel. No disse o que ela precisava ouvir.
       - Voc marcou um encontro com Seth? 
       - Marquei.
       - Bom. Ento pode resolver esse problema. E depois pode procurar um emprego.
       Era tudo estranho. Ela realmente no queria aquilo. Suportava o fato de saber que devia ser feito. Tinha que ter um emprego para ser respeitvel, porque John 
pensava assim. E entendeu o quanto lhe importava o que aquele homem pensava.
       
27
       
       Algumas semanas mais tarde, encontrou um emprego numa galeria de arte na Union Street e, apesar de no ser excitante, ou imensamente lucrativo, ocupava a 
maior parte de seu tempo. Trabalhava das dez da manh at as seis. Sentar-se  mesa e sorrir para estranhos parecia deix-la extremamente cansada, apesar de mal 
poder se lembrar do que fez.
       Mas finalmente se tornara uma pessoa da classe trabalhadora. Trabalhando o dia todo, se aborrecendo com aquilo e louca para arranjar uma razo de escapar.
       Saa com John duas ou trs vezes por semana, iam ao cinema ou jantavam e passavam algum tempo juntos nos fins de semana. Ele adorava jogar tnis e velejar. 
O tempo que passavam juntos era certamente saudvel. Bettina estava fisicamente melhor do que nunca e tinha um leve bronzeado. Fazia com que seu cabelo vermelho 
brilhasse mais e seus olhos parecessem mais com esmeraldas. Os quatro meses de San Francisco foram bons para ela de vrias maneiras.
       Aquela noite, John cozinhara em seu apartamento e estavam relaxando com seus cafs.
       - Gostaria de fazer uma visita aos Waterstons hoje  noite? Seth disse que Mary j est muito grande e o mdico no quer que ela venha  cidade. Da outra 
vez levou apenas duas horas para ter o beb, e o mdico teme que desta nem chegue ao hospital a tempo.
       - Nossa! - E ela olhou para ele pensativa. - Esta coisa toda de gravidez me assusta demais.
       - Mas voc j esteve grvida. - Olhou para ela surpreso pela sua reao. Ter filhos era to normal. Por que alguma mulher saudvel teria medo?
       - Eu sei, e estava ansiosa pelo beb, mas quando penso como tudo terminou, fico muito assustada.
       - No seja boba. No h nada a temer. Mary no tem medo. 
       - Ela  enfermeira.
       - Se voc tiver um filho, Bettina, eu estarei l com voc.
       No teve certeza do que aquilo queria dizer. Como amigo? Como mdico? Apesar de estarem dormindo juntos h trs meses, no tinha certeza do que ele queria 
dizer. 
       A relao que tinham era estranhamente sem carinho, e ela nunca estava certa se eram realmente amantes ou apenas amigos.
       - Obrigada.
       - Voc no parece muito excitada com a perspectiva. 
       - Tudo parece muito distante.
       - Ter filhos? Por qu? - Ele sorriu mais gentilmente. - Poderia ter um no incio do prximo ano.
       Mas ela no tinha certeza se queria ter. Queria escrever sua pea. 
       - O que no quer dizer que terei.
       Parecia uma resposta boa, e ele sorriu.
       - Bem, voc certamente poderia, vamos ver... quando seu divrcio estar pronto?
       Subitamente sentiu o corao disparar. O que ele estava perguntando? O que queria dizer?
       - Mais dois meses. Setembro.
       - Poderamos nos casar nessa poca, voc engravida imediatamente e, abracadabra, no prximo junho teria um beb. O que lhe parece?
       John a olhava bem de perto agora, e ela sentiu suas mos procurarem as dela.
       - John... fala srio? 
       - Sim, eu falo.
       - Mas... to rpido. No temos que nos casar no minuto que o divrcio acabar... ...
       Ele pareceu contrariado:
       - Por que no? Por que deveramos esperar? 
       Temendo sua desaprovao, ela respondeu: 
       - Eu no sei.
       Pessoas como John Fields no moram com algum. Eles se casam. Tm filhos. Bettina sabia disso com certeza, agora. Ele no ficaria na farra. E no concordar 
com seus desejos significava fracasso. Significava no se enquadrar. No ser "normal". E ela no queria mais no ser normal.
       - Voc gostaria de se casar, Betty?
       Ela odiava o apelido, mas nunca lhe disse, porque havia outras coisas nele que amava. Sua integridade, a forma como podia contar com ele; ele era confivel, 
resoluto, atraente e fazia com que ela se sentisse como uma pessoa comum quando jogavam tnis ou jantavam ou se reuniam aos amigos para velejar aos domingos. Era 
uma vida que ela nunca conhecera antes. Nunca. At que encontrou John Fields. Mas casar com ele? Casar-se novamente? Agora?
       - Eu no sei. Ainda  muito cedo. - Foi apenas um sussurro. Ele no se conformou.
       - Compreendo. - Assumiu uma expresso distanciada.
       
28
       
       Na manh seguinte, a caminho do trabalho, Bettina pensou novamente na proposta de John. O que mais ela queria? Por que no estava extasiada? Porque, respondeu, 
o que ela queria mais do que maridos e filhos era tempo. Queria encontrar-se com Bettina, a pessoa que perdera em algum lugar no caminho enquanto estava to ocupada 
trocando de nomes. Sabia que precisava encontr-la antes que fosse muito tarde.
       Deixou o carro andar devagar prximo a um sinal, enquanto se lembrava, mais uma vez, das palavras de John e de sua expresso distanciada quando ela disse 
que era muito cedo. E era muito cedo. Para ela. E a sua pea? Se casasse com ele agora, nunca a escreveria, ficaria muito ocupada com a nova vida, sendo a Sra. John 
Fields. 
       No era o que queria agora... queria... Uma buzina a lembrou de onde estava, e seguiu. Mas no podia manter a mente concentrada na direo, e mal podia manter 
a ateno na rua. Apenas continuava pensando na expresso distanciada de John, quando ela disse que era... Subitamente sentiu uma pancada na frente de seu carro 
e ouviu uma mulher gritar. Apavorada, pisou com fora nos freios e foi jogada para a frente, amparada pelo cinto de segurana. De repente havia pessoas em volta, 
olhando, ali em p... olhavam para ela... e para o que olhavam?... Oh, Deus! Dois homens estavam se abaixando, falando com algum bem na frente de seu carro. Mas 
ela no podia ver. O que era? Oh, Deus, no podia... ela no teria... mas ao saltar de seu carro, descobriu.
       Ao descer trmula, viu um homem de aproximadamente quarenta anos cado na rua.
       Sentiu o pnico subir em sua garganta. Ajoelhou-se perto do homem tentando no chorar. Ele estava bem vestido num terno escuro, e os pertences de sua mala 
de executivo espalhados pelo cho.
       - Sinto muito... me desculpe... posso fazer alguma coisa?
       O policial foi calmo e gentil quando chegou  cena, alguns instantes depois. Em cinco minutos chegou uma ambulncia. Levaram o homem. O nome de Bettina e 
a placa do seu carro foram anotados. O policial falou com as testemunhas e anotou os nomes cuidadosamente numa lista. O policial parecia pouco mais velho do que 
um menino. 
       - Voc tomou algum remdio esta manh, senhorita?
       O jovem policial olhou-a com jeito esperto, mas ela negou, assoando o nariz no leno que encontrou na bolsa.
       - No, nada.
       - Uma das testemunhas viu a senhorita parar poucos minutos antes, e voc parecia - olhou para ela se desculpando -, bem, ele disse "no ar".
       - No estava... Estava apenas... pensando. 
       - Estava chateada?
       - Estava... no... no lembro, eu no sei. - Era difcil dizer se j fora racional alguma vez. Estava to chocada com o que aconteceu. - Ele ficar bom?
       - Saberemos depois que ele chegar no hospital. Voc pode ligar mais tarde para obter informaes.
       - E eu?
       - Voc se machucou? - Ele pareceu surpreso.
       - No, quero dizer - olhou para o policial friamente -, voc vai me prender?
       - No, no vou. Foi um acidente. Receber uma notificao e o caso vai a julgamento.
       - Julgamento? - Estava horrorizada.
       - Alm da notificao, sua companhia de seguros vai cuidar disso para a senhorita. - E, com ar grave: - Voc tem seguro, no?
       - Claro.
       - Ento ligue para o agente de seguros esta manh e para seu advogado, e espere pelo melhor.
       "Esperar pelo melhor... Oh, Deus, que horror. O que ela foi fazer?"
       Quando finalmente eles partiram, entrou em seu carro, suas mos ainda tremendo violentamente e sua mente dando voltas ao pensar no homem que levaram na ambulncia. 
       Pareceu demorar horas para chegar  galeria e, quando o fez, nem se preocupou em abrir para o pblico ou acender as luzes. Correu para o telefone aps trancar 
a porta da entrada. Ligou para o agente de seguros, que pareceu perplexo. Assegurou-lhe que seu seguro de vinte mil dlares deveria ser suficiente para cobrir o 
prejuzo, a no ser que fosse terrivelmente grave.
       - De qualquer forma, no se preocupe com isso, veremos. - E quando vou saber?
       - Saber o qu?
       - Se ele vai me processar.
       - Logo que ele decidir nos contar, srta. Daniels. No se preocupe. Saberemos.
       Lgrimas escorriam de seus olhos quando ligou para Seth Waterston em seu escritrio. Ele demorou um pouco para atender.
       - Bettina?
       - Oh, Seth... - Era um choro desesperado e infantil. - Estou numa encrenca. - Comeou a chorar sem controle.
       - Onde est?
       - Na gale... ria. - Mal podia falar.
       - Agora fique calma e me diga o que aconteceu. Respire fundo... Bettina? Bettina!... Fale comigo...
       Por um instante teve medo que ela estivesse na cadeia. No podia pensar em mais nada para causar aquele tipo de histeria.
       - Foi um acidente... 
       - Voc se machucou? 
       - Atropelei um homem com o carro. 
       - Um pedestre?
       - Foi.
       - Ele se machucou muito? 
       - Eu no sei.
       - Qual  o nome dele e para onde o levaram?
       - Saint George. E seu nome  - olhou para o papel que o policial lhe deu - Bernard Zule.
       - Zule? Soletre.
       Ela soletrou, e Seth suspirou.
       - Voc o conhece? - Ela perguntou.
       - Mais ou menos.  um advogado. No poderia ter escolhido algum bom pedestre ignorante? Tinha que bater num advogado?
       Seth tentou brincar, mas Bettina no podia e quando outra onda de pnico a assaltou, agarrou o telefone com fora.
       - Seth, prometa que no vai contar para o John.
       - Por que no, pelo amor de Deus? Voc no fez de propsito. 
       - Mas ele, ele ficar chateado... ou irritado... ou... por favor. Sua voz estava to desesperada, que ele prometeu e desligou para telefonar para o hospital.
       Quatro horas mais tarde ele ligou para a galeria. Zule estava bem. Quebrou a perna. Uma fratura sem complicaes. Algumas escoriaes. Sem grandes problemas. 
Mas Bernard Zule era um homem muito nervoso. J tinha ligado para seu advogado e iria realmente process-la. Seth falou diretamente com Zule. Explicou que a mulher 
que bateu nele era sua amiga pessoal, que estava muito preocupada e sentia muito mesmo, e ela queria saber se ele estava bem.
       - Bem? A filha da puta idiota passa por cima de mim bem na luz do dia e depois quer saber se estou bem? Eu conto para ela na corte.
       - Mas Bernard...
       A tentativa de Seth de amenizar as coisas no surtiu efeito e souberam disso trs dias depois, quando Bettina foi agraciada com os papis do processo que 
ele estava movendo contra ela. Ele a processava em duzentos mil dlares por ferimentos, incapacidade de praticar sua profisso, trauma emocional e inteno maliciosa. 
A ltima acusao no valia droga nenhuma, assegurou-lhe Seth, porque ela nem conhecia Zule. Mas era um processo bem grande. Seth tambm lhe disse que poderia levar 
alguns anos para ir a julgamento, quando a fratura no seria mais do que uma vaga lembrana. Mas no fazia diferena. Tudo em que Bettina podia pensar era na quantia: 
duzentos mil dlares. Se vendesse todas as suas jias talvez pudesse pagar, mas o que lhe restaria? Aquilo lembrou-lhe do pnico que sentiu aps a morte de seu pai, 
e fazia tudo para tentar manter o controle.
       - Bettina? Bettina! Voc me ouviu? 
       - Hum? O qu?
       - O que est acontecendo com voc? - John olhava para ela, aborrecido. Bettina estava assim h semanas.
       - Sinto muito... estava distrada.
       - Deu para perceber. Voc no ouviu uma palavra do que eu disse a noite toda. O que h?
       John no entendia. Ela estava assim desde a noite em que ele lhe props casamento. No ficava nem um pouco alegre ao perceber isto. E ento, no final da noite, 
quando a trouxe em casa, John a olhou com tristeza.
       - Bettina. Voc preferiria que no nos vssemos por uns tempos? 
       - No... eu... - E, sem querer, ela se deixou cair nos seus braos, enquanto soluava copiosamente.
       - O que est acontecendo? Oh, Betty... me diz o que h.... sei que tem algo errado.
       - Eu... oh, John, no posso te contar...  to horrvel... tive um acidente.
       - Que tipo de acidente? - Sua voz estava sria. 
       - Com meu carro. Quebrei a perna de um homem. 
       - Voc o qu? - Olhou para ela apavorado. - Quando? 
       - H trs semanas.
       - Por que no me contou? 
       - Eu no sei.
       - Seu seguro cobre o prejuzo?
       - S tenho seguro at vinte mil. Ele est me processando em - sua voz baixou mais ainda - duzentos mil dlares.
       - Oh, meu Deus! - Ambos se sentaram, quietos. - Voc falou com Seth?
       Ela concordou silenciosa.
       - E no falou comigo, oh, Betty. - Puxou-a mais para perto de si. - Oh, Betty, Betty... como pde acontecer uma coisa destas com voc?
       - Eu no sei.
       Mas ela sabia. Ela estava pensando sobre a noite anterior, quando ele lhe pedira em casamento, e no quanto ela no queria se casar, mas no contou a ele.
       - Foi minha culpa.
       - Entendo. Bem, parece que vamos ter que enfrentar este problema juntos, no ? - Sorriu para ela com gentileza. Bettina precisava dele, e isto o fez se sentir 
bem.
       Mas ela o olhou horrorizada:
       - O que quer dizer juntos? No seja louco! Tenho que sair fora desta sozinha.
       - No seja louca! E no fique totalmente envolvida nessa loucura. Um processo de duzentos mil dlares no significa nada. Provavelmente ele far um acordo 
com dez mil.
       - No acredito. - Mas ela tinha que admitir que Seth lhe disse coisa semelhante no dia anterior. Talvez no dez mil, mas provavelmente vinte mil.
       No fim, eles tinham razo. Duas semanas mais tarde Bernard Zule aceitou a soma de 18 mil dlares para acalmar seus nervos e sua perna quase curada. A companhia 
de seguro cancelou a aplice de Bettina, e ela teve que vender barato o seu carrinho que comprara aps conseguir o emprego. A soma de duzentos mil dlares no mais 
ecoava em sua cabea, mas sentia uma sensao de fracasso, de ter sido vencida, um grande passo para trs, e de no ter sido capaz de cuidar de si mesma. A depresso 
continuou por longo tempo, e s duas semanas antes de seu divrcio se concretizar foi que John a pediu novamente.
       - Faz sentido, Bettina. - E com um momento de raro humor, acrescentou: - Veja deste jeito, Bettina. Voc poderia dirigir meu carro. Mas ela nem sorriu. Ele 
continuou.
       - Eu te amo, e voc nasceu para ser minha esposa.
       "E de No e de Anthony..." No podia parar de pensar nisto. - Eu te quero, Bettina.
       Mas tambm sabia que ele pensava que ela no podia tomar conta de si mesma. De certa maneira ela provou que ele estava certo. Era incompetente. Talvez at 
perigosa. Veja o que acabara de fazer. Quase matou um homem... nunca deixava este pensamento sair de sua mente. 
       - Bettina?
       Ele estava olhando para ela e, muito suavemente, beijou a ponta de seu dedos, seus lbios e seus olhos.
       - Quer casar comigo, Betty?
       Ele pde ouvir uma aspirada rpida, depois seus olhos se fecharam e ela concordou.
       - Sim. - Talvez ele estivesse certo, afinal.
       
29
       
       Com passos curtos e estudados, Bettina aproximou-se do altar de brao com Seth Waterston. Ela lhe pedira para entrar com ela na igreja. Havia quase cem pessoas 
observando-os felizes. Bettina provocava rumores com seu vestido branco achamalotado, deslizando suavemente sobre a passarela de cetim. Seth sorriu para ela que 
tinha o rosto escondido atrs de um vu estilo renascentista. Estava linda e imponente, mas sentia-se estranha de vestido branco, como se estivesse fantasiada ou 
como se fosse uma mentira. Tentou resistir  sugesto de John, de usar branco, mas significava tanto para ele. Esperou tanto tempo depois da faculdade para se casar, 
que ela no queria desapont-lo. E duas semanas depois que decidiu, John prometeu que cuidaria de tudo e assim o fez. Tudo o que precisou fazer foi ir  loja I. 
Magnin's para comprar seu vestido, e ele fez o resto. Organizou a cerimnia na pequena igreja episcopal da Union Street, e a recepo para cento e vinte convidados 
no Iate Clube, com vista para a baa. Era o casamento que qualquer moa teria sonhado, mas, de alguma forma, Bettina teria preferido ir a um cartrio. Os papis 
do divrcio chegaram apenas dois dias antes, e enquanto descia a nave de brao com Seth, pensava em No e Anthony. Teve um desejo louco de gritar para as pessoas 
que estavam com olhos midos de emoo. "No fiquem muito emocionados, pessoal. Este  o meu terceiro." Mas ela sorria recatadamente ao tomar o brao de John, no 
altar. Ele vestia um palet adequado para a ocasio com uma flor do campo na lapela, o buqu de Bettina era de rosas brancas e Mary Waterston usava um buqu de orqudeas 
bege. John tambm no tinha mais os pais, e por isso no havia famlias para brigar, apenas parentes.
       As palavras pareciam no terminar nunca na pequena igreja, e o pastor sorria amorosamente para eles, at que falou: 
       - ... E voc, John?...
       Enquanto ouvia, aquela estranha sensao voltou. E se dissesse o nome errado quando fosse fazer seus votos? Eu, Bettina, aceito voc, Ivo... Anthony... John... 
No ia estragar as coisas daquela vez. Esta era de verdade. Sua ltima chance de fazer as coisas certas para si mesma. 
       - ... Eu aceito...
       As palavras eram pouco mais do que um sussurro. Estavam lhe dando sua ltima chance. Seus olhos procuraram rapidamente os de John, que repetia as palavras, 
olhando para ela com seriedade, alto e claro para que toda a igreja pudesse ouvir. John recebia Bettina como sua legtima esposa, prometendo ser fiel na alegria 
e na tristeza, na sade e na doena, amando-a e respeitando-a at que a morte os separasse. No um mal-entendido, ou cansao, ou visto de permanncia, ou diferena 
de idade. At que a morte e os separasse. Ao ouvir isso, Bettina sentia o impacto das palavras e o cheiro das rosas. Pelo resto de sua vida, sentiria o perfume destas 
rosas quando se lembrasse das palavras.
       - ... Eu os declaro marido e mulher. - O pastor olhou para eles, sorriu e depois abaixou-se para falar com John.
       - Pode beijara noiva.
       John o fez rpido, enquanto segurava firme a sua mo. O grande anel de ouro estava em sua mo esquerda agora, e o pequeno anel de diamante do noivado estava 
na mo direita. Bettina quis mostrar suas jias para ele pouco antes do casamento, mas quando ele lhe deu o anel, viu que no podia faz-lo porque ainda tinha o 
brilhante de nove quilates de Ivo. Ento, decidiu esconder o anel e s mostrar o resto para John. A coleo que conseguiu com No e com seu pai era algo que no mostrava 
para ningum e no usava mais nada. Ficava seguro no banco, seu ninho de ovos, tudo que tinha dela mesma. Mostrar para John ou querer faz-lo fora seu ltimo ato 
de confiana. 
       Ela lhe disse que tinha algo que queria mostrar-lhe, algo que ela guardava num banco, e ele ficou irritado e suspeitoso at que ela explicou.
       - No  nada. No me olhe assim, seu bobo... so apenas algumas jias que guardo da minha outra vida...
       Explicou para ele carinhosamente e ficou chocada quando ele explodiu na pequena cabine do banco:
       - Bettina, isto  uma desgraa!  revoltante. Voc percebe quanto dinheiro tem preso aqui?... ... - Ele realmente deu um ataque. - Parece a coleo de uma 
velha prostituta, por Deus, quero que se livre disto tudo.
       Mas daquela vez foi ela quem explodiu. Se ele no gostasse, era problema dele, e ela nunca usaria nenhuma. Mas eram peas lindas e todas tinham algum significado. 
       Enquanto ambos ficavam ali, nervosos, ela prometeu a si mesma que nunca mostraria a ele nada mais da sua vida passada. Era dela, assim como as jias, e ficariam 
assim.
       Bettina contou sobre o dinheiro que recebia de No e que ainda o receberia pelo resto de sua vida, o que deixou John ainda mais desesperado. O que ela tinha 
na cabea para continuar na lista de despesas daquele homem? No podia viver de seu emprego? E era bom que ela no pensasse em receber mais nada dele aps o casamento, 
porque ele no aceitaria. Era, para John, como um tapa na cara. Bettina no via as coisas assim e tentou explicar que No sempre fora como um pai para ela, mas no 
teve sucesso na explicao. John lhe disse que no estava nem a. Ela era adulta agora, e no precisava mais de um pai. E desta vez no foi como as jias, que nunca 
mais foram mencionadas. Desta vez ele mesmo escreveu uma carta para os advogados de No e explicou que a Sra. Stewart, seus dentes rangiam ao escrever estas palavras, 
no mais desejava receber a penso. Bettina assinou, com lgrimas nos olhos, mas assinou. Rompera seu ltimo contato com Ivo, mesmo que fosse apenas atravs de seus 
advogados. E agora, aps a cerimnia, ela pertencia somente a John.
       John e Bettina ficaram lado a lado por quase meia hora fora da igreja, sorrindo, recebendo beijos e cumprimentos, apertando dzias de mos. Bettina observava 
os primos, os colegas de turma, os clientes, os amigos de John. E, de forma estranha, todos pareciam iguais. Todos pareciam saudveis, jovens sorridentes, ntegros. 
       Era tudo muito bonito e delicado.
       - Feliz? - John olhou para ela ao entrarem no carro. No quis alugar uma limusine. Disse que era caro e era bobagem. Ele mesmo iria dirigir.
       Ela gesticulou com a cabea. Surpreendentemente, estava feliz. Sentia um certo alvio naquele novo mundo.
       - Muito.
       No tinha que ser radiante ou esperta. No tinha que jogar charme e dar as melhores festas da cidade. Tinha apenas que ser agradvel e fazer comentrios vazios. 
       De uma certa forma era um descanso aps os anos que gastou estando sempre "ligada".
       - Eu te amo, doutor. - Sorriu para ele, realmente sentindo o que dizia.
       - Tambm te amo.
       Passaram a lua-de-mel em Carmel e ficaram durante trs maravilhosos dias passeando pela praia e vendo lojas. Dirigiram at Big Sur uma tarde e ficaram de 
mos dadas enquanto observavam os surfistas. Tinham jantares longos e romnticos, e passavam as manhs na cama. Era tudo que uma lua-de-mel tinha de ser. E duas 
semanas mais tarde, enquanto Bettina trabalhava na galeria, sentiu-se muito enjoada. Foi para casa mais cedo e deitou-se. John a encontrou mais tarde tentando dormir, 
com uma cara horrvel, toda encolhida. Franziu a testa ao olhar para ela, ouviu os sintomas e sentou-se na cama ao seu lado.
       - Posso examinar voc, Betty?
       Ainda se sentia estranha quando a chamava por aquele nome. 
       - Claro. - Sentou-se e tentou sorrir. - Mas no pense que tem muita coisa para examinar. S tenho uma gripe. Mary disse que teve uma semana passada.
       Examinou-a com carinho: seus pulmes estavam limpos, seus olhos brilhantes e no tinha febre. Olhou para ela pensativo e sorriu animado. 
       - Talvez esteja grvida.
       Ela o olhou assustada. 
       - Mas j?
       No parecia possvel. S tinham parado de evitar havia duas semanas.
       - Veremos.
       - E quando poderemos saber? - Estava ansiosa. John sorria, satisfeito consigo mesmo.
       - Saberemos em mais ou menos duas semanas. Pedirei que faam um teste l no consultrio, e se der positivo te encaminho para um obstetra.
       - Posso ir ao mesmo que Mary vai?
       Sentia-se muito ansiosa. O que estava acontecendo com ela? Quem tomou aquela deciso? Estava apavorada s em pensar, e no queria que fosse verdade.
       John beijou-lhe a testa e saiu do quarto. Voltou em alguns minutos com uma xcara de ch e alguns biscoitos.
       - Coma um pouco.
       Ela comeu e um pouco depois sentia-se fisicamente melhor, mas ainda muito assustada. Mas nem ousava falar para John.
       Duas semanas mais tarde John chegou em casa com um pequeno frasco e deu a ela antes de irem dormir.
       - Para amanh de manh. Primeira urina. Deixe na geladeira que eu levo para o trabalho.
       - Voc me liga to logo faa o teste?
       Bettina continuava assustada, e ele bateu em seu ombro e sorriu: 
       - Sei que est ansiosa. Mas segure firme. Saberemos pela manh. - E aps dar-lhe um beijo: - Estou bastante nervoso tambm, sabia? Ela sabia que ele estava 
sendo sincero. Ele parecia estar nas nuvens naquelas duas semanas. O que fazia tudo mais difcil para ela lhe contar como se sentia. E, como num estouro, ela teve 
que falar, enquanto deitavam na cama, no escuro.
       - John?
       - O que , Betty?
       Ela pegou a mo dele e aproximou-se mais. 
       - Estou com medo.
       John pareceu surpreso 
       - Do qu?
       - De... oh, voc sabe... de... - sentia-se uma idiota, pois era to normal para ele. - De estar grvida.
       - Mas do que tem medo, sua boba? - Virou-se para ela ainda no escuro do quarto.
       - De... bem... e se for como da outra vez? - Era difcil colocar as palavras para fora.
       - Voc quer dizer que tem medo de perder o beb?
       Ela concordou, mas na verdade tinha medo de muito mais.
       - Um pouco... mas... oh, eu no sei, John, s sei que estou assustada. Foi to horrvel... foi to doloroso... se eu no suportar... eu... e se eu no agentar 
a dor?
       Havia lgrimas em seus olhos enquanto ela lhe fazia estas perguntas, e ele pegou seus ombros com as duas mos:
       - Quero que pare com isso imediatamente, Betty. Ter filhos  uma coisa absolutamente normal, e no h nada a temer. Veja s a Mary. Ela morreu de dor? Claro 
que no. - Ele respondeu a sua prpria pergunta com um sorriso. - Agora, confie em mim. Quando tiver o beb, estarei com voc todo o tempo e no ter problema algum, 
voc vai ver. Juro. Nessa coisa toda de sentir dor para ter filho h muito de exagero. No  assim to doloroso.
       Sentiu-se reconfortada, mas ainda havia um fio de pavor correndo pela sua espinha. Inclinou-se e o beijou suavemente.
       - Obrigada por querer o beb. Ns ficaremos aqui?
       Ela se mudou para o apartamento de John, que era engraadinho e espaoso, mas s tinha um quarto e um pequeno gabinete que ele usava muito. Aps a sua pergunta 
houve um longo silncio e depois uma risada do lado de John.
       - O que isso significa? - Ele no costumava brincar e ela se surpreendeu. - Ento?
       - Significa cuide de sua vida... - Mas ele no resistiu. Teve que lhe contar. - Oh, est bem Betty, eu conto, mas no fique muito empolgada. Nada est certo. 
- Parou dramaticamente, e ela virou-se para olh-lo. - Ontem eu fiz uma oferta numa casa.
       Ela ficou surpresa:
       - Voc fez? Por que no me contou? Onde ? John Fields, voc  impossvel!
       John sorria orgulhoso para ela, que estava excitada.
       - Espere at ouvir tudo. E em Mill Valley. Bem ao lado da casa de Seth e Mary. - Sua voz era de triunfo. 
       - Que maravilha!
       - No ? Cruze os dedos para que a gente consiga. 
       - Acha que temos chance?
       - Acho que sim. Mas primeiro vamos descobrir se voc est mesmo grvida, madame. Isto  bem mais importante. Ao menos para mim. - Ps um brao em seu ombro 
e aconchegou-se na cama.
       A antiga vida de Bettina estava esquecida. No mais coberturas, nem stos, nem condomnios elegantes ou casas na cidade. Tudo em que pensava agora era na 
casa de Mill Valley, no filho, no marido e na sua nova vida.
       
30
       
       - Voc percebeu que este  o junho mais quente que j existiu desde 1911? Ouvi ontem no rdio enquanto estava deitada no cho do banheiro tentando me refrescar.
       Bettina olhou para Mary em desespero, abanando-se na cozinha da amiga e vizinha, e ambas riram.
       - Tenho que admitir que no posso pensar em nada pior do que estar grvida de nove meses neste calor. - E olhou para Bettina com compaixo. - Mas fiz isso 
as duas vezes.
       Seus filhos tinham agora um trs anos e o outro dez meses e, milagrosamente, estavam ambos dormindo.
       Bettina deu um sorriso amarelo e tentou comer um pouco da salada de atum que ela trouxe.
       - Deixe-me lembr-la de que estou grvida de nove meses e meio. - Com uma cara de desnimo, olhou para seu prato e fez careta. - Ugh! No posso mais comer. 
- Empurrou o prato e tentou se ajeitar melhor na cadeira.
       Mary olhou para a amiga, com pena: 
       - Gostaria de deitar no sof?
       - Pois fique sabendo que talvez eu nunca mais me levante de seu sof.
       - No tem problema, se voc no puder se levantar, Seth pode empurrar o sof pela porta dos fundos at a sua casa.
       - No  bom que sejamos vizinhas? Mary sorriu.
       - Claro que .
       Estavam na casa havia seis meses. Exigia uma pequena viagem diariamente de casa para o trabalho na galeria nos primeiros quatro meses, mas finalmente John 
permitiu que ela largasse o emprego, pois Bettina vivia reclamando que nunca teria a casa pronta, a no ser que parasse l. Ele finalmente cedeu, e ela estava louca 
para ser livre. Mas o xtase durou apenas algumas semanas, porque no seu ltimo ms de gravidez esteve to cansada, to inchada, to desconfortvel, que no conseguiu 
fazer nada.
       Agora, enquanto se esticava no sof, olhou para a amiga. Apesar de serem vizinhas, no se viam h semanas.
       -  sempre assim com voc tambm? Mary pensou alguns minutos.
       -  diferente para cada pessoa, Betty. E  diferente a cada vez para a mulher.
       Bettina forou um sorriso:
       - Fala como uma enfermeira.
       - Acho que ainda sou a enfermeira - disse Mary, sorrindo. - Cada vez que te vejo fico querendo fazer perguntas sobre o que est acontecendo, seus tornozelos 
esto inchados, voc est com dor de cabea, como se sente no estado geral. Mas tento me segurar. Imagino que j esteja cheia de falar sobre isso com John.
       - Surpreendentemente, ele tem sido timo. Nunca fala muito sobre isso. Acredita que  um processo natural e que no tem nada de mais. 
       - E o que diz seu mdico?
       Bettina pareceu  vontade ao responder. Demorou os nove meses para acabar com seus medos. Sabia agora que eles no tinham fundamento. Sabia que estava bem 
preparada.
       - Ele fala a mesma coisa.
       - E  o que voc pensa? - Mary estava assustada.
       -  sim, droga. Trabalhei feito uma condenada nos exerccios de respirao daquele curso, e j tenho tudo sob controle. Agora se eu pudesse ter logo esta 
criana... - Sentou toda sem jeito, e por um instante retraiu-se. - Droga, minhas costas esto me matando!
       Mary lhe entregou mais duas almofadas e trouxe um banquinho para seus ps.
       - Obrigada, querida. - Sorriu agradecida e levantou os ps com cuidado. Mas nem as almofadas pareciam ajudar. Esteve muito ruim o dia todo.
       - Tem alguma coisa te incomodando? 
       - Minhas costas.
       Mary continuou a conversa.
       - Sabe, eu estava apavorada antes de ter o primeiro e, na verdade, estava bem assustada antes de ter o segundo tambm.
       - E como foi? - Bettina estava curiosa.
       - No foi mal. Estava bem preparada da segunda vez, e Seth estava comigo. - E depois olhou para Bettina incisivamente. - Mas no estava, de jeito nenhum, 
preparada para o primeiro.
       - Por que no? - Bettina parecia intrigada.
       - Porque apesar de eu ser uma enfermeira de maternidade e j ter visto partos milhes de vezes, ningum pode explicar como .  doloroso, Betty. No se engane 
sobre isso. Di muito.  como uma longa corrida que demora muito tempo e voc chega a um ponto em que pensa no poder continuar nem por mais sete centmetros. Felizmente 
isso no demora muito e, quando chega no ponto de empurrar, no  to mau assim.
       Queria perguntar  amiga por que John escolhera o Dr. McCarney. Era o mdico mais frio e cruel que ela ajudara na enfermaria. Por duas vezes ela saiu da sala 
de parto chorando depois que a paciente teve o filho. Depois daquilo ela sempre desaparecia quando sabia que alguma paciente dele estava chegando.
       - Voc gosta dele?
       Bettina hesitou por alguns minutos.
       - Eu confio nele. Acho que  um bom mdico, mas eu no... eu no o adoro. - Sorriu sem graa. - Mas John acha que ele  um excelente mdico. D aula na universidade, 
fez muitas pesquisas. E aparentemente est trabalhando em algum equipamento novo e complicado. John acha que  dos melhores. Mas no ... bem, no  muito compreensivo. 
Imaginei que isso no fosse muito importante. Se ele  bom, e John est l, qual  o problema?
       Mary pensou um pouco. No havia por que assust-la agora. J era muito tarde.
       - McCarney  realmente um mdico muito respeitado, apenas no  to compreensivo e gentil quanto o meu. Mas voc ter John com voc. - "Graas a Deus para 
ela." - Mas seja realista sobre este primeiro parto, Betty. Pode demorar um pouco.
       Bettina a observou um pouco em silncio, e depois balanou a cabea. Falou muito devagar, com as velhas lembranas ainda em seu olhar.
       - Esta no  minha primeira vez, Mary.
       - No ? - Agora estava chocada. - Voc teve outro filho? Mas quando? Com quem? O que aconteceu com ele? Ele morreu? - Ela parou com as perguntas e Bettina 
respondeu:
       - Tive um aborto natural aos quatro meses, h mais ou menos um ano e meio atrs, antes de me mudar para a Califrnia. Na verdade - decidiu contar a verdade 
agora; sentia-se muito prxima da amiga - foi como eu conheci John. Tive o aborto e me mudei para San Francisco uma semana depois. Fiquei muito deprimida e tentei 
me suicidar. Chamaram John depois de fazerem uma lavagem no meu estmago e ns ficamos amigos.
       - Nossa!  incrvel. Ele nunca nos disse nada.
       - Eu sei. Ele tambm no queria que eu contasse. Mas Seth sabe. 
       - Seth? - Mary no acreditava.
       - Ele cuidou do meu divrcio.
       - Voc foi casada antes? Bem, quantos segredinhos tem mais? Bettina riu.
       - No muitos. Apenas alguns... vamos ver... - Subitamente sentiu vontade de lavar a alma para algum, e nunca se sentiu to prxima da amiga. - J fui casada 
duas vezes.
       - Incluindo John. - Mary queria tirar a dvida.
       - Antes dele. Na primeira vez com um homem muito mais velho, e na segunda com um ator. Trabalhei no teatro. Meus ltimos empregos foram como assistente de 
direo...
       - Voc? - Mary estava no s abismada, mas impressionada. 
       - E meu pai era um escritor. Muito conhecido.
       Ela sorriu e se recostou nas almofadas enquanto Mary a observava. 
       - Quem  ele? Algum que eu conhea?
       - Talvez. - Sabia que Mary lia muito. - Justin Daniels.
       - O qu... mas  claro... Bettina Daniels... nunca fiz a ligao. Por Deus, Bettina, por que no nos contou? - E ento ela colocou as mos nos quadris. - 
Ou vai me dizer que Seth sabe disto tambm? Mas Bettina negou:
       - Ele s sabe do meu ltimo casamento. No sabe de todo o resto. 
       - Ento por que no nos contou?
       Bettina deu de ombros.
       - John no tem muito orgulho do meu passado cheio de altos e baixos. - Pareceu ligeiramente envergonhada. - Eu no queria... humilh-lo.
       - Humilh-lo? Como? Por ser filha de Justin Daniels? Pensei que ele ficaria orgulhoso. E sobre o resto, seus dois casamentos, o que  que tem? Tenho certeza 
de que eles significaram muita coisa, ou voc no teria se casado. E seus amigos a amariam, no importa o que tivesse acontecido. As pessoas que a amam sempre vo 
entender ou, ao menos, tentar. Quanto s outras... quem se importa? Seu pai deveria saber disso. Tenho certeza de que nem sempre as pessoas aprovavam a maneira dele 
viver.
       - Mas era diferente. De uma certa maneira, ele era um gnio. As pessoas esperam que gente assim tenha comportamentos excntricos. 
       - Ento escreva um livro e seu passado ser extico.
       Bettina riu e, cabisbaixa, olhou de volta para a amiga. 
       - Sempre quis escrever uma pea.
       - Voc escreveu? - Mary parecia excitada e sentou-se no cho. - Por Deus, Betty, ser que voc j tinha percebido que eu achava que voc era to sem graa 
como qualquer uma de ns e agora descubro que no ? Que diabos, quando  que voc vai escrever essa pea?
       - Provavelmente nunca. Acho que John no iria gostar. E... Oh, Mary, eu no sei...  que - parecia lutar com as palavras -  um mundo no muito respeitado. 
De uma certa forma, talvez eu tenha sorte em ter escapado.
       - Talvez. Mas voc escapou com seu talento. No pode ser respeitvel e exercitar esse lado tambm?
       - Gostaria de tentar algum dia. - Falou como se estivesse sonhando e depois balanou a cabea. - Mas no acho que vou conseguir. John nunca me perdoaria. 
Acho que ele sentiria como se eu estivesse trazendo algo repugnante para sua vida.
       - Nunca te ocorreu que talvez isso seja apenas a opinio dele, que talvez ele esteja errado? Sabe, s vezes, mesmo sem saber, as pessoas tm cimes. Todos 
vivemos vidas sem graa, comuns, existncias inspidas e de vez em quando aparece uma ave-do-paraso e todos nos assustamos. E isso acontece porque no somos assim, 
nossas penas no so lindos matizes de verde e vermelho, mas so cinzas e marrons, e vendo a ave-do-paraso nos faz pensar como somos feios, ou como se, de alguma 
forma, ns tivssemos falhado. Alguns de ns gostam de ver essas aves e sonhar que algum dia ns tambm seremos assim... outros tm que atirar na ave... ou ao menos 
espant-la.
       - Voc est dizendo que foi isso que John fez? - Bettina se aborreceu.
       Mas quando Mary respondeu, sua voz era extremamente gentil: 
       - No. Acho que o que ele fez foi dar a volta para encontrar suas penas cinzas e marrons e vesti-Ias como uma de ns. Mas voc no , Bettina. Voc  extica, 
linda e especial. Voc  um pssaro muito, muito raro. Tire essas penas escuras, Bettina. Deixe todo mundo ver que linda plumagem voc tem. Voc  a filha de Justin 
Daniels, o que j  um presente raro. Como seu pai se sentiria se soubesse que voc est se escondendo aqui? Fingindo que nem  filha dele?
       Os olhos de Bettina encheram-se de lgrimas ao pensar no que a amiga dizia, mas de repente contorceu-se de dor. Foi como um choque eltrico em suas costas. 
Mary aproximou-se e beijou-lhe o rosto com um olhar de muito carinho.
       - Agora me fale sobre essas dores. Comeou nas costas, no foi? Bettina olhou para ela admirada, ainda muito tocada por tudo que ela dissera. Era a primeira 
dica que tinha de que ainda era aceita, apesar do seu passado.
       - Como soube das dores?
       - Porque costumava ser meu trabalho, lembra-se? Nem todos podem ser aves-do-paraso, amiga. Alguns tm que ser bombeiros, mdicos, policiais e enfermeiras. 
- Estava sorrindo ao segurar a mo de Bettina, que se retorceu novamente.
       - Fico feliz com isso.
       - Voc quer comear com a respirao? No comece se ainda no for muito doloroso.
       - Mas j .
       Estava surpresa de como comeou a doer to depressa. Uma hora antes era apenas uma leve pontada, e ela nem sabia o que era. Dez minutos mais tarde era um 
pouco desconfortvel. 
       Agora estava ficando sem respirao.
       Mary a acompanhava tomando conta da situao, ainda segurando a mo de Bettina. At que uma nova onda de dor, desta vez passando pelo estmago, puxava tudo 
em seu caminho e terminava num longo n cortante, e deixou Bettina sem respirao e encolhida, agarrada  mo de Mary. Continuou por um minuto enquanto Mary segurava 
firme e olhava em seu relgio.
       - Esta foi dura, no?
       Bettina concordou e recostou-se no sof, suando muito. Mal conseguia falar, mas deu um sussurro:
       - Foi. - De repente seus olhos ficaram em pnico e falou nervosa: - John!
       - Est bem, Betty. Vou ligar para ele. Fique deitada quieta a. E quando sentir outra dor, comece a respirao.
       - Aonde voc vai?
       - S at a cozinha, falar no telefone. Vou ligar para John e pedir que avise ao seu mdico. Depois vou ligar para Nancy, que mora aqui ao lado, e pedir que 
ela fique com minhas crianas. Ainda bem que no acordaram ainda. Assim que Nancy chegar, daqui a uns dez minutos, ns pegamos o carro e vamos para a cidade, at 
o hospital. Que lhe parece?
       Bettina comeou a falar alguma coisa, mas agarrou a mo de Mary com fora. Foi outra onda de dor, longa e forte.
       - Oh, Mary... Mary... di muito... ...
       - Psiu... calma, d para agentar, Betty. Fique calma.
       Sem falar mais nada, foi at a cozinha e voltou rpido com um pano mido e o colocou na cabea de Bettina.
       - Segure firme que eu vou fazer as ligaes.
       Voltou em dois minutos, usando uma espadrilhe com seus jeans, e j com sua bolsa. Pediu a Nancy que fosse at a casa de Bettina pegar a mala, que estava pronta 
no hall. Cinco minutos depois, Mary ajudou Bettina a entrar no carro.
       - E se no chegarmos a tempo?
       Bettina olhava para Mary nervosa e a amiga sorriu. Ela at torcia para que no desse tempo. Preferiria fazer o parto de Bettina no banco de seu carro do que 
pass-la para as mos do Dr. McCarney quando chegassem no hospital.
       - Se no conseguirmos, eu mesma fao o parto. Pense s no dinheiro que economizaria.
       Dirigiram em silncio enquanto Bettina fazia a respirao cachorrinho para superar as dores. Mas elas aumentavam muito rpido e havia um ar de determinao 
em seus olhos. Mary estava abismada que as dores tivessem se tornado to fortes em to pouco tempo, mas esperava que isto significasse um parto fcil. Talvez ela 
tivesse esta sorte. E nem era o primeiro filho. Enquanto dirigia, Mary pensava no que tinham conversado. Era incrvel como se podia conviver com algum e no conhecer 
a pessoa.
       - Como est indo, amiga?
       Bettina deu de ombros, e ofegava forte. Mary esperou que a dor diminusse e tocou-lhe o brao.
       - Betty, no seja uma herona. Sei que est preparada para parto normal, mas, se for muito forte, pea alguma coisa, assim que tiver vontade. No espere.
       Mary no queria lhe dizer que se ela esperasse muito eles no poderiam lhe dar nada. Mas.Bettina estava negando com a cabea.
       - John no me deixaria. Disse que pode causar problemas no crebro... do beb...
       Outra dor comeando e Mary teve que esperar novamente. Mas quando acabou ela continuou.
       - Est errado. Pode confiar em mim. J fui uma enfermeira de maternidade por anos. Podem lhe dar uma peridural, que  algo como uma raquidiana. Anestesia 
tudo da cintura para baixo. Talvez possam lhe dar um pouco de Demerol, um tipo de injeo que corta um pouco a dor. Podem dar muitas coisas que no afetaro o beb. 
Voc promete pedir se sentir que precisa?
       Bettina concordou distraidamente. No queria desperdiar energias discutindo. Sabia como John via essas coisas e ele insistiu que afetaria a criana se ela 
tomasse alguma coisa contra a dor.
       Quinze minutos mais tarde chegaram ao hospital e Bettina no podia mais andar. Rapidamente a colocaram numa maca e Mary segurava a sua mo enquanto ela se 
contorcia.
       - Oh, Mary... diga a eles... no!... pra de empurrar. Sentou-se na maca agarrando-se ao enfermeiro e depois caiu deitada, gritando. Ele esperou pacientemente 
at que a contrao passasse e Mary tentou acalm-la, falando com suavidade e segurando sua mo.
       Tinha certeza de que agora estava na pior fase, a transio, onde a dor era mais forte. S mais trs centmetros, se fosse o caso, e deveria estar com a dilatao 
certa. Depois estaria quase terminado, s faltando empurrar.
       John esperava por ela na maternidade com uma expresso de ansiedade. Olhou para Mary, feliz, e depois para Bettina, que suava muito, gemendo e encolhida na 
maca. 
       Agarrou-se nervosamente a John e comeou a chorar, segurando com fora seu jaleco branco.
       - Oh, John... est doendo... tanto...
       Quase que instantaneamente foi pega por outra contrao enquanto John a observava. Mas ele segurou sua mo quieto e olhou em seu relgio enquanto Mary assistia 
 cena. Subitamente Mary teve uma idia e sinalizou para John. Quando a dor de Bettina terminou ele veio at ela com um olhar de satisfao.
       - O que h?
       - Acabei de pensar numa coisa. Como eu j trabalhei aqui, eles podem me deixar entrar com vocs. No posso ser a assistente, mas posso estar l com ela. - 
No pde evitar de acrescentar: - John, acho que ela vai ter algumas dificuldades.
       Mary j vira muitos casos assim, e as coisas estavam fugindo ao controle muito rapidamente. Mas John sorriu, agradecido, deu um tapinha em seus ombros e negou:
       - No se preocupe, tudo dar certo. Olhe s para ela - olhou por cima dos seus ombros para onde Bettina estava. - Acho que j est em transio.
       - Tambm acho. Mas no significa que esteja no fim.
       - No se preocupe tanto. Vocs enfermeiras so todas iguais. Mary tentou insistir, mas ele negou com firmeza. Sinalizou para uma das enfermeiras que estava 
esperando para que levasse Bettina para a sala de exames. Mary foi rpido at ela.
       - Vai dar tudo certo, amiga. Voc est indo bem. Tudo que tem que fazer  agentar firme. Como se estivesse numa montanha russa. - Abaixou-se e deu um beijinho 
na amiga, com carinho. - Est tudo bem, Betty, tudo bem.
       Mas lgrimas estavam escorrendo dos olhos de Bettina quando a enfermeira a empurrou para a sala de exames e um momento depois Mary viu o Dr. McCarney entrar 
pela porta com John andando ao seu lado. Mary quase retraiu-se ao v-lo, certa de que ningum avisara Bettina sobre os exames dolorosos. Os olhos de Mary encheram-se 
de lgrimas quando viu, minutos mais tarde, uma enfermeira sair apressada de dentro da sala, dando de ombros, ouvindo Bettina gritar.
       - No me deixaram ficar com ela - disse a enfermeira se desculpando para Mary.
       - Eu sei. Trabalhei aqui. Sabe como est a dilatao?
       - No tenho certeza. Disseram que estaria em sete e meio. Mas parece que no est progredindo.
       - Por que no lhe do uma injeo intravenosa de Pitocin?
       - McCarney disse que no h necessidade, ela vai chegar l de qualquer maneira.
       Depois disso, tudo que Mary soube pelas enfermeiras apressadas foi que ela estava com dilatao de oito centmetros e que o mdico e o marido concordaram 
em no lhe dar nada para as dores. Imaginavam que logo estaria terminando e, de qualquer jeito, ela estaria melhor se no fosse dopada. As enfermeiras foram mandadas 
para fora da sala logo que eles entraram e Mary andava de um lado para o outro nos corredores, quase histrica. McCarney e John decidiram cuidar de Bettina eles 
mesmos, enquanto estava em trabalho de parto, e o grande Dr. McCarney no queria nenhuma enfermeira por perto antes da hora final. Mary andava de um lado para o 
outro, desejando que Seth estivesse com ela, que Bettina tivesse um outro mdico, desejando tudo e, de vez em quando, ouvindo a menina gritar.
       - No pode estar dilatando ainda, ser que est? - Mary olhou pesarosa para a enfermeira-chefe, a quem conhecia bem.
       -  mais um daqueles casos de falta de sorte. Chegou rpido a oito, e parece que no anda mais.
       - Como ela est?
       Houve um momento de silncio.
       - McCarney pediu que ns a amarrssemos. 
       - Oh, Deus!
       Ele era to ruim quanto ela se recordava e finalmente ligou para Seth. Mas ele no poderia estar com ela antes das seis. Quando chegou, Mary estava chorando 
ao explicar o que aconteceu. Seth colocou os braos por sobre seus ombros.
       - John est l. Ele no vai deixar aquele velhaco ser muito rude com ela.
       - At parece que no! Eles a amarraram h trs horas, Seth, e John lhe disse que no quer que tome nada contra dor porque vai causar uma leso cerebral no 
beb. O que me deixa louca  que no precisa ser assim, voc sabe.
       Seth gesticulou com a cabea e ambos pensaram como foi lindo para eles, alguns meses atrs, quando tiveram o segundo filho. E at o primeiro no foi nada 
to complicado assim.
       - Ele est fazendo com que seja pior do que nunca para ela. - Tente se acalmar, Mary. - E olhou para ela com carinho. - Quer ir para casa?
       Mas ela negou veementemente.
       - No vou embora enquanto aquele filho da puta no terminar o parto.
       A enfermeira-chefe deu um risinho ao passar. 
       - Amm, Waterston.
       As duas mulheres se entreolharam. 
       - Como est ela?
       - Do mesmo jeito. Est com nove de dilatao agora. Demorou sete horas para apenas mais um centmetro, ainda faltando mais um. J passavam das dez da noite.
       - No podem lhe dar alguma coisa para apressar a dilatao? A enfermeira balanou a cabea e seguiu seu caminho. Finalmente, quatro horas mais tarde, pouco 
depois das duas da manh, a porta da sala de parto se abriu e John, o mdico e mais duas enfermeiras saram rpido. Uma delas estava empurrando a maca onde estava 
Bettina presa, esgotada e histrica, choramingando, quase louca de tanta dor. Ningum falava com ela h horas, ningum a reconfortou ou explicou. Ningum segurou 
a mo dela ou a ajudou a se mexer de forma mais confortvel. Simplesmente a deixaram l deitada, assustada, histrica, agonizando com as dores que percorriam seu 
corpo e sua mente. A princpio John tentou ajud-la com a respirao, mas McCarney rapidamente sugeriu que ele ficasse do outro lado da maca.
       - O trabalho est comeando aqui, John.
       Eles a prenderam nos estribos, onde podiam examinar com mais facilidade, pelas ltimas onze horas. Uma ou duas vezes ela tentou falar que sentia muita cibra 
nas costas, mas depois de um tempo ela nem ligava mais. E quando John hesitou outra vez a ouvi-Ia chorando, o mdico balanou a cabea e disse:
       - Apenas deixe-a sozinha. Todas tm que passar por isso. Ela nem vai te ouvir falar com ela.
       John fez o que ele disse, e quando Seth e Mary viram Bettina ser atirada  sala de parto, era bvio que ela estava quase desmaiada. 
       - Oh, Deus, voc viu a cara dela? - Mary comeou a chorar enquanto a porta da sala de parto se fechava e Seth a tomou nos braos. 
       - Est tudo bem, querida, ela vai ficar bem.
       Mas Mary se afastou do marido, olhando para ele apavorada. 
       - Voc tem alguma idia do que  fazer isso a uma mulher? Sabe o que fizeram com a mente dela? Trataram-na como um animal pelas ltimas doze horas. Merda! 
Ela nunca mais vai querer ter outro filho. Eles a destruram, que merda, eles a destruram.
       E ento, sem poder falar mais nada, procurou o abrao do marido e comeou a soluar. Seth ficou l, sem poder fazer nada, acariciando seus cabelos. Sabia 
que o que ela dizia era verdade, mas no havia nada que ele pudesse fazer. No podia entender como John deixara aquele mdico fazer o parto. Parecia uma grande besteira. 
O homem era competente, mas um filho da puta sem corao. No havia dvida sobre isto. Mary olhou para ele com tristeza:
       - Ela vai se lembrar muito bem.
       Seth sabia que era verdade, e ficaram l juntos, sentindo-se infelizes e sem poder ajudar, por mais duas horas. Finalmente, s quatro e meia da manh, Alexander 
John Fields chegou a este mundo, chorando vigorosamente, enquanto seu pai o olhava com orgulho e a me, deitada l, olhava, sem conseguir enxergar, enquanto soluava.
       
31
       
       - Bettina?
       Mary bateu com cuidado na porta semi-aberta, imaginando se Bettina estava em casa. A princpio no teve resposta, depois ouviu um alegre chamado vindo do 
andar superior.
       - Pode subir, Mary. Estou arrumando o quarto de Alex. Mary subia as escadas sorrindo ao encontrar com Bettina.
       - Passei metade de minha vida fazendo isso. Onde est o pequeno prncipe?
       - Hoje  o primeiro dia de aula. - Olhou para a amiga meio sem jeito. - Eu no sei o que fazer comigo, ento pensei em vir arrumar o quarto dele.
       - Isso tambm me abala toda vez que acontece - concordou Mary.
       - E o que faz?
       Bettina sorriu e sentou-se na cama. O quarto estava decorado em vermelho, azul e amarelo com pequenos soldados de brinquedo marchando por toda parte.
       - O que eu fao? - Brincou Mary, sorrindo. - Eu fico grvida! 
       - Oh, no, Mary. Outra vez?
       - Outra vez. - Tiveram o terceiro filho h dois anos, e este seria o quarto. - Acabaram de me ligar do mdico. Mas acho que chega para a famlia Waterston. 
Que diabos, vou fazer trinta e nove anos este ms. No sou uma menina como voc.
       - Bem que queria me sentir como uma menina. - Ela acabara de completar trinta e um. - Mas, de qualquer jeito, gravidez para mim no  a soluo. Gostaria 
que fosse.
       A experincia do nascimento de Alexander a marcou. E ela deixou muito claro para John que no teria mais filhos. Mas ele tambm era filho nico e estava satisfeito 
com um s.
       - Voc devia repensar essa deciso, Bettina. Eu falei, h trs anos, que no precisava ser daquele jeito.
       Ela lembrava da conversa que tiveram no hospital pouco depois que Alexander nasceu. Mary estava furiosa, triste e com raiva de John e McCarney. Foi a nica 
a ficar do lado de Bettina.
       - Alexander j d bastante trabalho. Realmente no quero outro. Mas Mary no acreditava. Para uma mulher que nem tinha certeza se queria filhos, ela fazia 
um belo trabalho com o menino. Criativa, carinhosa, calma. Por trs anos Alexander e sua me foram os melhores amigos um do outro. Agora ela estava de p e aproximou-se 
de Mary com um sorriso.
       - Mas eu tenho que admitir, hoje fico completamente perdida sem ele.
       - Por que no vai at a cidade fazer umas compras? Eu a levaria comigo, mas  que acabei de chamar uma bab e prometi a Seth encontrar com ele para ajud-lo 
a escolher nosso carro novo.
       - O que vai comprar? - perguntou Bettina enquanto desciam as escadas.
       - Eu no sei, alguma coisa feia e til. Com quatro crianas, quem pode ter um bom carro? Vamos esperar para comprar nosso primeiro carro bom quando j estivermos 
muito velhos.
       - Eles vo embora antes que voc perceba, Mary.
       O mais velho j tinha seis e ela viu como o tempo voou com Alexander. Difcil acreditar que ele j estava com trs anos. Olhou para a amiga com um risinho:
       - A no ser que voc continue tendo filhos por mais quinze anos. 
       - Seth me mataria.
       Mas ambas sabiam que no era verdade. Eles se divertiam um com o outro e com as crianas. Aps oito anos de casamento ainda estavam apaixonados. As coisas 
eram diferentes para John e Bettina. Estavam muito prximos um do outro, mas no era como com Mary e Seth. E alguma coisa aconteceu com Bettina. Uma parte dela se 
fechou aps o nascimento de Alex. Mary j tinha visto aquilo acontecer com outras mulheres. Era por sentir-se trada pelas pessoas em que confiava. Nunca mais confiaria 
em ningum do mesmo jeito. Sempre incomodou Mary, mas ela no ousava trazer o assunto  baila, assim como nunca mais mencionou a pea de Bettina. Mas agora que Alexander 
estava na escola, Bettina teria mais tempo e ela imaginava se agora, finalmente, comearia e escrever.
       - Ento? Vai fazer compras?
       - No sei. Talvez v at a cidade. Posso fazer alguma coisa por voc?
       - Nada, obrigada, Betty. S vim para lhe contar as novidades. 
       - Obrigada. - Bettina sorriu carinhosamente. - Para quando ?
       - Para abril. Um coelhinho da pscoa.
       - Pelo menos desta vez no vai morrer de calor.
       Bettina esperou que ela se fosse e arrumou-se para ir  cidade. Vestia calas cinzas e um suter cinza, e pegou a capa de chuva antes de sair. Era um desses 
estranhos dias de outono quando podia fazer um lindo sol ou ficar frio, ventando e com nvoa. Bettina pensou um instante se deveria ligar para John e perguntar se 
queria se encontrar com ela para almoar. Alex ficaria na creche do meio-dia at as quatro horas. Mas resolveu ligar para John da cidade. Antes resolveria para onde 
ir.
       Parou o carro no centro, perto da Union Square, e depois andou at o solene Hotel St. Francis, do outro lado da rua, entrando no sofisticado saguo. Encontrou 
alguns telefones pblicos, ligou para o ma rido e descobriu que ele j tinha sado para almoar. Ficou ento para decidir se faria compras sem almoar ou se parava 
em algum lugar para comer um sanduche. No estava certa quanto  sua fome, e ficou pensativa por um momento, at que algum a segurou pelo brao. Apavorada, pulou 
para o lado e olhou para a pessoa que a segurava. Quando a viu, ficou em silncio, com os olhos arregalados.
       - Ol, Bettina!
       Ele pouco havia mudado nos cinco anos que no se viram. Mas s em olhar para ele novamente, sentia-se como uma menininha. Era Ivo, to alto, pomposo e elegante 
como nunca, com sua vasta cabeleira branca. Parecia assustadoramente velho e, enquanto o olhava, surpreendeu-se em pensar que devia ter agora setenta e trs anos.
       - Ivo... - No sabia o que mais falar. Estava em choque e em silncio, mas ento, sem dizer nada, sentiu seus braos se abrirem em sua direo. Lgrimas escorriam 
de seus olhos enquanto ele a abraava e, quando ele se afastou, tinha lgrimas nos olhos tambm.
       - Oh, pequenina, como voc est? Voc est bem? Tenho me preocupado tanto com voc.
       - Estou bem, e voc?
       - Envelhecendo, mas melhorando. Sim, querida, estou bem. Voc ainda est casada? - Olhou rapidamente para sua mo esquerda e viu que estava.
       - Sim. E tenho um lindo menininho.
       - Fico feliz. - Sua voz era suave, enquanto a multido passava por eles no lobby.
       Mas quando ele olhou para ela, Bettina sentiu vergonha. Trs maridos. Era horrvel. Olhou para ele e deu um suspiro. 
       - Est feliz?
       Ela concordou. Em vrios momentos era feliz. Era diferente da vida que teve com ele. No era mais uma menininha vivendo uma fantasia. Era uma vida real com 
momentos maravilhosos e momentos difceis. Mas atravs de tudo havia a sensao de ser respeitada agora, e tambm havia a alegria vinda do filho.
       - Sim, eu sou. 
       - Fico feliz.
       - E voc? - Ela queria saber se ele se casara novamente, mas ele riu.
       - No, querida. No me casei. Estou perfeitamente feliz como estou. Seu pai tinha razo. Um homem deveria terminar sua vida solteiro. Faz muito mais sentido. 
- Deu um risinho, mas a maneira com que falou no renegava a vida que tiveram. Colocou o brao em volta dela e a puxou para perto.
       - Sempre imaginava o que teria acontecido com voc quando meus advogados disseram que no queria mais o dinheiro. Tive que me esforar muito para no mandar 
investigadores procur-la. Teve um momento em que decidi fazer isso, mas depois resolvi que voc tinha o direito  sua prpria vida. Foi minha promessa.
       Ela assentiu, sentindo-se estranhamente sria e ainda encantada com a surpresa de estar ali nos braos de Ivo.
       - Ivo... - Olhou para ele feliz, que correspondeu ao sorriso. - Estou to feliz em ver voc.
       Era como voltar para casa. Por anos e anos ela quase esqueceu de onde viera e agora, l estava No em San Francisco, com os braos em volta dela. Estava to 
feliz, que queria danar.
       - Voc tem tempo para almoar?
       - Para voc, pequenina? Sempre. - Deu uma olhada em seu relgio, pediu licena e foi at o telefone. Logo voltou, sorrindo.
       - Estou aqui para visitar um amigo. Rawson. Lembra-se dele?  o editor de um jornal aqui e prometi lhe dar alguns conselhos. Mas tenho duas horas livres. 
Acha que est bom?
       - Perfeito. Depois disso tenho que estar em casa para quando meu garotinho chegar.
       - Que idade ele tem?
       - Trs. Seu nome  Alexander. 
       - Voc abandonou o teatro? Com um pequeno suspiro, ela fez que sim. - Por qu? - Ele insistiu.
       - Meu marido no aprova. 
       - Mas est escrevendo?
       - No, no estou.
       Ele esperou at que estivessem confortavelmente sentados numa mesa no fundo do restaurante.
       - Agora me fale por que essa bobagem de no estar escrevendo. 
       - Apenas no quero.
       - Desde quando? - Ele a estava investigando cuidadosamente. 
       - Desde que me casei.
       - E este seu marido  responsvel por isso tambm? 
       - , sim.
       - E voc aceita isto?
       - Aceito. John quer que nossa vida seja normal e no acha que escrever seja "normal". - Era doloroso, mas era verdade.
       Ele a observava e estava comeando a entender. Aos poucos, pegou sua mo e falou:
       - Voc estaria muito melhor, querida, se tivesse tido uma vida normal desde o princpio. Se tivesse pai e me normais, se lhe fosse permitido ser uma menininha 
comum. Mas no foi, e voc no viveu assim. Nunca houve nada "normal" na sua vida. Nem mesmo seu casamento comigo. Mas s vezes "normal" pode significar comum, chato, 
ou pode significar sem graa ou banal. E nada disso esteve prximo de voc. Do momento que nasceu at agora, voc nunca foi nenhuma destas coisas. Foi uma mulher 
extraordinria at agora. No pode fingir ser outra coisa, querida. No pode ser uma coisa que no .  isso que est fazendo aqui, Bettina? Fingindo ser a esposa 
comum de um homem comum?  isso que ele quer que voc seja?
       Ainda em silncio, ela concordou com a cabea e ele soltou sua mo. 
       - Nesse caso, ele no a ama. Ama uma mulher que ele mesmo criou. Uma concha pintada onde forou voc a se esconder. Mas no poder fazer isso para sempre. 
E no vale a pena. Tem o direito de ser quem voc . Seu pai no deixou nada material. Tudo que deixou foi um pouco de sua genialidade, um pouco de sua alma. Mas 
voc est rejeitando esses preciosos legados a cada dia que finge ser outra pessoa e se nega a escrever. - E, aps uma longa pausa: - Voc no pode fazer as duas 
coisas, Bettina? No pode escrever e tambm ser a esposa desse homem?
       - Nunca me permiti considerar esta possibilidade. - Olhou para ele maliciosamente. - Estou considerando agora. E voc?
       - Fao a minha parte. Aquela exausto que sentia, e voc deve se lembrar, acabou sendo uma anemia que, graas a Deus, est curada. Escrevi um livro e agora 
estou no segundo. Nada como o que Justin fazia,  claro. No  fico.
       - Eu adoraria ler.
       - Vou te mandar um exemplar. - E, contrariado, olhou para ela. As duas horas de que dispunham estavam no fim. Tinha que ir. - Vou embora hoje  noite. Voc 
costuma ir a Nova York?
       - No vou l h quase cinco anos.
        - No acha que est na hora?
       - Acho que no. Meu marido detesta cidades grandes. 
       - Ento venha sozinha.
       Ela fez uma careta e riu. Deu esperanas a No de poder ver o brilho de seus olhos que no estivera presente no almoo.
       - Talvez quando tiver escrito minha pea, suponho que ser o tempo certo.
       Ver No a fez perceber o quanto ela sacrificou pela pea. Teria sido por nada se no escrevesse...
       - E seu marido? Vai lhe contar que esteve comigo hoje? 
       Pensou um pouco e com tristeza respondeu:
       - Acho que no posso.
       No sentiu pena. Sempre pde lhe contar tudo. A no ser aquela besteira em que se meteu com aquele ator no final.
       Bettina abraou No com fora.
       - Foi como um sonho, sabia? Como se fosse algum anjo da guarda que apareceu para mudar o destino de minha vida.
       - Se  assim que quer pensar sobre mim, querida, est bem. Mas tenha certeza de mudar. Nada dessa coisa absurda de ficar cuidando s da casa, ou volto para 
te assombrar, e a voc vai ter problemas. Agora prometa que vai me mandar o que escrever.
       - Eu prometo.
       Bettina olhou para ele solene, enquanto andavam de volta para o saguo. Era bom estar com No novamente. Sentir-se pequena e elegante ao lado dele. Por um 
momento, teve saudades de seu antigo guarda roupa, das caras roupas europias e das jias. Como se soubesse no que ela estava pensando, No falou suavemente:
       - Voc ainda tem aquele anel?
       Bettina sabia que ele se referia ao diamante grande e concordou com seus grandes olhos.
       - Claro, Ivo. No o uso, mas ainda o tenho. Est guardado num cofre no banco.
       - Bom. No deixe ningum peg-lo. Guarde-o para voc. Vale uma pequena fortuna agora, e nunca se sabe quando pode ser necessrio.
       No lembrou-se de que ainda no tinha o novo endereo e o novo nome de Bettina. Ela passou para ele rapidamente, e os dois riram. - Eles me chamam de Betty 
Fields. 
       Betty Fields.
       No pareceu no gostar. 
       - No fica bem em voc.
       - Eu sei - disse Bettina, envergonhada. 
       - Voc vai escrever como Bettina Daniels?
       Ela confirmou e era bvio que ele aprovava. Ento, No puxou-a para seus braos e no falou nada. Apenas a abraou, e ela o apertou num forte abrao. Foi Bettina 
quem finalmente quebrou o silncio. 
       - Oh, Ivo... obrigada...
       Seus olhos estavam estranhamente brilhantes quando olhou para ela.
       - Tome conta de voc, pequenina. Vai ter notcias minhas. Beijou-lhe a testa com carinho, e ela se foi, deixando-o no saguo. Ficou olhando para ela at que 
desaparecesse na multido do lado de fora do prdio, quando finalmente, com um suspiro, ele se virou. Como tinha mudado naqueles cinco anos. E como aquele homem 
deve ter domnio sobre ela para fazer com que renegue seu passado, renuncie a si mesma. Mas No no deixaria que ela desaparecesse to facilmente desta vez. No caminho 
para o elevador, ele pegou um caderninho preto de anotaes e rabiscou diversas idias.
       
32
       
       - Como est se saindo, Betty?
       Mary sorriu para ela enquanto passeava pelo jardim. Era um dia quente de abril.
       - Nada mal. E voc? 
       - Na mesma.
       Mary estava novamente enorme pela gravidez, mas sempre tinha um olhar de paz e felicidade quando estava assim. Apesar das piadas e das falsas reclamaes, 
estar grvida era algo que realmente no a incomodava.
       - Quanto tempo acha que vai demorar para acabar?
       Apenas Mary e No sabiam da pea. Estava indo bem, agora. Bettina parou para pensar um momento.
       - Talvez em duas ou trs semanas.
       - S isso? - Mary estava impressionada. Bettina trabalhava na pea j fazia quase seis meses. 
       - Voc vai me vencer. - O beb no era esperado at o final do ms.
       - Quem der  luz primeiro fica devendo um almoo para a outra. 
       - Valendo - concordou Mary alegremente.
       Conversaram um pouco sobre as crianas e, um pouco mais tarde, Alexander e os dois mais velhos de Mary vieram para casa. Bettina entrou em casa atrs do filho, 
segura de que tinha escondido bem as folhas de seu trabalho mas, meia hora mais tarde, entrou no seu quarto e encontrou Alexander olhando seriamente para a pea.
       - O que  isto, mame?
       - Uma coisa que estive fazendo. - Tentou parecer despreocupada, pois no queria que ele contasse a John.
       - Mas o que ?
       -  uma histria - respondeu, depois de pensar um pouco. 
       - Para crianas?
       - No, para adultos.
       - Como um livro? - Os olhos do menino se arregalaram em respeito, mas ela negou novamente, com um sorriso carinhoso.
       - No, querido. E para falar a verdade  uma surpresa para o papai, por isso no quero que conte para ele. Acha que pode fazer isso? Pela sua mame? - Olhou 
para ele esperanosa.
       - Claro.
       Saiu correndo para seu quarto e Bettina pensou que um dia deveria contar a ele sobre seu av. Tinha o direito de saber que era parente de um homem como Justin 
Daniels. 
       At as pessoas que no gostavam dele admitiram que era um grande homem. E seus livros eram to bons. Ultimamente Bettina releu vrios deles nas noites em 
que John estava trabalhando. Ela os escondia do marido. Como fazia com as ligaes que recebia de No de vez em quando. No s queria saber como ela estava e Bettina 
lhe assegurava que estava escrevendo e que tudo estava bem. Ele j tinha um agente literrio ansioso em ler o primeiro rascunho assim que ela terminasse e, da ltima 
vez que falou com ele, prometeu que seria logo. Mas aconteceu mais rpido do que ela pensava. De repente, uma semana depois que falou com Mary, percebeu que a pea 
estava pronta em suas mos. Olhou longamente para ela, os cabelos desalinhados, o rosto sujo de lpis, mas com um largo sorriso. Finalmente terminou. Nunca sentiu 
tanto orgulho em sua vida. Seu orgulho no foi vencido pelo de Mary, que deu  luz no dia seguinte um menino, fcil como sempre.
       Aps ler cuidadosamente mais quatro vezes, colocou no correio e mandou para Ivo.
       - Como ficou? - No parecia to ansioso quanto ela. - Maravilhosa. Eu adorei!
       - timo. Tenho certeza de que tambm vou gostar.
       Uma semana mais tarde o agente ligou e disse que ela precisava trabalhar mais um pouco.
       - O que quer dizer? - perguntou a No quando ligou para choramingar.
       - S o que ele disse. Indicou onde deveria mexer. No  novidade para voc. No se lembra de Justin reescrevendo pedaos? No h nada demais. No esperava 
que fosse perfeita logo da primeira, esperava? 
       - Claro.
       - Bem, voc esperou quase trinta e dois anos para escrever, agora no pode se dedicar mais seis meses?
       Mas no precisou de seis meses. Em trs j fizera todas as correes que o homem pedira. Colocou no correio na poca de quatro de julho, e dois dias mais 
tarde ele telefonou. Vitria! Estava pronta! Escrevera uma pea maravilhosa, fabulosa e fantstica. Ela se derretia com todos os adjetivos que ele usou, e ficou 
por uma hora deitada na cama, olhando para o nada, sorrindo alegremente.
       - Por que est to feliz, Betty? - John acabara de chegar de um jogo de tnis.
       Ela sentou-se na cama sorrindo para ele, passou a mo pelos cabelos negros do marido e disse:
       - Tenho uma surpresa para voc, querido. - Havia preparado uma cpia encadernada para ele, mas estava esperando o agente dizer que era boa.
       - O que ? - Parecia intrigado ao v-la andar para o outro lado do quarto.
       - Uma coisa que fiz para voc. - Sorriu por cima do ombro, no diferente de Alexander quando trazia alguma coisa da escola.
       Com um olhar de curiosidade, John a acompanhou at que ela pegasse um pacote numa gaveta. Virou-se para ele com um grande livro encadernado em azul.
       - O que ? - Abriu devagar e depois parou como se tivesse levado um tapa quando viu o nome dela. Olhou para ela furioso e fechou o livro com fora. - Isto 
 alguma piada?
       - De jeito nenhum! - Sentiu suas pernas tremerem.- Isto representa nove meses de trabalho.
       - O que  isto? 
       - Uma pea.
       - No podia encontrar alguma coisa melhor para fazer com seu tempo livre, Betty? As mulheres auxiliares do hospital precisam de uma presidente, seu filho 
gosta de ir  praia com voc, posso pensar numa dzia de coisas que podia fazer em vez disto.
       - Por qu? - Era a primeira vez que o desafiava.
       - Esta coisa provavelmente  uma besteirada. - Ele sorriu ironicamente e, num acesso de fria, jogou o livro sobre ela. - No me venha com esse lixo!
       E sem dizer mais nada, bateu a porta do quarto e correu para baixo. Logo depois ela ouvia a batida da porta da frente. Da janela de seu quarto, viu o marido 
pegar o carro e sair e ficou imaginando o que ele faria. Talvez dirigiria um pouco e pararia para andar em algum lugar, depois voltaria para casa e nunca mais discutiriam 
o assunto.. Nunca leria a pea nem falaria sobre ela. O assunto seria um tabu. Mas e se ela fosse montada? O que ele faria? Deprimida, ela pensou que talvez nunca 
precisasse pensar naquela possibilidade, mas era bom sonhar,
       
33
       
       Logo depois do Dia do Trabalho, Alexander voltou ao colgio. Subitamente a vizinhana ficou calma outra vez. Mary, pelo menos, tinha o beb, mas Bettina estava 
sem o que fazer. Como ela previra, John nunca mais mencionou o assunto, e a cpia que ela encadernou para ele em couro azul voltou  gaveta. John nunca viu a dedicatria 
para ele e Alexander. Fazia dois meses que ela mandara a pea para os agentes, e No dissera que poderiam levar muitos meses antes de terem alguma notcia. Mas que 
notcias seriam? Que algum queria produzir a pea? Que havia dzias de patrocinadores? Que estava tudo pronto para comear a produo a qualquer dia? Fez uma careta 
ante a impossibilidade de qualquer destas coisas acontecerem e desceu para colocar os pratos na mquina de lavar. Da janela da cozinha, podia ver Mary pondo o beb 
no carrinho e sorriu ao observar a cena. Talvez Mary tivesse a idia certa, porque agora que sua pea estava pronta, Bettina pensava no que faria com sua vida. Ao 
colocar o ltimo prato na mquina, ouviu o telefone tocar.
       - Al? - Bettina?
       - Sim. - Sorriu satisfeita. Era Ivo. - No tenho notcias suas h semanas.
       Sentia-se mentirosa em falar com No e no contar para John, mas no tinha nada de mais e sabia disso. Decidira que tinha o direito de fazer algumas coisas 
e no contar a ele, e o que poderia contar? Que No telefonara para falar da pea?
       - Acabei de voltar do sul da Frana. Norton ia te ligar. - Seu corao parou de bater. Norton Hess era o agente de Ivo e, agora, o dela. - Mas eu lhe disse 
que queria contar as novidades eu mesmo.
       - Sobre o qu? - Tentou parecer indiferente ao sentar-se na cadeira.
       No riu do outro lado da linha.
       - Sobre o que poderia ser? Sobre o tempo na Califrnia. - Ambos riram. - No, querida. Para falar a verdade... - fez uma pausa muito longa, e ela quase rosnou. 
-  sobre sua brilhante pea.
       - E a?
       - No seja impaciente. 
       - Ivo! Fala logo!
       - Est bem, est bem. Norton parece que conseguiu um exrcito de patrocinadores. Por um acaso da sorte, tem um teatro vago e eles esto pensando em estrear 
no final de novembro ou incio de dezembro... - Ele estava rindo feliz. - Precisa dizer mais? Norton quer que voc venha para Nova York no prximo avio. Pode discutir 
os detalhes com ele quando chegar.
       - Fala srio?
       - Nunca falei to srio.
       - Oh, Ivo... - Durante todo o tempo em que escreveu desejou e rezou, mas nunca imaginou que aconteceria assim, to rpido. - O que eu vou fazer? - No sabia 
se devia rir ou chorar.
       - Quer dizer, sobre o seu marido? 
       - . O que vou dizer a ele?
       - Que voc escreveu uma pea, que tem um produtor interessado e com sorte ser um grande sucesso.
       - Pare de brincadeiras. 
       - No estou brincando. 
       - Quando eu tenho realmente que estar a?
       - O mais rpido possvel. Tenho certeza de que Norton vai falar com voc antes. A verdade  que estamos falando de uma data praticamente impossvel para a 
estria, e s ser possvel porque o teatro est livre e sua pea no pede muito cenrio ou roupas. Ento,  s uma questo de apoio financeiro, escolher o elenco 
e ensaiar. Quanto mais tempo voc demorar para chegar aqui, mais vai demorar para estrear. Por que no vem amanh?
       - Amanh? - Estava estupefata. - Para Nova York?
       No ia a Nova York h cinco anos e meio. Houve um longo momento de silncio no telefone enquanto No deixava Bettina digerir a idia. 
       - Depende de voc, pequenina. Mas acho melhor se arrumar agora mesmo.
       - Vou falar com John esta noite e converso com Norton amanh. Mas Norton no foi to paciente quanto Ivo. Ligou para ela meia hora depois e insistiu para 
que pegasse o vo noturno imediatamente.
       - No posso. Isso  ridculo. Tenho marido e um filho pequeno. Preciso aprontar algumas coisas. Preciso...
       Finalmente concordaram que ela iria no dia seguinte, o que significava que tinha que falar com John o mais rpido possvel. Pensou em ir v-lo no consultrio, 
mas resolveu esperar. Vestiu alguma coisa mais atraente, serviu-lhe um drinque e colocou Alexander na cama o mais rpido que pde.
       - O que tem em mente, bela senhora?
       Olhou para ela com interesse, e ambos sorriram, mas Bettina logo ficou sria, e colocou seu copo sobre a mesa.
       - H uma coisa que tenho que discutir com voc, querido. E, no importa o que pense disto, quero que saiba que eu te amo. - Ela vacilou por um instante, odiando 
ter que lhe falar sobre a pea. - Por que eu te amo muito, muito, muito, e isto no tem nada a ver com amar voc. Mas tem a ver comigo.
       - E o que quer dizer? Deixe-me adivinhar. - Estava com esprito brincalho naquela noite. - Voc quer pintar o cabelo de louro. 
       - No, John,  sobre a minha pea - respondeu com seriedade. 
       - Ento  isso? O que  que tem? - Seu rosto ficou imediatamente tenso.
       No podia lhe contar que No mandou para um agente, porque no lhe contou que se encontrou com Ivo.
       - Eu a mandei para um agente. 
       - Quando?
       - Em julho. No, foi antes, mas ele pediu que eu fizesse algumas correes e eu fiz.
       - Por qu?
       Fechou os olhos por um momento e depois olhou para ele:
       - Por que quero que ela seja comprada, John.  uma... coisa que eu sempre quis fazer. Tinha que fazer. Por mim, pelo meu pai. E de um modo engraado, por 
voc e Alexander.
       - Mentira! Tudo que precisa fazer por mim e por Alexander  ficar aqui nesta casa.
       -  tudo que quer de mim? - Olhou para ele com olhos tristes. 
       - , sim. Voc acha que essa  uma profisso respeitvel, senhora escritora? Bem, no . Veja s o seu pai, o famoso escritor. Acha que era um homem respeitvel?
       - Ele era um gnio! - Correu em sua defesa. - Pode no ter sido o que voc chama de "respeitvel", mas era brilhante, interessante e deixou sua contribuio 
para o divertimento de milhes de pessoas.
       - E o que deixou para voc, meu bem? Seu velho amigo devasso? O companheiro? Aquele veado que casou com voc quando voc tinha dezenove anos?
       - Voc no sabe o que est dizendo. - Estava lvida enquanto o encarava. - John, este no  o ponto. O assunto  a minha pea. 
       - Porra nenhuma! O assunto  minha esposa e a me de meu filho. Voc acha que eu quero minha esposa vadiando por a com pessoas como essas? O que voc acha 
que isso faz de mim?
       - Mas eu no tenho que "vadiar". Posso ir para Nova York, vender minha pea e voltar para casa. Moro aqui com voc e Alexander, e a oito mil quilmetros daqui, 
em Nova York, eles encenam a minha pea. Voc nem tem que assisti-la.
       Mas ao ouvir-se implorando, comeou a odi-lo. Por que deveria dizer a ele que no precisava ver sua pea? Por que ele no gostaria de v-la?
       - Por que est fazendo tanta oposio? Eu no entendo. - Olhou para ele sentindo-se infeliz e tentando ficar calma.
       - No entende porque foi criada num ambiente to porco, e no  isso que quero para o meu filho. Quero que ele seja normal.
       - Como voc?  s isso que  ser normal? - disse ela com amargura.
       - Exatamente - respondeu ele bem depressa. Ela ficou de p:
       - Nesse caso, John Fields, no vou mais perder meu tempo discutindo com voc. Que droga, voc no entende de onde eu venho, as pessoas educadas, os grandes 
gnios. Passei minha vida antes desta entre pessoas que alguns fariam tudo para conhecer. Todos, menos voc, porque tem medo e se sente ameaado. Veja s! Voc nem 
vai a Nova York. Do que tem medo? Pois bem, vou at l, amanh, vender minha pea e volto para casa. E se no pode aceitar isso, que se dane, porque no fim de semana 
eu j estarei de volta, fazendo o que sempre fiz, cozinhando, arrumando as camas e cuidando de nosso filho.
       John ficou no escritrio por muito tempo, e no falou com ela quando foi para a cama. Na manh seguinte ela explicou para Alexander que precisava ir a Nova 
York. 
       Falou por que ia e falou sobre o seu av. O menino ficou fascinado e encantado.
       - Ele escrevia livros de histria para crianas? - Olhava com os mesmos olhos verdes da me.
       - No escrevia no, querido. 
       - Voc escreve?
       - Ainda no. S escrevi uma pea.
       - O que  isso? - Sentou-se, olhando para ela fascinado.
       -  como uma histria que as pessoas representam em grandes palcos. Um dia te levo para ver uma pea para crianas. Gostaria de ver? Ele concordou e seus 
grandes olhos se encheram de lgrimas. Ento, abraou as pernas da me.
       - No quero que voc v, mame!
       - No vou demorar muito, querido. S um pouquinho. E se eu te trouxesse um presente?
       Ele concordou e Bettina secou as lgrimas do menino depois de desfazer o abrao em suas pernas.
       - Voc liga para mim quando eu voltar da escola? 
       - Todo dia, prometo.
       - Quantos dias? - perguntou, muito triste.
       Ela levantou dois dedos, torcendo para que fosse suficiente: 
       - Dois.
       E, chorando, ele concordou e estendeu a mo.
       - Combinado. - Puxou Bettina para baixo para beijar-lhe o rosto. - Voc pode ir.
       E juntos saram do quarto. Ela o levou para brincar na casa de Mary at que o carro da escola viesse busc-lo e, meia hora depois de deixa-lo, estava a caminho 
do aeroporto, sozinha num txi. John no quis mais discutir o assunto, e ela deixou um bilhete dizendo que estaria de volta em dois ou trs dias, deixando o nome 
do hotel. O que ela nunca saberia  que quando ele chegou em casa, naquela noite, amassou o bilhete e o jogou no lixo.
       
34
       
       Desceu correndo do avio, vestindo um conjunto preto com os brincos de prola e nix que foram de sua me e que no usava h anos. Eram grandes e charmosos 
como a gargantilha de prolas que No lhe dera. No estava no aeroporto esperando, vestindo um conjunto em tweed e sorrindo. Bettina suspirou aliviada ao v-lo. Esteve 
tensa por todo o vo. No podia imaginar como seriam as coisas em Nova York, outra vez. Se seriam um sonho ou um pesadelo. Enquanto o avio cruzava os cus, milhes 
de lembranas danaram em sua mente... com o pai... com Ivo... no teatro... nas festas... com Anthony no sto. Tudo foi um interminvel filme que ela ainda no 
foi capaz de desligar. Mas agora, ao ver No no terminal, veio um alvio. Pelo menos era real.
       - Cansada, querida?
       - No muito. Apenas nervosa. Quando vou ver Norton? 
       - To logo cheguemos ao seu hotel.
       No houve nenhuma aproximao mais ntima. H muito tempo No abandonara seu outro papel. Estava de volta como o amigo de seu pai e que, de certa forma, ocupava 
o lugar de Justin, agora.
       - Voc est muito animada?
       Mas ele s teve que olhar para ela para saber. Bettina concordou nervosamente, e depois dava risadinhas enquanto esperavam pelas malas.
       - Mal posso agentar, Ivo. Nem sei bem o que tudo isso significa. 
       - Significa que uma pea sua ser apresentada na Broadway, Bettina. - Sorriu alegremente para ela, e depois falou com cuidado: - O que seu marido achou?
       Bettina ficou sria por um instante, depois deu de ombros e sorriu:
       - Nada.
       - Nada? Quer dizer que ele no se importou? Mas Bettina negou com a cabea e riu:
       - Quero dizer que ele no falou comigo do minuto em que eu lhe contei at a hora em que sa.
       - E seu filho?
       - Foi muito mais compreensivo do que o pai.
       No no disse mais nada, mas esteve pensando o que Bettina faria com o menino. Se a pea fosse produzida ela teria que ficar vrios meses em Nova York. Traria 
o menino, ou deixaria com o pai? No pensava, mas no queria falar do assunto antes da hora. Conversaram ento sobre amenidades, enquanto esperavam as malas, que 
um porteiro ajudou a colocar no carro de Ivo. Ele tinha um novo motorista.
       - Est muito diferente? - Ele perguntou ao cruzarem a ponte. 
       - De jeito nenhum.
       - No pensei que estivesse. Fico feliz.
       Queria que ela achasse as coisas familiares, que se sentisse em casa na sua velha cidade. Por muitos anos viveu como uma estrangeira entre pessoas que no 
entendiam de onde ela vinha, e com um homem alie nado. Mesmo sem o conhecer, No no gostava dele. No gostava das coisas que ele colocara na cabea de Bettina, o 
repdio pelo seu passado, pelo seu pai, por sua histria e por ela mesma.
       Enquanto corriam pela Terceira Avenida e depois Park Avenue, Bettina olhava as pessoas, os carros, a multido, a ao comeando a acontecer no incio da noite, 
pessoas deixando seus escritrios, indo para festas ou jantares, correndo para restaurantes ou para casa. Havia uma certa eletricidade que, at no santurio que 
era a limusine, ambos podiam sentir. 
       - No h nada como isso aqui, no ? - No olhava  sua volta, orgulhoso.
       - Voc no mudou em nada, Ivo. Ainda fala como o editor do New York Mail - disse ela, sorrindo.
       - Ainda sou, no corao. 
       - Sente falta de l?
       - Eventualmente, todas as coisas precisam mudar. - Deu de ombros.
       Bettina quis dizer, "como ns", mas no o fez. Ficou quieta no carro e, alguns minutos depois, passaram pela ilha Shrubbery e pararam, na porta do hotel.
       A fachada era principalmente dourada e com mrmore, o porteiro vestido com l marrom debruada de dourado, a recepo era de mrmore e o recepcionista extremamente 
atencioso. Momentos depois Bettina foi levada para sua sute. Olhou em volta, surpresa. Fazia anos que no via algo assim.
       - Bettina? - Um homem pequeno e troncudo, com brilhantes olhos azuis e uma franja de cabelo grisalho andava em sua direo. No era bonito, mas elegante, 
ao levantar-se de uma poltrona na sala da sute e estender-lhe a mo.
       - Norton? Estou to feliz em te conhecer aps todos estes meses falando pelo telefone.
       Apertaram-se as mos, calorosamente. Viu que suas malas eram colocadas no quarto e que No deu a gorjeta para o carregador, depois ligou para o servio de 
quarto e pediu bebidas. Norton sorria.
       - Se no estiver muito cansada, adoraria lev-la para jantar. Me desculpe por estar aqui to rpido, mas  que temos muito para conversar esta noite. E sei 
quo ansiosa est em voltar para casa. Amanh te mos que encontrar com os produtores e patrocinadores, e quero ter algum tempo livre com voc para conversarmos...
       - Eu entendo. Est timo e voc est certo. Quero fazer o que for necessrio e voltar para casa.
       Por um instante, os olhos de Norton buscaram os de Ivo. Pensava se ela compreendia que precisaria passar alguns meses em Nova York. Mas no havia por que 
pression-la no primeiro momento. Isso ficaria claro para ela no dia seguinte.
       - Quanto ao jantar, ser um prazer. Ivo, voc vem tambm? 
       - Com o maior prazer.
       Os trs sorriram e Bettina sentou-se em uma das cadeiras Lus XV. Parecia incrvel estar de volta quele ambiente aps tantos anos. Parecia com todos os hotis 
onde tinha se hospedado com o pai. A nica diferena era que agora estavam l por sua causa. Conversaram animadamente enquanto Bettina tomava vinho branco, e os 
cavalheiros seus martinis. Uma hora depois ela foi trocar de roupa, passando um pente nos cabelos. Colocou novamente os brincos de prola e nix de sua me, mas 
desta vez usava um vestido novo de seda preta. Vendo o vestido, No percebeu como seu gosto tornou-se simples. Era bonitinho, mas, comparando com a sofisticao de 
seu antigo guarda-roupa, esta roupinha preta era muito sem graa.
       Foram jantar s dez horas no La Grenouille, e enquanto se acomodavam Bettina sentia uma sensao de alvio. Era como se vivesse em outra atmosfera e agora, 
finalmente, estava em casa. No estava animado ao observ-la e tudo que ela fez foi sorrir para ele. Todos comeram caviar de entrada, costeleta de carneiro com aspargos 
em molho holands e, de sobremesa, sufl. No final da refeio os homens pediram conhaque com caf e charutos cubanos. Bettina recostou-se observando-os, aproveitando 
o que via e os aromas familiares que sentia. Pareciam anos desde que comeu uma refeio como aquela ou sentia o rico aroma dos charutos cubanos. Pela centsima vez, 
olhou em volta, maravilhada com as mulheres, as maquiagens, as jias, as roupas e seus cabelos. Tudo estava uma perfeio, tudo era feito para captar seu olhar e 
alegr-la. Era um prazer olhar para tudo aquilo, e ao lado daquele luxo Bettina sentia-se insuportavelmente simples. De repente compreendeu, mais do que nunca, o 
quanto tinha mudado em cinco anos.
       S depois do conhaque Norton falou sobre a pea.
       - Bem, Bettina, o que acha do nosso pequeno acordo?
       Ele olhava para ela satisfeito, obviamente um homem que tinha vencido e estava orgulhoso. Tinha o direito de estar. O que foi oferecido para Bettina era uma 
proposta maravilhosa.
       - Estou muito impressionada, Norton, mas ainda no sei os detalhes. 
       - Saber, Bettina, saber.
       E no dia seguinte ela soube. Uma grande quantia em dinheiro, os melhores patrocinadores da Broadway, um produtor de quem as pessoas vivem atrs e um teatro 
que era nada menos que um sonho.
       Tratava-se desses raros casos no teatro onde todos os detalhes se combinavam com perfeio. Normalmente, a pea no seria montada antes de seis meses, mas, 
devido  simplicidade da produo e ao fato de o teatro estar disponvel, assim como o produtor e os patrocinadores, tudo foi ajeitado para acontecer em trs meses. 
O produtor tinha certeza de que podia conseguir os atores que queria. A nica coisa que faltava era a aprovao de Bettina. Tudo j estava engatilhado.
       - Bem? - perguntou Norton, no final de um dia estafante. - Devemos assinar o contrato hoje e dar a luz verde para todos amanh, madame? - Acenou para ela, 
apontando a montanha de contratos que tinha sobre sua mesa.
       Ela no entendia nada, tecnicamente, do que estava acontecendo, mas compreendeu que se concordasse em receber aquela grande quantia em dinheiro e viesse para 
Nova York at o incio da pea para cuidar de certos probleminhas e depois ficasse de olho no que acontecia at pouco depois da estria, sua pea estaria pronta 
s vsperas do Natal. Era tudo muito simples. Mas ela parecia exausta e nervosa ao olhar para Norton, do outro lado da mesa.
       - Qual  o problema?
       - No sei, Norton... eu... tenho que falar com meu marido. No sei o que farei com meu nenm. - Ela parecia muito assustada.
       Ele ficou surpreso. Um nenm? Ela tinha um nenm? 
       - Que nenm?
       - Meu filhinho de trs anos.
       - Traga-o para Nova York e coloque-o num colgio por trs ou quatro meses, e logo depois do Natal volte para casa. Que diabos! E se quiser traga o seu marido. 
Por Deus, eles esto pagando o suficiente para voc trazer todos os seus amigos.
       - Eu sei... eu sei... no quero parecer ingrata. Estou satisfeita,  s que... meu marido no pode vir, ele  mdico e - ela parou, encarando Norton - sei 
l, que droga, estou assustada. O que  que eu sei sobre a Broadway? Escrevi uma pea e agora estou tentando entender o que eu fiz.
       - O que fez? - Olhou para ela com um olhar severo. - No fez nada. Zero. Escreveu uma pea. Mas se no deixar que ela seja produzida, se no arriscar, minha 
querida, ento voc fez merda. Talvez o que voc preferisse fosse levar sua pea de volta para a Califrnia e encena-la em algum teatro amador, onde ningum a veria, 
e nunca mais ouviramos falar em voc. - O silncio na sala era gritante, depois daquele discurso. -  isso que voc quer, Bettina? Tenho certeza de que seu pai 
ficaria muito orgulhoso se pudesse ver a pea. - Sorriu bondosamente para ela, no preparado para sua reao e pulando para o lado quando ela socou a mesa.
       - Que se dane meu pai, Norton, ou Ivo. Ou John. Todo mundo quer que eu faa o que lhes  conveniente, evocando os nomes que precisarem para conseguir o que 
querem. Bem, no estou fazendo isto pelo meu pai, pelo meu marido ou por No ou por voc. Se eu fizer, estarei fazendo por mim, Norton, por mim, voc me entende? 
E talvez pelo meu filho. E a verdade  que no posso dar uma resposta agora e no vou assinar droga nenhuma hoje. Vou voltar para o hotel e pensar sobre o assunto. 
E de manh vou para casa. Quando tiver tudo claro na minha mente, ligo para voc.
       - Apenas no espere muito tempo - disse Norton com calma. Mas agora ela estava cansada dele, de todos. Cansada de ser pressionada para fazer as coisas.
       - Por que no? Se a pea for to boa quanto dizem, vo esperar por mim.
       - Talvez. Mas podem perder o teatro, e isso pode modificar o acordo. Precisa de todos os detalhes prontos para serem acionados, e agora voc os tem, Bettina. 
Eu no arriscaria isso muito se fosse voc.
       - Vou pensar. - Parecia perturbada ao se levantar, mas Norton sorriu quando deu a volta em sua mesa para a direo de Bettina. - Sei que  difcil, Bettina. 
 uma grande mudana. Principalmente depois de ter se afastado por tanto tempo. Mas tambm  um bom risco, e boas coisas no acontecem se voc no se arriscar. Poderia 
ser um grande sucesso, como eu sei que vai ser. Acho que vai definir sua carreira.
       - Acha mesmo? - Olhava para ele confusa, e no entendia nada. - Mas por qu?
       - Porque  sobre um homem e sua filha, porque fala muito sobre a nossa poca, sobre homens, sobre voc, sobre sonhos destrudos e sobre a esperana que de 
alguma forma tira do caminho as pedras, as urtigas e a merda. E um tema duro, mas muito bonito. Voc falou de coisas que sente em seu corao, Bettina. Pagou um 
preo para entender isso e sentiu cada palavra do que escreveu ali, e a beleza da pea  que outros tambm vo sentir.
       - Espero que sim - sussurrou, ao olhar com tristeza para ele.
       - Ento d a eles a oportunidade, Bettina. V para casa e pense. E depois assine os papis e volte para c. Seu lugar  aqui, moa. Tem trabalho a fazer aqui 
mesmo, nesta cidade.
       Ela sorriu e, antes de sair, deu-lhe um beijo no rosto. No viu No outra vez antes de deixar Nova York, nem falou com Norton. Na verdade, nem ficou no hotel 
para dormir. Telefonou para a companhia area e pegou o ltimo vo para casa. Entrou na casa de Mill Valley s duas da manh e foi p ante p at o quarto, onde 
John estava dormindo profundamente. Mas como todos os mdicos, ele tinha sono leve e sentou-se logo que ela fechou a porta.
       - Algo errado?
       - No - sussurrou suavemente. - Volte a dormir. Acabei de chegar.
       - Que horas so? 
       - Quase duas.
       Ao responder, imaginou se ele entendia que ela teria voltado correndo por causa dele e ficou apenas uma noite em Nova York. Poderia ter ficado mais uma noite, 
outro jantar, outra noite num hotel chique, mas ela queria voltar para Mill Valley, para seu marido e seu filho. Enquanto ele se recostava calmamente na cama olhando 
para ela, Bettina sorriu e colocou as malas no cho.
       - Senti sua falta.
       - No ficou muito tempo longe.
       - Eu no quis. No lhe disse que no ficaria?
       - Voc fez o acordo? - Apoiou-se no brao e acendeu a luz, e Bettina sentou-se na cadeira.
       Por um instante no respondeu, mas logo negou com a cabea. 
       - No. Eu queria pensar mais no assunto.
       - Por qu?
       John olhava para ela com frieza, mas ao menos estava falando. Ela no queria lhe contar todos os detalhes. No to rpido. No na sua primeira hora em casa.
       -  mais complicado do que eu pensava. Podemos falar sobre isso pela manh.
       Mas ele estava bem acordado.
       - No. Quero falar agora. Essa coisa toda foi mantida em segredo por muito tempo. Voc manteve segredinhos de mim desde que comeou a escrever aquela droga. 
Agora quero tudo bem claro.
       Ento estavam de volta quilo. Ela suspirou e passou a mo sobre os olhos cansados. Fora um dia interminvel, e pelo horrio de Nova York j seriam cinco 
da manh.
       - Nunca pensei em manter segredinhos, John. No te falei, em parte porque queria fazer surpresa, e tambm porque tinha medo de que voc no aprovasse a idia. 
Era uma coisa que eu tinha que fazer. Tal vez seja gentico, sei l. Gostaria que voc visse o problema de forma mais aberta. Faria as coisas muito mais fceis para 
mim.
       - Ento voc no entende como eu me sinto, Bettina. No tenho a menor inteno de tornar as coisas fceis para voc. Eu no quero isso. E se voc fosse esperta 
esqueceria tudo. Eu lhe dei esta chance h cinco anos. No entendo por que teve que voltar agora. Ser que tenho que lembr-la que tentou se suicidar, perdeu um 
beb e que foi casada duas vezes e deixada sem nada pelo seu pai, jogada fora, at que veio cair aqui como uma rf?
       No era um quadro bonito, e ela o interrompeu:
       - John, por que no podemos nos prender ao assunto? 
       - Que assunto?
       - Minha pea.
       - Ah! - Olhou para ela furioso.
       - Sim! O problema  o seguinte: j que voc quer tudo s claras, se eu vender a minha pea tenho que passar alguns meses em Nova York. - Engoliu em seco e 
continuou, evitando seus olhos. -Provavelmente s at o Natal. Voltaria para casa depois.
       - No, no voltaria. - Sua voz estava gelada.
       - Voltaria, sim. Norton, meu agente, disse que no tenho que ficar l por muito tempo depois da estria e eles querem estrear no final de novembro, incio 
de dezembro. O que quer dizer que devo estar em casa para o Natal.
       - Voc no me entendeu. Se for a Nova York para isso eu no a quero de volta.
       Olhou para ele horrorizada e sentou-se ao seu lado furiosa.
       - Est falando srio? Me daria esse tipo de escolha, John? No entende o que isso pode significar para mim? Poderia ser uma escritora, que merda, eu poderia 
ter uma carreira...
       Sua voz foi diminuindo de intensidade ao perceber que ele no ligava a mnima.
       - No, voc no poderia ter uma carreira, Betty. No se continuar sendo minha esposa.
       -  simples assim? Vou para Nova York com a pea e voc me pe para fora?
       - Exatamente. Ento est resolvido, no?  uma escolha muito clara. Pensei que j tivesse entendido antes.
       - No entendi, ou no teria me dado ao trabalho de ir at Nova York.
       - Bem, espero que no tenha desperdiado seu dinheiro.
       Ele deu de ombros e apagou a luz. Bettina foi tirar a roupa no banheiro e seus ombros comearam a tremer enquanto ela pegava uma toalha para esconder o rosto, 
silenciando o pranto.
       
35
       
       - Sinto muito, Norton, no posso fazer nada.  meu marido ou voc. - Sentia-se deprimida ao segurar o telefone. Havia chorado a noite toda. Houve um longo 
silncio, e depois Norton disse a verdade a ela. - Acho que voc deveria entender uma coisa, Bettina. A minha pessoa no est em discusso nesta histria, mas voc 
est.  seu marido ou voc. No est deixando voc com uma escolha fcil. Espero que ele valha a pena.
       - Eu acho que vale.
       Mas ao desligar o telefone no tinha mais certeza, e teve menos ainda quando foi at a casa de Mary e olhava desanimada para seu caf enquanto lgrimas escorriam 
de seus olhos.
       Mary tambm estava desanimada. 
       - Eu no entendo.
       - Ele se sente ameaado. Odeia essa parte do meu passado. No h nada que eu possa fazer.
       - Voc poderia deix-lo.
       - E fazer o qu? Comear tudo de novo? Achar um quarto marido? No seja ridcula, Mary. Esta  minha vida, aqui. Minha realidade. A pea foi um sonho. E se 
for um fracasso?
       - E da? Voc pode mesmo abandonar seus sonhos por este homem? - Olhou para Bettina, furiosa. - Ele  meu amigo, Betty e voc tambm , mas acho que ele est 
sendo ridculo. Se eu fosse voc, correria os riscos e iria para Nova York.
       - Voc s est dizendo isso porque est cansada de crianas. 
       - No estou. Eu adoro eles. Mas eu no sou voc. Lembra-se da histria da ave-do-paraso que eu lhe contei? Bem, voc est ridcula usando este bico cinza 
e marrom. Este no  seu lugar, Bettina. Voc sabe, eu sei. Seth sabe, e at John sabe.  por isso que ele faz essa merda toda para te manter aqui. Provavelmente 
tem medo de perder voc.
       - Ele no me perderia - disse, num lamento.
       - Ento diga a ele. Talvez seja tudo que ele precise ouvir. Se no bastar isso, dane-se ele! Faa as malas, pegue Alexander e v para o seu teatro.
       Mas ao ver Bettina voltar para sua casa, Mary sabia que ela no faria aquilo. No o deixaria.
       Bettina passou a tarde entre ler um dos livros de seu pai ou ficar olhando pela janela, at que, mais tarde, o telefone tocou. Era Ivo. 
       - Voc est louca? Por que se deu ao trabalho de vir a Nova York se ia voltar para se esconder?
       - No posso fazer nada, Ivo. Tem que ser assim. Por favor... no vamos mais falar sobre isso. J estou bastante infeliz.
       -  esse idiota com quem se casou? 
       - Ivo, por favor... - Ela titubeou.
       - Est bem, que droga, est bem. Mas pelo amor de Deus, Bettina, pense melhor... Voc sempre quis isso por toda a sua vida e agora, que teve a oportunidade, 
quer jogar fora?
       Bettina sabia que o que No dizia era verdade. 
       - Talvez eu tenha outra chance mais tarde.
       - Quando? Quando seu marido morrer? Quando for uma viva? Em cinqenta anos? Por Deus, pense... pense sobre isso... sua pea poderia ser apresentada na Broadway 
e voc a est condenando ao silncio.  voc quem est fazendo isso, ningum mais.
       - Eu sei. - Sua voz era pouco mais que um sussurro, e seus olhos se encheram de lgrimas. - No posso mais falar, Ivo. Te ligo amanh. Mas quando ela desligou, 
foi novamente cegada pelas lgrimas. Imaginava se John sabia o quanto custava a ela renunciar ao sonho de sua vida.
       Ento, pensativa, secou as lgrimas com sua blusa e voltou para o livro. Por estranho que parea era um dos livros de seu pai que ela no lia h anos, e Mary 
o tinha em sua estante. Bettina pegou emprestado havia alguns meses, e nunca teve a oportunidade de ler. Mas hoje parecia, de alguma forma, reconfortante. Como se 
ele entendesse. 
       Como se ele tivesse escrito sabendo o que ela estava sentindo. Sentia sua presena enquanto continuava a ler, secando as lgrimas. Ento ela encontrou. Um 
pedao de que ele gostava tanto, que muitas vezes repetiu para ela. Algo que o pai dele dissera h muitos anos.
       "No abandone seus sonhos ou o ato de sonhar. No deixe a vida cortar o fio enquanto voc puxa a linha dos seus sonhos... segure firme... continue puxando... 
no desista... agarre a rede, e se parecer que eles esto prontos para pular fora depois que voc os pegou, pule atrs deles e continue nadando at que se afogue, 
se for necessrio... mas nunca deixe seus sonhos fugirem..."
       Calmamente, Bettina fechou o livro. Desta vez riu ao deixar as lgrimas escorrerem. Foi devagar at a cozinha e ligou para Norton. Depois esperou o marido 
chegar em casa. Quando ele chegou ela lhe disse com calma e com firmeza que tinha tomado uma deciso.
       
36
       
       - Promete que vai me ligar de vez em quando?
       Mary olhava para ela com tristeza, o carro cheio de crianas e seus olhos cheios de lgrimas.
       - Prometo.
       Bettina abraava sua amiga com fora, beijou a todos e acenava depois de tirar Alexander do carro.
       - Tchau! - O menino acenava freneticamente. Depois seguiu a me para o terminal, segurando forte sua mo.
       Ela explicou a ele sobre a ida para Nova York por alguns meses, sobre o novo colgio, uma bab algumas vezes, assistir a uma pea para crianas, e encontrar-se 
com alguns velhos amigos de seu av. Ele ficou triste em no poder trazer o pai, mas entendeu que este tinha que ficar para ajudar as pessoas doentes, e ele estava 
feliz de estar com a mame. Deixou um desenho bem grande para o papai e correu para arrumar nas malas seus brinquedos favoritos. Tudo aconteceu na noite anterior. 
Seu pai j tinha sado quando ele acordou de manh. Algum devia estar muito doente para ele ter sado to cedo. E a tia Mary, da casa ao lado, os deixou no aeroporto. 
       Tudo estava bem, a no ser pelo fato da sua me e da tia Mary chorarem muito.
       - Voc est bem, mame? - Ele parecia inseguro. 
       - Estou, querido. E voc?
       Mas Bettina olhava ansiosa pelo aeroporto enquanto se encaminhavam para o porto de embarque. John saiu antes que ela se levantasse e ainda tinha esperanas 
de que ele aparecesse para se despedir. Deixara uma carta dizendo que o amava muito, e ligara vrias vezes para o consultrio, mas nem mesmo a enfermeira estava 
l e o servio de recados no o encontrara. Ele no apareceu, e Bettina e Alexander embarcaram. Era a primeira vez que Alexander viajava de avio. Distraiu-se brincando 
com as coisas que lhe davam e correndo pelos corredores. Havia mais trs crianas para as brincadeiras, mas ele acabou dormindo no colo de Bettina. Quando chegaram 
ao aeroporto de Nova York, No no pde ir, mas mandou o carro.
       Bettina estava encantada com o conforto, e o motorista os deixou no hotel que ela escolheu, mais bem localizado que o anterior. Queria que Alexander pudesse 
ir ao parque. Ficaram numa linda sute decorada com tecidos coloridos, pinturas e muita luz do sol. A tarde de outono estava invadindo o quarto enquanto o carregador 
deixava as malas no cho. Havia flores mandadas por Norton, por No e um grande buqu de rosas mandado pelo produtor da pea, com um carto que dizia apenas: "Bem-vinda 
a Nova York."
       Naquela noite, Bettina ficou no hotel cuidando de Alexander e, antes de irem dormir, tentaram falar com John pelo telefone, mas ele no estava em casa quando 
ligaram. 
       Tentaram Mary e Seth.
       - J est com saudades de casa? 
       - Nem tanto. S queria dizer al.
       Mas Mary sabia que Bettina devia estar preocupada com John. Ela se acalmaria depois que comeasse a trabalhar na pea. E John provavelmente tomaria juzo. 
E quem sabe ele at fosse encontrar com ela em Nova York. Mary expressou suas esperanas para Seth durante o jantar, mas ele apenas concordou vagamente.
       Bettina colocou Alexander na cama num dos quartos da sute e foi at o seu quarto e sentou-se na cama, soltando um suspiro. Havia desarrumado as malas rapidamente. 
       Tudo que tinha a fazer no dia seguinte era encontrar-se com a bab e dar uma olhada no colgio que tinha escolhido para ele.
       Deu um jeito de resolver aqueles dois problemas antes do meio-dia, e apareceu no escritrio de Norton  uma hora para almoarem juntos. A secretria trouxe 
as bandejas.
       - Voc est preparada?
       - Completamente. A bab de meu filho  muito simptica e ele adorou a primeira manh na escola. Agora posso trabalhar. Quando comeo?
       Norton sorriu ao v-la. Parecia uma tpica me e dona-de-casa do interior ao sentar-se l com seu casaco de pele de camelo, calas pretas, um suter, seus 
cabelos dourados e um chapeuzinho preto. Tinha estilo, mesmo vestida com aquelas roupas de quem foi levar o filho  escola, mas nela havia algo camuflado, muito 
escondido.
       Isso o fez desejar que ela rasgasse as roupas e pulasse sobre sua mesa.
       - Sabe de uma coisa? Nunca pensei que a veria aqui, Bettina. 
       - Eu sei. No pensei que viria, realmente.
       - O que a fez mudar de idia? Seria alguma coisa que eu falei? Ela riu e negou:
       - No. Foi meu pai.
       As sobrancelhas de Norton se ergueram. Que diabos ela dizia? 
       - Estava lendo um de seus livros e foi uma coisa que estava escrita l. Percebi que no tinha escolha. Que tinha que vir.
       - Fico to feliz que tenha recuperado a razo. Acabei economizando uma passagem area.
       - Ah, ? Como?
       - Estava planejando ir a San Francisco e pular da ponte Golden Gate depois de lhe dar uma surra.
       - Provavelmente eu chegaria l primeiro. Estava to deprimida que mal podia enxergar.
       - Bem - recostou-se e pegou um charuto -, no final tudo deu certo. E amanh comeamos a trabalhar. Algum outro plano at l? Alguma coisa que tenha vontade 
de fazer? Minha secretria poder ajudar com o que voc precisar.
       Bettina ia dizer no, at que seus olhos brilharam:
       - Faz tanto tempo que estive aqui... - Refletiu, radiante. - Acho que talvez... Bloomingdale's... - disse sorrindo.
       - Mulheres. Minha mulher mora no Bergdorf's. S vai para casa para comer.
       Sorriu antes de deix-lo, e quatro horas mais tarde voltou para o hotel, sentindo-se culpada por largar Alexander com a bab depois da escola, numa cidade 
nova. 
       Mas quando voltou, cheia de caixas, Alexander estava comendo espaguete e tinha o rosto sujo de sorvete de chocolate.
       - Ns comemos primeiro o sorvete e depois o espaguete. Jennifer disse que minha barriga no vai saber quem chegou primeiro se comer os dois.
       Ele sorria feliz, um retrato em vermelho e marrom. Certamente no parecia ter sentido a sua falta, e Bettina se divertiu muito.
       Um bilhete na mesa dizia que No partira para Londres e que o produtor estaria no hotel para v-la s dez horas da manh seguinte. Era bvio que John no tinha 
telefonado. 
       Mas ela afastou as apreenses e foi para o seu quarto experimentar os quatro vestidos novos, trs suteres e um conjunto. Gastou quase mil dlares. Mas podia 
faz-lo agora e se distraiu muito. Alm disso, precisaria de roupas novas, j que estava de volta a Nova York. Nada do que trouxera parecia adequado.
       E foi gratificada na manh seguinte quando se encontrou com o produtor num lindo vestido de cashmere creme.
       - Nossa, voc est linda, Bettina. Temos que colocar voc no palco.
       - Dificilmente, mas obrigada.
       Trocaram sorrisos calorosos e foram trabalhar. Por agora, tudo com que precisava se preocupar era melhorar algumas articulaes. Ele se preocupava com o mecanismo 
geral e com os contratos, desde atores at o diretor. Mas deviam estar sob um encantamento mgico, pois tudo estava pronto em uma semana.
       - J? Que milagre!
       Ela recebeu a boa nova quando ligou para Norton. Assistiu a todos os testes finais e adorou os atores que eles escolheram. Algumas vezes teve medo de que 
Anthony aparecesse, mas nem sabia se ele ainda estava nos Estados Unidos, e seis anos era muito tempo. Desde aquela poca no o via. Mas qualquer que fosse a razo, 
ele no apareceu. S duas semanas mais tarde recebeu um telefonema de Ivo. Acabava de chegar do teatro e jantava com Alexander, usando uma velha camiseta e jeans.
       - Voc acabou de chegar de Londres? 
       - Ontem  noite. Como voc est?
       - tima. Ah, Ivo, voc precisa ver como anda a pea. Est uma beleza e conseguiram atores maravilhosos para o papel da menina e do pai.
       Era fcil perceber pela sua voz que ela estava animada.
       - Que bom, querida. Por que no me conta sobre isso no jantar? Vou jantar no Lutce com um amigo.
       - Que chique, Ivo, estou impressionada! Ainda era o restaurante mais caro da cidade.
       - Ficar mais impressionada em saber com quem estou jantando. O novo crtico de teatro do jornal.
       - Oh, no!
       - No se preocupe, mas precisa conhec-lo.  um rapaz muito simptico mesmo.
       - Como  o nome dele? Ser que eu o conheo dos velhos tempos?
       - Provavelmente no. Esteve trabalhando no Los Angeles Times pelos ltimos dezessete anos. Ns acabamos de contrat-lo... - riu de seu ato falho e ela riu 
dele. - Eles acabaram de contrat-lo, me desculpe, h uns seis meses. Seu nome  Oliver Paxton.  muito jovem e muito sensvel para ter sido um dos amigos de seu 
pai.
       - Parece ser super-chato. Preciso mesmo me encontrar com ele? 
       - Ele no  chato, e voc deveria. Vamos, querida, ser bom para voc. No veio aqui s para trabalhar.
       - Vim, sim.
       Estava sendo muito cuidadosa em no cometer o mesmo erro de quando estava na tourne com Anthony, h sete anos. Ela no estava saindo com a equipe ou os produtores, 
nem buscava amizades. Fazia exatamente o que prometeu para John. Trabalhava, cuidava de Alexander quando era possvel, visitava seu agente, e era s. Com exceo 
de Ivo, mas ele era um amigo especial. No estava arriscando nenhum envolvimento. Queria montar a pea, mas tambm queria manter o casamento. - Ento, vai se encontrar 
conosco?
       Bettina pensava enquanto via Alexander brincar com a comida. 
       - Eu estava jantando com Alexander.
       - Que emocionante! Claro que pode se encontrar conosco depois, Bettina. Alm disso, o cardpio no pode ser to gostoso assim.
       - Realmente no. - Havia pedido cachorro-quente e pudim de chocolate, sendo que dois para ela.
       - Bem, ento... a que horas estaro l?
       - Combinei com Ollie s oito e meia. Ele tinha um encontro s seis.
       - Parece um daqueles dias dos velhos tempos, Ivo. 
       - Parece mesmo, no? Mas ele no  to elegante. 
       - E sem dvida tambm no  to charmoso.
       - Julgue voc mesma.
       
       
37
       
       Bettina saltou do txi na rua 50, lado leste, esquina com Terceira Avenida, e correu para dentro do restaurante com um sorriso de ansiedade. Seria a primeira 
vez que se encontrava com No desde que concordara em fazer a pea e veio para Nova York com Alexander. Estava feliz em v-lo, apesar de ter preferido estar com ele 
sozinha. 
       Mas no importava tanto. Era divertido sair  noite, em vez de ficar sozinha, fazendo anotaes no hotel. Deixou o casaco com a recepcionista e depois esperou 
pelo maitre para perguntar se No j tinha chegado. Mas logo percebeu que vrios homens a olhavam, e ficou pensando se teria se vestido adequadamente. Era um dos 
vestidos novos, e ainda no tivera oportunidade de us-lo. Era de veludo lils plido e ficava maravilhoso com sua pele creme e com a cor de seu cabelo. Tinha cortes 
simples e retos, mas era muito bonito, indo at o meio da perna. A simplicidade e a cor a lembravam do Balenciaga que usara, h anos, com a linda tnica verde. Mas 
era muito mais simples e ela usava apenas com um longo colar de prolas que fora de sua me, com os brincos combinando. Estava linda, parecendo recatada, enquanto 
esperava l, pequena e delicada com seus grandes olhos verdes. No a observava de uma mesa distante e sinalizou com um sorriso caloroso. Assim que o viu, passou pelo 
maitre, indo at a mesa que tinha um tipo de jardim coberto atrs. 
       - Boa noite, pequenina, como est?
       Ele se levantou e deu-lhe um beijo, e ela retribuiu com um abrao apertado. De repente notou um gigante em p ao seu lado. Tinha um jeito amigo, com olhos 
cinzas, ombros largos e cabelos cor-de-areia, tpico da Califrnia.
       - Este  Oliver Paxton. H algum tempo que eu queria que vocs se conhecessem.
       Educadamente, apertaram-se as mos e todos se sentaram, enquanto Oliver a observava com admirao, tentando imaginar o que havia entre seu amigo e aquela 
menina. 
       Pareciam ter uma amizade muito prxima, quase uma relao familiar, e ento se lembrou do que No lhe contou antes de ir para Londres; que ele e o pai de Bettina 
foram muito amigos. Ela era filha de Justin Daniels e acabara de escrever uma pea que estava sendo anunciada como a sensao da temporada.
       - Agora sei quem voc ! - Deu um grande sorriso. 
       - Quem eu sou?
       - Voc  a filha de Justin Daniels e acabou de escrever o que dizem ser uma pea maravilhosa. Tem algum outro apelido?
       Ela negou com a cabea, dando uma gargalhada.
       - No em Nova York. Na Califrnia alguns amigos mais chegados usam um apelido que detesto, mas no vou lhe dizer.
       - Em que lugar da Califrnia? 
       - San Francisco.
       - H quanto tempo mora l? 
       - Quase seis anos.
       - Gosta? 
       - Adoro.
       Seu rosto se iluminou com um sorriso, e o dele tambm. A noite comeou bem. Oliver era de Los Angeles, freqentou a Universidade em San Francisco e tinha 
um carinho especial por l, apesar de no ser um sentimento comum a Ivo.
       Os trs pediram o jantar e a conversa foi calorosa pelas prximas trs horas. J era quase meia-noite quando Ivo, finalmente, pediu a conta.
       - No sei sobre vocs, crianas, mas este velho de cabelos brancos est pronto para ir dormir. - Escondeu um bocejo e riu.
       Foi uma noite maravilhosa e era fcil ver que eles estavam se divertindo. Bettina ria feliz, e implicou com Ivo.
       - Isso no  justo, Ivo. Voc tem cabelos brancos desde os vinte e dois anos.
       - Talvez, querida, mas agora j fao jus a eles e posso evoc-los quando me convier.
       Oliver olhou para ele com admirao. Era uma espcie rara em jornalismo, alm de ser algum a quem respeitou toda a sua vida.
       No acenou-lhes um caloroso adeus enquanto entrava no seu carro, onde o motorista esperava. Oliver assegurou a No que tomaria conta de Bettina, levando-a para 
o hotel.
       - No vai seqestr-la ou fazer qualquer coisa imoral? Oliver riu da sugesto, e havia um certo brilho em seus olhos. 
       - Seqestr-la, Ivo, no. Prometo no fazer isso, e gosto de pensar que nada do que fao pode ser considerado imoral, pelo menos no se for visto com o olho 
direito.
       - Deixarei isso por conta da srta. Daniels. - Acenou para eles, apertou o boto que levantava a janela e afastou-se em sua limusine enquanto os dois acenavam.
       Oliver olhou para Bettina satisfeito, enquanto caminhavam e passavam por casas de pedra, apartamentos, lojas e escritrios.
       - H quanto tempo conhece Ivo, Bettina? 
       - Por toda a minha vida.
       Ela riu. Ele no sabia de nada. A prxima pergunta demonstrava isso.
       - Ele era amigo de seu pai, no?
       Fez que sim com a cabea, ainda sorrindo, e decidiu contar tudo. O sorriso no se apagou, e era algo que ela podia falar livremente agora. No a envergonhava. 
Era algo de que se lembrava com carinho e orgulho.
       - Sim, era amigo de meu pai. Mas tambm fomos casados por seis anos, h muito tempo.
       Ele pareceu muito surpreso, com os elegantes olhos cinzentos admirados.
       - O que aconteceu?
       - Ele pensou que eu tivesse me cansado dele. Mas no era verdade. Agora somos apenas amigos.
       -  uma histria realmente incrvel. Voc sabe? No fiz a menor idia de que fosse isso. - Assumiu um tom cerimonioso. - Vocs ainda... se encontram? - Titubeou 
sem jeito e ela riu. - Quero dizer... no quis... acha que ele ficou chateado quando disse que te levaria para casa?
       Ele estava em agonia, e tudo o que ela podia fazer era rir. 
       - No, claro que no.
       Na verdade, ela suspeitava de que havia algum motivo secreto para aquela apresentao, mas no disse nada para seu novo amigo. Ou No queria que ele gostasse 
dela para falar bem de sua pea, ou pensava que ela precisava de um acompanhante enquanto estivesse na cidade.
       - Puxa, quem diria!
       Andaram um pouco em silncio, sua mo confortavelmente nos braos de Oliver.
       - Acha que poderamos ir danar? - Ele sugeriu. 
       - Esta noite? Mas  quase uma da manh.
       - Eu sei. Mas, como Ivo disse, as coisas so diferentes em Nova York. Est tudo aberto ainda. Acha uma boa idia?
       Estava pronta para dizer no, mas alguma coisa nele a divertia muito, e percebeu que ria ao dizer sim. Rapidamente tomaram um txi e rumaram para o lado leste 
da cidade alta. Ele a levou a um lugar com msica ao vivo e um monte de gente comprimida, rebolando com a msica, rindo, bebendo e se divertindo. Era bem diferente 
da elegncia restrita do Lutce, e Bettina se divertiu muito. Uma hora depois, saram com pena.
       Enquanto se dirigiam para o hotel de Bettina, falaram da estria da pea.
       - Aposto que  uma excelente pea, Bettina. - Seu olhar era amistoso e inspirava segurana.
       - O que o faz pensar assim?
       - Porque voc a escreveu, e voc  uma pessoa muito especial. 
       - Eu gostaria que voc no fosse um crtico.
       - Por qu? - Oliver estava surpreso.
       - Porque eu gostaria que voc pudesse vir ver a pea e me dizer o que acha. Mas j que voc  quem , Ollie - sorriu ao perceber que usou o apelido -, os 
produtores teriam um ataque. Ser voc a fazer a crtica?
       - Provavelmente.
       - Que pena! - Parecia triste. 
       - Por qu?
       - Porque voc certamente vai ser bonzinho e s falar bem. Vou me sentir estranha com voc e voc ficar sem jeito. Ser muito chato... - Mas ele ria de suas 
previses de tristeza e desespero.
       - Ento s h uma soluo para o problema. 
       - E qual , sr. Paxton?
       - Que nos tornemos grandes amigos antes da estria, assim no vai se importar com o que eu escrever quando tiver que fazer a crtica. O que acha da idia?
       - Deve ser realmente a nica soluo.
       Quando chegaram ao hotel, ele a convidou para o ltimo drinque. Ela disse que o filho estava dormindo e queria ter certeza de que estava tudo bem.
       - Um filho... voc e No tiveram um filho? Oh, no, que coisa confusa.
       - No, este  o filho que tive com meu terceiro marido.
       - Hum, que moa mais popular. E qual a idade do menino? Ele no pareceu impressionado com os trs casamentos, e Bettina sentiu-se melhor.
       - Tem quatro anos e seu nome  Alexander. Ele  uma gracinha. 
       - E, deixe-me adivinhar:  seu nico filho?
       -  sim.
       - E o pai do jovem rapaz? Foi dispensado ou tambm est em Nova York?
       A maneira dele falar a fez rir, apesar das srias preocupaes que tinha com John.
       - Bem, ele no ficou muito feliz com nossa vinda para Nova York, pois pensa que  Sodoma ou Gomorra. E est furioso comigo. Mas ainda estamos casados, se 
 esta a sua pergunta. Ele ficou em San Francisco. Mas eu quis trazer Alexander comigo.
       - Posso conhec-lo?
       Era a nica coisa que ele poderia ter dito para aproximar-se mais do corao de Bettina.
       - Voc gostaria?
       - Muito. Por que no jantamos cedo amanh, antes do teatro, e o levamos? Depois podemos traz-lo de volta para o hotel e samos. Parece atraente?
       - Maravilhoso, Ollie. Obrigada. 
       - Por nada.
       Fez uma reverncia e depois chamou um txi. Assim que chegou ao quarto, Bettina comeou a se preocupar. O que estava fazendo, saindo com aquele homem? Era 
uma mulher casada e prometeu a si mesma que no sairia com ningum enquanto estivesse em Nova York. Mas afinal, ele era amigo de Ivo.
       No teve notcias de John desde o dia em que partiram. No respondia s ligaes de Bettina, nem s cartas, e sua secretria sempre dizia que ele tinha acabado 
de sair. Bettina deixava o telefone de casa tocar por muito tempo, mas nunca havia resposta. Ele nunca atendia ou nunca estava em casa. Talvez no fosse to ruim 
que ela jantasse com Oliver Paxton. E no importava o quanto gostasse dele, no teria um caso.
       Ela lhe disse isso diretamente na noite seguinte, depois que saiu do teatro e foram comer blini de caviar e tomar drinques no Russian Tea Room.
       - E quem disse que quero isso? - Ele a olhou, achando muita graa. 
       - Madame, no  a senhora que eu quero,  seu filho.
       - J foi casado?
       - No, nunca me pediram. 
       - Falo srio, Ollie.
       Ele estava se tornando um verdadeiro amigo rapidamente. E qualquer que fosse a atrao que um sentia pelo outro, ambos entendiam que no iria mais longe do 
que uma amizade. Pelo ponto de vista de Bettina, no podia ir alm disso, e Oliver a respeitava.
       Estava sorrindo para ela quando as blini chegaram, e ele atacou o prato.
       - Tambm falo srio. Nunca me casei. 
       - Por que no?
       - Nunca encontrei algum com quem quisesse ficar o resto da vida.
       -  uma maneira bonita de colocar o problema.
       - Ento o nmero trs no aprova nada disto, no ? Comeou a tentar defend-lo, mas no poderia, e apenas balanou a cabea dizendo que no. - No  de se 
estranhar. 
       - Por que no?
       - Porque  difcil para muitos homens aceitar que a esposa tenha tido outra vida, um passado ou um futuro, e voc tem os dois. Mas fez o que tinha que fazer.
       - Como voc sabe disso?
       Ela parecia to ansiosa, que ele no pde evitar um carinho em seus cabelos.
       - Eu nem sei se voc se lembra, mas tem uma coisa num dos livros de seu pai. Eu me deparei com ele um dia, quando estava tentando decidir se deveria aceitar 
o emprego neste jornal e vir para Nova York. Seu pai aprovaria a sua escolha...
       Ela olhou para ele e seus olhos se arregalaram. Ambos citaram a passagem juntos, palavra por palavra.
       - Puxa vida, Ollie. Foi o que eu li no dia em que decidi vir para c. Foi isso que me fez mudar de idia.
       - Foi o que me ajudou tambm.
       Silenciosamente, brindaram ao pai de Bettina, terminaram a blini e foram de braos dados para o hotel. Ele no subiu. Mas marcaram um encontro para irem no 
sbado ao zoolgico, levando Alexander.
       
38
       
       No final de outubro, Bettina trabalhava na pea dia e noite. Passava longas horas no teatro frio e depois mais tempo tarde da noite no hotel, fazendo alteraes. 
       Voltava ao teatro na manh seguinte para experimentar e alterar novamente. Nunca se encontrava com Ivo, muito raro com 01lie, e s conseguia ver Alexander 
meia hora por dia. Mas sempre arranjava tempo para o filho e s vezes, quando estava no teatro, Ollie vinha brincar com o menino. Pelo menos ele tinha um homem com 
quem conviver. 
       Ainda no tinham tido notcias de John.
       - No entendo por que ele no me telefona. - Bettina olhou para Ollie irritada enquanto desligava o telefone. - Poderia ter acontecido alguma coisa conosco 
ou com ele e nunca saberamos. Eu no entendo.  ridculo. No responde as minhas cartas, no atende minhas ligaes e nunca telefona.
       - Tem certeza de que ele no disse alguma coisa mais definitiva quando voc saiu de casa, Bettina?
       Ela negou com a cabea e, apesar de uma estranha premonio, ele no ousou dizer mais nada. Entendia que ela se considerava casada e respeitava sua maneira 
de sentir. O assunto mudou rpido para suas ltimas aflies com a pea.
       - Acho que nunca estaremos prontos para a estria.
       Bettina parecia cansada e mais magra, mas havia algo maravilhosamente vivo em seus olhos. Ela adorava o que fazia e era fcil de ver. Ollie sempre a encorajava 
quando lhe contava os problemas.
       - Estar pronta, sim, Bettina. Todo mundo passa por isso. Voc vai ver.
       Ela pensava que Oliver estava louco a cada semana que se aproximavam do dia da estria. Pelo menos no haveria mais mudanas. Foram se apresentar em New Haven 
por trs noites, e depois Boston, para mais duas apresentaes. Fez mais algumas mudanas antes das excurses e ento ela e o diretor sorriram satisfeitos. Tudo 
que podia ser feito j fora feito. Tudo que faltava era dormir bem ao menos uma noite antes da estria e passar um dia terrvel esperando. Oliver ligou para ela 
naquela manh e Bettina j estava acordada desde seis e quinze.
       - Por causa de Alexander?
       - No, boboca, por causa dos meus nervos.
       - Foi por isso que eu liguei. Posso ajudar voc a passar o dia de hoje distrada?
       Mas no podia. Naquele dia ele era o inimigo, o crtico, o comentarista. No poderia suportar passar o dia com ele e depois v-lo dilacerar sua pea. Porque 
tinha certeza de que era o que ele faria.
       - Apenas me deixe ficar aqui me sentindo pssima. Adoro isso. 
       - Bem, amanh isso j ter acabado.
       - E talvez minha pea tambm - disse, olhando para o espao. 
       - Ah, pare com isso, boba. Tudo vai dar certo.
       Mas ela no acreditava nele, e depois de ficar andando pela sute e agredir Alexander, chegou ao teatro s sete e quinze. No podia suportar qualquer outro 
lugar. 
       Ficou nos bastidores, andou pelo teatro, sentou-se, levantou e andou pelos corredores, voltou para a platia, de volta para o palco, novamente para a poltrona. 
Finalmente decidiu andar em volta do quarteiro e no estava nem a se fosse assaltada. Esperou para que todos os retardatrios tivessem entrado no teatro, e s 
ento sentou-se num lugar vago numa das ltimas filas. Dessa forma, se no pudesse suportar a tenso, poderia sair facilmente sem que a platia pensasse que algum 
detestou tanto a pea que saiu mais cedo.
       Bettina no viu Oliver no teatro, e quando acabou nem quis uma carona no carro de Ivo. No falou com ningum e saiu o mais rpido que pde, chamou um txi 
e voltou para o hotel. Pediu  telefonista que dissesse a todo mundo que ela estava dormindo, e ficou sentada numa cadeira a noite toda, esperando ouvir a porta 
do elevador se abrir e o entregador trazer o jornal. s quatro e meia, ouviu o jornal caindo, deu um pulo e correu para a porta. Abriu o pacote do jornal, em pnico. 
Tinha que ver... tinha que... o que ele teria escrito... o que ele...? Ela leu e releu vrias vezes enquanto lgrimas escorriam de seus olhos. Trmula, foi at o 
telefone e discou um nmero. Gritando, rindo e chorando, xingou o amigo.
       - Seu grande idiota... oh, Ollie... eu te amo... voc gostou? Quero dizer, gostou mesmo? Oh, Deus, Ollie... gostou?
       - Voc  louca, Daniels, sabe disso? Louca! Louquinha de pedra. So quatro e meia da manh e tentei falar com voc a noite toda... agora me liga justamente 
quando eu desisto e vou para a cama. 
       - Mas eu tinha que esperar para ver os jornais.
       - Sua retardada, eu poderia ter lido a crtica para voc ontem  noite, s onze e quinze.
       - Eu no suportaria. E se voc tivesse odiado a pea?
       - No poderia ter odiado, sua idiota,  maravilhosa. Simplesmente fantstica.
       - Eu sei. - Ela falou radiante. 
       - Eu li a crtica.
       Ele estava rindo e feliz, e prometeu se encontrar com ela para tomarem caf em algumas horas, depois de dormirem um pouco. Mas antes de se despir e ir para 
a cama, pediu  telefonista outra ligao. Talvez o encontrasse em casa quela hora. Ele poderia ser pegado de surpresa e atender o telefone. Mas no teve nenhuma 
resposta. Ela queria tanto contar a John que a pea foi um sucesso. Ento ligou para Mary e Seth, que ficaram muito felizes, enquanto tomavam caf com as crianas. 
Eram sete e quarenta e cinco na costa Oeste. Finalmente o sol se levantou e Bettina ajeitou-se na sua cama com um largo sorriso e o jornal espalhado.
       
39
       
       - E ento, princesa? Agora que est na estrada da fama.
       Ollie sorria para ela feliz, enquanto comiam ovos poch e tomavam champanhe. Encontraram-se no hotel de Bettina para o caf e ela ainda estava surpresa, cansada, 
exultante e chocada, tudo ao mesmo tempo.
       - No sei. Acho que fico por aqui mais algumas semanas para ter certeza de que tudo est bem e depois vou para casa. Disse a John que voltaria para o Natal 
e acho que volto mesmo.
       Mas seu olhar era um pouco vago. No teve notcias de John por trs meses e estava seriamente preocupada com ele e com o que teria de contar para o filho.
       - E profissionalmente, Bettina? Alguma outra idia de gnio? 
       - No sei ainda. Ando com uma idia na cabea, mas ainda no me dediquei a ela.
       - Quando tiver escrito alguma coisa, posso ler? Oliver parecia quase to feliz quanto ela.
       - Claro. Gostaria mesmo de ler? 
       - Adoraria.
       Ao olhar para ele, Bettina entendeu que sentiria muito a sua falta. Acostumou-se com seus longos papos, os telefonemas dirios, os almoos freqentes e os 
jantares ocasionais com No e, quando possvel, sozinhos. Ele se tornou quase um irmo. Afastar-se dele seria como sair de casa.
       - O que est pensando de to mrbido de repente? Ele percebeu o jeito triste da amiga.
       - Estava pensando que deixarei voc quando for para casa.
       - No fique preocupada com isso, Bettina. Voltar para c antes que se d conta, e provavelmente vai me ver mais do que gostaria. Eu vou e volto para a Califrnia 
vrias vezes por ano.
       - timo. Por falar nisso, gostaria de jantar comigo e No na nossa ltima noite em Nova York?
       - Adoraria. Aonde vamos?
       - Faz alguma diferena? - disse ela sorrindo.
       - No, mas imagino que ser algum lugar maravilhoso. 
       - Sempre  assim com Ivo.
       E foi. Foram ao La Cte Basque, na sua mesa favorita, e o jantar pedido especialmente estava divino. Comearam com quenelle, depois de tomarem champanhe com 
caviar; comeram uma fina salada de palmitos, fil-mignon, pequenos champignons trazidos especialmente da Frana e, de sobremesa, sufl Grand Marnier. Os trs comeram 
com adorao e depois se recostaram para o caf e o licor.
       - Ento, pequenina, vai nos deixar. - No a olhava com um sorriso gentil.
       - Mas no por muito tempo, Ivo. Devo estar de volta logo.
       - Espero que sim.
       Mas quando Ollie a levou para o hotel, Bettina pensava que No esteve estranhamente melanclico. Virou-se para ver o amigo.
       - Ouviu o que ele me disse quando se despediu? "Voe bem, pequeno pssaro", depois s me deu um beijo e entrou no carro.
       - Deve estar cansado e talvez triste em te ver partir. Assim como eu.
       Ela concordou. Tambm estava triste por ter de partir e deix-lo. Odiava ter que se afastar de ambos. De repente sentia-se como se l fosse seu lugar. Havia 
recolocado suas razes no solo de Nova York naqueles trs meses. Era fria, rida, cheia de gente, os motoristas de txi eram grosseiros e as pessoas nunca seguravam 
a porta para voc passar, mas havia um alvoroo, uma animao. Seria duro se acostumar em Mill Valley, esperando Alexander voltar da escola. At mesmo o menino sentiu 
e no estava ansioso em voltar, a no ser para ver o pai.
       Ollie os levou ao aeroporto e acenou longamente enquanto Alexander andava, relutante, em direo ao avio. Jogou um beijo para Bettina, deixou o aeroporto, 
foi para casa e tomou um porre. Mas Bettina no podia se dar a esse luxo. Tinha que estar sbria para enfrentar John. No lhe escreveu avisando que estava chegando 
e no avisou nem a Mary e Seth. Queria fazer uma surpresa para todo mundo. Suas malas estavam cheias de presentes de Natal para John, Mary, Seth e todas as crianas.
       Quando chegaram ao aeroporto, o tempo estava agradvel e fresco. Eram apenas cinco e meia da tarde. Conseguiram um txi que os levasse para Mill Valley e 
entraram. 
       Alexander comeava a ficar animado. Finalmente estaria com seu papai, aps trs longos meses. E contaria a ele sobre o zoolgico, sobre Nova York, seus amigos, 
e o que fizeram no colgio. Ele pulava em cima de Bettina e ela sorria impassvel com suas cotoveladas e joelhadas, preparando o que iria dizer.
       Pareceu uma eternidade antes de chegarem quela calada familiar, e Bettina no pde esconder o sorriso. O motorista comeou a retirar as malas do carro e 
ela foi abrir a porta. Mas quando colocou a chave na porta, descobriu que sua chave no servia. Tentou de um jeito, depois de outro, empurrou a porta, mexeu na maaneta 
e ento entendeu o que acontecera, muito chocada. John mudara a fechadura. Um truque muito infantil.
       Num total estado de choque, Bettina correu para a casa ao lado. Havia pago ao motorista e pediu apenas que empurrasse as malas para a garagem. Pegou Alexander 
pela mo e atravessou o quintal at a casa de Mary.
       - Oh, meu Deus, Betty!
       Abraou-a e depois a Alexander, que estava sendo calorosamente recepcionado pelos amigos.
       - Senti tanto sua falta! - Depois gritou para dentro da casa. - Seth! Eles voltaram.
       Ele apareceu na porta, sorrindo e abrindo os braos. Mas o calor da recepo se apagou rapidamente quando ela explicou sobre a chave. 
       - No entendo. - E enquanto se dirigiam para a sala. - Acho que John deve ter mudado a fechadura.
       Mas Mary parecia deprimida, e Seth comeou a falar.
       - Bettina, querida, sente-se. Tenho algumas coisas srias para contar. 
       Oh, Deus, alguma coisa aconteceu. Teria acontecido alguma coisa com ele enquanto estiveram fora? Mas por que ningum avisou? Sentiu que seu rosto ficou branco, 
mas Seth balanou a cabea devagar.
       - No foi nada disso. Mas, como advogado dele, tive que manter segredo. Ele veio at a mim no dia seguinte de sua partida e insistiu em que eu no falasse 
nada para voc. Est muito - ele gaguejava de modo estranho -, est sendo muito difcil, tenho que admitir.
       - Est tudo bem, Seth. Seja l o que for, pode me dizer agora. Gesticulou com a cabea e olhou para Mary antes de encar-la. 
       - Eu sei que tenho que dizer, Betty,  que ele deu entrada no pedido de divrcio no dia seguinte ao de sua partida.
       - Ele fez isso? Mas eu no recebi nenhum papel.
       - No  necessrio. Lembra-se de quando se divorciou de seu ltimo marido? Neste Estado chama-se de dissoluo, e tudo que  necessrio  que um dos cnjuges 
d entrada. Foi o que ele fez. E isso  tudo.
       - To fcil e simples. - Bettina respirou fundo. - E quando acaba o processo?
       - Vou verificar, mas acho que em trs meses. 
       - E ele mudou a fechadura da porta?
       Agora entendia por que nunca respondia suas cartas ou seus telefonemas. Mas Seth negou novamente.
       - Ele vendeu a casa, Betty, no mora mais aqui. Desta vez ela realmente ficou chocada.
       - Mas e as nossas coisas? Minhas coisas... tudo que compramos juntos...
       - Deixou algumas caixas para voc e malas com suas roupas e todos os brinquedos de Alexander.
       Comeou a sentir sua cabea girar.
       - E Alexander? Ele no vai lutar pela posse dele?
       Sentiu-se satisfeita por ter levado o menino para Nova York. E se ele desaparecesse com o filho? Ela teria morrido. Novamente Seth hesitou antes de falar.
       - Ele... ele no quer mais ver o menino, Betty. Disse que  todo seu.
       - Oh, meu Deus!
       Levantou-se devagar e foi at a porta, de onde podia ver o filho. Ele olhou para ela com os olhinhos cheios de perguntas.
       - Onde est o papai, me?
       - No est aqui, querido. Foi fazer uma viagem. 
       - Como a gente? Para Nova York?
       Ele parecia intrigado e Bettina lutou para engolir o pranto. 
       - No, querido, no para Nova York.
       E ento olhou para a me de forma estranha, como se soubesse. 
       - Ns vamos voltar para l, mame?
       - Eu no sei, meu filho, talvez. Voc gostaria? 
       Ele olhou para ela com um largo sorriso.
       - Gostaria, sim. Estava contando sobre o zoolgico grande. 
       Bettina ficou chocada de ver que ele no perguntava mais pelo pai, mas talvez fosse melhor assim. E ento virou-se para encarar Mary e Seth com os olhos cheios 
d'gua e um sorriso forado.
       - Bem, isso  tudo para Betty Fields.
       Mas ela no usava aquele nome h trs meses. Em Nova York, como teatrloga, assinava Bettina Daniels. E ela entendeu que era quem ela devia ser. Olhou de 
volta para os amigos.
       - Podemos ficar com vocs alguns dias?
       - Por quanto tempo quiserem. - Mary abriu os braos para a amiga e a abraou com fora. - Querida, ns sentimos muito. Ele  um idiota.
       No era a ave-do-paraso que ele queria. Sempre quis aquele marrom e cinza. No ntimo, Bettina sempre soube disso.
       
40
       
       Bettina e Alexander deixaram San Francisco no dia seguinte ao Natal. Aps meditar muito, ela mandou seus pertences em caixas para o hotel de Nova York.
       - Mas eu morei aqui por seis anos, Mary. 
       - Eu sei. Quer realmente ficar?
       Bettina pensara sobre isso incansavelmente nas duas semanas solitrias que passaram l e, quando o Natal chegou, sabia que o que Mary dizia era mais do que 
uma questo de em qual cidade queria morar. To dos que ela conhecia em San Francisco eram amigos de John. De repente, pessoas que tinham sido gentis e amistosas 
a ignoravam completamente quando a encontravam na rua. No era mais o estigma do divrcio, mas do sucesso.
       E ento, um dia depois do Natal, pegaram um avio e Oliver os encontrou no aeroporto. Era estranho, mas Bettina no se sentia como se tivesse acabado de sair 
de casa. Sentia-se como se acabasse de chegarem casa. Ollie abraou Alexander e o enrolou em seu casaco de racon.
       - Onde conseguiu este casaco?  lindo. 
       - Meu presente de Natal para mim.
       E tinha vrios presentes para Bettina e Alexander no banco de trs da limusine que alugou para busc-los no aeroporto. Nevou um dia antes do Natal e ainda 
havia algumas camadas de neve no cho.
       Mas enquanto se encaminhavam para a cidade que ela tinha deixado apenas duas semanas antes, sentiu algo diferente em Ollie, que estava quieto e tenso. Esperou 
at que Alexander estivesse ocupado com seu ursinho de pelcia, o carro de bombeiro com sirene e os carros de pilha que estavam no cho da limusine e ento olhou 
para Oliver.
       - Tem alguma coisa errada?
       Negou com a cabea, sem convencer. 
       - E como est voc, Bettina?
       Ela deu de ombros e sorriu: 
       -  bom estar de volta.
       -  mesmo? Foi difcil resolver tudo por l?
       - Mais ou menos. Acho que no esperava nada disso. Quando chegamos, fomos at a casa e eu pensei que ele tivesse mudado a fechadura. 
       - Ele mudou?
       - No. Vendeu a casa.
       - Sem falar com voc? - Ollie pareceu horrorizado. - Como ele contou isso?
       Bettina sorriu, melanclica.
       - No contou. Foram nossos vizinhos que me contaram. Nunca falei com ele enquanto estivemos l. Parece que deu entrada no divrcio h trs meses e meio, logo 
que viemos para Nova York.
       - Meu Deus, e ele no falou com voc? E...?
       Gesticulou em direo a Alexander e ela sinalizou que entendia. 
       - Disse que isso acabou tambm.
       - No quer v-lo? - Pareceu muito chocado. 
       - Disse que no.
       - E voc entendeu isso?
       - Mais ou menos. Foram duas semanas interessantes. E estas eram as ms notcias. As boas eram que sempre que eu encontrava com algum que conhecesse, colegas 
ou velhos amigos, eles me esnobavam. s vezes abruptamente, s vezes cheios de dedos. 
       - Deu um riso aliviada de ter deixado tudo aquilo. 
       - Foram duas semanas horrveis.
       - E agora?
       - Vou procurar um apartamento amanh, colocar Alexander na escola logo depois das frias de Natal e voltar ao trabalho em minha nova pea. - Bettina o observava 
enquanto o amigo olhava para fora pela janela. Finalmente, tocou com carinho em seu brao e olhou fundo em seus olhos. - Ollie... voc est bem?
       - Estou bem - disse ele, evitando olhar para ela. 
       - Tem certeza?
       - Sim, mame, tenho - disse com um risinho. - Estou to feliz de voc estar de volta. Mas sinto que tenha tido tantos problemas. 
       - Acho que era previsvel. A nica que no imaginou isso fui eu. 
       - Tenho que admitir que quando soube que ele nunca entrou em contato com voc aqui, temia que algo assim acontecesse. Mas pensei que talvez ele estivesse 
muito furioso e quando a encontrasse recuaria e vocs comeariam tudo de novo.
       - No tive essa sorte. - Ficou melanclica alguns minutos, depois olhou de volta para ele. - E, por falar nisso, tem visto Ivo? Oliver comeou a dizer alguma 
coisa e depois negou com a cabea. - Liguei para ele um dia antes do Natal dizendo que estvamos voltando e ele disse que passaria o Natal na casa de amigos em Long 
Island, mas que estaria de volta hoje  noite e me convidou para almoar amanh. - Olhou feliz para Oliver. - Quer vir tambm? Novamente ele balanou a cabea. E 
foi poupado de mais explicaes porque chegaram ao hotel. O porteiro descarregou as malas, solicitaram a antiga sute que milagrosamente fora desocupada naquele 
dia. -  como voltar para casa, no ?
       Alexander correu para seu quarto e Jennifer, a bab, deveria voltar para eles no dia seguinte. Bettina ia lhe oferecer um emprego fixo cuidando de seu filho, 
logo que se mudassem.
       - Gostaria de jantar, Ollie? 
       - No, obrigado.
       Ela pediu um hambrguer para Alexander e um pequeno bife para si, sentou-se no sof grande e passou a mo pelo seu cabelo desalinhado. 
       - Amanh comeo a procurar apartamento.
       Mas de repente Oliver sentou-se perto dela com os olhos cheios de amargura.
       - Bettina...
       - Por Deus, o que h? Parece que voc acaba de perder seu melhor amigo.
       Devagar, ele concordou com a cabea e seus olhos se encheram de lgrimas.
       - Ollie... o que houve?... Ollie?
       Bettina estendeu os braos para ele e o abraou forte, mas ao faze-lo percebeu que no procurava conforto, mas oferecia carinho para ela. 
       - Ollie?
       - Benzinho, no queria te falar no aeroporto, ms aconteceu uma coisa horrvel na noite passada.
       Oliver puxou-a mais para perto e sentiu que ela tremia ao afast-lo gentilmente.
       - Ollie...? - Ento olhou para ele, apavorada, achando que entendia. - Oh, no... eles tiraram minha pea de cartaz?
       Mas ele sorriu e negou com a cabea.
       - No foi nada disso. - Ento respirou fundo e pegou a frgil mo de Bettina nas suas. - Bettina,  Ivo. - Fechou os olhos por um segundo. - Ele morreu na 
noite passada.
       - Ivo? - Deu um pulo e ficou de p olhando para o amigo. - No seja bobo. Falei com ele dois dias atrs, ele estava indo para Long Island. Ele ia... - Tremendo 
muito, caiu no sof encarando Ollie. - Ivo?... Morto?
       Comeou a banhar-se em lgrimas e Ollie a abraou novamente. 
       - Oh, Ollie... no... No no... ah, no... ele no... ele no... 
       Oliver a levou at seu quarto antes que Alexander a visse e, devagar, fechou a porta. Depois a acomodou na cama e deixou que ela chorasse. Era como perder 
seu pai outra vez, ainda pior, porque perdia seu amigo da vida inteira e ele fora to bom com ela, melhor do que o pai, e ela nunca parou de am-lo, at o final.
       - Eu ia almoar com ele amanh, Ollie...
       - Eu sei, querida, eu sei... - Acariciava seus cabelos com carinho enquanto ela novamente escondia o rosto. - Sinto muito, eu sinto tanto... Sei que o amava 
muito.
       Quando seus olhos passaram pelo jornal que estava no cho, viu a foto de No na primeira pgina com a notcia. Ficou satisfeita de no ter visto antes.
       - Ele  o responsvel por tudo de bom que aconteceu comigo - disse para Oliver enquanto finalmente levantava o corpo e enxugava as lgrimas. - Agora ele se 
foi.
       
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       O funeral aconteceu dois dias depois. Governadores, senadores, magnatas dos jornais, alta sociedade, escritores, teatrlogos, estrelas de cinema, todos compareceram. 
       E Bettina estava na primeira fila.
       Ollie a pegou pelo brao ao deixarem a catedral e ningum falou nada enquanto voltavam para o carro. Ela estava em silncio e com os olhos secos por todo 
o caminho at o hotel, segurando a mo do amigo. Bettina estava branca como marfim com sua figura perfeita, como se fosse um camafeu em contraste com o cu cinza.
       - Quer subir para tomar um caf? - Olhou com ar ausente para Oliver e se virou depois que ele concordou e a seguiu.
       Mas Alexander estava l em cima e ela tentou ao menos manter um, sorriso. Depois de meia hora, quando acabaram o caf com croissant e Alexander contou suas 
histrias para a me sobre as alegrias de brincar no Central Park, o sorriso era mais do que fingimento. Oliver estava aliviado de ver que ela parecia melhor.
       - Bettina? Que tal fazermos uma caminhada esta manh? Acho que precisamos de ar. E depois, quem sabe, um almoo e talvez tomar o caf em seu apartamento. 
- Oliver decidiu que no a deixaria sozinha. - O que acha? Voc poderia vestir algo confortvel e ns podemos passear um pouco. Gosta da idia?
       No muito, mas sabia que ele queria ajud-la e no queria mago-lo. 
       - Est bem, est bem. - Jogou as mos para cima com um sorriso forado.
       Desceram em silncio no elevador, e dez minutos depois andavam pela calada do parque. O trfego estava menos intenso do que o normal porque era sbado, e 
de vez em quando uma charrete de aluguel passava por eles. Andaram por mais de uma hora, falando pouco e ficando muito tempo em silncio, e finalmente ela sentiu 
um brao gentil em volta de seus ombros e olhou em seus olhos.
       -  um bom amigo, sabia, Ollie? Voc foi parte de minha deciso em voltar para c. - Hesitou um instante. - Voc e Ivo. Afastou as lgrimas rapidamente com 
suas mos cobertas pelas luvas brancas. Falou devagar, enquanto esperavam para atravessar a rua:
       - A vida nunca mais vai me dar algum como Ivo. 
       - No, no vai - concordou ele.
       De mos dadas, andaram por mais uma hora, quando finalmente pararam para recuperar o flego.
       - Gostaria de almoar no Plaza?
       Ela negou. No se sentia bem para lugares sofisticados ou festivos. Ainda queria ficar sozinha.
       - Acho que no, amor, mas agradeo. 
       - Muita confuso l, no ?
       - Mais ou menos.
       - Que tal um ch com sanduches em meu apartamento? Parece melhor?
       Bettina sorriu ante a perspectiva e concordou. Ele chamou um txi. Subiram rpido as escadas de seu apartamento de fachada de pedras e ele abriu a porta. 
Era um apartamento com um jardinzinho atrs e, enquanto ele enchia a chaleira para o ch, Bettina tirava seu casaco e admirava o pequeno jardim coberto de neve.
       - Tinha me esquecido de como  bonito aqui, Ollie.
       - Eu gosto. - Sorriu para ela e comeou a fazer os sanduches. 
       - Espero encontrar algum lugar bonito como este.
       - Vai encontrar. Demora um pouco para encontrar os melhores, mas vale a espera.
       O quarto era lindo, com o teto de vigas aparentes e uma lareira. Tinha uma sala muito confortvel e uma cozinha antiga com uma parede de tijolos e as outras 
revestidas de madeira, cho de madeira, forno para po e o jardim, o que era um prmio raro em Nova York.
       - Como encontrou este lugar?
       - Nos classificados do Mail,  claro. O que exatamente est procurando?
       - Algo bem maior do que este, infelizmente, com uns trs quartos. 
       - Porque tantos?
       Entregou a ela um prato com um simptico sanduche de salame, presunto defumado e queijo.
       - Preciso de um quarto para Alexander, um lugar para escrever e um quarto para mim.
       - Est pensando em comprar?
       Bettina olhou para ele confusa e deixou de lado o prato.
       - Gostaria de saber. No sei o que vai acontecer, Ollie. Agora tenho todo este dinheiro da pea, mas quem sabe se isso vai durar. Ela o olhou com ar deprimido 
e ele sorriu.
       - Posso te garantir que vai, Bettina. 
       - Voc no tem como saber.
       - Tenho sim. Voc escreveu uma pena maravilhosa. 
       - Mas e se eu no conseguir outra? E se tudo parar?
       - Voc  exatamente como todos os outros, menina. Todos o escritores parecem viver sob o mesmo encantamento. Ganham milhes com o ltimo livro, ficam nas 
listas dos mais vendidos por seis meses e choram sobre "e o amanh?", Ser que posso ainda escrever? E o prximo livro? E se... e assim por diante. Voc  exatamente 
como eles.
       - No tenho mais certeza, mas acho que meu pai era assim - disse Bettina, sorrindo. - Mas olhe para ele, Ollie, morreu sem um tosto. No quero que isso acontea 
comigo.
       - timo, ento no compre sete casas, nove carros ou contrate vinte e trs empregados. Tirando isso, voc poderia ficar muito bem. - Bettina tinha contado 
a ele tudo sobre os problemas de seu pai dvida de quatro milhes de dlares que ele deixou ao morrer.
       - Sabe, Ollie, por toda a minha vida fui dependente de um homem. Meu pai, Ivo, o ator com quem casei - ela nem ao menos pronunciou seu nome - e depois John. 
Esta  a primeira vez em que no dependo de ningum a no ser de mim mesma. Acho que gosto disso.
       -  uma sensao muito boa.
       - , mas  tambm meio apavorante. Sempre tive algum  minha disposio. Agora, pela primeira vez em minha vida, no tenho. Nem tenho m Ivo. Tudo o que tenho 
sou eu.
       - E eu - disse Oliver com carinho. Ela tocou em seu brao afetuosamente.
       - Voc tem sido um grande amigo. Mas sabe de uma coisa engraada?
       - O qu?
       - No me importo em ter que contar comigo. s vezes me assusta muito, mas  uma sensao gostosa.
       - Bettina. - Seu olhar era cheio de candura. - Detesto ter que lhe dizer isto, mas acho que voc acaba de se tornar adulta.
       - J?
       Ela olhou para ele e comeou a rir, e fizeram um brinde com a xcara de ch.
       - Ei, voc est muito adiantada neste jogo. Sou nove anos mais velho que voc e no estou certo de que j me tornei adulto.
       - Claro que sim. Sempre contou com voc. Nunca foi dependente como eu.
       - Ser independente tambm tem suas desvantagens. - Olhava triste para o jardim. - Voc fica to ocupado com o que est fazendo, para onde est indo e como 
chegar l que nunca sobra tempo para se aproximar de outra pessoa.
       - Por que no?
       Ela falava com muito carinho naquela grande e confortvel cozinha, enquanto olhava para ele.
       - No d tempo. De qualquer jeito, eu estava muito ocupado sendo importante, esperando ser a primeira pessoa do jornal em Los Angeles.
       - E voc quase conseguiu isso aqui. E agora?
       - Ainda no, Bettina. Sabe o que eu queria? Queria ser como Ivo, ser o editor de um grande jornal numa cidade importante. E sabe o que aconteceu? De repente 
no estou nem a. Gosto do que estou fazendo. Estou adorando viver em Nova York e, pela primeira vez em quarenta e dois anos, no estou nem um pouco preocupado com 
o amanh. Estou apenas me divertindo como agora, aqui mesmo.
       - Sei exatamente o que quer dizer.
       Ela inclinou-se um pouco para a frente e, sem perceber, Oliver moveu-se em sua direo. Naquele impulso, eles se beijaram por muito tempo. Quando finalmente 
ela se afastou para respirar, olhou-o surpresa. 
       - Como aconteceu isso?
       Tentou esclarecer as coisas, mas ele no deixou. Subitamente havia algo muito srio em seus olhos.
       - Foi um longo caminho, Bettina. Estava pronta para negar, mas concordou:
       - Acho que sim. Eu pensei... eu pensei que... seramos apenas amigos.
       - Ns somos. Mas tenho uma confisso para fazer, srta. Daniels.  uma coisa que queria dizer h muito tempo.
       - Verdade, sr. Paxton? E o que ?
       -  que eu te amo... na verdade, amo muito. 
       - Oh, Ollie.
       Ela escondeu o rosto em seu peito com um suspiro, mas ele pegou seu queixo e, gentilmente, fez com que ela olhasse para ele.
       - O que isso quer dizer? Est chateada?
       Por um minuto ele ficou triste, mas ela balanou a cabea com um jeito envergonhado.
       - No, no estou chateada. Como poderia estar? Eu te amo tambm. Mas pensei... pareceu to simples... do jeito que era.
       - Tinha que ser assim. Voc era casada. Agora no .
       Ela pensou e depois o olhou bem de frente.
       - Eu nunca vou me casar outra vez, Oliver. Quero que saiba disso agora mesmo. - Estava terrivelmente sria. - Pode entender isso? Voc aceita minhas idias?
       - Posso tentar.
       - Voc tem o direito de se casar, nunca fez isso antes. Tem o direito de ter uma esposa e filhos e todas estas coisas. Mas eu j terminei com tudo isso. Chega, 
e nunca mais quero tentar.
       - E o que quer?
       Ele a segurava nos braos e a acariciava com o olhar.
       - Companheirismo, afeio, algum com quem rir e dividir minha vida, algum que respeite a mim e meu trabalho e goste de meu filho... Ela silenciou e seus 
olhos se encontraram. Foi Oliver quem finalmente quebrou o silncio:
       - Isso no  pedir muito, Bettina.
       Sua voz era gentil enquanto ele acariciava seus cabelos cor de cobre. Ela se aconchegou em seus braos como um gato perto da lareira no inverno e seus olhos 
brilhavam ao falar com ele.
       - E voc, Ollie. O que quer?
       Ele pareceu hesitar por algum tempo. 
       - Quero voc, Bettina.
       E ao dizer isso, suas mos se moveram dos cabelos brilhantes que emolduravam seu rosto e comearam, devagar, a tirar suas roupas. Ela se deixou ser despida, 
desfiada como um novelo de l, at que finalmente estivesse nua e incandescente em sua cama, uma espcie de cetim creme por debaixo das suaves mos que a acariciavam. 
E ento, como o coro de uma cano que ela h muito tempo sonhava, ele disse e repetiu vrias vezes:
       - Eu te quero, Bettina... minha querida... te quero... meu amor... E de repente, ela sentia as chamas de sua paixo, h tanto tempo esquecidas, tomarem conta 
dela enquanto Oliver rapidamente e como um expert, trazia seu corpo de volta  vida. Logo ela estava se mexendo e crescendo em seus braos, tirando com pressa as 
roupas dele, at que ambos estivessem nus, sem respirao e famintos, queimando com o desejo insacivel pelo amor do outro. E ento, a chama que eles queimaram to 
avidamente se transformou em pequenas brasas enquanto descansavam nos braos um do outro e sorriam.
       - Feliz?
       Oliver olhou para ela com um brilho em seus olhos que indicava que agora ela pertencia a ele.
       - Sim. Muito feliz. - Sua voz era um sonolento sussurro, enquanto ela enlaava seus dedos nos dele e se aninhava em seu corpo. - Eu te amo, Ollie.
       Era um sussurro pequeno e baixo, e ele fechou os olhos e sorriu. Puxou-a para perto dele e deixou que sua boca faminta procurasse a dela, e seus membros e 
sua alma e todo o seu ser buscavam por ela outra vez. 
       - Ollie...
       Desta vez ela sorriu quando ele a tomou nos braos. Era o jogo deles agora. E ambos estavam se sentindo muito bem em fazer amor, finalmente.
       -  assim mesmo que deve ser?
       Ela olhou para ele com um sorriso suspeito quando acabaram. 
       - Assim como? - Seu sorriso era to malicioso quanto o dela. - Voc quer dizer despreocupado?
       Ele sorria abertamente ao passar as mos em volta dela e segurar seu traseiro.
       - Madame, algum j te falou ultimamente que tem a bunda mais linda da cidade?
       - Tenho? - Sorriu travessamente. - Talvez devssemos escrever isso no cartaz da minha pea...
       Parecia que ela ponderava sobre a possibilidade, e Oliver ria e bagunava seu cabelo.
       - Venha c, sua... - Mas as mos eram gentis, mesmo quando as palavras eram de brincadeira. - Mulher, no pode fazer idia do quanto eu te amo.
       Ele ficou em silncio por algum tempo e ela olhou para ele com a nova vida pela frente, refletida em seus olhos.
       - Posso sim, Ollie... ah, posso sim. 
       - Pode mesmo? Como?
       Mas ela no estava brincando agora. Abraou-o com toda a sua fora, seus olhos bem apertados, seu corao estendido para ele ao suspirar estas palavras:
       - Porque eu te amo com todo o meu ser.
       Ao dizer isso, ela sentiu que aquela era sua ltima chance. Seus olhos se abriram, olhou para Oliver Paxton e sorriu quando este se inclinou para beij-la 
mais uma vez.
       
42
       
       Bettina estava olhando para Ollie em sua cozinha enquanto colocava mais ch em sua xcara. Pelas ltimas duas semanas, eles passaram longas horas no apartamento. 
       Ela alugava a sute do hotel por ms, mas a casa de Ollie ainda se parecia mais com um lar.
       - No fique to feliz, querida. Eu prometo que sou honesto, trabalhador e muito limpo. - Ele acenou para o caos que reinava em volta deles: jornais de quatro 
dias, o seu robe e as roupas de Bettina. - Est vendo?
       - No seja engaadinho. E este no  o assunto em questo. 
       - Ento o que ? - Oliver sentou-se confortavelmente na mesa de carvalho e pegou a mo de Bettina.
       - Se eu pensar em vir morar com voc, vai comear tudo de novo. Vou ficar dependente, voc vai querer se casar. Agora tenho que pensar em Alexander. No est 
certo.
       Ela parecia infeliz, e o olhar de Oliver era uma tentativa de consolo. Estavam discutindo aquele assunto a semana toda.
       - Eu entendo seu cuidado com Alexander e me preocupo com ele tambm. Mas no faz sentido pensar assim. Voc fica correndo daqui para o hotel e de volta para 
c, nunca tem tempo de trabalhar e vai ser uma coisa idiota se voc alugar outro apartamento. Passar pelo menos metade de seu tempo aqui. - Ele inclinou-se e a 
beijou. 
       - Sabe o quanto eu te amo?
       - No, me diga. 
       - Eu adoro voc.
        - Que bom.
       Deu uma risadinha e inclinou-se para lhe dar um beijo por cima da mesa e sentiu sua mo subir pela sua perna. Estava sendo assim desde a primeira vez. Ele 
era to gentil e divertido e agradvel de se conviver. Entendia seu trabalho e a compreendia, amava Alexander de verdade. Mas o melhor de tudo era que eles tinham 
uma amizade maravilhosa. Ela no queria nada mais do que viver com ele, mas no queria que os mesmos pesadelos acontecessem novamente. E se ele comeasse a reclamar 
de seu trabalho? E se Alexander o perturbasse? E se ele a enganasse?
       - Ento? Vamos procurar um apartamento juntos? - Olhava para ela em triunfo.
       - Algum j falou que voc  chato? 
       - Com freqncia, mas eu nem ligo.
       - Bem, Ollie. - Olhou para ele com firmeza. - Eu no pretendo ceder.
       - timo. Ento arranje seu apartamento, no durma, fique aqui at s cinco da manh e depois corra para casa para que seu filho no descubra que voc dormiu 
fora, o que significa que vai precisar de outro quarto, sabia?
       - Por qu?
       - Vai precisar que Jennifer more com vocs como ela faz no hotel, mas eu garanto que ela vai querer um quarto para ela. Voc no pode sair e deixar Alexander 
sozinho durante a noite.
       - Maldito seja!
       - Ah, voc sabe que estou certo.
       - Oh, merda... bem, deixa eu pensar um pouco. 
       - Claro, senhora. Cinco minutos  suficiente? 
       - Oliver Paxton! Voc  impossvel!
       Ela levantou-se e gritou, mas cinco minutos depois ele a tinha levado de volta para a cama.
       Dois dias depois Oliver resolveu o problema. Chegou na sute do hotel com um grande sorriso.
       -  perfeito, Bettina.
       Seu olhar era de vitria ao entrar, e Alexander imediatamente se atirou nas suas pernas.
       - Pare com isso, Alexander... o que ?
       Bettina estava com dois lpis no cabelo. Andava muito absorvida em sua nova pea.
       - Encontrei o apartamento perfeito.
       Ela lhe lanou um olhar diablico e sentou-se na cadeira: 
       - Ollie...
       - Espere um minuto e escute.  sensacional. Um amigo meu est indo para Los Angeles passar seis meses e alugaria o apartamento dele para ns.  simplesmente 
maravilhoso, um dplex, quatro quartos, totalmente mobiliado, num timo condomnio do lado Leste. O aluguel  mil dlares. Podemos pagar sem problemas. E ficamos 
com ele por seis meses enquanto ele est fora e fazemos um teste. Se gostarmos, podemos procurar nosso apartamento ao final dos seis meses, e se no der certo, cada 
um segue seu caminho. E para te deixar menos nervosa, eu subalugo o meu, assim no vai sentir que eu estou preso a voc no final dos seis meses. No parece uma idia 
razovel? - Ele a olhava esperanoso. 
       - Alm disso, por quanto tempo mais pode ficar pagando conta de um hotel?
       - Eu no sei se voc  um mgico ou um charlato, Ollie Paxton; mas uma coisa  certa: voc s vezes aparece com umas idias maravilhosas.
       - Voc gosta? - Estava eufrico.
       - Claro que sim. - Levantou-se e envolveu sua cintura. - Quando podemos nos mudar?
       - Eu, ... vou ter que perguntar a ele.
       Mas ao olhar para ele, ela j sabia da verdade.
       - Ollie... - Tentou parecer furiosa, mas s conseguiu rir. - Voc j est com o apartamento?
       - Eu?... Claro que no, que bobagem... Mas ela o conhecia bem.
       - J acertou tudo! 
       - J.
       - J temos o apartamento, ento? - Olhou para ele, com ar divertido.
       - J.
       - Mas e se eu dissesse no?
       - Ento eu ficaria com um apartamento chique pelos prximos seis meses.
       Ambos riram por um bom tempo, at que o rosto de Bettina ficou srio:
       - Mas quero deixar uma coisa muito clara, Ollie... 
       - Sim, senhora.
       - Vamos dividir o aluguel. Eu tenho Alexander, ento pago dois teros.
       - Oh, no! A liberao feminina. No acha que poderia deixar eu cuidar disso?
       - No, e se  isso que quer, ento no vou. Ou dividimos ou no nos mudamos.
       - Maravilha. Mas o que acha de pagar a metade? 
       - Dois teros.
       - Metade.
       - Dois teros.
       - Metade. - E agarrou sua bunda com firmeza. - E se disser mais uma palavra sobre isso, Bettina Daniels - sussurrou enquanto Alexander voltava para seu quarto 
-, vou te agarrar aqui mesmo.
       Estavam rindo e ainda discutindo quando entraram correndo no quarto de Bettina e fecharam a porta.
       
43
       
       - Voc gosta? - perguntou Oliver.
       - Est brincando?  maravilhoso!
       Ela olhava em volta, extasiada. Era um daqueles raros apartamentos do lado Oeste, mais do que elegante, simplesmente sensacional. Um dplex, os quatro confortveis 
quartos ficavam no andar de cima, a sala de jantar e de estar ficavam no andar de baixo e o teto era da altura dos dois andares. As duas salas revestidas de madeira, 
e at mesmo Ollie podia andar dentro da lareira, de to alta que era. As janelas, enormes; tinha uma vista para a Quinta Avenida do outro lado do parque. Havia um 
pequeno estdio onde eles podiam escrever e os quartos eram lindos, com estilo totalmente francs.
       - De quem  este apartamento? - Ainda fascinada, sentou-se numa cadeira francesa.
       - De um produtor de cinema que conheci h algum tempo. 
       - Qual  o nome dele?
       - Bill Hale.
       - Acho que j ouvi falar. Ele  famoso?
       Mas ela sabia que deveria ser, para ter um apartamento como aquele. Ollie estava rindo e comeou a enumerar o nome dos filmes e peas que ele produziu.
       - No  muito diferente de voc. 
       - Que simptico!
       - No, falo srio. Ele escreveu uma pea e foi um sucesso, depois fez diversos filmes e depois mais peas. Agora trabalha a maior parte do tempo fora de Hollywood, 
mas tudo comeou com um sucesso e ele entrou no caminho da fama. - Estendeu os braos para Bettina e a segurou num abrao apaixonado. - Vai ser assim com voc. S 
vou esperar para ver.
       - Bem,  bom esperar sentado. O que est fazendo em Hollywood agora?
       - Casando-se.  outra coisa que tem em comum com voc. Acho que ele tem uns trinta e sete anos e esta  sua quarta esposa.
       - Eu no achei graa, Ollie.
       Seu rosto mostrou que estava muito chateada e Ollie fez uma careta para ela.
       - No fique to sria, Bettina. No perca seu senso de humor.
       - Alm disso, s me casei trs vezes.
       - Bem que eu poderia ajudar voc a se igualar a ele. 
       - No, obrigada.
       Estava indo em direo  cozinha e, quando chegou l, se engasgou. Ele ouviu que Bettina o chamava enquanto ajudava Alexander a trazer uma caixa de brinquedos.
       - Ollie, venha at aqui!
       - Estou indo, s um segundo...
       Mas quando chegou l ele tambm assoviou. A cozinha parecia uma estufa de plantas e tinha uma pequena varanda cheia de tulipas rosas, vermelhas e amarelas.
       -  maravilhoso. - Bettina olhava para ele encantada. - Gostaria de poder ficar com ele para sempre.
       - Tenho certeza de que Bill tambm quer ficar com ele para sempre.
       Mas os meses passaram surpreendentemente rpido e ela terminou a outra pea no final de maio. Era sobre uma mulher muito parecida com Bettina e recebeu o 
ttulo de Ave-do-paraso, o que fez Ollie sorrir. 
       - Voc gosta?
       Estava ansiosa quando Oliver lhe devolveu os originais no caf da manh. Estavam na cozinha, aproveitando o sol da primavera e um lindo cu azul.
       -  melhor que a primeira.
       - Acha mesmo? Oh, Ollie! - Atirou-se em seu pescoo. - Vou fazer uma cpia e mandar hoje para Norton.
       Mas aconteceu que Norton ligou para ela antes de receber a pea nova.
       - Que tal vir me fazer uma visita hoje, Bettina? 
       - Claro, Norton, o que h?
       - Tem uma coisa que quero discutir com voc.
       - Eu tambm. Ia mesmo te mandar a minha nova pea. 
       - timo. Que tal um almoo?
       - Hoje?
       Estava surpresa. Geralmente Norton no era apressado, mas entendeu por que na hora do almoo. Sentaram-se a uma mesa calma do Club 21, comeram bife trtaro 
com salada de espinafre e Bettina ficou espantada quando ele contou o que tinha em mente.
       - Ento, esta  a oferta, Bettina. O que acha? 
       - Eu nem sei o que dizer.
       - Eu sei. Parabns. - Estendeu a mo. - Acho que voc ter que ir para l. Mas ainda pode esperar algumas semanas. Eles no querem comear antes de julho.
       Estava perfeito, porque era exatamente quando ela e Ollie teriam que devolver o apartamento, mas ainda no sabia o que dizer. Tudo que Norton acabara de lhe 
dizer ainda estava girando em sua cabea. Deu um jeito de se controlar at o final do almoo, e depois correu at o jornal para falar com Ollie que estava terminando 
sua matria.
       - Tenho que falar com voc.
       Parecia muito nervosa e ele logo ficou preocupado. 
       - Algum problema? Alexander... Bettina, fala...
       - No  nada disso. Acabei de almoar com Norton. - Ento olhou para ele confusa. - Eles querem fazer um filme com a minha pea. 
       - Que pea? A nova? - Ficou to surpreso quanto ela.
       - No. A outra. 
       Ele comeou a rir: 
       - No se preocupe. Vo acabar fazendo da nova, tambm.
       - Ollie, pare com isso. Me escute!... O que  que eu vou fazer? 
       - Fazer o filme, claro, sua pateta. Eles querem que voc escreva o roteiro tambm?
       Ela disse que sim e Oliver deu um pulo de alegria.
       - Aleluia! Voc conseguiu. Esta  sua hora, minha querida. Ela queria perguntar sobre o que aconteceria com ele.
       - Mas eu vou ter que ir para Hollywood fazer o filme, Ollie. Ser feito l.
       - E da?
       Ento era isso que tudo significava para ele. Seis meses de uma companhia agradvel. Agora entendia. E ela se apegara demais a ele naqueles meses.
       - No fique assim. No  o fim do mundo.
       - Eu sei disso... - Abaixou o tom de sua voz. -  que eu pensei... 
       - O qu? - Ele parecia intrigado.
       - Deixa pra l.
       - No, agora me diga o que h. Ele agarrou-a pelo brao.
       - Ollie, tenho que ir para Los Angeles fazer o filme, e no queria deixar voc.
       - E quem disse que tem que me deixar? Falavam em sussurros, por estarem na redao. 
       - Que diabos quer dizer com isso? E seu emprego?
       - O que tem meu emprego? Me demito, e da? No tem nada demais.
       - Voc est louco? Voc  o crtico de teatro nmero um, no pode sair assim.
       -  mesmo? Espere e ver. Eu te disse h seis meses que todas estas ambies da juventude no significavam mais nada. Voc  que est com uma carreira em 
ascenso e por coincidncia eu amo voc. Ento eu me demito e ns nos mudamos.
       - No est certo. - Ela balanava a cabea com tristeza.
       - Lembra-se daquela frase de seu pai sobre se agarrar aos sonhos? - Falou isso segurando-a com os dois braos.
       Bettina fez que sim e Oliver aumentou a presso nos seus braos. 
       - Este  o meu sonho.
       Ela o olhou agradecida.
       - Mas onde vai trabalhar?
       - No se preocupe, acho alguma coisa. Talvez pegue meu antigo emprego de volta.
       - Mas voc quer isso? 
       - Porque no?
       Bettina ficou abismada em ver que ele abandonaria o emprego to prontamente por ela e estava sinceramente agradecida a ele. No tinha percebido ainda, naqueles 
quatro meses em que estavam juntos, que ela era muito mais ambiciosa do que ele. Tudo o que ele queria agora era um emprego e uma vida feliz com sua esposa e talvez 
at filhos. Vivia encantado com Alexander, e Bettina sabia que ele queria ter seus prprios filhos.
       - Ento acha que devo aceitar?
       - Fala srio, Bettina? Ligue para Norton agora mesmo e diga sim. Mas ela abaixou a cabea meio envergonhada e sorriu.
       - Foi o que eu falei a ele depois do almoo. 
       - Sua tratante. Quando vamos?
       - Meio de julho.
       Ele concordou e ela o beijou, saindo do escritrio poucos minutos depois.
       Naquela mesma noite, quando ele chegou em casa, ligou para seu antigo chefe do jornal de Los Angeles e dois dias depois ligaram de volta oferecendo um emprego. 
Era melhor do que o anterior, mas ainda no to bom quanto o de Nova York. Por um instante Bettina sentiu-se culpada, mas ele rapidamente interferiu. Abraou-a por 
um longo tempo e ficaram sozinhos na agradvel biblioteca revestida de madeira, enquanto ele acariciava seus cabelos dourados.
       - Bettina, mesmo que no tivesse conseguido nada, eu iria com voc.
       - Mas, Ollie, isso no est certo. Seu trabalho  to importante quanto o meu.
       - No  no, querida. E ns dois sabemos disso. Voc tem uma grande carreira pela frente, e tudo o que tenho  um emprego.
       - Mas voc tambm poderia ter uma grande carreira. Poderia ser como Ivo...
       Sua voz estava sumindo e, com um sorriso, Ollie negou com a cabea.
       - Acho que no, gatinha. 
       - Por que no?
       - Porque no  isso que eu quero. Estou com quarenta e trs anos, Bettina, e no quero mais me matar numa mesa de escritrio at oito da noite todo dia. No 
vale a pena. Eu quero ter uma vida boa. Mas voc ter um grande futuro, querida.
       Ela tambm queria uma vida boa, mas queria um pouco mais alm. 
       - Acha mesmo?
       Comeava a gostar da idia, agora. Era muito atraente. 
       - Acho, sim.
       
44
       
       No final de julho eles relutantemente abandonaram o apartamento dois dias antes de Hale voltar, e Oliver, Bettina e Alexander voaram para Los Angeles, onde 
um corretor j tinha arranjado uma pequena casa mobiliada.
       - Oh, no... - Bettina olhava em volta quando entraram na casa. - No sei se devo vomitar ou desmaiar.
       Oliver ria muito. 
       - Que tal os dois?
       O lado de fora da casa estava pintado de lils e a parte de dentro era basicamente rosa. Havia alguns toques dourados, e partes com imitao de leopardo. 
Havia colees de objetos por todos os lados intercalados com conchas. A nica vantagem era que ficava na praia de Malibu e que era bem na areia. Alexander ficou 
encantado e logo correu para brincar na areia.
       - Acha que pode agentar, Bettina?
       - Depois de onde ficamos em Nova York, vai ser difcil. Mas acho que vamos ter que nos acostumar. Como puderam fazer isso conosco? - Fique feliz, so s seis 
semanas.
       Ela concordou agradecida e voltou para dentro, mas nas semanas seguintes mal tiveram tempo de reparar onde moravam. Oliver estava ocupado se readaptando ao 
novo emprego e Bettina trabalhava doze a quinze horas por dia no estdio durante as primeiras semanas, decidindo o que entraria no roteiro, diferente do que foi 
feito no palco. Mas no final de agosto as coisas estavam mais calmas e Bettina cuidou melhor da casa. Chamou o corretor e conversaram sobre o assunto. Sabia o que 
queria, mas a dvida era se ele acharia o que procuravam. Uma coisa estava certa, j estavam cheios de morar na praia e Bettina estava ansiosa para encontrar algum 
lugar onde pudesse se esconder e trabalhar. Teve esperanas nas primeiras semanas, mas depois caiu em desespero.
       - Nem me fale, Ollie, nada ainda? Quase se sentaram sobre uma concha.
       - No agento mais este lugar idiota. Tenho que trabalhar e estou ficando louca.
       Ele veio abra-la.
       - Calma, gatinha. Vamos descobrir alguma coisa. Prometo. Ela tinha reativado a amizade com Mary e Seth, e um dia estava se lamentando com Mary ao telefone 
por causa da casa.
       - Estou comeando a perder as esperanas. Este lugar  para loucos. 
       - Enquanto isso, voc  novamente a ave-do-paraso.
       Tinha visto casas que se pareciam com palcios, com piscinas internas e externas, lugares com esttuas gregas e uma casa com catorze banheiros de mrmore 
rosa. Finalmente encontrou o que queria, e voltou para casa com o brilho da vitria nos olhos.
       - Encontrei, Ollie. Achei! Espere at ver.
       Ele esperou. Era perfeita. Uma casa linda e elegante na parte de trs de Beverly Hills. Conseguia ser imponente e graciosa sem ser pretensiosa, uma raridade 
naquela parte da cidade. Era um pouco maior do que queria, mas to bonita que ela nem ligou. Tinha cinco quartos no andar de cima e um pequeno estdio. Na parte 
de baixo ficava o terrao, a sala de estar e de jantar, uma cozinha enorme e outro estdio confortvel. Podiam usar todos. Ela trabalharia no de cima e Ollie ficaria 
com o outro e tinha decidido contratar algum para ajudar com Alexander, ento um dos quartos poderia ser para a bab, e ainda sobravam dois.
        - O que vamos fazer com todos esses quartos, menina?
       Oliver sorria para ela enquanto dava partida no carro.
       - Usar como quarto de hspedes, eu acho. - E pareceu preocupada. - Acha que  muita coisa?
       - No, acho que est tima, mas estava pensando numa coisa quando perguntei.
       - J pensei nisso. - Olhou para ele, orgulhosa. - O estdio de baixo  seu.
       Mas ele apenas sorriu:
       - No era nisso que eu estava pensando.
       - No? - Ela parecia surpresa e depois confusa, enquanto dirigiam de volta para Malibu. - Ento no que estava pensando? Oliver hesitou um momento e depois 
parou o carro no acostamento.
       - Vai encontrar alguma coisa, amiga. - Olhou srio para ela e falou o que tinha em mente h algum tempo: - Bettina, eu gostaria que ns tivssemos um filho.
       - Fala srio? 
       - Falo srio.
       - Agora? - Mas ela tinha que fazer o filme... e se a nova pea fosse montada?
       - Eu sei, est pensando no seu trabalho. Mas voc disse que se sentiu bem quando estava grvida de Alexander. Poderia escrever esse roteiro enquanto estivesse 
grvida e depois eu tomo conta. Se for preciso, podemos contratar uma enfermeira.
       - E isso  bom para o beb?
       - Eu no sei. Mas te digo uma coisa. Eu daria a essa criana tudo que eu tenho. Cada momento, cada sorriso, cada alegria e todas as horas que eu pudesse compartilhar.
       - Significa tanto assim para voc?
       Ele fez que sim, e ela sentiu a dor do arrependimento atingir seu corao, mas negou com a cabea, devagar.
       - Por qu? Por causa do seu trabalho?
       - No. Provavelmente poderia dar um jeito nisso. 
       - Ento por qu?
       Ele a pressionava. Seu desejo por um filho era mais forte.
       - No. - Ela negou novamente e depois o encarou. - Ningum vai fazer com que eu passe por tudo aquilo novamente.
       Ficaram algum tempo em silncio e depois ele pegou carinhosamente sua mo. Lembrava da histria horrvel que ela lhe contara.
       - No precisaria passar por isso, Bettina. Nunca deixaria algum fazer uma coisa dessas com voc.
       Mas ela se lembrava muito bem do que John dissera, que estaria ao lado dela tambm.
       - Sinto muito, Ollie. No posso. Pensei que tinha deixado isso claro para voc desde o comeo.
       Ela deu um suspiro e ele recolocou o carro em movimento.
       - E deixou. Mas no sabia o quanto isso ia me incomodar. - Olhou para ela com um sorriso sem jeito. Estava magoado com sua resposta e assim ficaria por muito 
tempo. 
       - Voc  uma mulher e tanto, Bettina, e no h nada que eu queira mais neste mundo do que um filho seu.
       Ela se sentiu um monstro, mas no havia nada a dizer enquanto voltavam para casa. Eventualmente a conversa mudou para a casa nova e no dia seguinte ela fez 
uma oferta. 
       Uma semana mais tarde a casa era deles.
       - Um pouco cara. - Como dizia a Mary ao telefone. - Mas espere s para ver,  maravilhosa, voc vai adorar. Decidimos ficar por aqui. 
       Mary sentia-se feliz por ela.
       - Como est Ollie em seu novo emprego?
       - Na verdade  seu antigo emprego, mas ele gosta. - Houve um momento de silncio enquanto uma sombra passava pelos olhos de Bettina. Hesitou um pouco, depois 
sentou-se com o telefone apoiado em seu ombro. Estava sozinha na casa de Malibu naquela manh e olhava com tristeza para a praia. - Mary, estou com um problema.
       - O que , amiga?
       -  Ollie. Ele quer filhos. 
       - E voc no.
       - Ganhou o prmio por adivinhao.
       - Por qu? Sua carreira? - Mary no parecia estar acusando Bettina. Ela entenderia.
       - No, no  isso, ...
       - No me diga: McCarney.
       Mary disse isso e quase rosnou. Bettina teve que rir. - Nossa! Acho que voc o odeia mais do que eu.
       - Tenha certeza disso. - E depois, com uma voz mais gentil. - Mas esta no  uma razo para no ter um filho. Eu te disse, h cinco anos, que no precisava 
ser como foi. Por Deus, Betty, mesmo sendo complicado, um mdico decente te daria uma anestesia e algumas injees e voc nem saberia o que aconteceu. Estaria dopada 
e s perceberia quando estivesse com um nenenzinho no colo.
       Bettina sorriu ao ouvir a amiga.
       - Voc faz com que parea to fcil. 
       - E  fcil.
       - Eu sei. Amo Alexander e sei que amaria um filho de Ollie, mas  que... Oh, Deus, Mary, no poderia...
       - Fao um acordo com voc. O que voc decidir sobre isso  um problema seu, mas se voc engravidar, vou at a e fico com voc para o nascimento da criana.
       - Como uma enfermeira? - Bettina parecia intrigada.
       - Como as duas coisas. Enfermeira e amiga. O que voc quiser e o que o mdico disser. Provavelmente eu seria mais til a voc como amiga, mas voc  quem 
sabe. E Ollie poderia ficar com voc. Sabe, mesmo em cinco anos, muitas coisas mudaram. Com todo este papo sobre filhos, vocs esto pensando em se casar?
       - Nossa, no!
       - No pensei que quisesse, apenas perguntei. 
       - Disso, pelo menos, ele j desistiu.
       - Ento talvez desista de filhos tambm. 
       - Talvez.
       Mas Bettina achava que no e no tinha certeza se queria que ele desistisse. Acabara de fazer trinta e quatro anos e, se fosse ter outro filho, j era hora.
       
45
       
       Eles se mudaram da casa lils um ms depois que o contrato de seis semanas acabou e foram para a linda casa de pedra, e por algum tempo conviveram com salas 
vazias. 
       Mas No deixara para Bettina toda a moblia do apartamento de Nova York. Ela ligou para o depsito onde estava guardada e tratou da remessa. Os dois fizeram 
algumas compras, foram a leiles, compraram cortinas e passaram um dia inteiro escolhendo tapetes. Trs semanas depois o lugar estava timo. Os objetos de Ollie 
vieram do pequeno apartamento que ele desmontara em Nova York.
       Ollie nunca mais mencionou o beb, mas Bettina pensava nisso enquanto fechava o maior dos dois quartos extras. No teve tempo ele arrum-los como quartos 
de hspedes, porque precisava sentar-se e comear a escrever o roteiro do filme. Parecia interminvel, e quatro meses depois ainda estava soterrada num monte de 
anotaes, modificaes e rascunhos no seu pequeno estdio ensolarado. Ficava bem em frente do quarto do casal, e Ollie podia ouvi-Ia datilografando, tarde da noite, 
quando ia dormir. Mas s depois do Natal ele percebeu que ela parecia muito cansada.
       - Voc est se sentindo bem? 
       - Estou, sim. Por qu?
       - No sei. No parece bem.
       - Oh, querido, obrigada. - Riu para ele. - O que esperava? Estou trabalhando como louca nesta droga.
       - E como est indo?
       Soltou um profundo suspiro e deixou-se cair numa confortvel cadeira.
       - No sei. Acho que j est quase pronto, mas no admito isso. Fico mexendo e remexendo, at que fique perfeito.
       - J mostrou para algum? Ela negou com a cabea.
       - Talvez ajudasse.
       - Tenho medo de que eles no entendam o que estou fazendo... 
       - Mas  o trabalho deles, gatinha. Por que no experimenta? Duas semanas mais tarde ela aceitou o conselho e deu para Norton e para os produtores lerem. Eles 
a parabenizaram pelo roteiro pronto. Mas em vez de ficar melhor, ela parecia fisicamente pior.
       - Que tal ir a um mdico?
       - No preciso de mdico. Tudo de que preciso  sono. 
       Aparentemente ela estava certa. Pelos prximos cinco dias ela mal saiu da cama e nem comia.
       - Est to exausta assim? - Ollie estava realmente preocupado, mas tinha que admitir que ela trabalhou como uma louca por quatro meses e meio.
       - Mais do que isso. Sempre que me levanto, tudo que quero fazer  voltar para a cama.
       Dois dias depois ele ficou nervoso e insistiu em que ela fosse ao mdico. Marcou hora para ela, que reclamou muito quando ele a pegou depois do trabalho, 
para lev-la.
       - Que  que tem demais ir ao mdico?
       - No preciso de mdico. - Ele tambm notara que ela estava agressiva e que pouco comia. - S estou cansada.
       - Bem, talvez ele possa fazer alguma coisa para melhorar o seu humor
       Mas ela no ria mais de suas piadas e, quando entrou no consultrio do mdico, Oliver achou que ela estava quase chorando. Quando saiu de l, ele teve certeza 
disso e ela no disse nada.
       - E ento? 
       - Estou bem.
       - timo. O que o fez achar que est? Sua maravilhosa disposio ou esse brilho saudvel em seus olhos?
       - Voc no est sendo engraado. No pode me deixar em paz? Mas quando chegaram em casa, ele a agarrou pelo brao e a empurrou para o estdio de baixo para 
que pudessem falar sozinhos. 
       - Chega desse papo, Bettina. Quero saber que diabos est acontecendo.
       - Nada! - Mas quando ela o olhou, seus lbios tremiam e seus olhos se encheram de lgrimas. - Nada, est bem?
       - No, no est! Est mentindo! O que o mdico disse? - Ela ia sair e ele agarrou seu brao. - Bettina... querida... por favor...
       Mas ela apenas fechou os olhos e negou com a cabea. 
       - Me deixe em paz.
       Devagar, ele a virou em sua direo. Talvez fosse alguma coisa horrvel. Um tremor passou por ele, e tentou disfarar. No podia suportar a idia de perd-la. 
Sua vida nunca mais seria a mesma.
       - Bettina!
       Agora sua voz tremia, tambm, mas finalmente ela olhou para ele com lgrimas escorrendo pelos olhos.
       - Estou grvida de trs meses e meio, Oliver. - Engoliu em seco. - Estava to envolvida na droga do roteiro, que nem notei. Tudo que fiz foi trabalhar dia 
e noite, e nunca pensei... - Chorou mais alto. - Nem posso fazer um aborto. Estou duas semanas fora do prazo.
       Ele olhou para ela, momentaneamente em choque: 
       - E era o que voc queria?
       - O que adianta isso agora? No tenho escolha.
       E ento, lutando para soltar as mos de Ollie, saiu do estdio. Um momento depois, Oliver ouviu a porta do seu quarto bater com fora, e Alexander veio correndo 
l de cima.
       - O que a mame tem? 
       - S est cansada.
       Mas Alexander parecia irritado: 
       - Ainda?
       - Ainda, garoto.
       - T bem. Quer vir brincar?
       Mas Ollie estava distrado e balanou que queria era ficar sozinho.
       - Que tal mais tarde?
       O menino pareceu chateado.
       - Mais tarde eu tenho que ir para a cama.
       - Nesse caso... - Oliver parou para dar um grande abrao nele. - Voc vai ter que me desculpar. Quer fazer um grande desenho para mim? - O menino concordou, 
satisfeito. 
       Com um volteio, Ollie pegou papel e lpis e deu para ele. 
       - Este est bom?
       - T bom.
       Alexander saiu do quarto para procurar a bab, e Ollie caiu numa cadeira. Ainda estava surpreso com o que Bettina dissera sobre um aborto. Ser que realmente 
o faria? 
       Ser que diria a ele? Como podia fazer isso? Mas ele se forou a entender que no era aquilo que estava acontecendo. Ela teria um filho seu... seu filho... 
Percebeu que sorria, mas franziu a testa novamente, em agonia por ela. E se fosse to ruim quanto da ltima vez? E se ela nunca o perdoasse? Como pde fazer aquilo 
com ela? 
       Sentiu que comeava a entrar em pnico e, quase sem pensar, procurou o caderno de telefone de Bettina e discou um nmero em Mill Valley. Eles mal se conheciam, 
mas ele sabia que ela poderia ajudar.
       - Mary? Aqui  Oliver Paxton, de Los Angeles.
       - Ollie? - Houve um momento de silncio. - Alguma coisa errada?
       - Eu... no...  que... tem sim.- E, com um suspiro, contou a ela toda a histria. - Eu nem sei por que estou ligando, a no ser por que... Oh, Deus, eu no 
sei. Mary, voc  uma enfermeira e amiga... estava l da outra vez... droga, voc acha que isso podia mat-la?... Eu no sei o que dizer. Ela est histrica. Nunca 
a vi to chateada.
       - E tem o direito de estar.
       - Foi to ruim quanto ela se lembra? 
       - No. Provavelmente muito pior.
       - Oh, meu Deus! - E ento, odiando a si mesmo pelo que dizia: - Pode ser feito um aborto quando j se est grvida de trs meses e meio?
       - Se for preciso, mas  muito perigoso. - E, depois de um instante: -  isso que voc quer?
       -  o que ela queria. Ela disse isso. - Parecia estar quase s lgrimas.
       - Est apenas assustada. - E, com calma, ela contou como foi. Quase fez ele gritar. - Ela realmente teve um parto doloroso, mas foi principalmente por causa 
do mdico. Ele fez com que fosse o mais doloroso possvel.
       - E ela sabe disso?
       - Conscientemente sim, mas na alma no. Ela tem um grande trauma e eu sei disso. Ns j discutimos isso. Ela decidiu naquela poca que nunca mais teria um 
filho e, se eu tivesse passado pelo que ela passou, tambm tomaria a mesma deciso. Mas, Ollie, desta vez vai ser completamente diferente.
       - Como pode saber?
       - Qualquer mdico pode dizer isso. Na verdade, o dela j deve ter dito.
       - Mas ela nem foi a um obstetra.
       - Bem, ento cuide para que ela v imediatamente. Ela deve falar com outras mulheres, outros mdicos. Ollie, veja bem quem  o mdico de todas as formas possveis. 
 importante. Ela no deve passar por aquilo outra vez.
       - E no vai. Obrigado, Mary. Sinto muito perturb-la com nossos problemas.
       - No seja bobo. Ollie... estou feliz. 
       Ele suspirou novamente.
       - Eu tambm, mas droga, detesto ter que faz-la passar por isso
       - Ela logo vai se acalmar. S tem que conseguir um bom mdico. 
       Ele providenciou o mdico logo que desligou o telefone. Ligou para quatro amigos do jornal que tiveram filhos h pouco tempo. Milagrosamente, trs mulheres 
tiveram o mesmo mdico e todas disseram que foi maravilhoso. Escreveu o nome dele num pedao de papel e ligou para a telefonista de informaes e nervosamente ligou 
para ele. Trs minutos depois o mdico estava ao telefone.
       - Dr. Salbert, meu nome  Oliver Paxton... - Contou a histria para ele.
       - Traga-a aqui pela manh. Digamos, por volta das dez e meia. 
       - timo. Mas o que fao agora?
       O mdico riu.
       - D a ela uma boa bebida. 
       - E no faz mal ao beb? 
       - No se for s um pouco.
       - Que tal champanhe? - Oliver nunca se sentiu to agitado e nervoso, mas o mdico apenas riu.
       - Sem problemas. At amanh. 
       - Claro... obrigado, doutor. 
       Desligou o telefone e saiu correndo do estdio.
       - Aonde voc vai? - Alexander gritou atrs dele. 
       - Volto logo.
       E voltou, com uma enorme garrafa de champanhe francesa gelada. Cinco minutos depois ele arrumou a garrafa, dois copos e alguns amendoins numa bandeja e batia 
devagar na porta do quarto.
       - Que ?
       Podia ouvir a voz de Bettina abafada l dentro. 
       - Posso entrar?
       - No.
       - timo. - Abriu a porta. - Adoro ser bem recebido.
       - Oh, no! - Ela se virou na cama quando viu o champanhe. - Isso  uma comemorao, Oliver?
       - Cuide da sua vida, Daniels. Eu comemoro a vinda de meu filho ao mundo da forma que eu quero. Alm disso - colocou a bandeja na mesa e olhou para ela carinhosamente 
- estou terrivelmente apaixonado pela me dele.
       Sentou-se perto dela e acariciou seu cabelo, mas ela se afastou. 
       - No... no estou com clima para isso.
       Mas ele ficou l olhando para ela, com todo o seu amor estampado nos olhos.
       - Querida, sei o que est sentindo. Falei com Mary e entendo como deve ter sido um pesadelo. Mas no vai ser assim novamente. Nunca, nunca, eu juro.
       - Voc ligou para Mary? - Ficou surpresa e depois suspeita. - Por que fez isso?
       - Porque te amo, estava preocupado e no quero que voc fique com medo.
       Ela comeou a chorar outra vez.
       - Oh, Ollie... eu te amo... querido... - Soluava em seus braos. 
       - Vai dar tudo certo.
       - Promete? - Ela parecia uma menininha.
       - Eu prometo. E amanh vamos a um mdico que muita gente adora.
       - Voc j conseguiu um mdico para mim? 
       - Claro, sou incrvel. No tinha notado isso?
       - J... para falar a verdade, j... Como descobriu um mdico? - Ela sorria para ele, que abaixou para beijar-lhe a orelha.
       - Perguntei a alguns amigos cujas mulheres acabaram de ter filhos e depois liguei para ele. Pareceu simptico.
       - E o que ele disse?
       - Que voc devia tomar um pouco de champanhe. - Sentou-se, sorrindo. - Ordens do mdico. - Abriu a garrafa e estendeu para ela o copo com o lquido borbulhante.
       - E no faz mal ao beb? - Seu olhar era de dvida ao segurar o copo. John a proibira de beber enquanto esperava Alexander.
       - No, querida. No vai fazer mal ao beb. - Estava satisfeito em saber que ela se preocupava. - Vai ser um bebezinho lindo, Bettina. 
       - Como pode saber? - Ela sorria, bem  vontade.
       - Porque  nosso.
       
46
       
       - Ei, gordinha,  para voc.
       Oliver gritou de dentro da casa enquanto Bettina brincava com Alexander no quintal. Tinha comprado um novo balano e, com sua enorme barriga, empurrava o 
mais alto que podia.
       - Volto num minuto, querido. - Correu para a cozinha o mais rpido que pde, com um olhar de reprovao para Oliver. - No fale assim comigo, seu gigante 
de boca grande. S engordei seis quilos e meio.
       - Tem certeza de que aquele cara sabe ler a balana direito?
       Mas o mdico que ele descobriu sabia fazer mais do que isso. Em quatro meses, Bettina desenvolveu uma relao baseada na confiana e j no se apavorava tanto.
       - Deixa pra l. Quem  ao telefone? 
       - Norton.
       - O que ele quer?
       - No sei. Pergunte a ele.
       Pegou o telefone e trocaram um beijinho. Sua relao era cheia de brincadeiras e alegrias. Ollie estava eufrico com o filho e sentia-se infinitamente protetor 
para com ela. At mesmo Alexander tinha decidido que talvez no fosse ruim, desde que fosse menina.
       - O qu? - Bettina encarava o telefone, sem acreditar.
       Ollie olhou para ela, tentando fazer perguntas, mas ela balanou a cabea e virou de costas. Pareceram horas at que finalmente ela desligou o telefone.
       - Bem, o que foi? No faa suspense. 
       Ela sentou-se, plida.
       - Vo produzir minha segunda pea. No s vo fazer a pea, como j tm um acordo para o filme.
       - E voc est surpresa? Eu avisei. A nica coisa que me surpreende  que tenha demorado tanto. - Demorou quase um ano para vender a segunda pea. Ento, ele 
pareceu preocupado. - Quando querem comear?
       Olhou para Oliver, divertida.
       - Foram compreensivos sobre isso. Norton contou que eu estava grvida e eles vo esperar um pouco.
       - O que quer dizer isso?
       - Outubro. - O beb era esperado para julho. - O contrato diz que s tenho que passar trs meses em Nova York. - E ento ela pareceu preocupada. - Pode conseguir 
uma licena por tanto tempo?
       - Se for preciso. - Ele no ficou preocupado. - Podemos levar um beb to pequeno assim para Nova York?
       - Claro. Ele j vai estar com dois meses.
       - No ele, ela. - Oliver corrigiu. Insistia em que queria uma menina. Olhava para Alexander com orgulho, dizendo que j tinha um filho. Era uma das razes 
pela qual ele ainda queria se casar, para que pudesse adotar Alexander e dar a ele seu nome. Mas Bettina ainda estava firme em sua recusa.
       -  mais divertido desse jeito, todos temos nossos nomes: Daniels, Paxton e Fields.
       - Parece uma empresa.
       Mas ela no se importava. Agora estava sentada, pensando em sua pea, e Oliver perguntou:
       - E quando vo comear o filme?
       - Depois do Natal. Imagino que vai demorar uns seis meses, o que vai me manter ocupada at junho. Ao todo, sero nove meses de trabalho.
       Mas Oliver ainda estava preocupado.
       - No vai ser muita coisa para voc logo depois de ter um beb? 
       - No vai ser logo, depois terei dois meses para descansar. Pode acreditar, a parte pior no  depois.
       Ela ainda tinha seus medos, mas fizeram cursos juntos e partilhavam cada consulta com o mdico. Oliver tinha esperado muito tempo para aquele evento e no 
queria perder um minuto. Aos quarenta e quatro anos, ele dizia que era o acontecimento de sua vida.
       Bettina se descobriu dividindo toda sua excitao com a pea e o beb. S no ltimo ms de gravidez que sua ansiedade sobre a pea ficou obscurecida. Parecia 
que tudo o que ela queria era estar com Ollie e sentar-se pacificamente na sombra, observando Alexander brincar. Dormia cedo, comia bem e lia um pouco, mas era como 
se sua mente estivesse totalmente em paz. 
       No queria novos desafios, no queria falar com Norton ou se preocupar com acordos. Estava se preparando para uma coisa muito importante que lhe tomava toda 
a concentrao. Parecia absorver toda a sua vida.
       Dois dias antes da data esperada, Mary veio de San Francisco de avio. Deixou todos os filhos com a me, e Seth foi acampar com os amigos. 
       - Pode acreditar, prefiro muito mais estar aqui do que acampando. - Olhava feliz para Bettina. - Ento? O que est acontecendo por aqui?
       - Absolutamente nada. Me transformei num vegetal. Talvez nunca mais consiga escrever uma pea.
       Ela nem ligava. S podia pensar no beb. Nem estava mais muito preocupada com Oliver. S com sua barriga e com o filho. Era uma estranha existncia egosta, 
mas Oliver entendia, porque o mdico tinha lhe avisado que seria assim no final.
       - O que diz o mdico?
       - Nada. S que pode nascer a qualquer hora. Mas no acho que v ser na data marcada.
       - Porque no?
       - As coisas no acontecem assim.
       - Claro que sim. - Mary ria enquanto os trs entravam no carro. - Tudo que precisa fazer  preparar algum programa chique como um belo jantar em algum lugar 
ou uma ida ao teatro, e pode apostar que vai nascer naquela noite.
       Os trs riram e Oliver decidiu que gostava da idia. 
       - Que tal jantarmos no Bistr?
       - Na data marcada? - Bettina pareceu apavorada. - E se acontecer alguma coisa?
       - Vai estragar o tapete deles e depois nunca mais voltamos l. Ele deu um risinho e Bettina fez uma careta. Mas ele insistiu e, de casa, fizeram uma reserva 
para a noite seguinte.
       - Oh, meu Deus. - Bettina olhava para ele nervosa e levou Mary para o andar de cima para desfazer as malas. O acordo que fizeram com o mdico foi que ela 
estaria na sala de parto s como amiga. Mas ele fora amvel em aceitar quantos observadores eles quisessem, dentro de certos limites.
       - Nada de cachorros ou crianas pequenas.
       Na noite seguinte, os trs marcharam para o Bistr para jantar. Estava lindo como sempre, com luz difusa com os vitrais e a elegante decorao. Bettina estava 
radiante, com um esvoaante vestido de vero e uma gardnia colocada atrs da orelha.
       - Voc est bastante extica, Sra. Daniels. - Ollie sussurrou suavemente. - E eu te amo.
       Ela sorriu e procurou sua mo por baixo da mesa, dizendo a mesma coisa. Depois que pediram o jantar, Mary notou uma estranha mudana no rosto de Bettina. 
A princpio no disse nada, mas quando acontecer novamente, cinco minutos mais tarde, ela falou:
       - Eu estava certa, Betty?
       - Talvez.
       Oliver no tinha escutado, pois pedia o vinho. 
       - Ento, senhoras, todas felizes?
       - Demais.
       Mary respondeu depressa e Bettina sinalizou para ela. No queria, dizer nada ainda. Mas quando o jantar chegou ela s ciscou o prato. No queria exagerar 
e, se fosse realmente entrar em trabalho de parto, queria estar se sentindo leve.
       - Mas voc nem comeu, querida. Est se sentindo bem? Ele se inclinou para ela enquanto esperavam pela sobremesa. Mas ela sorriu, feliz.
       - Nada mal para uma baiaca pronta para ter um filho.
       - Quando? - Ficou confuso. - Agora? - Pareceu em pnico e Bettina sorriu.
       - No neste minuto, eu espero, mas daqui a pouco. Comecei a sem as dores pouco antes do jantar, mas no tinha certeza.
       - E agora tem? - Ele rapidamente agarrou seu brao, e ela ria. 
       - Quer parar com isso, Ollie? Estou bem. Coma a sobremesa e tome seu caf. Depois vamos para casa e ligamos para o mdico. Relaxe. Mas era impossvel. Antes 
do caf chegar, ela tambm tinha dificuldade em relaxar. Como da primeira vez, as dores vieram muito rpido, aumentando a intensidade.
       Mary controlava o tempo das contraes enquanto esperava na calada. Bettina apoiava-se em Ollie.
       -  melhor lev-la para o hospital, Betty. Talvez no tenha tempo de ir para casa.
       - Seria muita sorte.
       Ela sorriu, mas pelo jeito de seu olhar Ollie sabia que sentia dores e subitamente sentiu-se amedrontada. E se esta vez fosse to ruim quanto a primeira?
       Mas Mary viu o que estava acontecendo e agarrou seu brao com firmeza, pouco antes de entrarem no carro. 
       Bettina j estava deitada no banco de trs.
       - Ela estar bem, Ollie. Acalme-se. Ela est bem.
       - De repente, no pude deixar de pensar...
       - Provavelmente ela pensa a mesma coisa. Mas tudo vai dar certo Ele gesticulou com a cabea e Mary entrou no carro rapidamente - Como est indo, Betty?
       - Do mesmo jeito. - E, um momento mais tarde, enquanto ele levava o carro para fora do estacionamento: - Estou sentindo outra pontada.
       Ele olhou para Mary, apavorado:
       - Devo parar?
       - Por Deus, no.
       As duas mulheres comearam a rir. Subitamente Bettina parou de rir e, quando chegaram ao hospital, no queria mais falar.
       Uma enfermeira correu para avisar ao mdico enquanto duas outras a levavam rapidamente para uma pequena sala. Por um instante Bettina olhou para Mary com 
um brilho alegre nos olhos.
       - Pensei que voc tivesse dito que as coisas mudaram.
       Foi numa sala como aquela que ela passara catorze horas em agonia, amarrada  mesa enquanto gritava.
       - Calma, Betty.
       Devagar, Mary ajudou-a a tirar as roupas, mas tinha que parar freqentemente por causa das dores. Finalmente, ela segurou Ollie com firmeza e eles a ajudaram 
a se deitar.
       - Voc est bem, gatinha? - Sentia-se intil e assustado, tudo que sabia era que se machucassem ela ou o beb ele os mataria. Tinha certeza disso.
       Com calma ela sorriu para ele, segurando sua mo com fora. 
       - Estou bem.
       - Tem certeza?
       Ela balanou a cabea e depois engoliu em seco, enquanto sentia outra dor se aproximando. Mas desta vez Ollie se lembrou do que aprenderam juntos, e ajudou-a 
a respirar. 
       Quando terminou, ela olhou para ele abismada.
       - Sabe de uma coisa? Funciona. 
       - Que bom!
       Ficou extremamente orgulhoso, e na outra vez que aconteceu eles fizeram de novo. Quando o mdico chegou, tudo estava sob controle. Ele lhe disse que estava 
indo muito bem e s o breve exame a lembrou do passado, mas era a rotina. Ao menos, desta vez ningum a tinha amarrado. As enfermeiras eram gentis, o doutor sorria 
e Mary estava em algum canto da sala. Bettina sentiu-se rodeada de pessoas que se preocupavam com o que estava acontecendo e, alm disso, Ollie estava com ela, segurando 
sua mo, ajudando-a a respirar e a ficar controlada.
       Meia hora depois as dores ficaram mais fortes, e por alguns minutos Bettina no sabia se podia agentar. A respirao ficou estranha e ela tremia. Sentiu 
seu estmago enjoado e sentia muito frio. Ollie olhou nervoso para Mary, que estava dividindo um olhar experiente com a enfermeira. Bettina estava em transio e 
ambas sabiam que seria o pior momento. Meia hora depois ela se agarrou nervosa a Ollie e comeou a gritar.
       - No posso... Ollie... no posso, no! - Gritou mais forte, enquanto outra dor se aproximava e depois berrou quando o mdico a examinava com a mo.
       - Est com nove. - Parecia satisfeito, e comeou a encoraj-la tambm. - S mais alguns minutos, Bettina. Vamos l... voc pode... est indo to bem... vamos 
l...
       Enquanto o suor escorria pelas tmporas de Oliver, de alguma forma conseguiram convenc-la e, quinze minutos mais tarde, o mdico gesticulou com a cabea 
e todos em volta dele comearam a se movimentar.
       - Ollie, oh, Ollie...
       Ela o segurava desesperadamente, e Mary viu que ela comeava a empurrar: estava na hora. Foram para a sala de parto. Ela se agarrou com vontade nas alas 
de cada lado do leito.
       - Tenho que usar os estribos? - Olhou para o mdico desesperada, e ele sorriu.
       - No, no precisa.
       Tinha uma enfermeira de cada lado ajudando a segurar as pernas, e ele orientou Oliver para ampar-la pelos ombros. Subitamente, tudo que ela queria era empurrar. 
       Sentia como se estivesse subindo uma montanha, tirando grandes pedras do caminho com o nariz e de vez em quando era muito para ela, que descia um pouco da 
montanha. 
       Mas todas as vozes se misturavam, encorajando-a e incentivando-a e finalmente, num ltimo empurro, Ollie sentiu que seu corpo todo ficou duro enquanto fazia 
fora e de entre suas pernas apareceu um pequeno rosto vermelho soltando um gemido. Ele olhou para a criana admirado, ainda segurando seus ombros com as mos.
       - Meu Deus,  um beb!
       E todos riram com alvio. Mais duas empurradas e o resto da filha deles apareceu.
       - Oh, Ollie... oh, Ollie, ela  to linda.
       Ela estava rindo e chorando de alegria, assim como Ollie e Mary. S o mdico tinha os olhos secos, mas sentia-se to feliz quanto eles. Meia hora depois Bettina 
estava num quarto com o beb e Oliver ainda estava abalado pelo que tinha visto. Sua mulher parecia calma e arrumada, e orgulhosa do que tinha feito. Todo o processo 
durou menos de duas horas e ela olhava para eles enquanto segurava o beb, e sorria.
       - Sabe de uma coisa? Estou morrendo de fome. 
       Mary sorriu para ela.
       - Eu tambm sempre ficava.
       Mas Oliver s podia ficar l olhando a menina, em completa fascinao.
       - Vocs me enjoam. Como podem pensar em comida num momento destes?
       Mas Bettina podia e comeu dois sanduches de rosbife, um milk shake e um bolinho doce.
       - Voc  um monstro. - Ele ria enquanto olhava para ela devorando a refeio. Mas seus olhos nunca foram to gentis, e finalmente ela estendeu a mo para 
ele com um sorriso feliz.
       - Eu te amo, Ollie. No teria conseguido sem voc. Algumas vezes pensei que ia desistir.
       - Eu nunca pensei nisso.
       Ele tambm teve medo algumas vezes, somente porque parecia to doloroso e to trabalhoso, mas l estava ela, menos de uma hora depois, com o rosto lavado, 
os olhos brilhantes e o cabelo penteado. Era difcil de entender. Mary tinha descido para tomar uma xcara de caf e deixou os dois sozinhos.
       - Voc foi maravilhosa, estou to orgulhoso, querida. Olhavam um para o outro sem parar em admirao mtua e por um instante ele quis pedi-la em casamento. 
Mas sabia que no devia fazer isso e, mesmo assim, ele no se importava. J tinham escolhido o nome para o nenm: Antonia Daniels Paxton. E isso bastava.
       
47
       
       - Alexander, o que acha de sua irm?
       A me perguntava, divertida, e ele deu de ombros. Bettina e o beb estavam em casa h dois dias.
       - Bem bonitinha, para uma menina.
       J havia superado a decepo inicial depois que Bettina deixou que ele a segurasse.
       - Nossa,  to pequena! - Mas at que ele gostava dela e devolveu-a para a me, sorrindo. E mais tarde, quando estava sozinho com a me, deixou escapar uma 
coisa:
       - Fico bem feliz de voc ter sido casada com meu pai quando eu era um garotinho.
       - Fica? Por qu?
       Bettina estava curiosa, pensando por que ele teria tocado naquele assunto.
       - Porque, e se as pessoas soubessem? Talvez dissessem coisas chatas. - Ele olhou para ela, franzindo a testa. - Eu no ia gostar. Alexander acabara de completar 
seis anos em junho.
       - Suponho que no, querido. Mas ser que isso  muito importante?
       - Para mim .
       Bettina fez que sim em silncio e ficou pensando quando Ollie veio at o quarto visit-las. O mdico deixou que sassem do hospital bem rpido porque o parto 
tinha sido muito fcil, mas queria que ela fizesse algum repouso em casa ao menos por uma semana.
       - Por que este olhar to srio, senhora?
       - Alexander. Acaba de dizer uma coisa muito estranha. Contou a ele.
       - Talvez esteja apenas sensvel sobre essas coisas agora. - Tentou parecer neutro sobre o assunto, mas havia uma luz de esperana nos seus olhos.
       - E se a nenm se chatear com isso daqui a seis anos? 
       - Ento falamos para as pessoas que somos casados.
       Olhou para ele de modo estranho: 
       - Talvez devssemos.
       - O qu? Falar para as pessoas que somos casados? - Ele parecia confuso, mas ela negava com a cabea, devagar.
       - No, quero dizer nos casar. 
       - Quer dizer agora?
       - , acho que sim. 
       - Voc gostaria? Bettina deu um grande sorriso. 
       - Sim, eu gostaria.
       - Tem certeza?
       - Tenho. Pelo amor de Deus, Ollie...
       - Eu no acredito. Nunca pensei que chegaria este dia.
       - Nem eu, ento cale a boca antes que eu mude de idia. 
       Oliver correu para fora do quarto e um momento mais tarde estavam rindo e bebendo champanhe. Trs dias mais tarde, aps conseguir as devidas licenas e com 
Mary e Seth na cidade, foram ao cartrio no centro para fazer os votos.
       Bettina olhou para o certificado de casamento, desconfiada. 
       - Ao menos no diz que voc  o meu quarto marido.
       Ele riu, mas depois olhou para ela com seriedade.
       - Bettina, voc no precisa sentir vergonha de nada que tenha feito. Fez tudo honestamente. No tem nada de errado.
       Ele sempre se sentiu assim sobre sua vida e ela o amava por isso. Fazia com que se sentisse orgulhosa.
       - Obrigada, querido.
       E depois, de mos dadas, desceram as escadas do cartrio. Mas quando chegaram em casa ele estava pensativo e gentilmente estendeu a mo para ela.
       - Tem mais uma coisa que eu gostaria de modificar, Sra. Paxton. 
       Mas ela sabia que ele s estava brincando. Tinham concordado que ela manteria seu nome.
       - O que , Sr. Paxton?
       Ele estava srio quando respondeu.
       - Quero adotar Alexander. Acha que posso?
       - Quer dizer, se John deixaria? Tenho certeza que sim.
       Eles nunca mais tiveram notcias dele. Ela olhava com carinho para o marido.
       - Acho que Alexander ia adorar. 
       Ollie sorriu para ela.
       - E eu tambm. Vou ligar para o advogado amanh.
       Assim o fez, e quatro semanas depois estava resolvido. Havia quatro Paxtons vivendo sob o mesmo teto.
       
48
       
       No primeiro dia de outubro, todos os Paxtons voaram para Nova York. Ollie tirou uma licena de trs meses, conseguiram uma enfermeira para ajudar Bettina 
com a menina e colocaram Alexander na antiga escola. Agora ele era um viajante sazonal. Ollie foi rpido ligar para os velhos amigos do Mail. A pea deu muito trabalho 
para Bettina, mas ela adorava e estava totalmente recuperada do nascimento de Antonia. Quando finalmente estreou, foi outro sucesso imediato. Passaram o Natal em 
Nova York na sute do hotel Carlyle, e cinco dias depois voltaram para casa.
       -  bom, no ?
       Oliver sorria para ela feliz, enquanto se deitavam na prpria cama. 
       - E como - disse Bettina.
       - Espero que d um tempo antes de escrever outra pea. 
       - Por qu?
       Olhou para ele, confusa. Ele sempre a encorajava no trabalho, e estava rindo.
       - Porque estou cansado de ficar congelando em Nova York. No pode ficar um pouco s nos filmes?
       - Ao menos pelos prximos seis meses.
       Mas ela odiava admitir que estava pensando numa nova pea. Sua carreira explodiu e teve diversas ofertas s para fazer filmes. Muito vido em procur-la estava 
Bill Hale, o homem de quem eles alugaram o apartamento em Nova York, mas ela no desejava trabalhar com ele e nunca respondia aos seus chamados.
       - Quando vai comear a trabalhar no filme? 
       - Daqui a trs semanas, eu acho.
       Ele assentiu e um pouco depois estavam ambos dormindo. Na manh seguinte ele voltou ao trabalho enquanto ela reorganizava sua vida. A menina j estava com 
quase seis meses e estava linda como nunca. Alexander ainda estava nas frias de Natal e acabou sendo uma grande ajuda com a irm. Adorava segurar a menininha e 
era muito eficiente em dar de mamar e faz-la arrotar. Bettina sorria enquanto o via fazer isso na hora do almoo, quando ouviu o telefone. A bab estava fazendo 
alguma coisa nos fundos.
       - Eu atendo. - Pegou o telefone na terceira chamada, ainda olhando Alexander segurar o beb. - Sim, sou a Sra. Paxton. - Depois houve um longo silncio. - 
Por qu? 
       - Subitamente seu rosto ficou plido e ela se virou para que Alexander no a visse chorar. - Est bem. Vou j para a.
       Eles ligaram do jornal, mas quando ela chegou j era muito tarde. Um grupo de bombeiros estava parado em fila dupla na rua. L em cima todos o circundavam. 
Ele estava deitado no cho, sem vida.
       - Foi um ataque cardaco, Sra. Paxton. - O editor olhava para ela pesaroso. - Ele se foi.
       Ela ajoelhou-se devagar perto dele e tocou seu rosto. Ainda estava quente.
       - Ollie? - sussurrou suavemente. - Ollie?
       Mas no houve resposta e lgrimas comearam a banhar seu rosto. Ouviu algum mandar os curiosos voltarem ao trabalho, ou ao menos deix-la sozinha. Ouviu 
tambm uma voz dizer:
       - Essa no  Bettina Daniels? 
       - ... era a esposa dele.
       Mas o nome Daniels no ajudava agora. Nem o sucesso na Broadway, no cinema, nos roteiros, nem o dinheiro, nem a casa em Beverly Hills o trariam de volta. 
Aos quarenta e cinco anos de idade, o homem que s queria ter uma boa vida, que queria muito ver o nascimento de sua primeira filha, morreu de ataque cardaco no 
cho de seu escritrio. Oliver Paxton no existia mais. Era o terceiro homem que Bettina amara e que morrera daquela forma. Enquanto observava colocarem Oliver na 
maca com cuidado, ela soluava tanto de raiva tanto quanto de dor.
       
49
       
       Mary e Seth Waterston vieram para o enterro, e Mary ficou com Bettina por mais quatro dias, enquanto Seth voltava ao trabalho. Mas elas falavam muito pouco. 
Mary ajudava principalmente com as crianas. Bettina parecia irremediavelmente recolhida. No se mexia, no falava, no comia. Apenas ficava sentada fixando os olhos 
no vazio. De vez em quando Mary tentava trazer a menina at ela, mas nem isso ajudava. Ela apenas gesticulava vagamente pedindo que a levassem embora e continuava 
sentada l, perdida em si mesma. Estava ligeiramente melhor na noite em que Mary foi embora.
       - No pode fazer isso com voc, Betty.
       Como sempre, Mary estava sendo sincera, mas Bettina s a olhava. 
       - Porque no?
       - Porque sua vida no acabou, no importa quo duro seja isso. 
       Mas ela olhou para a amiga, com raiva.
       - E por que no, merda? Por que no fui eu em vez dele? - E depois seus olhos recomearam a encher de lgrimas, olhando para o nada. - Ele era uma pessoa 
to boa.
       - Eu sei. - Os olhos de Mary tambm estavam midos. - Mas voc tambm .
       - Quando tive o nenm. - Seus lbios tremiam violentamente. - No teria conseguido se no fosse por ele.
       - Eu sei, Betty, eu sei.
       A amiga abriu os braos e Bettina entrou naquele abrao parecendo chorar com toda a sua alma. Mas estava melhor quando Mary partiu no dia seguinte.
       - O que vai fazer agora? - Mary olhava para ela profundamente enquanto esperavam no terminal.
       Bettina deu de ombros.
       - Tenho que cumprir meu contrato. Vou escrever o roteiro para o filme da minha segunda pea.
       - E depois?
       - S Deus sabe. Eles sempre esto atrs de mim querendo fazer outros acordos, mas no sei se vou aceitar.
       - Vai voltar para Nova York?
       Mas Bettina fez que no, determinada. - No, por enquanto. Quero ficar aqui.
       Abraaram-se longamente antes de Bettina beijar o rosto da amiga e Mary desaparecer dentro do avio.
       Duas semanas depois, como combinado, ela apareceu no estdio para comear a discutir o trabalho que faria para adaptar sua pea. Os encontros eram secos e 
extenuantes. 
       Mas Bettina no parecia se dobrar. No falava com ningum se no tivesse que falar, e finalmente se refugiou em sua casa para escrever o roteiro. Demorou 
menos tempo do que o esperado e, quando ficou pronto, estava melhor do que eles imaginavam. Fizeram um longo discurso sobre quo talentosa ela era. E em pouco tempo 
Norton comeou a receber milhares de telefonemas. A reputao de Bettina Daniels estava feita.
       - O que quer dizer com no est trabalhando? - Ouviu chocado e horrorizado quando ligou para ela.
       - Apenas o que eu disse. Vou tirar umas frias de seis meses. 
       - Mas pensei que voc quisesse comear a nova pea.
       - No. Nem uma nova pea nem um novo filme. Absolutamente nada, Norton, podem todos ir para o inferno.
       - Mas Bill Hale acabou de...
       - Dane-se Bill Hale. No quero nem ouvir... 
       - Bettina. - Ele parecia em pnico.
       - Se sou assim to boa, eles esperam seis meses. Seno, pacincia.
       - No  isso que est em questo, mas por que esperar quando pode conseguir o que quiser hoje? Diga o preo, o nome do filme. Boneca,  todo seu.
       - Ento d tudo de volta para eles. Eu no quero. 
       - Por que no? - No podia entender.
       - Norton, perdi Ollie h cinco meses. Desde ento estou me sentindo sem rumo.
       - Eu sei. Eu entendo. Mas no pode s ficar parada a. No  bom para voc.
       Mas ela sabia que tambm no era bom para ele.
       - Talvez seja. Talvez toda esta merda no seja to importante quanto eu pensava.
       - Oh, Deus, Bettina, no faa isso. No fique nessa de apenas ir  praia sozinha. Est para atingir o ponto alto de sua vida.
       Mas ela j conhecera tudo. Quando o beb nasceu... quando se casou com Ivo... quando partilhou alguns dos grandes momentos com o pai... havia mais do que 
trabalho e sucesso. No queria explicar a ele.
       - No quero falar sobre isso, Norton. Diga a todos que deixei o pas por seis meses e no pode me encontrar. E se me chatearem, fico um ano.
       - Perfeito. Vou dizer a eles. E Bettina, se mudar de idia, pode me ligar.
       - Claro, Norton. Sabe que ligo.
       Mas ela no o fez. Passou o tempo em paz com seus filhos. Uma vez foi visitar Mary e Seth. Mas raramente saa de casa ou deixava as crianas e parecia ter 
ficado estranhamente quieta desde a morte de Oliver. No dia de ao de graas, Mary e Seth notaram isso quando vieram com a turma. Foi um dia celebrado muito bem 
em famlia; mas a presena de Oliver era dolorosamente sentida.
       - Como est indo, Betty?
       Mary a olhava de perto enquanto sentavam-se no jardim. Alguma coisa bem no fundo dela parecia mudado. Estava quieta, fria, mais evasiva, mas tambm mais segura. 
       Parecia bem mais velha do que no ano anterior.
       Bettina sorriu devagar.
       - Estou indo bem, mas ainda sinto a falta dele. E ainda tem coisas em que penso que gostaria de ter mudado.
       - Como o qu?
       - Gostaria de ter casado com ele antes. Ele ficou to feliz. Eu no sei por que evitei at quase o final.
       - Voc ainda estava crescendo. Ele entendia isso.
       - Sei que sim. Olhando para trs, percebo que ele entendia muito. Tudo era para o meu bem, tudo que fazia era por mim. Abandonou seu emprego em Nova York, 
pediu uma licena aqui para poder ir comigo para Nova York quando fiz a pea. Voltando para trs, tudo parece muito injusto. - Olhava para Mary, infeliz, mas Mary 
negava com a cabea.
       - No se importava. Me disse isso uma vez. A carreira dele no era to importante para ele quanto a sua para voc.
       Nem ousava dizer-lhe que precisava agora de um homem poderoso e com sucesso, como ela. At seu rosto estava diferente. Tinha um tipo de beleza angular que 
chamava ateno, e a simplicidade de seu vestido de l preta e as jias indicavam sucesso. Havia finalmente desentocado as jias de seu pai e de No e as usava quase 
todos os dias. Olhava para o grande diamante, sorrindo, e Mary a observava.
       - Eu no sei. Talvez esteja passando muito tempo remoendo o passado.
       - Voc est apenas remoendo, ou est entendendo melhor?
       - Nem sei, Mary. - Seus olhos pareciam sonhar e estarem longe. - Acho apenas que o aceito melhor. De alguma forma, se tornou uma parte de mim.
       Mary olhou para ela com um pequeno sorriso de prazer e fez que sim. Sempre esperara aquilo. Que Bettina aceitasse quem e o qu ela era. A nica coisa que 
a fazia infeliz era v-la vivendo uma vida atrs de portas trancadas.
       - Voc conversa com algum? 
       - S com voc e as crianas. 
       - E por qu?
       - Eu no quero mais nada. Por que deveria? Para que possam fofocar dizendo que finalmente me conheceram, a escritora com quatro maridos... a filha excntrica 
de Justin Daniels...? Quem precisa disso? Por agora, estou bem mais feliz vivendo assim.
       - No chamaria isto de estar vivendo, Betty. Acha que ? 
       Bettina deu de ombros.
       - Eu tenho o que quero.
       - No, no tem. Voc  uma mulher jovem, merece mais do que solido, Bettina. Merece pessoas, festas e risos. Merece aproveitar o seu sucesso.
       Bettina sorriu.
       - Olhe para isso. - Mostrou a beleza do jardim e da casa.
       - No  disso que eu falo, Bettina, e voc sabe. Isto  bonito, mas no  um substituto para amigos. - Ela hesitou um instante e depois disse: - Ou um homem.
       Bettina olhou para ela de frente.
       -  isso que esta conversa significa, Mary? Um homem?  isso que  vida? Nunca est completa sem um homem? Voc no acha que j tive o suficiente?
       - Aos trinta e seis? Espero que no. O que pretende de sua vida? Ficar aqui e desistir?
       - O que est sugerindo? Que eu saia  cata e comece tudo de novo? No acha que quatro maridos j  uma quota muito alta para qualquer um? Est sugerindo que 
eu tente o quinto? - Parecia com raiva. 
       - Talvez. Por que no?
       - Porque talvez eu no precise mais de marido. Talvez eu no queira me casar novamente.
       Mas Mary no se deixava vencer fcil.
       - Se eu pensasse que voc acha que esta  a verdadeira razo, eu a deixaria em paz. Ningum tem que se casar, Bettina. Este no  o nico nome do jogo. Mas 
no pode passar o resto de sua vida sozinha porque tem medo do que as pessoas vo dizer. E  nisso que voc est pensando, no ? Acha que as pessoas vo marcar 
voc como vagabunda? Bem, est errada, droga. E muito. Eu amo voc e Seth tambm. No ligo a mnima se se casar doze vezes ou se no casar mais. Mas existe algum, 
Bettina, algum que seja forte e especial e com tanto sucesso quanto voc. Voc merece encontr-lo, deixar que ele conhea voc para que no fique sentada aqui pelo 
resto de sua vida. No precisa se casar se no quiser, quem se importa? Mas no fique aqui, Bettina, atrs destas portas idiotas.
       Bettina olhava para ela com tristeza, e Mary viu lgrimas em seus olhos. Pensou que talvez a tivesse atingido e, quando ela entrou sem responder, teve certeza 
disso.
       Eles foram embora no final da semana e, antes de entrarem no avio, Bettina abraou Mary apertado.
       - Obrigada.
       - Pelo qu? - E ento ela entendeu. 
       - No seja boba. - Sorriu para ela. - Um dia voc pode ter que me dar um belo pontap, tambm.
       - Duvido. - E depois deu um grande sorriso. - Mas tambm, sua vida no foi to extica quanto a minha.
       E por um instante, um pequeno momento, Mary pensou que Bettina sentia-se orgulhosa.
       - O que vai fazer agora, Betty? - Seth aproximou-se e perguntou.
       - Ligar para Norton e dizer a ele que estou pronta para voltar ao trabalho. Acho que j deve ter at desistido de mim.
       - Duvido muito.
       Mary foi rpida em responder, e depois embarcaram no avio.
       
50
       
       - Ento, Rip van Winkle, est saindo da hibernao?
       - Ora, Norton, foram apenas seis meses. - Ela riu.
       - Poderiam ter sido seis anos. Voc faz alguma idia de quantas pessoas eu despachei desde que decidiu se aposentar temporariamente? Nossa Senhora!
       - No me diga. - Ainda sorria. Era primeiro de dezembro, e se sentia bem.
       - Bem, o que tem em mente, antes que recomecemos nosso contato? 
       - Absolutamente nada.
       - No comeou a escrever uma nova pea?
       - No. Para falar a verdade, eu no quero. Quero ficar aqui por algum tempo. Vai ser ruim para as crianas se eu ficar arrastando-as para Nova York todo ano.
       - Est bem, isso no faz diferena. Voc tem bastante ofertas para escrever filmes que a mantero ocupada pelos prximos dez anos. 
       - De quem, por exemplo? - Estava desconfiada, e ele comeou a enunciar os nomes. Quando terminou ela aprovou. - So muitos. Com quem sugere que eu converse 
primeiro?
       - Bill Hale. - Ele respondeu imediatamente, e ela fechou os olhos.
       - Oh, no, Norton, ele no.
       - Por qu?  um gnio. E est fazendo produes agora. Na verdade, ele  to brilhante quanto voc.
       - timo. Ento encontre algum um pouco menos brilhante que queira conversar comigo.
       - Por qu? - Estava intrigado.
       - Porque dizem que ele  um idiota.
       - Nos negcios? - Norton estava abismado.
       - No, pessoalmente. Ele coleciona mulheres, esposas, amantes, quem precisa disso?
       - Ningum pediu que voc se case com ele, por Deus, Bettina. Apenas discuta a idia do filme que ele tem em mente.
       - Preciso mesmo?
       - Voc o faria se eu dissesse que sim? - Parecia esperanoso. 
       - Provavelmente no. - Ambos riram. - Olhe,  que eu no quero me colocar em situaes estranhas. O cara tem um caso lendrio de calas quentes e eu ouvi 
que as usa para trabalhar.
       - Ento leve uma bandeja de cubos de gelo e dois socos ingleses, mas faa-me um favor, Bettina, aps seis meses quieta a, sem responder ao telefone, ao menos 
v almoar com o cara. Vocs dois so as pessoas mais importantes neste negcio hoje em dia.  uma loucura no ouvir o que ele tem a dizer.
       - Est bem, Norton. Voc venceu.
       - Quer que eu arrume as coisas daqui, ou voc faz? 
       - Voc faz. No quero ser incomodada.
       Subitamente a voz de seu pai ecoou em sua cabea. Ento era assim que ele se sentia...
       - Algum lugar em particular?
       - No. Se ele for o grande imbecil que penso que , provavelmente vai querer me encontrar no Salo Plo do Hotel Beverly Hills para bancar o Sr. Hollywood 
e ser chamado a cada cinco minutos ao telefone. 
       - Ento ligo para voc a cada cinco minutos, est bem assim? - timo.
       Subitamente ele se lembrou de uma coisa, mas no quis perguntar a ela. Tinha certeza de que ela e Ollie alugaram o apartamento dele uma vez, h muito tempo, 
em Nova York. Mas imaginou que era melhor no tocar no nome de Ollie. J sofria bastante, e ele sabia que tinha sido um golpe muito duro. Ela j passara por tantas 
coisas, deu de ombros enquanto ligava para Bill Hale. Mas teve muita coisa boa tambm. Em alguns aspectos, a histria dela no era diferente da de Bill Hale.
       Falou com a secretria de Bill bem rpido e um momento mais tarde falava com ele. Concordaram sobre a segunda-feira seguinte, bem diferente do que Bettina 
previu. 
       Ele perguntou se podiam se encontrar na casa dela, depois do almoo.
       -  uma brincadeira? - Ela estava chocada quando Norton ligou. - Por que ele quer fazer uma coisa dessas?
       - Disse que tem menos coisas para interferir. Num restaurante h garonetes e telefones, e pensou que talvez voc no se sentisse bem indo conversar na casa 
dele.
       - Ento, que assim seja.
       Ela deu de ombros e desligou. Na segunda-feira, vestiu-se com calma uma hora antes da hora marcada: um conjunto lils escuro que viera de Londres e era de 
um lindo tom de anmona numa l bem fina; uma blusa de seda branca e os brincos de ametista que o pai lhe dera. Seu cabelo estava macio e solto, com a cor do outono 
da Nova Inglaterra e, ao dar a ltima olhada no espelho, ouviu a campainha tocar. No importava muito como ela estava, mas j que voltava ao trabalho era melhor 
ser ela de novo. No a filha de Justin Daniels ou a esposa de No Stewart, nem a Sra. John Fields, nem mesmo a Sra. Oliver Paxton. Ela era Bettina Daniels. E seja 
l mais o que fosse, sabia que era uma excelente teatrloga e, depois de muito sofrer e errar, sabia outra coisa: era ntegra. 
       - Sr. Hale?
       Ela o olhou enquanto ele entrava na casa. Tambm se vestira para a ocasio, e usava um terno risca de giz azul-escuro, uma gravata azul-escura Christian Dior 
e uma camisa branca especialmente engomada. Ela teve que admitir que ele era atraente e bem vestido, mas no se importou muito. Ele fez uma pequena mesura quando 
a viu e estendeu sua mo direita.
       - Bill, por favor, Sra. Daniels. 
       - Bettina.
       As formalidades terminadas, ela o levou para a sala de estar e apontou uma cadeira. A governanta apareceu um momento mais tarde com uma linda bandeja de laca. 
Havia um bule de caf e uma chvena de ch, um prato com pequenos sanduches e biscoitos em que Alexander estava de olho desde que saiu para a escola, pela manh.
       - Por Deus, eu no queria que se incomodasse.
       Bettina disse algo vago como no era incmodo algum, enquanto tentava decidir se ele era de plstico ou real.
       Aps alguns momentos ele tomava caf e ela bebericava seu ch. Comearam a falar de trabalho e s pararam duas horas depois. Ela tinha que admitir que adorou 
a idia e estava sorrindo quando eles deram o encontro por encerrado.
       - Devo ligar para seu agente e discutir as partes menos nobres do acordo com ele?
       Ela riu e concordou.
       - Sabe de uma coisa, gostei muito mais de voc do que eu imaginava - disse ele.
       Bettina ficou dividida entre espanto e divertimento. 
       - Por qu?
       - Bem, voc sabe, filha de Justin Daniels... - Ele parecia se desculpar. - Poderia ser uma grande esnobe.
       - E no sou?
       - No, claro que no.
       E ento, sentindo-se corajosa ao olhar para ele, riu tambm. 
       - Gostei mais de voc, tambm.
       - E o que tinha contra mim? No tive nenhum pai famoso. 
       - No, mas tem outros pecados, pelo que ouvi.
       Ela o olhou com franqueza e ele assentiu, encontrando seus olhos verdes com os azuis dele.
       - A reputao de barba-azul? Ela confirmou. - Charmoso, no? - Ele no parecia irritado, apenas solitrio, e depois seus olhos se encontraram novamente. - 
As pessoas adoram fofocas, falam muito de coisas que no entendem. - E ento ele falou para ela honestamente. - Fui casado quatro vezes. Minha primeira esposa morreu 
num acidente de avio, a segunda me deixou, depois... - pareceu hesitar um momento - ... depois que nossa vida foi destruda. A terceira era uma sonhadora e, seis 
meses depois que nos casamos, decidiu que realmente queria se unir  organizao mundial da paz. - Parou com um largo sorriso. - E a quarta, era uma grande filha 
da puta.
       Por um instante, Bettina riu com ele e depois, devagar, alguma coisa gentil brilhou em seus olhos.
       - No tenho nenhum direito de ironizar sobre isso. 
       - Por que no?  o que todo mundo faz.
       Ficou impressionada com a honestidade dele e envergonhou-se pelo que pensou. Mas subitamente estava rindo e escondeu-se atrs do guardanapo. Tudo que ele 
podia ver eram seus olhos verdes danando.
       - Tambm fui casada quatro vezes. 
       Logo os dois riam.
       - O qu? Voc... e eu estava me sentindo culpado!
       Ele parecia um menino que tinha descoberto um amigo com alguma coisa em comum, mas ela se sentou com um olhar de menininha.
       - Voc se sente culpado?
       - Claro que sim. Quatro esposas, est brincando? Isso no  direito. 
       - Oh, puxa... eu tambm me sinto.
       - Deveria. E deveria se sentir muito mais por no ter me contado antes. - Ele brincava com um biscoito, recostado na cadeira. - Ento me fale dos seus.
       - Um homem maravilhoso que era muito mais velho que eu. - E quanto  muito? Voc tinha dezesseis e ele dezenove? - Eu tinha dezenove e ele sessenta e dois.
       - Fiu!... - Ele assoviou. - Isso  muito mais velho.
       Mas seu sorriso era gentil e no uma reprovao. Apenas interesse. - Um homem maravilhoso, amigo de meu pai. Na verdade, voc deve conhec-lo.
       Mas ele levantou a mo quando ela comeou a dizer o nome.
       - No, por favor, no. Vamos deixar os casamentos annimos. No vamos estragar as coisas. A prxima coisa que vai descobrir  que fui casado com duas primas 
suas e vai me detestar novamente.
       Ela riu e depois olhou para ele com seriedade.
       -  isso que as pessoas fazem em Hollywood? Ficam conversando sobre os seus ltimos quatro maridos e esposas?
       - S os debilides, Bettina. O resto de ns apenas cometeu erros humanos, nem todos acreditam nisso. Quero dizer, quatro  pouco demais. Mas vamos l, continue.
       - O segundo parece com sua esposa que se uniu  organizao de paz. Ele queria o visto de permanncia no pas. Tambm ficamos casados por seis meses. - Mas 
seu rosto ficou nublado por alguns momentos ao pensar no filho que perdeu. - Meu terceiro era um mdico em San Francisco, e por cinco anos tentei levar uma vida 
de "esposa normal".
       - E o que faz uma esposa normal? - Olhou para ela com ar de dvida, enquanto pegava outro biscoito.
       - Para dizer a verdade, eu nunca soube. S sabia que o que quer que fosse, eu no conseguia fazer direito. Uma das minhas amigas diz que tem que ser como 
um pssaro cinza e marrom.
       Ele ficou dividido entre riso e compaixo, enquanto o olhar voltava-se para os cabelos chamejantes e o vestido lils.
       - E definitivamente voc no  isso.
       - Obrigada. Bem, mesmo assim eu estraguei tudo quando escrevi minha primeira pea.
       - Ele no gostou?
       - Ele pediu o divrcio no dia em que eu voei para Nova York, vendeu nossa casa e eu s descobri quando voltei.
       - Ele no te falou?
       Ela negou com a cabea.
       - Que simptico! E depois?
       - Depois me mudei para Nova York e - pareceu hesitar um instante e depois continuou - encontrei meu quarto marido. Era muito especial. - A voz de Bettina 
ficou mais melanclica, enquanto ele a observava. - Tivemos uma filha, e h quase um ano ele morreu.
       - Sinto muito.
       Ficaram um pouco em silncio e depois ele falou, com gentileza: 
       - Veja, Bettina,  exatamente o que quero dizer. As outras pessoas, as que esto l fora, pensam que ficamos aqui, rindo, colecionando divrcios e pagando 
penses, e se divertem com nossa interminvel lista de ex-mulheres, mas o que eles no entendem  que isso pode acontecer com pessoas reais, tragdias, erros e pessoas 
em quem acreditamos e acabamos desapontados. E tudo incrivelmente real, mas ningum entende. - Olharam um para o outro por um momento interminvel. - Minha segunda 
esposa e eu tivemos dois filhos, mas ela tinha um problema com bebida de que eu no sabia ao me casar. Passou a maior parte de nosso casamento entrando e saindo 
de hospitais. - Ele suspirou e depois continuou: - Ela estava dirigindo o carro com as duas crianas e - sua voz ficou presa na garganta. Sabendo o que ele ia dizer, 
Bettina chegou-se at ele, que pegou sua mo. - Ela espatifou o carro e as duas meninas morreram. Mas ela no. E nunca mais foi a mesma. Tem sido constantemente 
internada. - Ele deu de ombros e sua voz mudou de rumo. - Eu at pensei que conseguiramos... mas no deu. - E ento ele olhou gentilmente para ela e afastou a mo. 
- Como voc est depois de ter perdido seu marido? Foi por isso que ficou incomunicvel por todos estes meses? - Agora ele entendia.
       - Sim, foi por isso. Estou melhor. A princpio pareceu to, to injusto.
       - E . Essa  a merda toda. As boas pessoas, aqueles com quem se pode conseguir... - Ele no terminou a frase. - Minha primeira esposa era assim. Puxa, ela 
era to boa e to divertida, ela era uma atriz e eu era um escritor. Ela conseguiu sua primeira maldita tourne e... fim da linha. Eu tinha vinte e trs anos e pensei 
que ia me matar. Quase me matei de tanto beber no primeiro ano. - Olhou firme para Bettina. - Isso no  incrvel? H dezesseis anos... Depois surgiram trs mulheres 
em minha vida que foram importantes o bastante para eu me casar. Se algum tivesse me falado isso depois que Arma morreu, eu o mataria.  estranho, o tempo faz coisas 
estranhas.
       - Fico feliz que pense assim. Uma vez ou outra pensei que no justificava o trabalho de viver mais um dia.
       - Mas vale a pena, no? - Ele sorria suavemente. - A coisa mais impressionante  que sempre vale. Sempre tem outra coisa acontecendo, outra pessoa, uma mulher 
por quem se apaixonar, um amigo que voc visita, uma criana que deseja ter... alguma coisa que faz com que voc continue. Tem sido assim para mim.
       Ela assentiu, adorando o que ele estava dando a ela, porque suas palavras a estavam libertando. Colocava todas as peas juntas e revelava um quadro, no apenas 
completo, mas mostrava que ainda tinha mais a ser revelado, algo que ainda veria.
       - Voc tem outros filhos?
       Ele negou com a cabea, devagar.
       - No. A senhora organizao de paz no durou tempo bastante para ter um filho. E a nmero quatro e eu fomos casados trs anos, mas - ele riu suavemente - 
estes foram os trs anos mais longos de minha vida.
       - Eu me lembro de quando estava se casando. - Sorriu abertamente para ele. - Eu vivi em seu apartamento em Nova York.
       - Foi mesmo? - Estava boquiaberto. - Quando?
       - Quando se casou. Voc estava na costa Oeste. Era um apartamento lindo no lado Oeste.
       - Meu Deus. - Olhou para ela, estupefato. - Eu o aluguei para Oliver. Oliver Paxton... por Deus... Ento  quem voc , Bettina. A esposa de Oliver Paxton.
       Mas ela olhou para ele, sentando-se muito ereta em sua cadeira, calmamente balanando a cabea.
       - No, no sou.... - Era como ouvir uma dzia de ecos e negar todos eles, finalmente. Nem mesmo para Ollie ela podia ser s isso. - Sou Bettina Daniels.
       Por um instante ele ficou espantado, mas ento entendeu, enquanto fazia que sim com a cabea e estendia a mo. Ela no era mais do pai ou de No ou de Oliver... 
Ela era dela mesma, agora... e ele entendia isso, da mesma forma com que ela o entendia. Seus olhos se encontraram enquanto eles se cumprimentavam cuidadosamente 
por cima da mesa. 
       - Ol, Bettina. Sou Bill.
       
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